Translate

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Memória da Pandemia nas Alagoas (IX): Diógenes Tenório Júnior. TEMPOS DE COVID-19



TEMPOS DE COVID-19 
 Diógenes Tenório Júnior

Advogado, membro da Academia Alagoana de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

 Tempi COVID-19 Les temps du COVID --19 COVID-19 Times

No momento em que escrevo este artigo, um conhecido meu já faleceu em virtude da infecção pelo Coronavírus: Seu Antenor, pai da minha amiga Nadeje Fidélis de Moraes. Dois outros prezados amigos meus, ambos octogenários, estão em UTI´s de Maceió, sedados e intubados há mais de três semanas, lutando bravamente pela vida: Marcello Lavenére Machado, advogado dos mais brilhantes e ex-presidente nacional da OAB, e o cônego Rubião Lins Peixoto, sacerdote virtuoso e grande devoto da Virgem Maria. Também os meus jovens amigos Rafael Brito, Secretário de Estado do Turismo, e Eduardo Oliveira, vereador em Murici, foram diagnosticados com a doença, e estão recolhidos em suas residências, cumprindo os protocolos médicos. Não são números frios, meros dados estatísticos; são pessoas próximas de nós, seres humanos que foram apartados dos seus afazeres, das suas famílias e dos seus afetos, vitimados por essa pandemia avassaladora que a cada dia mais nos surpreende, nos amedronta e nos irmana num só sentimento de estupefação e de fragilidade.     

Reclusos em casa, numa quarentena forçada porque necessária, estamos todos reaprendendo a conviver em família, nós     que já estávamos habituados a mal nos vermos durante a semana, cada qual mergulhado no turbilhão das suas inúmeras atividades profissionais e sociais. Ouvir músicas há muito silenciadas, reler livros que desafiavam a poeira e as traças, olhar com mais atenção antigas fotografias perdidas em velhos álbuns, observar detalhes curiosos de quadros e esculturas que adornam os nossos lares. Domar a muito custo essa saudade danada do abraço e do beijo dos nossos parentes e amigos, das conversas animadas em torno de uma mesa farta, das orações comunitárias nos templos da fé de cada um, do sair por aí, sem pressa nem destino certo, sorvendo o ar das ruas e estradas sem medo de contaminação alguma. Vontade imensa de brincar com as crianças no chão, de rolar na grama com o cachorro estabanado, entre lambidas e mordiscões carinhosos. Eu, que gosto de gente, sinto falta das conversas com os que me fazem bem, do aprendizado que usufruo no convívio com as tantas pessoas que sempre têm muito a me ensinar. Ainda sem vacina descoberta, e com os tratamentos patinando na fase experimental, valemo-nos das máscaras, do álcool em gel e da água com sabão, na tentativa esperançosa de que o Covid-19 não nos colha de inopino e nem nos arraste para a tragédia de um respirador artificial.

Em meio a tudo isso, quando eu chegava a achar que nada vindo do ser humano poderia mais me surpreender, eis que tenho as minhas redes sociais abarrotadas, todos os dias, por centenas de mensagens estapafúrdias, que profetizam o caos e abalam o nosso já fragilizado estado emocional. De uma hora para outra, uma porção de gente acha que entende tudo de medicina, de saúde pública, de economia e de política internacional, e se põe a opinar sobre assuntos que não domina, a divulgar textos apócrifos, a mencionar fontes sem o menor cuidado de antes verificar a sua veracidade ou não. O sujeito me manda um vídeo com a chamada: “hospital tal está vazio”, mas não há nenhuma prova de que aquela filmagem realmente seja do hospital mencionado, nem muito menos de que tenha sido filmado naquela data; outro me manda uma foto com a legenda: “fulano entra com ação no Supremo contra beltrano”, contendo apenas um recorte dos pedidos finais de uma ação qualquer, sem data, sem assinatura e sem o órgão judicial ao qual teria sido dirigida; um terceiro me afirma que, “de certeza”, o Covid-19 faz parte da estratégia de uma guerra química mundial pela tomada do poder – mas de onde provém essa “certeza”, se o remetente da mensagem não mostra nenhum estudo científico, nenhum documento oficial, nenhum dado concreto que leve a tal conclusão? Ontem mesmo, recebi em meu celular o recado de um conhecido, alertando-me para não utilizar, de jeito nenhum, as máscaras que serão distribuídas pelo Governo do Estado, pois elas seriam adquiridas na China, propositadamente infectadas, para disseminar o vírus e desestabilizar a economia do país. Meu Deus do céu! Em tudo enxergam um golpe, uma conspiração, uma artimanha, como se o mundo estivesse orquestrado para acabar com o Brasil. E o que eu acho pior: acham-se com preparo técnico-científico para discordar dos médicos, para questionar entidades sérias e respeitadas como a Organização Mundial da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz e para sugerir o descumprimento das recomendações das autoridades sanitárias, embora sejam advogados, agrônomos, policiais, magistrados, bancários, aposentados, vagabundos e outras coisas mais – enfim, gente que não é da área da saúde e que não possui conhecimento de causa sobre tais assuntos, e que faria mais bem à humanidade se guardasse somente para si as suas elucubrações geniais.     


Meu velho avô Zezinho Fogueteiro costumava repetir: “Só falo do que eu entendo, seu Dioginho”. Para quem pensa que os ouvidos alheios são privadas, é sempre atual a admoestação de Santo Agostinho, Doutor da Igreja: “O pior pecado é o que se comete contra o silêncio”.             

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Memória da Pandemia nas Alagoas (VIII): Luiz Sávio de Almeida Até aí, morreu o Guedes: o general e o futuro

As suspeitas de "negócios ocultos" do ministro Paulo Guedes ...
Até aí, morreu o Guedes: o general e o futuro

Luiz Sávio de Almeida

Professor Doutor e Emérito da  Universidade Federal de Alagoas

Do ponto de vista de ação governamental, hoje, na área de saúde, houve um interessante pronunciamento do Ministro Braga Neto; ainda não tenho condições de falar, de interpretar, mas, para mim, uma coisa parece certa: o liberalismo de Guedes está meio capenga.  Isto é uma posição que, sendo verdade, muda um pouco o modo como estava sendo pensada a recuperação do país, que jamais poderia prescindir da ideia objetiva de planejamento, o que implica em forte presença do estado. 
Para mim, um dos grandes desvios de rumo do Brasil nestes dias conturbados foi, justamente, o caminho do tipo de liberalismo doutoral de Chicago, que, por vezes, quando foi mexer na aposentaria, nos deu o Chile como exemplo maior, até que o Chile teve suas ruas em guerra. Eu não duvido da capacidade intelectual do Guedes: jamais faria isto, mas não considero  que uma pessoa a raciocinar do ponto de vista das engrenagens do alto capital, seja  capaz de conceber as sutilezas sociais de um “subdesenvolvimento” como o nosso e sair com uma proposta onde a mudança seja vista na complexidade estrutural que tem.
Para sairmos do embrulho, eu não tenho dúvida: o velho planejamento deve voltar, mas lembro aqui de um “antigo” sociólogo que deixou de ser citado e que era o Gunder Frank, ao dizer que a América Latina era o cemitério do planejamento. Deixando isto de lado, se o planejamento entra no contexto, o estado que o vai gerenciar tem que estar apto para isto e, neste sentido, algumas condições deverão ser buscadas:  o que se vai propor deve sempre estar em diálogo,  não se pode deixar que o “velho” absorva o novo como se usa fazer e se deve deixar que a modernização a ser realizada procure maximizar a igualdade. Não se pode querer que o planejamento equalize a sociedade, mas que pelo menos aproxime-se de um objetivo que não  é fantástico e nem mera fantasia:  nós não somos apenas iguais perante a  lei, mas, sobretudo, perante a vida. A liberdade se traduz em coisas concretas: a de vestir, de comer, de morar.
É muito difícil a nação andar, com um Presidente a dizer que a Constituição é ele.  Este tom vai ter que mudar, mas, em resumo desta conversa de hoje, acho que as ideias de planejamento  e de intervenção vão se impondo: não há, pelo que supomos, recuperação sem planejamento. Os exemplos são muitos. O que precisamos é ter um estado consequente e uma profunda renovação estrutural. Como será se é que será? Não vejo nisto tudo, uma ideia de um Plano Marshall ou de recuperação da terra arrasada que foi o Japão e nem mesmo o combate americano aos tempos de depressão.
Os países vão ter que começar a descobrir os seus rumos e nós vamos ter que descobrir os nossos. Pelo menos, o Ministro demonstrou que enuncia teses,  que enxerga uma articulação entre economia e estrutura e que  parece entender: a salvação de uma, depende da salvação da outra.  Não sei o que o Ministro vai detalhar, mas pelo menos existirá o que discutir. Suponho que Guedes nada iria poder propor,   e isto por insuficiência teórica de seu modelo que implica em determinada proposta de economia política.
Que é preciso retomar a economia, ninguém duvida, acho eu.  O Brasil não suportará muito mais tempo e eu ainda acho que esta confusão nos levará às proximidades de Julho, rezando-se para que não haja uma segunda onda a depender das consequência de políticas quanto ao isolamento e quanto o que o virus tem ainda a revelar.  O positivo disto tudo,  é que a retórica do tipo de liberalismo de Guedes, parece estar perdendo posição: quem sabe, nasça outra com um perfil mais humano, no sentido da reconstrução pelo pobre, pelo máximo de nivelamento de oportunidades de acesso aos bens e serviços gerados pela produção. A pergunta que faço, nem é ao governo Bolsonaro, mas destina-se ao estado brasileiro: o quanto é preciso que mude, para que haja mudança?  E o tempo que é, como se usa dizer, implacável?
São muitas as implicações em um plano de reestruturação e não seria exgerado dizer que deve pretender refazer o Brasil.  Suas teses são uma coisa, suas metas são outros, o modo de se fazer ainda é outro, mas vem uma pergunta essencial: qual o país que se deseja emergindo desta crise? E esta questão andará, também, pelos recursos. É muito caminho a andar e o pior é que é urgente. Então, melhor pensar em pequeno passos de correção e ir ampliando. A cautela talvez seja mais do que oportuna.
Para isto o país precisa poder andar. É incrível este possível choque entre a urgência e o longo prazo. Como se vai resolver isto? Com que dinheiro o país enfrentará? Pelo menos, o General tinha o que dizer da forma que disse. O Guedes... Uma vez li uma frase incrível e acho que em um texto do Aloísio Azevedo: "Até aí  morreu o Guedes!".

Esta série tem por objetivo publicar depoimentos sobre  como se pensa e se lida com o Corona em Alagoas.  Está aberta a toda e qualquer pessoa, de qualquer tendência. É uma documentação organizada, sobretudo, para um futuro estudioso de como a epidemia foi vista e vivida em Alagoas. O material será publicado  paulatinamente no  suplemento Campus do jornal O Dia. Está sendo  organizado por Carlos Lima, Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas e Luiz Sávio de Almeida. O blog pode discordar de parte ou do todo da matéria por ele  publicada.

Memória da Pandemia nas Alagoas (VII): A Madona de Pedro Cabral



Desculpe, mas não resisti. É a beleza comovente deste seu trabalho, que me levou a pensar em quantas mães choram seus filhos! Desculpe, coloquei sem sua autorização, achando que a dor humana justificaria. Se errei, um beijo na sua testa, mas eu gostaria de, em seu nome, ofertar a imagem ao povo de Alagoas que tem em sua arte, uma obra sobre a sorte e a vida que vive.

Memória da Epidemia nas Alagoas (VI): A dor vista por baixo


Este é o sofrimento  que se abre como uma ferida. Explodiu e neste momento, este homem que não sei quem é, soma, em seu discurso, a tragédia, a dor. Choremos com ele e tomemos a consciência do que ele pede. Clique! Sursum corda!

A epidemia vista por baixo
https://www.facebook.com/othonielpinheiroalagoas/videos/173041347207425/UzpfSTEwNTEyMjI4NjI6MTAyMjAyMzQ5MDc3NTY4MTQ/

Memória da Pandemia nas Alagoas (V): Pronunciamento médico em Alagoas (23/04/2020)



É preciso escutar as autoridades públicas, garantir a segurança e favorecer o trabalho médico!
Escute este áudio: Médico Wanderley
Por favor, escute!
Clique no link
https://www.youtube.com/watch?v=Z0pYcmYzrQo&feature=youtu.be&fbclid=IwAR2Q1CmDq6n9uqAsuRDjFrbVOYCzYIPzEK8UR0-MeA9vos00h5_WyvISgZk


Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Campus do Sávio Almeida

PESQUISE AQUI