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quinta-feira, 11 de junho de 2020

Ábia Marpin. A invenção de Zumbi




Matéria publicada em Campus/O Dia em outubro de 2015

Dois dedos de prosa

Este é mais um texto de Ábia Marpin que estamos publicando em Campus; são reflexões que passam pela questão negra em Alagoas, por seu movimento e definições.
Agradecemos à Ábia por ter nos atendido,  especialmente por sabermos do esforço que é realizar um doutorado sério e dispor-se a preparar estes textos para seu povo das Alagoas.
Vamos à leitura!
Sávio


Quem é quem (referências da época)

Ábia Marpin

Hoje pesquisadora, doutoranda do IESP/UERJ, mestre em Sociologia e jornalista pela Ufal, pesquisa as relações raciais em Alagoas, em especial no potencial político das expressividades negras em Alagoas; também atuou em assessoria de comunicação e produção cultural, sendo uma das fundadoras do grupo percussivo Coletivo AfroCaeté e uma das idealizadoras do projeto Batuquerê, que une música e cultura popular para a formação cidadã de crianças e jovens.


A rede afroalagoana: as luzes para uma face no escuro
Parte 2: A invenção de Zumbi
Ábia Marpin

Numa espécie de extensão da invenção de Palmares, o foco passa a ser o manejo da memória de uma das principais figuras deste quilombo, seu líder, Zumbi dos Palmares. São difusos os limites temporais de tal momento, mas a priori eles estão situados entre meados da década de 1990 e os primeiros anos de 2000. A invenção de Zumbi aqui se refere a isto.
Em um contexto nacional, destacam-se dois eventos que esteiam tal fenômeno: a Marcha Zumbi dos Palmares: contra o Racismo pela Igualdade e a Vida, no dia 20 de novembro de 1995, reunindo cerca de 30 mil pessoas na capital federal pela celebração da memória do tricentenário da morte do líder negro – desde então a data foi adotada como o Dia Nacional da Consciência Negra no calendário histórico nacional; e a sua inscrição como herói nacional, no Livro dos Heróis da Pátria, por meio da Lei n° 9.315, de 20 de novembro de 1996, em 21 de março de 1997.
Além de chamar a atenção para a memória de Zumbi dos Palmares, os manifestantes presentes na Marcha Zumbi, em sua maioria militantes do movimento social negro, entregaram ao então presidente da república, Fernando Henrique Cardoso, um documento com diversas reivindicações tanto para o combate ao preconceito e a discriminação racial, como para criar e efetivar direitos culturais, econômicos e sociais da população negra brasileira que tinha como propósito essencial converter a “igualdade formal” em “igualdade substancial”. Pois
Como registra o documento entregue ao Presidente da República pelos organizadores da “Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo, pela Cidadania e a Vida”, o Movimento Negro considera então que já havia feito todas as denúncias, destruindo o mito da democracia racial; passaria agora a exigir ações efetivas do Estado: “É dever do Estado Democrático de Direito esforçar-se para favorecer a criação de condições efetivas que permitam a todos beneficiar-se da igualdade de oportunidade, assegurando a eliminação de qualquer fonte de discriminação direta ou indiretamente e reorientando o sistema educacional no sentido da valorização da pluralidade étnica que caracteriza nossa sociedade”. (JACCOUD e BEGHIN, 2002:45)
Segundo Helcias Pereira, um dos fundadores do Anajô, primeiro núcleo dos Agentes da Pastoral Negra (APN) em Alagoas, a mobilização do movimento negro para e os reflexos da Marcha Zumbi são um “divisor de águas” para o tratamento do Estado brasileiro para as questões raciais. Nesse processo foi criado o Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra, o GTI População Negra, criado por decreto presidencial e ligado ao Ministério da Justiça.
Nota-se que na década anterior, aqui tida como parte do primeiro momento da emergência da rede afroalagoana, a invenção de Palmares, as demandas são atendidas prioritariamente por ações no âmbito cultural, na década de 1990, aqui parte do segundo momento, a invenção de Zumbi, há uma evolução das demandas para reivindicações pelos direitos civis.
Tal mudança do tratamento do Estado também pode ser identificada na criação do I Programa Nacional dos Direitos Humanos (I PNDH), do Ministério da Justiça, que destina um tópico específico para a população negra. Os objetivos do movimento negro passam a figurar também na plataforma do poder público. Entre estes objetivos estão:
(i) propor ações de combate à discriminação racial; (ii) elaborar e promover políticas governamentais; (iii) estimular ações da iniciativa privada; (iv) apoiar a elaboração de estudos atualizados; e (v) estimular iniciativas públicas e privadas que valorizem a inserção qualificada dos negros nos meios de comunicação.  (JACCOUD e BEGHIN, 2002:20)
Alguns militantes do então florescente movimento negro alagoano, a exemplo do próprio Helcias Pereira, estiveram presentes não só na Marcha como em sua preparação, o que, como se observa em sua fala, gera reflexos na mobilização local. “A partir de 94, nós criamos o Escritório Nacional dos 300 anos de Zumbi, a gente fez parceria com a CONEN, a Coordenação Nacional de Entidades Negras, e vieram pra cá os companheiros da Bahia, Aracaju, Pernambuco e Rio Grande do Norte, foi o escritório nordeste. Aí nesse caso a gente fez a Marcha [em Alagoas], a gente ocupou a Praça dos Palmares de forma muito interessante”.
Ainda segundo Helcias, o reflexo das mobilizações pelos direitos das populações negras em âmbito nacional, contextualizadas em relação a um momento histórico de reabertura democrática, e o processo segundo o qual a imagem de Zumbi como ícone negro figura primeiro na mobilização de grupos de outros estados, causou – e em certa medida ainda causa – uma inquietação para que sua relevância seja incorporada também a mobilização do movimento negro local. “Eu costumo dizer, pra mim, aqui de Alagoas, que tá longe do sudeste, que o movimento lá era mais efervescente, por incrível que pareça, aqui em Alagoas a gente tinha Serra da Barriga, a história do Quilombo dos Palmares e Zumbi, e Zumbi era muito mais homenageado lá fora do que aqui, pela população alagoana”.
O movimento negro alagoano – e o nacional – também recebe um incremento de legitimidade com a 3º Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, realizada na cidade de Durban, África do Sul, em 2001. O movimento negro e o Governo brasileiro participaram ativamente do evento.
Os reflexos podem ser identificados com a criação, por decreto presidencial, do Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD), ligado à Secretaria de Estado dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça (SDH/MJ), logo em seguida ao retorno de Durban; e o lançamento, já em 2002, do II Plano Nacional de Direitos Humanos (II PNDH) e do Programa Nacional de Ações Afirmativas, sob a coordenação da SDH/MJ.
As metas do II PNDH ampliam as fixadas em 1996 no tocante à valorização da população negra, consagrando o termo “afrodescendente”, oriundo da Declaração e Plano de Ação de Durban. Ademais, o II PNDH inova ao propor uma série de medidas que visam equilibrar e melhorar os indicadores econômicos e sociais dos grupos raciais menos favorecidos. As ações propostas dizem respeito sobretudo às áreas de justiça, educação, trabalho e cultura. Há também no II PNDH o reconhecimento dos males causados pela escravidão e pelo tráfico transatlântico de escravos, que constituem crime contra a humanidade e cujos efeitos, presentes até hoje, devem ser combatidos por meio de medidas compensatórias.
Como destaca Helcias Pereira: “As cotas, o Estatuto [da Igualdade Racial], a SEPPIR... não vieram por vontade própria ou iluminação do gestor. Vieram por conta da história que foi criada, da luta do movimento negro.” A inclusão de Zumbi dos Palmares na galeria de heróis nacionais, também pode ser interpretada como um reflexo disto que Helcias identificou como “um divisor de águas”.
Apesar de uma óbvia mudança de paradigma, esta atualização do personagem de Zumbi na historiografia nacional oficial também trouxe tensões no sentido de que esta inclusão se efetiva sem que se altere o status da questão negra quando, por exemplo, se mantém intactas a representação de personagens contradizentes, até antagônicos. Esta tensão foi identificada também na pesquisa de Andreas Hofbauer:
Se hoje o povo negro de todas as parte do Brasil com o esforço estupendo se deslocou até aqui a Brasília para demonstrar a nossa unidade de objetivo é preciso separar a nossa manifestação com [de] um discurso de que Zumbi neste momento representaria o ideal de todos os brasileiros. Mas isto não é verdade. Zumbi representa o ideal do povo negro e do povo oprimido. Porque Zumbi não pode ser colocado na galeria dos heróis nacionais, ao lado de Domingos Jorge Velho. Zumbi não pode ser colocado na galeria de heróis nacionais ao lado de princesa Isabel. Porque esses heróis são heróis deles, Zumbi é herói nosso - e isso tem que ficar afirmado! (discurso de Luiz Alberto, 20/11/1995). (HOFBAUER, 2006: 388)
A partir da gestão de Ronaldo Lessa à frente do governo de Alagoas, entre os anos de 1999 e 2006, Zumbi começa a forjar-se como ícone da alagoanidade, sendo legitimado como patrono de várias instituições do poder público. Já em seu discurso de posse, Ronaldo aponta seu interesse na memória do líder negro: “As circunstâncias históricas depositam sobre nossos ombros a tarefa grandiosa de conduzir esse processo e contribuir para resgatar a brava memória de Alagoas, bem corporificada na luta libertária de Zumbi dos Palmares.” (LESSA apud MARTINS e SANTOS, 2013: 104).
De modo recorrente Ronaldo Lessa declara publicamente suas inclinação ideológica e determinação estratégica de, enquanto governador, apoiar a reelaboração das narrativas da história alagoana, incluindo em posição de destaque a memória de Zumbi dos Palmares enquanto herói. Tal inclinação também se reflete claramente na incorporação de militantes do movimento negro alagoano em sua equipe de governo e na implementação de diversas políticas públicas sensíveis às populações negras.
No entanto, está interação se dá em via de mão dupla, visto que sua eleição para governador foi pleiteada a partir de uma coligação, Alagoas para todos, constituída por partidos e ideologias de esquerda – partidos que se constituem em diálogo com movimentos sociais e demandas de grupos minoritários. A oportunidade de ascensão de uma liderança de ideologia de esquerda se dá inclusive em uma situação de crise das lideranças políticas tradicionais do estado. Segundo os historiadores locais, Carlos Martins e Laurita Santos, “Havia uma crise no seio das elites políticas alagoanas, e essa instabilidade política associada a um outro fator importante, o impeachment do presidente Fernando Collor de Melo,  na presidência da república, foram elementos determinantes na vitória das forças de esquerda em Maceió”. (2013: 101)
Vale destacar que a estratégia de atuação por dentro da máquina pública não foi uma unanimidade no movimento negro alagoano. Enquanto um setor via na empatia da atual gestão – ou melhor, do atual gestor – uma oportunidade de avanço, e se sentia atendida na medida em que vários militantes estavam sendo incorporados na estrutura do governo, outro setor interpretava esta ascensão de forma negativa, como um risco para o poder de embate do movimento – uma estratégia de cooptação.
A seguir, os vários equipamentos públicos criados, subsidiados ou redirecionados para reverenciar Zumbi dos Palmares e outros que, se não o façam menção direta, apontam para uma sensibilização institucional para as questões negras naquela gestão:
a) O criação do Instituto Zumbi dos Palmares, sistema público de comunicação do Estado, por meio da Lei nº 6.224, de 8 janeiro de 2001.
b) A medalha Zumbi dos Palmares, criada em 2002, e concedida anualmente no dia 20 de novembro, em menção ao Dia da Consciência Negra.
c) A mudança do nome do aeroporto internacional de Maceió para Aeroporto Zumbi dos Palmares, ainda em 1999. Apesar do Ministério da Aeronáutica resistir à mudança, o governador enfatiza sua necessidade de instaurar um novo tratamento para a memória de Zumbi:
Não posso atinar que “necessidade técnica” possa justificar a mudança do nome de um aeroporto. […] Zumbi não prestou serviços diretos a Aviação porque eu seu tempo de vida a Aviação não existia sequer em sonhos. Mas como herói brasileiro, foi muito mais além: prestou serviços à humanidade e, por isso, figura naquela categoria de pessoas cuja grandeza foge às miudezas de qualquer lei efêmera. O nome de Zumbi honraria qualquer aeroporto, mas sobretudo seria simbólico se figurasse no aeroporto da terra onde inscreveu uma das páginas mais autenticas, mais libertárias, mais corajosas da História do Brasil.  (LESSA, 2007 apud MARTINS e SANTOS, 2013: 107)
d) A mudança no nome do palácio do governo para Palácio República dos Palmares, tendo seus espaços internos também identificados com personagens negras e quilombolas.
e) A criação da Secretaria Extraordinária de Programas e Projetos Especiais (SEPES/AL), que em 2003, passa a ser a Secretaria Especializada de Defesa e Proteção das Minorias (SEDEM/AL), órgão responsável por  de implementar políticas públicas de promoção da igualdade racial, defesa e inclusão dos diversos segmentos sociais vítimas de discriminação. A gestão ficou a cargo de Zezito Araújo.
f) A criação da Secretaria Especializada da Mulher, por meio da Lei nº 6.326, de 03 de julho de 2002, órgão responsável por  de implementar políticas públicas para as mulheres, atendendo a demanda de ordem econômica, social, cultural e racial. A gestão ficou a cargo de Vanda Menezes.
g) A criação do Núcleo Temático da Identidade Negra na Escola, por meio da portaria nº 806, de 07 de março de 2004, vinculado à Secretaria Executiva de Educação, com vistas a atender as demandas da Lei Federal nº 10.639 e da Lei Estadual nº. 6.814/07[i]. A gestão ficou a cargo de Arísia Barros.
h) A criação do projeto Xirê que, segundo Helcias Pereira, “Era uma articulação de educadores, era uma comissão pela transversalidade pela educação na questão étnica. A partir dessa discussão do Xirê na educação, na rede estadual de educação, várias políticas começaram a acontecer dentro da instância da instituição.” (In: MARTINS e SANTOS, 2013: 119-20)
Em síntese, a gestão de Ronaldo Lessa pode ser considerada a face institucional – impossível de ser compreendida sem suas interlocução e interação com o movimento negro alagoano – da invenção de Zumbi. Na avaliação do ex-governador, sua atuação teria colado definitivamente a imagem de Zumbi à identidade de Alagoas.
A outra face iluminada neste processo de invenção de Zumbi é a da cultura popular e periférica – agora assimilada e autoproclamada enquanto cultura “afro”. Para a análise da emergência da rede afroalagoana, esta dimensão se destaca por dois aspectos em particular: o contingente “invisível” – que não figura na memória coletiva e pública, a não ser em grupos restritos, e nem mesmo na pesquisa profissional[ii] –; e a influência do prestígio e visibilidade dos grupos de samba reggae de Salvador nesta explosão de grupos percussivos nas periferias de Maceió.
Segundo o percussionista Wilson Santos, o sucesso nacional do grupo Olodum foi um estímulo determinante para os movimentos negros de Alagoas, em especial os de cunho cultural: “E no início da década de 90 o movimento negro aqui em Alagoas ele foi forte! Fortíssimo! Ele foi muito forte... E acho que 1993, mais ou menos, aí começa essa história de Olodum, né? […] Quando chega o Olodum no Brasil todo, aí neguinho falou: “Opa, também quero!”. Aí surgiu o Afro Mandela, né? A partir do Olodum. Do Afro Mandela já surgiu num sei quem... daqui a pouco a gente tinha uns trinta grupos de samba reggae  na cidade. Mas era muito tambor, velho! Era muito tambor…”
O que coincide com a memória do militante Ari Consciência: “Quando o [Afro] Mandela surgiu – que foi o primeiro grupo [negro] musical cultural de Alagoas, logo depois surgiram vários grupos. […] Aí foi um bum. Nós tínhamos aproximadamente uns vinte grupos, ou mais, aqui em Alagoas. Isso tudo na década de 90.”
Depoimentos como esses, e outros colhidos durante a pesquisa, ratificam a hipótese de que o prestígio e a visibilidade de grupos como Ilê Aiê e Olodum foram estímulos diretos para esta mobilização em Maceió.
No entanto, ao entender a continuidade com o momento anterior da emergência da rede afroalagoana, percebe-se que esta explosão também atende a uma demanda do movimento negro local, que ao assimilar as críticas da folclorização do negro, buscam privilegiar a escolha de expressões artísticas o mais distantes possível dos folguedos e correlatos. Em artigo, Zezito Araújo traz esta nova relação entre a cultura negra e o folclore.
Tal processo [folclorização da cultura negra] consiste em transformar as manifestações culturais dos negros em algo irrelevante ou em recheios ideais para se montarem esquemas de entretenimento para vastas camadas da população, em especial para aquelas que, independentemente da cor, podem usufruir, de forma mais plena, certo tipo de lazer produzido pela sociedade brasileira. (ARAÚJO, 2006: 109)
Fato é que estes grupos “afro” estavam ligados, mesmo que de forma muito instável, a um processo de ressignificação da identidade negra em Alagoas. Este processo, como destaca o percussionista Wilson Santos, chamou a atenção da periferia para as questões étnicas intrínsecas a sua exclusão social: “Isso por um lado foi bom porque movimentou as comunidades e criava um espaço de discussão, mas que ainda eram deficientes, tá ligado? Eram espaços deficientes. Se a gente tivesse o amadurecimento que a gente tem hoje eu acho que a gente poderia com aquele movimento, a gente poderia transformar e sei lá... mesmo que a gente não conseguisse resgatar uma identidade passada, mas talvez a gente conseguisse elementos pra trabalhar uma identidade alagoana”.                  
Esta deficiência a que Wilson Santos se refere também pode ser interpretada como um sinal de que estes eram ainda rudimentos de espaço de discussão, e reflexo de um movimento negro despreparado para lidar com o potencial mobilizador da arte e da cultura não só como meio de agregar e entreter, mas inclusive como meio de discutir e barganhar direitos políticos, visto que apesar de numeroso, o movimento centralizava as discussões e a maioria dos sujeitos figurava no movimento sem associar a expressividade do grupo percussivo de que fazia parte com à  questão da negritude em sua dimensão política. Segundo Wilson, “O movimento foi muito forte, as vezes a gente conseguia, sei lá, 500, 600 pessoas naquela praça dos Palmares, ali lotava. Aí o pessoal ia mesmo e tal. Mas, claro, você tinha as lideranças que conduziam a massa, porém a massa, o foco da massa, era somente o tambor”.
A ausência de elementos que fixassem essa modalidade de expressividade como hábito representativo de identidade, tornou este movimento vulnerável. Os referenciais que vinham a reboque com estímulo dos grupos baianos, também se esvaem com o declínio do prestígio e da visibilidade desses grupos: “Olodum sobe, Olodum desce, e quando o Olodum desce, naturalmente, esse movimento também começa a descer”, lamenta Wilson Santos.
Ainda que seja clara a referência aos grupos baianos, não se pode confundir os grupos alagoanos com cópias vazias de sentido. Ao considerar que os grupo baianos, com a amplitude de sua legitimidade e representatividade, forjam um significado característico de negritude, coadunado aos elementos culturais da origem africana dos negros baianos – e brasileiros –, e aos da periferia negra, e este significado característico despontou como um valor universal. Tal valor universal para a negritude, ao colocar em relevo as similaridades das comunidades periféricas em todo território nacional a partir do referencial baiano, irrefletidamente desbota as distinções, seja do grau e tipo de vínculo com a África, seja das singularidades de cada periferia em particular.
Todo este processo, seja em sua face institucional, seja em sua face da cultura popular e periférica, está sendo legitimado pela revisão da memória de um ícone, Zumbi dos Palmares, algo que serve como um forte argumento mobilizador que toca o afeto dos sujeitos. Tais afetos, e não o argumento mobilizador, é que justificam a mudança de habitus que põe em marcha a emergência da rede de valorização da expressividade afroalagoana.

Referências
ARAÚJO, Zezito. Folclorização e Significado Cultural do Negro. In: CAVALCANTI, Bruno César; FERNANDES, Clara Suassuna; BARROS, Rachel Rocha de Almeida (org.) Kulé-Kulé: visibilidades negras. Maceió: EDUFAL, 2006. p. 106-9.
HOFBAUER, Andreas. Uma história de embranquecimento ou o negro em questão. São Paulo: UNESP, 2006.
JACCOUD, Luciana de Barros e BEGHIN, Nathalie. Desigualdades raciais no Brasil: um balanço da intervenção governamental. Brasília : Ipea, 2002.
LIMA, Ábia. Luzes para uma face no escuro: a emergência de uma rede de valorização  da expressividade afroalagoana. 23 de fev 2015. 164. Tese (Doutorado) - Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas. Maceió, 2015.
MARTINS, Carlos e SANTOS, Laurita. Movimento Social Negro e Estado: a política pública como resultado dessa correlação. Maceió: Edufal, 2013.



[i]               Regulamentação estadual da Lei Federal nº 10.639.
[ii]              Talvez pelo segundo aspecto, a influência baiana, estes grupos tenham sido desprezados enquanto unidade de sentido autônoma e legítima.

terça-feira, 9 de junho de 2020













O Brasil imprensado no tempo

por Aprigio Vilanova
Neste vídeo, o professor, Luiz Sávio de Almeida, analisa os números de contágio divulgados entre 30 de abril e 31 de maio. A escalada do vírus no país e como a rápida evolução da doença sugere os dias difíceis que junho apresentará.
Clique aqui

França Júnior; Márcio André. Violência


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Foto Tribuna do Norte

Quem é quem
                                     
França Júnior (informação da  data da primeira publicação no blog)
Advogado criminalista, professor de Direito Penal, pesquisador vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPQ, além de ser membro da Coordenação Nacional de Acompanhamento do Sistema Carcerário Brasileiro, do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.


Márcio André Santos de Andrade Filho (informação da data de primeira  publicação no blog)
Graduando em Direito pelo Centro Universitário CESMAC. Aluno do Laboratório de ciências criminais do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.

Reprodução de artigos publicados em Campus/O Dia em junho de 2015 

Dois dedos de prosa
França Júnior é um companheiro de discussões sobre Alagoas, que de muito vem colaborando com Campus e dá orgulho vê-lo crescer na segurança da argumentação. Não resta dúvida que vem trazendo uma contribuição valiosa para uma discussão sobre Alagoas. 
O Professor colocou texto de um seu aluno Márcio André Santos de Andrade Filho sobre a mesma temática.
Campus deseja discutir Alagoas e este problema de drogas, violência e segurança é essencial.
Um abraço
Sávio

Título do suplemento

O IDEÁRIO DE GUERRA NA CULTURA ALAGOANA

Discurso e ideologia: violência
Luiz Sávio de Almeida
           
França Júnior vem contribuindo para a análise crítica do direito em Alagoas, traçando o enlaçamento entre ele e a organização social, trabalhando o que se chama de realidade e as circunstâncias (e quem sabe, pompa?) do poder.
            Venho notando, espero corretamente,  que a política de fortalecimento da segurança no Estado vem passando ao largo da sociedade civil, o que demonstra, por um lado, o privilégio do mando e, por outro, a fragilidade na montagem de um clima de acompanhamento do que acontece, fora do âmbito burocrático do Estado. O crescimento do Estado e a fragilização da sociedade civil nunca foi uma boa receita para a chamada ordem democrática.
            Não há cidadão que deseje parar o combate ao tráfico, que pense em uma sociedade do caos. No entanto, tudo tem de estar ajustado ao mundo da democracia e do respeito ao direito.  É por onde mergulha França Júnior cujo texto evoca, para mim, também, um vazio que é o poder da sociedade civil de acompanhar as ações do Estado. Dela, quem mais perto deveria estar de tudo, é a Ordem dos Advogados e o que ela tem falado sobre a violência em Alagoas e os meios de combatê-la?  Seria interessante ouvir o que tem a dizer, ouvir o órgão que cultiva o que chama de estado de direito.
            Campus declara-se frontalmente contra a violência e a droga, considera fundamental haver a repressão, mas acompanhada pela sociedade civil, discutida com ela, resolvida com ela.  Como é possível? Tentando.  Por outro lado, como fica o Estado ao ser perguntado sobre o que fez durante todo este tempo, em termos de execução de política pública, para estar com a população? E muita coisa que envolve o problema.
É muito o que deve ser discutido.  


OS PARADOXOS DE UMA POLÍTICA PÚBLICA DE SEGURANÇA DE ENFRENTAMENTO
Márcio André Santos de Andrade Filho


O paradoxo entre segurança e liberdade sempre foi um dos nós na corda mestra que nos guiou no curso da história do Estado moderno, inquietando-nos a buscar qual a melhor fórmula ou dosagem desses dois elementos, à construção de uma sociedade que protegesse seus integrantes pertencentes do pacto social, mas sem tolher completamente a liberdade que sempre(?) lhes foi inerente.
Tratar de segurança pública é uma tarefa complexa, que envolve diversas vertentes e ramificações as quais inúmeros autores dedicaram grandioso tempo, e, sem dúvida alguma, não será em um pequeno artigo como esse que se buscará solucionar suas variadas problemáticas, algo que, ao meu ponto de vista, seria tarefa para Hércules.

Nos atuais dias, levando-se em conta o sentimento de insegurança social, escancara-se uma porta de entrada para “soluções gloriosas” à problemática que tanto nos incomoda. Criação e reforma de leis penais, na maioria das vezes mais rigorosas; reforço do mecanismo repressivo estatal; surgimento de grupos policiais especializados ao combate de espécies de crimes, sem contarmos com a proliferação extra-estatal de mecanismos propagadores de soluções à criminalidade como a mídia, por exemplo, são apenas alguns dos problemas enfrentados por todos aqueles que se debruçam sobre o estudo da segurança pública.

É evidente que quanto mais segurança almejarmos maior será o constrangimento a nossa liberdade, da mesma maneira que, quanto maior liberdade tivermos para fazer aquilo que desejarmos, maior será a insegurança social ao exercício dessa liberdade. Dessa forma é imperioso afirmar que dificilmente seria possível viver na ausência de um mecanismo que tutelasse as interações humanas, estabelecendo limites a cada um de nós e garantindo nossas liberdades individuais; o Estado. Isso é patente, mas, o ponto de incongruência reside no que tange a forma como o Estado em que vivemos tutela e rege os mecanismos de garantia dessa liberdade individual, exacerbando as formas de garantir a segurança pública que fazem parte de nosso cotidiano, fazendo políticas de defesa social que, na prática, não beneficiam a sociedade, pelo contrário, só prejudicam o direito que todos nós temos de viver plenamente sem restrições a nossa liberdade pelo Estado.

A problemática atual, e esse é o cerne desse artigo, mora na errônea forma de garantir a segurança pública em detrimento da subversão dos valores democráticos, ou seja, com o intuito de garantir a “normalidade” da paz social o Estado, com sua política de enfrentamento à criminalidade, entra nesse cenário de “tratamento” ao fenômeno da violência com armas nas mãos, trocando o balde ao invés de consertar a goteira.

Dessa maneira, devemos nós, cidadãos, em qualquer posição que nos encontremos, criar o senso crítico em nossa mente e começarmos a perceber que o problema da criminalidade, que tanto preocupa a segurança pública, não será sanado somente com a atuação superficial do Estado nos problemas sociais. Deve, e isso é uma obrigação urgente, o ente estatal, atuar diretamente na essência do problema para que, assim, quem sabe um dia, possamos viver num ambiente democrático melhor.


O IDEÁRIO DE GUERRA NA CULTURA ALAGOANA:
VIOLÊNCIA, MÍDIA E ESTADO 

França Júnior 

A crescente sensação de insegurança tem se apresentado como variável das mais perigosas a qualquer ambiente verdadeiramente democrático. No Brasil, a repercussão midiática acrítica de fatos que geram o medo de vitimização na população tende a servir de justificativa para a elaboração de políticas públicas cada vez mais invasivas às liberdades individuais.

Em Alagoas, por conta do acentuado ingrediente histórico-cultural e da falta de vontade política em produzir uma ruptura com os valores belicosos tão comuns na construção de nosso sistema de segurança pública, os efeitos dessa dinâmica (violência-mídia-Estado) acabam estimulando o reforço de um círculo vicioso que corrói os valores democráticos. O resultado é a tentativa vã de construir a paz primordialmente com base em políticas públicas que privilegiam o enfrentamento bélico, ou seja, a reação violenta, ao invés da prevenção.

O surgimento e a manutenção de personagens sedutores, heróis, principalmente, que dizem exatamente aquilo o que se quer ouvir, que formulam teses simples e facilmente propagáveis, que se dedicam a sustentar códigos binários (bem/mal), que não abrem mão de outra visão de mundo que não aquela lastreada no maniqueísmo, não chega a ser uma novidade, mas ganha considerável relevo na relação Estado/mídia, especialmente quando o primeiro, assume o papel de produtor de espetáculos, e o segundo, seu ávido propagador.

É nesse contexto que temos vivido. Somos parte daquilo que LLOSA (2013) acabou denominando de “civilização do espetáculo”. Os valores importam na medida em que nos servem para manter o espetáculo, é isso o que importa, afinal, ele não pode parar! O respeito aos direitos e garantias fundamentais são tratados na base da conveniência. Entreter e divertir as pessoas, mantê-las conectadas aos discursos, essa é a prioridade, enquanto as práticas autoritárias quando não são percebidas ou contestadas, são avidamente endossadas.

Nas precisas lições de SCHWARTZENBERG (1977, p. 9), “hoje em dia o espetáculo está no poder”. Em matéria de segurança pública então, o Estado tem se travestido em uma grande empresa teatral, em um verdadeiro “Estado espetáculo”, organizado sistematicamente nesse sentido, na ânsia de dar respostas às justas e insistentes cobranças populares. Há, portanto, uma preocupação com o mero tratamento estético, superficial, dos problemas da criminalidade.

À guisa de exemplo, uma declaração recente do Secretário de Segurança Pública do Estado de Alagoas, Alfredo Gaspar de Mendonça, destacado promotor público, pode nos servir de ponto de partida nessa discussão sobre o espetáculo da violência (real e simbólica) na contemporaneidade e na forma como ela se propaga acriticamente, através da mídia, na dinâmica social alagoana.

Adverte-se, no entanto, que não nos interessa a crítica pela crítica. Razão pela qual ficará claro que nossa preocupação não se restringe apenas à “nova” gestão das agências policiais, mas a toda uma estrutura que permite que um ideário de guerra se perpetue ao longo da história da segurança pública do Estado.

Assim, indagado por um repórter sobre sua política para o setor, o atual secretário de Estado respondeu que “bandido em Alagoas na minha gestão só tem dois caminhos a seguir: ou se entrega indo para cadeia ou morre”. (SOUTO MAIOR, 2015)
Foi essa a manchete principal de quase todos os sites de notícias no
 Estado, sem que tivesse a maior parte da imprensa alagoana se dedicado a fazer uma análise crítica dela. Aquela contundente declaração, no entanto, fazia-nos rememorar um círculo vicioso já experiementado na história alagoana, especialmente nas décadas de 1980 e 1990 (VASCONCELOS, 2014).

No âmbito da análise do discurso midiático (GAIA, 2011), onde o que nos interessa é o não-dito, o que está nas entrelinhas, situada entre língua, inconsciente e história, é possível concluir da referida declaração que, caso não se entregue, deveria o investigado (presumidamente inocente, conforme mandamentos de nossa Constituição Federal e da Convenção Americana de Direitos Humanos) ser abatido ou executado pelas forças policiais.

Segundo o secretário de Estado, na mesma entrevista, é preferível "um milhão de bandidos mortos que um policial em Alagoas assassinado". É razoável que assim se pense. No confronto, por óbvio, sem que haja alternativa menos invasiva e traumática, é preferível que os profissionais em segurança saiam ilesos. Mas, a hipérbole, que parece não ter sido dita à toa, é poderosa.

Com isso, abre-se a clara possibilidade de que a declaração seja sempre utilizada como justificativa para todo e qualquer evento em que nos deparemos com mortos pelas forças de segurança. Dirá o policial, "era ele ou eu". E, covenhamos, não é raro ver esse tipo de justificativa embasando os tais "autos de resistência". Ocorre que, essa classificação tão usual na dinâmica policial brasileira, para os indivíduos mortos pelas agências policiais nos ditos confrontos, na grande maioria das vezes, serve para escamotear verdadeiras execuções, atos de justiçamentos (BARCELLOS, 2015).

Nesse contexto, para BATISTA (1990, p. 137), não se pode esquecer que, “as dissimulações de violência cometidas por agências de ordem (‘autos de resistência’ visivelmente artificiais, diagnóstico ‘tranquilizador’ de ‘guerra de quadrilhas’, etc) costumam ser acriticamente endossadas”.

PINTO (2008, p. 246), por sua vez, trabalhando o conteúdo simbólico do sistema penal e essa relação acrítica quase que de simbiose desenvolvida entre o Estado e a mídia – cujo quadro se agrava em Alagoas por conta de os principais veículos de comunicação se encontrarem nas mãos de grupos políticos influentes nas estruturas de poder (veja-se GAIA, 2011) –, revela-nos que: “os políticos e a mídia falam para as massas, explorando o medo crescente e o sentimento de terror causado pelos crimes violentos e por sua divulgação pelos meios de comunicação, e vendendo a ilusão de que, sancionando leis que reprimam desmesuradamente vulneráveis e marginalizados que se individualizam, e aumentando a arbitrariedade policial, ao legitimar, direta ou indiretamente, todo o gênero de violências, obter-se-á maior segurança urbana contra o delito comum”.

No mesmo contexto, o secretário de Estado ainda diz não querer que "seu policial" (o que é um indicativo retórico de possível comportamento paternalista, ou seja, protetor, que pode servir para angariar simpatia e fidelidade dos subordinados) saia de casa para matar, muito embora já o tenha "autorizado" caso o "bandido" resista ou simplesmente não se entregue.

A estrutura do discurso repercutido quase que acriticamente na mídia alagoana, portanto, é muito parecida com aquele já apregoado em outras épocas, especialmente entre as décadas de 1980 e 1990, quando a participação e/ou leniência estatal em atos violentos ficou mais evidente por conta do interesse midiático. Com discursos belicosos como o que utilizamos como exemplo, fica claro a ideia de que estamos diante de "inimigos" (pecha facilmente colocada em qualquer um) que precisam ser abatidos ou eliminados, caso não cooperem com as autoridades constituídas.A declaração do secretário, que (ainda) considero suficientemente preparado para a missão, reproduzida pelo jornalista Bernardino Souto Maior Neto, causa-nos espanto. Eis o dito: "bandido em Alagoas na minha gestão só tem dois caminhos a seguir: ou se entrega indo para cadeia ou morre". Agora vamos ao não dito (expressamente), mas que está nas entrelinhas: caso não se entregue, poderia o investigado (presumidamente inocente) ser abatido pelas forças policiais. Respeito quem assim pensa, muito embora não concorde. O que me preocupa não é o fato de saber que boa parte da sociedade pensa da mesma forma, ela tem esse direito, mas que esse é o pensamento de nosso secretário, agora conhecido por todos, gestor dos principais artífices da segurança pública e guardião de nossas garantias. Mas há mais. Segundo ele, é preferível "um milhão de bandidos mortos que um policial em Alagoas assassinado". É razoável que se pense assim. No confronto, claro, sem que haja alternativa menos invasiva, é preferível que os profissionais em segurança saiam ilesos. A hipérbole, que parece não ter sido dita à toa, é poderosa. Com isso, abre-se a clara possibilidade de que o dito seja sempre utilizado como justificativa para todo e qualquer evento em que nos deparemos com mortos pelas forças de segurança. Dirá, o policial, "era ele ou eu". E, acreditem, não é raro esse tipo de justificativa que embasa os tais "autos de resistência". O secretário ainda diz não querer que "seu policial" (um indicativo de possível comportamento paternalista, protetor, portanto) saia de casa para matar, muito embora já o tenha "autorizado" caso o "bandido" resista. Assim também pensa nosso governador? É importante saber. Essas fórmulas já não teriam sido utilizadas antes? Os mais experientes certamente se lembrarão disso. Deram resultados consistentes? Estamos, de fato, mais seguros? O discurso é muito parecido com aquele já apregoado em outras épocas no Estado. Épocas que, sinceramente, não quero que revivamos, nem em nome da "segurança". Espero, sinceramente, tenha me equivocado na interpretação. Por fim, renovo minha confiança na capacidade intelectual de nosso secretário e torço para que, de fato, apresente-nos uma nova política de segurança pública, que nos permita dizer ser ela verdadeiramente cidadã, abolindo essa ideia de que estamos diante de "inimigos" (pecha facilmente colocada em qualquer um) que precisam ser eliminados. A declaração do secretário, que (ainda) considero suficientemente preparado para a missão, reproduzida pelo jornalista Bernardino Souto Maior Neto, causa-nos espanto. Eis o dito: "bandido em Alagoas na minha gestão só tem dois caminhos a seguir: ou se entrega indo para cadeia ou morre". Agora vamos ao não dito (expressamente), mas que está nas entrelinhas: caso não se entregue, poderia o investigado (presumidamente inocente) ser abatido pelas forças policiais. Respeito quem assim pensa, muito embora não concorde. O que me preocupa não é o fato de saber que boa parte da sociedade pensa da mesma forma, ela tem esse direito, mas que esse é o pensamento de nosso secretário, agora conhecido por todos, gestor dos principais artífices da segurança pública e guardião de nossas garantias. Mas há mais. Segundo ele, é preferível "um milhão de bandidos mortos que um policial em Alagoas assassinado". É razoável que se pense assim. No confronto, claro, sem que haja alternativa menos invasiva, é preferível que os profissionais em segurança saiam ilesos. A hipérbole, que parece não ter sido dita à toa, é poderosa. Com isso, abre-se a clara possibilidade de que o dito seja sempre utilizado como justificativa para todo e qualquer evento em que nos deparemos com mortos pelas forças de segurança. Dirá, o policial, "era ele ou eu". E, acreditem, não é raro esse tipo de justificativa que embasa os tais "autos de resistência". O secretário ainda diz não querer que "seu policial" (um indicativo de possível comportamento paternalista, protetor, portanto) saia de casa para matar, muito embora já o tenha "autorizado" caso o "bandido" resista. Assim também pensa nosso governador? É importante saber. Essas fórmulas já não teriam sido utilizadas antes? Os mais experientes certamente se lembrarão disso. Deram resultados consistentes? Estamos, de fato, mais seguros? O discurso é muito parecido com aquele já apregoado em outras épocas no Estado. Épocas que, sinceramente, não quero que revivamos, nem em nome da "segurança". Espero, sinceramente, tenha me equivocado na interpretação. Por fim, renovo minha confiança na capacidade intelectual de nosso secretário e torço para que, de fato, apresente-nos uma nova política de segurança pública, que nos permita dizer ser ela verdadeiramente cidadã, abolindo essa ideia de que estamos diante de "inimigos" (pecha facilmente colocada em qualquer um) que precisam ser eliminados.

As declarações oficiais que exaltam a disposição de letalidade na atuação dos agentes de segurança pública possuem consideráveis cargas simbólicas no contexto alagoano. Não se pode esquecer que o Estado se notabilizou ao longo dos séculos como um dos mais violentos do país, e ainda hoje o é, onde, quando não era omisso, participava, através de seus agentes, ativamente de violações aos direitos e garantias fundamentais. (MAJELLA, 2006)

Segundo PAIGE (2009, p. 127), “a teoria e a prática convencional da segurança deriva, em última instância, da ameaça da letalidade”, ou seja, a mensagem, por vezes, como no exemplo acima trabalhado, é cristalina: “queremos deixar-lhe absolutamente claro que iremos matá-lo”.

No entanto, a transmissão de tal ideologia, em nossa perspectiva, é contraproducente na gestão do sistema de segurança. Alardear a morte dos que resistem às investidas das agências policiais é, digamos, “dar força ao inimigo” e, por consequência, estimular sua agressividade, sua disposição para resistir. Os próprios policiais, portanto, estarão mais expostos a serem recebidos de forma mais agressiva nas ocorrências das quais participarem. A disposição para matar pode atrair uma reação da mesma proporção.

Para PAIGE (2009, p. 127), absolutamente “ninguém está seguro a partir do momento em que exista alguém determinado a matar”, mesmo o Estado com todo seu legítimo aparato bélico. Além disso, o pesquisador conclui dizendo que “a engenhosidade letal vence toda forma de defesa, desde escudos, armaduras, fossos, muros e castelos até os abrigos para bomba atômica”.

As autoridades constituídas e suas relações acríticas com a mídia, queiram ou não, com seus discursos belicosos e com suas posturas de enfrentamento, acabam influenciando seus comandados e a própria sociedade, que acaba absorvendo-a como a principal forma de resolução de conflitos, na manutenção desse círculo vicioso da violência. Veja-se, por exemplo, o número de pessoas que já foram mortas em confronto com as agências policias só este ano.

VASCONCELOS (2014, p. 63) nos dirá que “se é verdade que as autoridades constituem modelos de referência para a sociedade, as práticas de violência no âmbito do próprio Estado produzem efeitos estimuladores de violência entre os segmentos sociais”.

Para que se tenha uma ideia do caldo cultural autoritário com o qual historicamente convivemos, entre os anos de 1980 e 1990, uma frase, tão contundente quanto a proferida recentemente pelo secretário de segurança do Estado, ressoava de autoridades do mesmo sistema de segurança pública: “bandido bom é bandido morto”. Era, inclusive, lema da atuação das agências policiais há época.

Importa dizer que, para GAIA (2011, p. 33): “Na AD [Análise do Discurso], a ideia de que todo discurso retoma outros discursos indica um diálogo com outros sujeitos e com outros momentos, integra a base da categoria interdiscurso, sendo constituído não somente de intenções, mas igualmente de convenções. O interdiscurso é ‘[...] o espaço da alteridade discursiva, a possibilidade de fazer circular, em novos discursos, formulações já enunciadas anteriormente’.

MAJELLA (2006, p. 20) argutamente constata que “a violência é parte integrante da história de Alagoas, talvez a sua principal característica e o traço que melhor a define”. Sobre a participação do Estado nessa dinâmica, o historiador alagoano conclui que “o Estado, como conhecemos, tem sido o seu principal mantenedor e cúmplice”.

Além disso, não é raro nos depararmos no noticiário alagoano com reportagens que, por exemplo, ao informar a morte de um indivíduo pela polícia, confere mais destaque a sua “ficha criminal” do que à necessidade do uso da força letal naquelas circunstâncias. Como se o passado do indivíduo conferisse legitimidade a sua morte independentemente das circunstâncias.

Não é difícil prever que, diante da força retórica de declarações como as que analisamos e da visibilidade que a mídia lhes concede, sem análise crítica, as autoridades passassem a ser cultuadas pela massa e por boa parte de seus comandados e admiradores como uma espécie de herói. Apontados como aquilo o que faltava para resolver o incômodo problema da segurança pública e do medo difuso de ser vitimado.

Na perspectiva de BECK (2011, p. 332), esse clamor social por “comando político”, apresentado como solução, vem acompanhado de diversos outros problemas. Ou seja: “a ânsia por uma ‘mão forte’ cresce na mesma medida em que o indivíduo vê o mundo vacilar à sua volta. O desejo de ordem e segurança reaviva os fantasmas do passado. Os efeitos colaterais de uma política que desconsidera os efeitos colaterais ameaçam converter estes em seu contrário. Ao fim e ao cabo, já não se pode garantir que o passado ainda não superado não se acabe tornando uma variante possível (ainda que sob outras formas) de desenvolvimento futuro”.     

Segundo a perspectiva de VARJÃO (2008, p. 20), com a qual concordamos, “há diferentes níveis, patamares e dimensões de violências e de debate público sobre violências e formas de enfrentamento de violências”. O problema é a forma atualmente utilizada não só por boa parte da imprensa alagoana, como também pela imprensa brasileira, para a discussão sobre o tema. Para a autora, também jornalista: “Enquanto construtores públicos de discursos, temos, pelo menos, duas escolhas a fazer: discutir maneiras mais cruéis de fazer frente aos atos cruéis ou formas mais humanas de preservar a vida; estabelecer parâmetros simbólicos instituidores de realidades mais próximas da barbárie ou da humanidade”.

É preciso, portanto, não só não supervalorizar notícias sobre violência, mas, sobretudo, deixar de lado o endosso acrítico dos discursos bélicos e abrir espaços para uma cultura de valorização da vida, proporcionando um ambiente em que a valorização da dignidade humana volte a florescer e a avançar no Estado. (VACONCELOS e PIMENTEL, 2011)

Não há, frise-se, de nossa parte, qualquer proposta de restrição ou de censura ao trabalho midiático, ao trabalho da imprensa de forma geral. Esperamos, tal como BOURDIEU (1997, p. 13), que nossas reflexões não sejam recebidas como uma espécie de ataque contra os profissionais da segurança pública ou da imprensa alagoana, não se trata de condená-los ou combatê-los, mas de alertá-los das perversas práticas antidemocráticas ainda em uso.

Referências:
BARCELLOS, Caco. Rota 66 – a história da polícia que mata. Rio de Janeiro: Record, 2015.
BATISTA, Nilo. Punidos e mal pagos – violência, justiça, segurança pública e direitos humanos no Brasil de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 1990.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco – rumo a uma outra modernidade. Trad. Sebastião Nascimento. 2ª ed. São Paulo: Ed. 34, 2011.
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão – seguido de a influência do jornalismo e os jogos olímpicos. Trad. Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
GAIA, Rossana. A política na mídia e a mídia na política. Maceió: Edufal, 2011.
LLOSA, Mario Vargas. A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. Trad. Ivone Benedetti. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.
MAJELLA, Geraldo. Execuções sumárias e grupos de extermínio em Alagoas – 1975-1998. Maceió: Edufal, 2006.
MIRAGLIA, Paula. Os municípios e a segurança pública. In: LIMA, Renato Sérgio de; PAULA, Liana de. (orgs.) Segurança pública e violência – o Estado está cumprindo o seu papel? São Paulo: Contexto, 2014.
PAIGE, Glenn D. Não matar é possível – por uma nova ciência política global. Trad. Bárbara Canziani Kristensen. Recife: Editora universitária UFPE, 2009.
PINTO, Nalayane Mendonça. Recrudescimento penal no Brasil: simbolismo e punitivismo. In: MISSE, Michel (org). Acusados e acusadores – estudos sobre ofensas, acusações e incriminações. Rio de Janeiro: Revan, 2008.
SCHWARTZENBERG, Roger-Gérard. O Estado espetáculo – ensaio sobre e contra o star system em política. Trad. Heloysa de Lima Dantas. São Paulo: Círculo de Livro, 1977.
SOUTO MAIOR, Bernardino. Alfredo Gaspar Mendonca diz que bandido em Alagoas tem dois caminhos ou se entrega ou morre. Disponível em: http://cadaminuto.com.br/blog/bernardino/266689/2015/04/03/alfredo-gaspar-mendonca-diz-que-bandido-em-alagoas-tem-dois-caminhos-ou-se-entrega-ou-morre. Acesso em 07 de abril de 2015. 
VARJÃO, Suzana. Micropoderes macroviolências – mídia impressa aparato policial. Salvador: Edufba, 2008.
VASCONCELOS, Ruth. O poder e a cultura de violência em Alagoas. 2ª ed. Maceió: Edufal, 2014.
_______; PIMENTEL, Elaine (orgs). As faces da segurança pública e dos direitos humanos em Alagoas. Maceió: Edufal, 2011.

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