nuovo mondo ammirevole e temuto admirable and feared new world
Admirável e Temido Mundo Novo
Guilherme Lamenha
Jornalista, trabalha como consultor de planejamento
estratégico em Marketing e Tendências
“Toda história para
ter um final precisa ser narrada”. Não lembro onde li a citação, mas acho que
foi de algum pensador exilado ou a caminho do desterro. A verdade é que se trata
de uma frase recorrente nos estudos sobre a memória e a preservação dos fatos
ao longo da linha do tempo. Comecei a escrever esse texto pensando em como o
futuro vai relatar essa pandemia em pleno 2020, princípio do século XXI, em um
mundo onde a tecnologia digital parecia ter vencido a arte, a estética e o
próprio fio narrativo da história.
Em março, as
notícias sobre o novo coronavírus e suas consequências chegaram mais próximas
do ocidente após as seguidas tragédias na Itália. Até então, imprensa e
população aqui no Brasil tratavam a doença (que ainda não era pandemia) como
mais uma gripe circunscrita aos países asiáticos, mais precisamente à China e
sua densidade demográfica monumental. Aos poucos, fomos sabendo dos primeiros
casos no Brasil e, mais precisamente no dia 20, chegou ao meu ambiente de
trabalho.
Eu sou jornalista,
mas nos últimos anos trabalho com consultoria, apoiando planejamentos de
marketing e gestão estratégica. Em outras palavras, continuo trabalhando com
comunicação, só que de forma mais focada, baseada em dados de pesquisas de
opinião e de tendências. Já não trabalho numa redação clássica, mas numa
agência ou algo que se assemelhe a isso. O principal ativo, no entanto, ainda é
o contato com as pessoas.
A partir daquele
dia, minha atuação passou a ser semipresencial e, pela primeira vez, em 25 anos
de profissão, experimentava o teletrabalho, as chamadas de vídeo com
interlocutores diversos, que agem com mais ou menos desenvoltura de acordo com
sua idade e sua consequente familiaridade com o mundo multitela, onde
computador, celular e tablet adquirem status de ferramenta indispensável. Ficar
sem uma rede estável de conexão à internet, então, impossível.
Eu rompi
recentemente a barreira dos 50 anos. Faço parte de uma geração híbrida, que
nasceu e foi criada no universo analógico e desde então passou a amadurecer no mundo
digital. Não vou reclamar aqui da minha trajetória pessoal. Ainda no início dos
anos 2000 tive a oportunidade de concluir uma pós-graduação cujo tema já
tratava dos efeitos da Globalização na economia, na cultura, no cotidiano das
pessoas. Recentemente, também tive a chance de obter uma certificação sobre
gestão em tempos de mudança do modelo mental. Nesse curso, as expressões são
usadas (e abusadas) em outras línguas. Não vale a pena mencioná-las, porque em
nada acrescentam ao que eu realmente gostaria de falar nesse breve texto sobre
esses tempos de pandemia, tempos de tristeza e catarse coletivas. Mas como
gostava de dizer a escritora dinamarquesa Isak Dinesen, "todas as mágoas
são suportáveis quando se pode contar uma história a seu respeito".
Pois então, sigamos.
Julho é quarto mês que atravesso entre reuniões on-line e furtivos encontros
presenciais, quando o contato físico é estritamente necessário e arriscado.
Ainda não sei se tenho anticorpos para o vírus que subverteu a ordem natural
das sociedades digitais de todo o mundo. Agora mesmo, escrevendo essas
palavras, monitoro os sinais vitais, já que estou com sintomas leves que podem
(ou não) ser da Covid-19. Tudo é incerto, volátil, complexo e ambíguo. É
admirável como avançamos do ponto de vista tecnológico, mas é temeroso o quanto
nos distanciamos da nossa própria humanidade.
Lembro que a amiga
jornalista que me convidou a participar desse projeto, Elenilda Oliveira, era
minha colega do curso de Comunicação, quando fui escalado para entrevistar o
professor Savio de Almeida, o grande artífice da compilação desses relatos de
memória. Na época, ainda um jovem estudante, fiquei fascinado pela erudição
telúrica do mestre e suas vivências mundo afora, tempo afora. Até hoje recordo
do título da entrevista: "O Amante do Vulcão", uma citação carinhosa
ao então recém-lançado romance da ensaísta Susan Sontag, que coincidentemente
me faz companhia nessa pandemia, através de sua biografia lançada no Brasil em
2019.
Susan, Sávio, Elen
me fazem lembrar que a memória não é apenas vasto material para estudos e
pesquisa (atuais ou futuras). Cultivar a memória é acima de tudo uma tarefa
ética. No tempo da tecnologia de ponta, convivemos com um negacionismo
perigoso. No tempo da celebração de conquistas históricas no campo das
liberdades individuais, convivemos com pensamentos arcaicos. Mas penso que esse
também é um tempo de resgate da delicadeza, onde escrever um texto nos salva da
"realidade" e nos coloca em contato com o exercício da narração como
meio de preservação. Com seu começo, meio e fim.
Guilherme Lamenha é jornalista, com experiência em produção
de conteúdo e gestão de comunicação, atuando também como professor. Possui
ampla vivência em assessoria de imprensa e consultoria em comunicação institucional
e empresarial, tendo trabalhado nos principais veículos de comunicação em
Alagoas. Foi secretário de Estado da Comunicação do Governo de Alagoas,
coordenador de comunicação da Prefeitura de Arapiraca e secretário-adjunto de
Comunicação do Governo do Mato Grosso do Sul. Trabalha como consultor de
planejamento estratégico em Marketing e Tendências. (Elen Oliveira)
Projeto Jornalistas e a
Pandemia
Memória da Pandemia
nas Alagoas
Elen Oliveira
Quando eu ingressei na Ufal, em 1991, o professor Luiz Savio
de Almeida já era uma lenda. Nos corredores do antigo CHLA, hoje ICHCA
(Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Arte), ele se postava a dar
conversa a quem se aproximasse com a mesma atenção que dedicava a palestras,
mesas de discussão e entrevistas. Entre 2008 e 2009, trabalhamos junto no
antigo O Jornal, onde ele propôs a abertura de um espaço dialógico da
universidade com a sociedade, por meio da publicação de artigos acadêmicos.
Entusiastas do debate e da pluralidade, o então diretor, Gabriel Mousinho,
e o então editor-geral, Roberto Tavares, cederam espaço ao Espaço,
nome dado ao suplemento quinzenal publicado entre setembro de 2008 e 2012,
quando o veículo foi extinto. À época editora-executiva e de Suplementos,
eu editei a publicação até 2009 com Alexsandra Vieira, que era editora do
caderno de Cultura, o Dois. Reformulado, tornou-se posteriormente Contexto,
no jornal Tribuna Independente, até materializar-se em Campus, o
suplemento semanal que é veiculado no jornal O Dia e reproduzido n’o Campus do Savio, o blog de múltiplas
falas com o qual colaboro esporadicamente.
O longo parágrafo de introdução foi escrito para contar como
chegamos a Jornalistas e a Pandemia, proposto pelo professor Savio
como parte do projeto Memória da Pandemia nas Alagoas, que ele está
a construir desde abril e que reúne relatos vindos de representantes dos povos
indígenas, artistas, intelectuais e integrantes de áreas diversas sobre o atual
momento. Ele propôs, e eu aceitei, que organizássemos uma seção para compor
essa construção feita a muitas mãos. “Quero deixar um imenso painel para um
pesquisador no futuro”, informa o pesquisador, que há tempos constrói
fundamental acervo da memória sobre Alagoas.
Esta Projeto se propõe a mostrar os impactos da pandemia
sobre a vida e o trabalho de jornalistas acostumados, por ofício, à escrita em
terceira pessoa. Aqui estarão a observação, o relato pessoal sobre os
bastidores da notícia, as pautas cobertas à distância, o teletrabalho
compulsório, o enfrentamento da doença, que, ainda sem cura, avança impiedosa e
indistintamente. Essa escrita é uma contribuição à memória. Um fragmento do
nosso tempo a partir do pensamento individual e do conhecimento compartilhado.
O blog pode discordar no todo ou em parte do material que publica