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domingo, 26 de abril de 2020

Memória da Pandemia nas Alagoas (XIII): Marcos Farias. A pandemia, a quarentena e há mares, há lagoa



A pandemia, a quarentena e há mares, há lagoa
Marcos Farias
Natural de Maceió/Alagoas, é cantor e compositor, graduado em História e Gastronomia, servidor do TRT/AL.


enquanto estiver lendo, escute a música de Marcos Farias
é só clicar aqui e aparece o link

Memoria della pandemia:Alagoas Memory of the pandemic: Alagoas 



Esta foto é de autoria de Pablo de Lucas
É Sexta-feira Santa, dia 10 de abril de 2020, o sexto dia da
Semana Santa no cristianismo ocidental, período propício para reflexão sobre o papel do ser humano no cosmos, sobretudo num momento em que a pandemia do coronavírus nos pede respostas. Estou por horas a pensar e escrever. Onde erramos? E quanto a nós, das bandas caetés, o que temos a dizer diante de tudo isso?
Leituras, filmes, reflexão e muita música. Tem sido essa a minha rotina em tempos de quarentena. Preparar as refeições também tem feito parte do dia a dia. Aproveitei o momento de maior disponibilidade para realizar um desejo antigo: compor uma música com temática local. Abordar as raízes e o folclore das Alagoas. Eis um momento mais que oportuno e necessário para elevar a nossa autoestima e a nossa alagoanidade.
      Em meados de fevereiro passado, debrucei-me a escrever um poema sobre um povo esquecido: os moradores ribeirinhos das lagoas das Alagoas. São eles pescadores, marisqueiras e rendeiras. O pescado, o artesanato, o sururu e o marisco são fontes de sobrevivência para esse povo. Mesmo à margem social, não desiste de lutar pela própria dignidade.
    Ao invés do tão usual e hegemônico bordão “Terra dos Marechais”, procurei fazer o resgate dos esquecidos. Assentei um registro aos sofridos filhos da terra, os nativos Xucurus-Kariris. Também trouxe à memória o maior personagem negro da historiografia brasileira, o palmarino Zumbi. Na pauta do poema, dois dos maiores patrimônios históricos das Alagoas.
    Nas emblemáticas Lagoas Mundaú e Manguaba, com suas abundantes riquezas da fauna e da flora, representei o complexo lagunar do estado de Alagoas. O manguezal é vida, a lama é boa e gera sururu, pescado, caranguejo, alimenta e mantém a sobrevivência de ribeirinhos. Das margens das lagoas às feiras, o sustento de alijados sociais.
     
O folclore é representado pelo que há de mais alagoano: o Guerreiro e o Coco de Roda. Mestres e mestras das genuínas expressões folclóricas do estado muito merecem a homenagem. Também são merecedores todos aqueles e aquelas que fizeram de sua vida uma história de defesa, valorização e divulgação das manisfestações populares locais.
Em pleno período de quarentena, fim de março ao início de abril, obedecendo aos critérios amplamente divulgados pelas autoridades de saúde, produzi o single ‘Há mares, há lagoas’. Porém não o fiz sozinho. Com a observância da distância necessária – a maior parte do processo desenvolvido com o auxílio da internet – contei com a participação de excelentes profissionais, pelo que transmito meus sinceros agradecimentos. Van Silva pela produção musical e, também, Jair Donato, Nyron Higor e Pablo De Luca.

Esta série tem por objetivo publicar depoimentos sobre  como se pensa e se lida com o Corona em Alagoas.  Está aberta a toda e qualquer pessoa, de qualquer tendência. É uma documentação organizada, sobretudo, para um futuro estudioso de como a epidemia foi vista e vivida em Alagoas. O material será publicado  paulatinamente no  suplemento Campus do jornal O Dia. Está sendo  organizado por Carlos Lima, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas e Luiz Sávio de Almeida. O blog pode discordar de parte ou do todo da matéria por ele  publicada.


Memória da Pandemia nas Alagoas (XII). José Vieira da Cruz. Um turbilhão de mudanças



UM TURBILHÃO DE MUDANÇAS

José Vieira da Cruz
 Professor da UFAL, Doutor em História pela UFBA, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e da Academia Alagoana de Educação (ACALE)

Memory of the pandemic in Alagoas / Memoria de la pandemia en Alagoas


Mémoire de la pandémie à Alagoas / Memoria della pandemia di Alagoas



Nas últimas semanas, apesar da quarentena internacional, o ritmo das mudanças e das informações por elas provocadas não pararam. Neste aspecto, não há um estado de monotonia e sim de ansiedade. Ao fim e ao cabo, o turbilhão de mudanças que vêm desmanchando certezas e pulverizando indecisões nos coloca a pergunta de como será o amanhã? Pós-crise do petróleo, pós-crise da redução da atividade econômica, pós-crise da diplomacia e dos interesses geopolíticos, pós-pandemia e, no caso do Brasil, com um ingrediente a mais: pós-crise política do governo atual.
Assuntos tão presentes e constantes que é quase impossível desviar o foco deles, ao menos para os que acompanham os noticiários e as redes sociais, inclusive os programas de humor e os, cada vez mais populares e instantâneas, memes. É uma realidade que nos inunda de informações e nos seduz a pensar seus desdobramentos. Alguns textos são pessimistas, outros pragmáticos, muitos são céticos e outros tentam manter a esperança na capacidade humana de superar desafios.
Não tenho o dom nem a habilidade de prever nem de prescrever o amanhã e menos ainda o futuro. Qualquer coisa nesse sentido, a meu juízo, seria ato premonitório, aposta, projeção ou pura especulação. A respeito, há alguns dias, um comentarista de um programa de notícias da TV Cultura, Luiz Felipe Pondé, questionava prescrições de especialistas sobre um mundo pós-pandemia mais ético, solidário e sustentável. Acrescentando ainda que só temos duas possibilidades para lidar com a realidade de crises e de pós-crises: a História e a Estatística. Embora também goste da Matemática e da Estatística – não pelos números em si, mas sim pela possibilidade de interpretação que elas permitem configurar –, como historiador me deterei apenas em minha área de formação.
A História, ciência que estuda a ação de homens e mulheres no tempo, como definida por Marc Bloch, já registrou inúmeros momentos de crises, conflitos, guerras e doenças (surtos, epidemias e pandemias). Todos eles geraram consequências e lições que foram incorporadas ou não à cultura após períodos de crise. Desse modo, não obstante o desejo de que, após um período de crise, ocorra um legado de aprendizagem, superação e de amadurecimento, por “descuido”, “esquecimento” ou “interesses diversos”, repetições destas crises ocorrem mais de uma vez e, por vezes, por motivos parecidos. Contudo, essas repetições não são uma consequência natural, estrutural ou castigo divino, mas sim fruto das decisões tomadas por cada sociedade.
As experiências vivenciadas por uma sociedade em um período de crise, este é o ponto que desejo enfocar, carrega em si a potencialidade concreta de ser aproveitada ou não, sob diferentes formas, estratégias e experiências. Este processo de aprendizagem ou acomodação depende do contexto social, do lugar e do tempo de cada cultura. Neste sentido, o momento atual reflete os significados do vocábulo chinês para a palavra crise: perigo e oportunidade. Por um lado, crise sinaliza uma situação de perigo, por outro, indica a oportunidade para resolver problemas e encontrar soluções. Em outras palavras, o que define o modo como um país e sua sociedade lida com uma crise e com the day after, é a dimensão política, social e cultural para (re)pensar caminhos, fazer escolhas e tomar decisões. Fora disso, é relegar a humanidade ao imprevisto, ao acaso e à própria sorte.
Escrevo este texto, em uma manhã chuvosa, após um dia anterior de intensos acontecimentos políticos. Refiro-me ao dia 24 de abril de 2020. Uma sexta-feira que, apesar de não ser 13, suscitou arrepios e estremeceu algumas certezas! Foram dois pronunciamentos cujos impactos poderão influir nos rumos que o país precisa tomar por conta da pandemia, da crise econômica e da defesa da ordem constitucional democrática. O primeiro proferido a partir das 11 horas pelo até então Ministro da Justiça, Sérgio Moro, justificando as razões de sua saída do governo. O segundo transmitido a partir 17 horas, pelo Presidente da República, acompanhado de grande parte de seus ministros, tentando justificar a saída do Ministro da Justiça. Acusações à parte, foi mais uma gota d’água no combalido cenário político brasileiro agravado pela crise sanitária imposta pelo novo Coronavírus.
É sob esta atmosfera que escrevo para externar uma leitura do turbilhão de situações do que estamos vivendo e da necessidade de decisões políticas sensatas, com lastro científico e amparo sanitário exigidos pelo atual contexto. Escrevo também pela ciência e consciência de que as mudanças que poderão ocorrer oriundas deste momento/crise (sanitária, econômica e política) não são e não serão naturais nem advindas da “mão invisível” do mercado e, tão pouco, das mãos de um “escolhido”. Os indivíduos que constituem uma sociedade compartilham a responsabilidade pelas decisões tomadas e os frutos de suas escolhas.
O Brasil e o mundo já viveram outros momentos de conflitos políticos, crises econômicas e pandemias. Já experimentaram os dessabores de governos e de políticas autoritários. Sabem que a democracia e que a cooperação entre os povos tem limites, que é difícil e tem ritmo próprio, mas que apesar disso garante liberdade, respeito, transparência com o tratado da coisa pública e, sobretudo, alimenta a possibilidade de debates, diálogos e construções de consenso. Sabem que o papel do poder público, através dos Estados, é fundamental para garantir o bem-estar social, as liberdades e os direitos individuais e sociais. E sabem que em tempos de crise o planejamento, a articulação, o convencimento e a capacidade de mobilização em torno de pactos políticos, sociais e de desenvolvimento sustentável são imprescindíveis. Os países e as sociedades que melhor compreenderem essa necessidade histórica poderão estar um passo à frente das demais.
Minha esperança e desejo é o de que este aprendizado posso servir de parâmetro e de norte para a tomada de decisão de instituições e da sociedade brasileira. Mas no momento, o que posso fazer é escrever e compartilhar com vocês, leitores que acompanham meus escritos, minhas impressões sobre esse o turbilhão de mudanças que está tomando conta de nosso país. É salutar lembrar que o ano mal começou. E o turbilhão narrado é mais uma gota d’água...

Esta série tem por objetivo publicar depoimentos sobre  como se pensa e se lida com o Corona em Alagoas.  Está aberta a toda e qualquer pessoa, de qualquer tendência. É uma documentação organizada, sobretudo, para um futuro estudioso de como a epidemia foi vista e vivida em Alagoas. O material será publicado  paulatinamente no  suplemento Campus do jornal O Dia. Está sendo  organizado por Carlos Lima, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas e Luiz Sávio de Almeida. O blog pode discordar de parte ou do todo da matéria publicada.

sábado, 25 de abril de 2020

Memória da Pandemia nas Alagoas (XI): Maria Augusta Tavares. Morrer é um ato absolutamente solitário



Morrer é um ato absolutamente solitário

Maria Augusta Tavares


Professora Drª., vivente das Alagoas

Morrer é um ato absolutamente solitário, em qualquer época, em qualquer lugar. Contudo, por mais realista que sejamos, lidamos muito mal com a ideia de mortos amontoados em carros frigoríficos (Nova York), ou largados em calçadas (Equador), tal como já testemunhamos nessa pandemia do coronavírus.
Embora o morto esteja absolutamente impedido de interagir com os vivos, raramente estes lhe negam um cortejo fúnebre. Diante da morte, sem que o declaremos, todos os vivos tendem a regozijar-se com o fato de não estar no lugar do morto. Assim, até para que fiquemos em paz com a nossa consciência, parece-nos justo dar ao morto a oportunidade de sair de cena com delicadeza.  Seja num prédio público, numa igreja, num salão de festa ou na mísera sala duma casa de taipa, costuma-se prestar homenagens a quem morre.
Para os uns, esse momento tem um caráter religioso, (no sentido do religare), para outros, é a rara oportunidade de receber os elogios que jamais merecera em vida e, para muitos, é tão somente uma festa de despedida. Para o morto não é nada. Ainda assim, quando nos imaginamos no papel do morto, mesmo que dispensemos as cerimônias tradicionais, preferimos imaginar que as nossas cinzas serão jogadas num lugar bonito, onde estarão reunidas as pessoas que julgamos  nos amar.
Se isso nos parecia sólido, desmanchou-se no ar. O fantasma do coronavírus ronda o mundo e subverte essas regras. Ora, todos temos os nossos fantasmas, velhos conhecidos que até dormem conosco. Esse, no entanto, afora a sua invisibilidade, difere dos outros pelo caráter universal e pelo ardente desejo de tornar-se tangível. Numa velocidade e numa abrangência que escapam à nossa imaginação, esse fantasma está a materializar-se em muitas vidas de carne e osso, apenas para destruí-las e, sucessivamente recuperar essa corporeidade, até que todos sejam atingidos.

Muitos morrerão. Mas o fantasma é vingativo, sua sanha assassina não se contenta apenas em matar alguns. A condição para reduzir as mortes é o isolamento, é obrigar os vivos a ignorar os seus mortos. É como se estivesse a dizer “esses são meus, afastem-se se não querem também morrer!” Nada de cerimônias, festas, despedidas. Se alguém quer chorar o seu morto, faça-o na solidão do isolamento, ao qual cada um deve agarrar-se se quiser manter-se vivo. Fomos todos silenciados pelo medo.
De repente, eu que, até então, associara solidão à liberdade, senti-me presa. Tudo era tão somente solidão. Ainda incapaz de elaborar teoricamente os meus sentimentos, recorro ao saudoso Jorge Cooper[1] para dizê-los:

A solidão em que a morte
deixa o morto
é maior que a solidão da lua
Minha solidão soma
a solidão do morto
e a solidão da lua
- Sou mais só que um louco.

Esta série tem por objetivo publicar depoimentos sobre  como se pensa e se lida com o Corona em Alagoas.  Está aberta a toda e qualquer pessoa, de qualquer tendência. É uma documentação organizada, sobretudo, para um futuro estudioso de como a epidemia foi vista e vivida em Alagoas. O material será publicado  paulatinamente no  suplemento Campus do jornal O Dia. Está sendo  organizado por Carlos Lima, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas e Luiz Sávio de Almeida. O blog pode discordar de parte ou do todo da matéria publicada.



[1] Poema 34, Poesia Completa. Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Maceió.

Memória da Pandemia nas Alagoas (X): Parmênides Justino Pereira. Diário de um juremeiro enfurnado numa pandemia





Diário de um juremeiro enfurnado numa 

pandemia

Parmênides Justino Pereira

 Juremeiro, Axogum de Oxossi, professor de Sociologia na UFAL/ Palmeira dos Índios

jurema: Brazilian cult and corona virus / jurema: culto brasileño y virus corona
jurema: culte brésilien et virus corona / 



            Fui provocado por um grande amigo, professor Sávio,  para escrever sobre a Jurema Sagrada e a pandemia do Corona vírus, a princípio fiquei intrigado, acreditando não haver relação, mas acabei achando alguns elementos importantes de serem apontados. Já antecipo a questão do altruísmo, a necessidade da caridade, e a importância da medicina indígena, todo conhecimento que nos foi deixado pelos pajés, e que nossos encantados não nos deixam esquecer.  Assim como em toda pandemia, as pessoas demoraram para acreditar, alguns mentecaptos ainda sequer acreditam.  Não faltam teorias de conspiração, como o vírus ser uma tramoia comunista para derrubar o capitalismo e introduzir uma tirania vermelha no mundo; cristão fanáticos apontam aspectos do apocalipse, da volta triunfante de jesus, acusando os pecadores pela tragédia; candomblecistas afirmam ser vingança de Xangô, o rei da justiça, já que este ano estás sendo regido por ele, enquanto outros afirmam que Xangô abriu mão de seu reinado e entregou o mundo a Omulu, o deus da peste, embora outros afirmem que Omulu está sim no comando, mas para salvar o mundo da desgraça deixada por Nanã, que no final de seu reinado, ano passado, teria soltado Iku (a morte) no mundo.
       A Jurema tem sua própria cosmologia, como diria o juremeiro e mestre em História Alexandre  L’omi L’odò, tem sua juremologia, embora eu acredite que ela bebe em diversas cosmologias, como a cristã e a afro-brasileira. E do ponto de vista cosmológico, ouvi de um grande mestre da Jurema, meu padrinho Arranca Toco, incorporado no juremeiro João de Odé, que essa pandemia não tem nada a ver com teorias conspiratórias ou apocalípticas, que se trata de um arranjo espontâneo da natureza. Os homens brincam com a natureza, mas existem brinquedos perigosos e a natureza é um deles. Pensamos, logo existimos, mas nunca deixamos de dividir a cama com os morcegos e serpentes, a nave mãe continua a mesma, a nossa mãe terra.  Se está valendo recado do além, o recado é que o mundo não vai acabar e que não existe nenhuma força espiritual agindo nesta pandemia, são as forças naturais reagindo e, porque não dizer, promovendo seu equilíbrio: as águas mais límpidas, o ar mais puro, animais se reproduzindo melhor, a flora reagindo, e a vida cotidiana das pessoas impondo modificações.  
       
Parece que nossa ausência nesta pandemia tem favorecido uma faxina ecológica nunca antes imaginável, diante de nossa conturbada obrigação de produzir “riquezas”. A quarentena forçada parece ter feito a humanidade descobrir novos valores, e aqui vale destacar um velho valor, o altruísmo, a caridade. Um maqueiro postou no facebook que se “...esse vírus entrar na minha casa, que leve a mim e não aos meus.” Só de lembrar esta pronunciação de um ilustre desconhecido me encho de emoção, além de me reportar à filosofia profunda de Martim Buber, sobre a pronunciação de palavras princípio como “EU-TU” fomentando o “ser”, em vez do “EU-ISSO” fomentado o “ter”. Vi um padre abrindo mão da vida para que o único aparelho respirador fosse fornecido a um jovem, vi pessoas doando dinheiro, alimento, equipamentos, trabalho, e vi também a prova da contradição: comunistas fornecendo todas as formas de ajuda, de médicos e equipamentos de proteção a toneladas de alimentos, enquanto os capitalistas sugeriam reduzir o salário dos servidores públicos para arcar com as despesas da crise, além de sabotar descaradamente a quarentena para não prejudicar a economia. A caridade é a força e a essência da Jurema, e expressão maior pude ver numa postagem do meu padrinho João de Odé nas redes sociais: “diante desta pandemia, se você não tem o que comer, me chame no privado e vamos conversar... o que eu tiver para comer você também come”.
           
Ouvi de um conhecido juremeiro de Arapiraca, que não se há muito o que fazer diante da pandemia, senão obedecer ao isolamento social, rezar a Deus e pedir aos encantados que cuidem de nós dos nossos.  Todavia acrescentou que a jurema tem um papel fundamental no momento, que é difundir sua medicina indígena, o conhecimento herdado da pajelança em chás, banhos, infusões.  Ainda sobre conversas com entidades, ouvi da mestra Ritinha que essa pandemia não acabaria tão cedo, teremos que aprender a conviver com o vírus.  Nesse caso a importância da medicina indígena assume protagonismo na correlação de forças que divide o país, onde a medicina burguesa atinge o auge de sua crise de poder: médicos e biólogos racionais defendendo o único meio de superar a crise, que é o isolamento social, incluindo o lockdown, enquanto médicos lunáticos defendem a proliferação natural do vírus para produzir anticorpos naturais, com isso salvando a economia.  Se por um lado o Brasil está polarizado entre “coxinhas” e “petralhas”, “bolsomínions” versus “esquerdopatas”, e essa polarização se apoderou da medicina enquanto locus do saber/poder, o presidente lunático e seus fanáticos seguidores defendem o uso da hidroxicloroquina como panaceia contra a COVID-19, na esperança que este argumento grosseiro convença as pessoas a abrir mão da quarentena e reabrir o comércio; enquanto a medicina mais séria defende achatar a curva de crescimento da vírus para evitar o colapso da rede pública de saúde.  Enquanto isso o juremeiro  Yabaktiswara Eduardo postou no grupo Jurema, ciência e poder um depoimento muito importante, sobre como estaria se tratando de corona vírus a partir dos conselhos das entidades da Jurema. Neste sentido são três importantes prescrições, como o banho a partir do pau Pereira, que era amplamente utilizado no combate à febre dos escravos.  É sabido que o principal sintoma da COVID-19 é a febre alta.  Combatendo a febre, se combate a dificuldade respiratória com um dos mais potentes bronco dilatadores que a farmacopeia da mãe terra já produziu, que pé a imburana, ou amburana, de ação rápida adoçada com mel e favo. 
     
O chá é feito com duas xícaras da casca, tomando-se três xicaras por dia, combatendo eficazmente a tosse e a falta de ar. A imburana age promovendo a desobstrução dos vasos sanguíneos, por ser um potente anticoagulante, uma vez que que a contaminação por corona vírus ocasiona uma resposta inflamatória exagerada, resultado este que desfavorece o fluxo de oxigênio nas células. Por fim, a famosa e disputada cloroquina, que é a quinina, extraída da quina (Cinchona calisaya), muito comum na américa do Sul e milenarmente utilizada pelos índios contra a malária, com poder antitérmico e analgésico, além de digestiva e cicatrizante.  Seu uso foi preterido pela medicina tradicional, devido ao surgimento de outros sintéticos, agora retomado como disputa das implicações socioeconômicas da pandemia.  Enfim, três compostos da farmacopeia indígena milenarmente utilizado pelos índios, pau Pereira, imburana e quinina, cujo relato têm sido utilizados com pessoas diagnosticadas com o vírus e apresentado bons resultados.  É evidente que o protagonismo da cura vai girar em torno do falso debate sobre a hidroxicloroquina e a medicina tradicional, e obviamente não estamos falando de uma proposta de cura, e não é nem tem sido objetivo focalizar a questão da pandemia em torno da Jurema Sagrada. Como bem disse alguns juremeiros, ela não tem nada a ver com tudo isso, salvo a consciência de que se trata de um movimento de sabedoria e autogestão da própria natureza, que devemos obedecer a quarentena, que podemos nos utilizar dos banhos e chás que sempre foram utilizados por nossos ancestrais, até porque é deles que advêm a própria farmacopeia burguesa.


 Esta série tem por objetivo publicar depoimentos sobre  como se pensa e se lida com o Corona em Alagoas.  Está aberta a toda e qualquer pessoa, de qualquer tendência. É uma documentação organizada, sobretudo, para um futuro estudioso de como a epidemia foi vista e vivida em Alagoas. O material será publicado  paulatinamente no  suplemento Campus do jornal O Dia. Está sendo  organizado por Carlos Lima, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas e Luiz Sávio de Almeida. O blog pode discordar de parte ou do todo da matéria publicada.


sexta-feira, 24 de abril de 2020

Memória da Pandemia nas Alagoas (IX): Diógenes Tenório Júnior. TEMPOS DE COVID-19



TEMPOS DE COVID-19 
 Diógenes Tenório Júnior

Advogado, membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

 Tempi COVID-19 Les temps du COVID --19 COVID-19 Times

No momento em que escrevo este artigo, um conhecido meu já faleceu em virtude da infecção pelo Coronavírus: Seu Antenor, pai da minha amiga Nadeje Fidélis de Moraes. Dois outros prezados amigos meus, ambos octogenários, estão em UTI´s de Maceió, sedados e intubados há mais de três semanas, lutando bravamente pela vida: Marcello Lavenére Machado, advogado dos mais brilhantes e ex-presidente nacional da OAB, e o cônego Rubião Lins Peixoto, sacerdote virtuoso e grande devoto da Virgem Maria. Também os meus jovens amigos Rafael Brito, Secretário de Estado do Turismo, e Eduardo Oliveira, vereador em Murici, foram diagnosticados com a doença, e estão recolhidos em suas residências, cumprindo os protocolos médicos. Não são números frios, meros dados estatísticos; são pessoas próximas de nós, seres humanos que foram apartados dos seus afazeres, das suas famílias e dos seus afetos, vitimados por essa pandemia avassaladora que a cada dia mais nos surpreende, nos amedronta e nos irmana num só sentimento de estupefação e de fragilidade.     

Reclusos em casa, numa quarentena forçada porque necessária, estamos todos reaprendendo a conviver em família, nós     que já estávamos habituados a mal nos vermos durante a semana, cada qual mergulhado no turbilhão das suas inúmeras atividades profissionais e sociais. Ouvir músicas há muito silenciadas, reler livros que desafiavam a poeira e as traças, olhar com mais atenção antigas fotografias perdidas em velhos álbuns, observar detalhes curiosos de quadros e esculturas que adornam os nossos lares. Domar a muito custo essa saudade danada do abraço e do beijo dos nossos parentes e amigos, das conversas animadas em torno de uma mesa farta, das orações comunitárias nos templos da fé de cada um, do sair por aí, sem pressa nem destino certo, sorvendo o ar das ruas e estradas sem medo de contaminação alguma. Vontade imensa de brincar com as crianças no chão, de rolar na grama com o cachorro estabanado, entre lambidas e mordiscões carinhosos. Eu, que gosto de gente, sinto falta das conversas com os que me fazem bem, do aprendizado que usufruo no convívio com as tantas pessoas que sempre têm muito a me ensinar. Ainda sem vacina descoberta, e com os tratamentos patinando na fase experimental, valemo-nos das máscaras, do álcool em gel e da água com sabão, na tentativa esperançosa de que o Covid-19 não nos colha de inopino e nem nos arraste para a tragédia de um respirador artificial.

Em meio a tudo isso, quando eu chegava a achar que nada vindo do ser humano poderia mais me surpreender, eis que tenho as minhas redes sociais abarrotadas, todos os dias, por centenas de mensagens estapafúrdias, que profetizam o caos e abalam o nosso já fragilizado estado emocional. De uma hora para outra, uma porção de gente acha que entende tudo de medicina, de saúde pública, de economia e de política internacional, e se põe a opinar sobre assuntos que não domina, a divulgar textos apócrifos, a mencionar fontes sem o menor cuidado de antes verificar a sua veracidade ou não. O sujeito me manda um vídeo com a chamada: “hospital tal está vazio”, mas não há nenhuma prova de que aquela filmagem realmente seja do hospital mencionado, nem muito menos de que tenha sido filmado naquela data; outro me manda uma foto com a legenda: “fulano entra com ação no Supremo contra beltrano”, contendo apenas um recorte dos pedidos finais de uma ação qualquer, sem data, sem assinatura e sem o órgão judicial ao qual teria sido dirigida; um terceiro me afirma que, “de certeza”, o Covid-19 faz parte da estratégia de uma guerra química mundial pela tomada do poder – mas de onde provém essa “certeza”, se o remetente da mensagem não mostra nenhum estudo científico, nenhum documento oficial, nenhum dado concreto que leve a tal conclusão? Ontem mesmo, recebi em meu celular o recado de um conhecido, alertando-me para não utilizar, de jeito nenhum, as máscaras que serão distribuídas pelo Governo do Estado, pois elas seriam adquiridas na China, propositadamente infectadas, para disseminar o vírus e desestabilizar a economia do país. Meu Deus do céu! Em tudo enxergam um golpe, uma conspiração, uma artimanha, como se o mundo estivesse orquestrado para acabar com o Brasil. E o que eu acho pior: acham-se com preparo técnico-científico para discordar dos médicos, para questionar entidades sérias e respeitadas como a Organização Mundial da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz e para sugerir o descumprimento das recomendações das autoridades sanitárias, embora sejam advogados, agrônomos, policiais, magistrados, bancários, aposentados, vagabundos e outras coisas mais – enfim, gente que não é da área da saúde e que não possui conhecimento de causa sobre tais assuntos, e que faria mais bem à humanidade se guardasse somente para si as suas elucubrações geniais.     


Meu velho avô Zezinho Fogueteiro costumava repetir: “Só falo do que eu entendo, seu Dioginho”. Para quem pensa que os ouvidos alheios são privadas, é sempre atual a admoestação de Santo Agostinho, Doutor da Igreja: “O pior pecado é o que se comete contra o silêncio”.             

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