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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Luiz Sávio de Almeida, O começo do crepúsculo em Passagem

 

uinta-feira, 24 de julho de 2014

Rio São Francisico: o crepúsculo e as águas em Passagem

O texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.


Río São Francisco: el comienzo del crepúsculo
Fiume São Francisco: l'inizio del crepuscolo
 
 
O começo do crepúsculo em Passagem
 Luiz Sávio de Almeida

      Passagem é minha velha conhecida; mas, quando menino, sempre a vi de longe.  Via as lanchas saírem e voltarem, mas nunca atravessei o rio.  Houve uma época que meus pais íam muito. Faltava luz em Penedo e eles pegavam a lancha pra irem ao cinema do outro lado do rio. Somente fui à Passagem depois e adulto e ouvindo a falar de Neópolis,  uma palavra meio chata e até engrola um pouco a língua. Ela exige que a gente pense em um néo e em uma polis. Néo de novo, polis de cidade. Ela engana, faz a gente sentir-se  inteligente ao decifrá-la. Cidade Nova. Era uma cidade calçada na famosa fábrica de tecidos que aconteceu por lá.

      Penedo está ao fundo; na verdade eu não teria visto esta paisagem.. Aquele hotel não existia. Era, se não me engano, um sobrado. Derrubaram. Fizeram o Hotel São Francisco.  Corre uma urban legend engraçada. O dono do Hotel era muito rico e teria se chateado com vedetes de uma companhia que passou em Penedo. Elas diziam que a cidade não prestava, por não ter um Hotel. Aí, ele pegou dinheiro e fez uma obra monumental, uma imensa representação de um capital que já estava decadente. Macacos me mordam: a falência deveria estar prestes a bater, em face, inclusive, da crise têxtil. Macacos me mordam novamente: um dinheiro que fez falta.


     Hoje, as lanchas também não são as mesmas que vi. É de se ver a brancona turistosa, pensada para descer até a foz, pssando pelos canais e  caindo do manejos das marolas, dando o bordo antes que o mar começe a falar gosso.


     Até que deste ângulo, ela fica bonita. Salve a beleza. Acho que a foto foi na hora de uma preámar. O rio parece um piscina, sem marola, sem balançar canoa salvo pelo peso, algumas vezes, da refrega nas velas.

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Luiz Sávio de Almeioda. A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas

 

Adentrando a Rua da Penha

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Luiz Sávio de Almeida. A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas

  Penha  en Penedo: una calle y sus coloridas ventanas   

Rua da Penha a Penedo: una strada in bianco e nero e le sue finestre colorate 

 Rua da Penha in Penedo: a street,  black and white,  and its colorful windows  

 Rua da Penha à Penedo: une rue en noir et blanc et ses fenêtres colorées

 Um pequeno bilhete sobre uma Rua em Penedo

ALMEIDA, Luiz Sávio de. A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas. Tribuna Independente. Maceió, 22 abr. 2012. Contexto
 
       Estamos desenvolvendo um trabalho de documentação sobre Penedo e nosso destaque é a memória da Rua da Penha. Sem dúvida, é um trabalho que passa por nossa vida pessoal, desde que fomos criança naquele pedaço da cidade. Contexto presta hoje, uma homenagem à cidade de Penedo e convida para esta espécie de crisma da Rua da Penha, este ente maravilhoso do urbano penedense.
      Este trabalho, graças ao Professor Sérgio Onofre, teve condições de se desenvolver com a participação de duas alunas de turismo da Universidade Federal de Alagoas, campus daquela cidade: Laissa Maria da Silva e Francismara Costa Torres.  Ambas são a coluna mestra de nossa edição e merecem o nosso reconhecimento e o nosso elogio pelo modo sério como encararam este grande exercício de evocação que anda na fronteira entre uma etnografia urbana visual e a imagem como relação histórica e estimulante da evocação. Este número bem poderia chamar-se Rua da Penha: evocação nº 1.

Sávio de Almeida


Laise Maria da Silva: estudante de turismo da UFAL  no campus de Penedo e Coordenadora Estudantil de nosso Projeto. Parte do material fotográfico publicado é de sua autoria. Vice-Coordenadora do Projeto Piassabuçu


Francismara Costa Torres. Coordenadora do Projeto  Memória de  Piassabuçu. Estudante de Turismo da UFAL, campus de Penedo.  Coordenadora Adjunta do nosso projeto em Penedo. Parte das fotos publicadas é de sua autoria. 

  A Penha em Penedo: uma rua em preto e branco e suas janelas coloridas

Luiz Sávio de Almeida


Os começos da Rua da Penha

       O que seria uma rua? O que estaria significando? Difícil conseguir uma forma de juntar todas as possibilidades que a palavra abre, com vistas ao enfoque a dar ao texto e às experiências vividas.  Temos a rua como artéria, mas temos e densamente, a rua como vida e experiência coletiva.  Em nosso caso, interessa uma rua que é componente da articulação do território da cidade e que integra parte de suas áreas centrais baixas e altas.  Aliás, diga-se de passagem, é pela Rua da Penha que circulam, também, os que saem de Penedo em direção a norte e ramificações a oeste e leste. A Rua da Penha é um tronco.

A rua e nosso lugar

Adentrando a Rua da Penha






Desde que me entendo de gente, que a rua é uma subida e a descida sempre foi pelas Rosário estreita, a que vai desembocar no largo antes da Catedral. Isto é sinal que a cidade de Penedo é montada em partes altas e baixas. O Cajueiro Grande, de rua larga, possibilitava ser mão dupla e o trânsito pesado vindo do ou para o rio bifurca-se na praça do coreto. A Rua da Penha é uma linha que acompanha uma colina, rua plantada em corte e guardando correspondência ao Rosário Estreito e a intimidade entre ambas é testemunhada pela declividade do Beco da Preguiça, ele mesmo uma ladeira.  A rua começa no oitão do Gabino Besouro e vai até a Praça, mas, na minha geografia urbana de Penedo, ela entra sem cerimônia pela Praça e para na altura do Colégio das Freiras, onde sempre demarquei o início do Cajueiro Grande.


Área da Casa do Penedo

Eu morei quase defronte do Beco da Preguiça; entre ele e a casa dos meus pais, ficavam a bodega do Seu Cazuza e a casa do Dr. Agnelo; na verdade, era somente atravessar a rua e já estaríamos no Beco da Preguiça; na minha contagem, morávamos no terceiro quarteirão, contando após a subida acentuada da ladeira em frente ao Ginásio Diocesano que o povo chamava, não sei a razão, de Jegue Doido, na magia de transformar o gê em ji. Vindo da parte baixa, a rua seria alimentada pelo trânsito pesado que passasse pela frente do Jegue Doido, subisse a ladeira à esquerda – não tinha como ir direto – e dobrasse à direita, na entrada ao lado do Gabino Besouro; poderia vir pelo ramo do Convento, mas seria trânsito leve de carro de passeio, como ainda hoje se dá. 

O encontro com o Beco da Preguiça

Cada casa é um caso



O tempo mudou a Rua da Penha; o belo sobrado em frente à Igreja caiu; algumas fachadas sentem o peso do desgaste do tempo, mas ela, seja como for, sempre teve o poder de evocar, de ser uma evocação.  Em que reside e se funda este poder, a não ser na possibilidade das lembranças sobre ela e por via delas, a rua torna-se repartida, comungada pelos que vivem e viveram seu mundo. Na Rua da Penha existem atualidades, desatualidades e transições. A rua pressupõe algum tipo de comunhão sobre o passado e é uma comunhão sobre a diversidade de vidas e soluções. Deste modo, nenhuma casa repetiria a outra ou, em outras palavras, em cada casa uma história ou cada casa é um caso e, como sabemos, cada caso é um caso de tal modo que evocar, no caso, exige a filigrana das particularizações.

       A diversidade de vidas na rua a transforma em um mosaico do que se costuma chamar de destino, situações individuais de vidas, numa série de imponderáveis que obrigatoriamente irão fazendo sentido no fracionamento e algumas vezes no conjunto.  E quanto mais a vida passa pela rua, quanto mais vidas vão se formando, equacionando, propondo.  Jamais nós poderíamos pensar que um casarão cheio de troféus do Santa Cruz fosse um dia transformado em restaurante, que uma casa seria transformada em centro de memória e nem mesmo jamais poderia pensar, quando morávamos na Rua da Penha,  que iríamos buscar-nos nela e ela teria o que nos responder.  A rua seria cativa da memória? Esta é uma pergunta que martela as fotografias que foram produzidas nesta andada pela fronteira entre uma etnografia urbana visual e a imagem como relação histórica. Também se trata de uma andada entre uma relação pessoal e o produzido por terceiro, de tal modo que o individual entra pela descaracterização das cores e pelos cortes, a evocação necessitando do toque de quem evoca no aprofundamento da relação entre o sujeito e sua história.

Chegando na  Praça

As famílias e os casos

A Rua da Penha demanda unidades de habitação e nelas, via de regra, estão as famílias. A casa tem uma história, a família também e ambas são um conjunto definido. São muitas as vidas que passam em uma casa, e muitas as casas que fazem uma rua. As histórias das casas e das famílias podem se cruzar de modo intenso, ou apenas superficialmente no conjunto dos seus membros ou na particularidade de alguns. Mormente quando as amizades eram traçadas com os pais de família, tinha-se muito mais do que apenas a vizinhança; haveria o vizinho, mas haveria, também, o amigo das famílias. Por via dos meus pais, a grande ligação na Rua da Penha foi com Seu Pontes e Dona Virgínia; a ramificação secundária foi com o Dr. Agnelo e Dona Ida.  Um era o vizinho do lado direito e, por sua vez, vizinho da Bodega do Seu Cazuza: este era o Dr. Agnelo cujo consultório funcionava  na sala da frente de sua residência. O vizinho da frente era Seu Pontes e morava na casa que antes fora da Dona América que, ao enviuvar, foi morar mais abaixo com  seus pais.

O senso da evocação


O engraçado é que o nome Penha me faz interligá-la a Luiz Gonzaga e à Igreja da Penha no Rio de Janeiro. Sempre dou este salto de Penedo para o Rio de Janeiro e lembro a virada de carro que Luiz Gonzaga sofreu, merecendo um baião composto parece que por seu irmão Zé Gonzaga: “Luiz Gonzaga não morreu, nem a sanfona dele desapareceu, seu automóvel na virada se quebrou, o zabumba se amassou, mas o Gonzaga não morreu”. Disso veio o agradecimento de Luiz Gonzaga em outro baião: “Demonstrando a minha fé, vou subir a Penha a pé, pra fazer minha oração...”. Ligo dois elementos importantíssimos em minha formação: Penha e Luiz Gonzaga.
 O sanfoneiro foi à Penha para demonstrar a sua fé; eu vou à Penha para me encontrar no velho calçamento, um imenso sabor de minha experiência como alagoano, numa espécie de referência teórica de que identidade é uma construção por via de experiências vividas: identidade é uma vivência. Na minha arqueologia pessoal, juntam-se calçamento e Luiz Gonzaga no grande abrigo de vida que é a rua. É que tudo evoca.  Estou dentro de uma arte que foi dominada por Nelson Ferreira em dois de seus frevos magistrais, justamente chamados de Evocação 1 e 2. Nelson Ferreira sai chamando pelos nomes: Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon... Individualiza para perguntar sobre os blocos famosos. Os nomes naquele senso imenso de carnaval estão ligados a blocos. Todos os nomes de minha Rua da Penha estão ligados a uma determinada situação, a uma determinada condição.

Evocar... Quem sabe todos estes nomes que surgem são infinitamente postos na história de uma rua, que, na verdade, em parte era o resultado de um caminho, de uma saída da cidade que se formava. Cada nome chama o que se recorda, e a rua passa a ter uma vida espalhada e todo um imaginário se trança por uma lógica que aquele que evoca nem mesmo conhece e nem percebe. Há todo um imaginário da Rua da Penha que se dilui no tempo, como se as representações que se decorrem fossem determinadas pela coletivização de um tempo que depois vai ser evocação.  É que seguindo mais de perto a discussão de Doise ou talvez a ampliando, na ordem das representações, o tempo é o elemento fundamental.  A rede que se estabelece numa rua, tende a ser efêmera enquanto representação e permanente enquanto evocação. É por isso, que a linguagem popular cria uma fórmula genial para desatar este nó teórico que nosso texto vai dando: No meu tempo...!  Os tempos então se confundem: o tempo da rua será o tempo que era nosso e, interessante, por este trabalho tenho a noção de que continua sendo.

A rua é uma rede, como qualquer outra, ou seja, um modo específico de relações e, neste sentido, tudo da rua é um relativo a tudo na rua.  Como se nota, há uma matriz que se apropria ao chamá-la de minha rua, algo bem mais forte do que a rua em que moro. Quando o tempo a destaca de mim, quando os entrelaçamentos ficam vazios da experiência atual, quando ela se torna uma evocação ela assume uma condição específica na linha da memória. Toda rua tem seus Felintos; é por isso que sempre foi belíssima a pergunta cheia de homenagens feita por Nelson Ferreira: “Cadê Mário Mello?”. A experiência atual se acaba quando o poeta diz: “Partiu para a eternidade!”. A eternidade que pode ser evocada. Depois, o poeta frevístico traz a resultante da evocação ou o que vamos chamar processo de evocacionalização na fórmula do lá vem Mário. Mário Mello foi encontrado, assim como encontro a Rua da Penha, numa das formas de sua vida.



Cadê a Rua da Penha? O que existe de permanente na rua enquanto ela existir é a própria rua, e ela é um composto pelo tempo; quando vou à Rua da Penha, vou a uma história e viabilizo a mim mesmo nesta história.  Neste passo, eu sou também a alma da rua, elemento com o qual João do Rio teve um belíssimo encontro. A rua certamente tem alma e a rua é um universo de memória. É esta mistura de arrazoado teórico e evocação, que me levou a querer documentar sistematicamente a Rua da Penha, aquela rua suave, apesar de ser uma artéria de denso tráfico, uniformemente plasmada em renda, se bem, que se diferencie de padrão nas cercanias da pobre igreja, cujo teto me fascinava nos tempos de menino, com a santa nos olhando na missa, estivéssemos onde estivéssemos.
Neste ponto, vejo-me diante de uma categoria que Graciliano Ramos ressaltou: o sentir. Ele escrevia ao poder sentir. Isso é parte da minha fascinação pela Rua da Penha: eu consigo efetivamente senti-la. O sentir dava longo curso à escrita do Graciliano Ramos; desejo apenas comparar o sentir, pois qualquer outra seria descabida. Eu evoco a Rua da Penha por poder senti-la. Tem algo a ver comigo e então eu posso percebê-la. E a ela dou a minha dimensão pessoal. Será que eu sou a Rua da Penha? Seguramente uma parte de mim é.



Um pouco sobre o trabalho

Sérgio Onofre conseguiu duas estudantes para trabalharem e partimos para ensaiar a documentação da Rua da Penha, começando pelas fotografias e vídeos, depois cadastrando para realizarmos entrevistas com os moradores mais antigos da rua, em busca de suas evocações. O trabalho tem como título provisório: Memorial da Rua da Penha. Começamos e do material do primeiro teste que foi realizado, escolhemos umas poucas fotos, transformando algumas em preto e branco e realizando cortes, de tal modo que fosse traçado o contraste entre a grandeza panorâmica sobre a rua e o detalhe das janelas das casas, considerando a janela como um limite entre o público e o privado. É daí o nome desta matéria, que publicamos em homenagem, à velha e querida cidade do Penedo, deixando a rua em branco e preto e dando o tom colorido de suas casas, a partir das janelas, bem como evidenciando a espécie de mistério entre a casa e seu caso.





É preciso levar em conta, a espécie de alquimia que se realiza: enquanto as fotos são produzidas na atualidade do fotógrafo, pela intervenção nas cores e na composição, nos as desatualizamos. É uma forma de possibilitar a evocação que sempre leva a um passado misturado com o tempo, sinal, mais uma vez, de que a memória é um processo e não a cristalização de uma informação. A evocação vai pinçar o traço que se torna a bem dizer fundante da busca da experiência ou da vivência que é bem mais do que o vivido: é a circunstância do vivido. A escrita com a luz – que é a fotografia, mas aqui com as implicações da infografia na marcha da tecnotrônica, termo de Darci Ribeiro –, foi continuada na medida em que tudo se desloca para o processo da evocação. O que foi produzido não tem compromisso com a realidade, embora indique sobre ela; na verdade, o grande objetivo seria transformar a rua num senso ubíquo com ele sendo estendido ao tempo e relativo aos casos da própria rua. A utilização aqui e ali de casas e casos não é um divertimento com a linguagem, mas uma indicação da singularidade no coletivo urbano da rua que nos interessa. A rua passou a ser uma população de possibilidades e dela retiramos a amostra da evocação. Será que a rua foi virtualizada? A evocação necessariamente virtualiza? Ampliar a discussão seria fugir ao objetivo deste texto que é simples: uma viagem na Rua da Penha.



As fotos transformadas em preto e branco foram trabalhadas em contraste e brilho, visando direcionar o olhar, pedir interrogação, dar sentido coletivo à imagem. A foto colorida recebeu apenas o corte, procurando levar uma pergunta: se a janela fosse aberta, que filme se iria ver, considerando que se cada casa é um caso, cada janela abre para um processo de natureza acentuadamente misteriosa? No momento, é o que nós temos a oferecer: Laissa Maria da Silva, Francismara Costa Torres, eu e também e com toda razão: Sérgio Onofre.
A rua foi trabalhada sistematicamente; foi fotografada no início e depois, em intervalos regulares de passos, o pesquisador formava um ponto e na posição leste fotografava o extremo oposto, olhava noroeste e passava para a posição oposta, dando-se a mesma sequência, mudando o que deve ser mudado. Cada foto foi registrada em ficha específica, constando a data em que foi tirada, o autor e a hora. Somente as que fizeram parte do teste em sua totalidade foram trabalhadas; algumas poucas janelas não pertencem a este conjunto. O primeiro resultado do projeto está aqui.  Contexto quer agradecer a parceria do curso de turismo da Ufal, a Sérgio Onofre e, sobretudo, a estas duas meninas que trocaram lazer por conhecer, por enfrentar o campo, exercitar o olhar. É o começo da vida acadêmica que se esboça.
Agora, ande na Rua conosco.

Luiz Sávio de Almeida. Propriá: sua igreja e chaminés

   Quarta-feira, 24 de julho de 2014  San Francisco River, Propriá City

Propriá:  sua igreja e chaminés
Luiz Sávio de Almeida
 
   As fotos foram tiradas durante a Opara ou Racha II. Propriá sempre me chamou a atenção por alguns fatos simples. O primeiro deles é o lamento absolutamente triste e gemido de Luiz Gonzaga em um baião que fala da Rosinha que ficou em Propriá.  Outro é mais família:  é lá que se encontra enterrada a minha avó Adelaide,  mãe  de meu pai.  É vizinha do Cedro, onde havia uma famosa carne do sol. E finalmente, recordo uma cachaça que tomei em Porto Real do do Colégio.

   Era meninote. Minha mãe foi até Arapiraca, passar o Natal com a vovó Dondon, que morava na casa da Tia Lurdes. O casal aproveita e vai visitar a velha Adelaide.  Pelo que me  recordo, ainda não havia a ponte ligando Alagoas e Sergipe e que seria tão reclamada pelo povo do Penedo. Já estava construído o hotel que  ficava  perto da estação de Colégio.  Tomamos dois quartos. Lembro dos banheiros estarem imprestáveis e o cheio nauseabundo que assumia os ares. 

   Meu pai e minha mãe tomam uma canoa. Preferi ficar. E fiquei e emburaquei na cachaça e o resultado foi quase uma coma alcoólica, e quem sabe não  estive. Lembro de vomitar sem parar com o rosto quase dentro da latrina imunda.  Barbaridade. Propriá me olhava do outro lado, rindo sem parar. Pela segunda vez: barbaridade.

   


Aqui está a famosa ponte numa péssima fotografia. A ponta da canoa se intromete e um pequeno ramalhete de baronesa desce devagar. A baronesa desce. O rio às vezes leva um balsedo para o mar. É um belo espetáculo.





Eis a estranha vista da cidade com as torres sem proporção e sem harmonia.  A sujeira domina a beira desta praia. Um velho ponto comercial em evidência, foi um restaurante. Hoje está completamente abandonado. Já almocei várias vezes aí. Do lado direito, nas noites de sexta a domingo, funciona a vida boêmia da cidade.






Aqui, aparecem os espigões das chaminés, tempo das beneficiadoras de arroz, que foram sumindo com a mudança do arroz de vazante.









Aí está a lateral da igreja. Sou fascinado pelo prédio que se encontra à esquerda. Nada entendo. Apenas acho bonito. Gosto de ver, mas de longe.





terça-feira, 29 de setembro de 2020

José Medeiros. Um pouco sobre a vida e sobre as águas de um rio

 

 

 

 

 

 

 

Memória: minha vida e as águas do São Francisco

domingo, 20 de julho de 2014 

Um pouco sobre a vida e sobre as águas de um rio
José Medeiros

Nasci numa fazenda, no município de Traipu, que era um santuário ecológico. Ao amanhecer, acordava ouvindo verdadeira orquestra de pássaros canoros. Mesmo no verão,  o sol não chegava a cauterizar toda a vegetação, na qual se escondiam teiús, perdizes e codornas.

Como era a minha pequena cidade

O que era Traipu? Uma cidade à moda antiga, de ruas estreitas,   calçadas com pedra rachão, ou mantidas em terra batida e poeirenta; casas de biqueira, janelas de madeira maciça, sem venezianas. Nas ruelas secundárias predominavam residências de taipa, nem sempre rebocadas. Os nomes das ruas de outrora eram bem diferentes das atuais: Rua das Flores, Rua da Igreja, Rua Grande, Rua do Papouco. Os nomes dos amigos de infância guardavam sempre relação de origem com seus pais: Mitinho do Américo, Luizinho da Santinha, Zequito da Luizinha, Aurinha da dona Carminho. São retratos sem retoques e recordações de uma cidade do interior, de vida pacata e mansa, porém imagens bem vivas em minha memória.
Nas noites de lua cheia, coincidência ou não, o motor elétrico sofria defeito. A cidade ficava às escuras, e as famílias sentadas nas calçadas, colocavam em dia as modestas novidades e acontecimentos locais. Dentro da casa, os lampiões de querosene, os candeeiros e velas, garantiam as arrumações na hora de deitar.
A poucos metros dali, o rio São Francisco deslizava mansamente, voluptuosamente, e uns poucos afoitos arriscavam tomar banho à noite. Predominava o medo de piranhas (peixes vorazes) alicerçado nas muitas histórias de pessoas desaparecidas, nunca mais encontradas.
A cidade de Traipu, nos idos de 1940, foi testemunha de minha infância alegre e feliz. Durante o dia, após as obrigações da escola, braçadas no rio, em disputa de distâncias a serem alcançadas. Emolduravam esse cenário canoas com velas infladas, traquetes coloridos, canoas de tolda assim eram conhecidas. Para quem viajava nesses transportes fluviais a alimentação era especial, uma feijoada de tão bom  paladar que celebrizou a expressão ribeirinha: "tão gostosa quanto feijoada de popa de canoa".
Esse quadro não estaria completo se não fosse citado o novenário da festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Ó, durante o qual transbordava religiosidade, animado por foguetórios, zabumbas, dobrados musicais e leilões.


A serra Tabanga, o rio e a canoa

Uma aventura no rio

Neste verão, lembrei-me de um episódio ocorrido em minha adolescência. Morávamos (eu e meu irmão Rui Medeiros) na fazenda Mata Verde, à margem do Rio São Francisco. Além de futebol, nossos esportes favoritos eram a pesca – como eram fartos os peixes e pitus àquela época! – e a natação à distância, sempre tentando superar limites anteriormente conquistados. Éramos adolescentes, vivíamos uma crise paranóica de auto-suficiência, cada um querendo ser dono do próprio nariz, sem medo de enfrentar riscos e obstáculos. A cidade mais próxima ficava a uma légua de distância (6 km) de onde nos encontrávamos, e o percurso era feito em canoas.
Julgávamos conhecer os segredos do rio e tínhamos confiança em sermos exímios canoeiros. Certa tarde comuniquei à minha mãe que íamos à cidade fazer compras, pilotando uma canoa à vela. Um “Não” foi a resposta; um “Não” redondo e definitivo. Explicou, que em algumas horas cairia uma trovoada; o céu já se tomava de uma coloração azul-chumbo e o rio ficaria perigoso durante a chuvarada. Tentamos convencê-la, em nada resultavam os argumentos.
            Desobedecemos, rumamos à cidade. Na volta – e já estávamos no meio do rio – desabou uma chuva torrencial, seguida de ventos fortes, que mais pareciam um furacão; os raios e trovões se sucediam. A vela foi arrancada violentamente, inteiramente destroçada. Desesperados, remamos com todas as nossas forças para alcançar a margem do rio. Entretanto, isso já parecia impossível. De repente, julguei ouvir a voz de minha mãe que me orientava: “Filho, tenha calma, deixe a canoa ser arrastada pela correnteza; é o melhor que você pode fazer”. Parei o que estava fazendo e segui o conselho recebido. O barco foi levado pela corrente impetuosa e depois jogado em terra firme, em local bem distante.
       O pensamento positivo e a energia da preocupação de minha mãe haviam transmitido uma mensagem à minha mente. Uma mensagem telepática.
            No dia seguinte (ela ainda estava uma “arara”) contou-nos que, no momento da trovoada, ajoelhou-se e pediu a Deus que orientasse seus filhos. Como penitência, acompanharia a “via-sacra”, de joelhos, nas semanas santas dos anos seguintes na cidade de Traipu.

As brincadeiras e seus encantamentos

Na minha infância tinha a curio­sidade de conhecer a fazenda de meus avós, chamada de "Saco dos Medeiros", situada à mar­gem do Rio São Francisco, 10 km rio acima do local que nasci. Du­rante um verão inesquecível, a bordo de um barco à vela, viajei até lá. Quedei-me mudo de emo­ção diante de uma casa grande no alto de um penhasco, de onde se divisa as curvas do trajeto do rio. Entro na sala: quanta emo­ção nas lembranças e reminis­cências familiares. Ali, reside um pouco da história de meus antepassados. Minha avó teve 16 filhos; não sei se recla­mava da extensão dessa tarefa. Ela era doce e meiga. O amor era a vitamina para todos os males do corpo e da alma. Renovava energias no contínuo trabalhar.
Brincadeiras infantis na fazenda: “Boca de forno, forno!” “Tirando bolo, bolo!” “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...” “O cravo brincou com a rosa, a rosa...” Eram cantigas entoadas nas brincadeiras infantis preferidas pelas meninas, ao anoitecer. A bola que os garotos jogavam interrompia as brincadeiras femininas, acredito que por ciúme de terem sido isolados dos folguedos. O rio corria lá em baixo, no barranco, uma imensa caudal de águas claras e de fortes correntezas.
Se a tristeza do entardecer emergia mística, de imediato palavras-mágicas eletrizavam a garotada com o anúncio: “Venham, a sopa vai esfriar!” E eles, por graça, repetiam: “Café com pão, bolacha não!”.
São inesquecíveis imagens que povoaram minha infância nos idos da década de 1940. O rio, ainda intocado, guardava as características da época do descobrimento. Não havia hidrelétricas, nem represas. Durante as enchentes anuais, as águas se expandiam por quilômetros e quilômetros além das margens, e, nesses alagadiços, plantava-se o arroz que garantia a subsistência de muitas famílias. E aí, veio a primeira grande agressão. As hidrelétricas de Sobradinho, Xingó e Itaparica absorveram parte das águas do rio. Era o progresso, levando iluminação a cidades e vilas, energia necessária ao consumo e à modernização industrial. Quem arriscaria insurgir-se contra o progresso? Entretanto, a partir daí, o rio minguou em largura e volume de água. Em algumas partes virou riacho. Nessa época, a melhor alternativa de locomoção dos ribeirinhos do baixo São Francisco era o transporte fluvial. O rio era o caminho natural; as poucas estradas existentes eram quase veredas.


A cidade vista do lado oposto do rio

A importância de Traipu e de Penedo

Traipu e Penedo marcaram minha formação e delas guardo recordações que me sensibilizam. Repito sempre de memória: O tempo não para, para onde eu vou, ele me segue, traçando meu destino, fascinante, im­previsível.
Nessa época, não havia escola secundária em Traipu, e os adolescentes emigravam para a cidade de Penedo. "Quem desce de barco o rio São Francisco, a poucos quilômetros de sua foz, tem a agradável surpresa de avistar, sobre enorme penhasco, uma fileira de casas coloniais de variadas cores, realçando sobre as águas verdes-amareladas do rio. É a cidade de Penedo, uma das mais antigas do Brasil, fundada por Duarte Coelho Pereira, que lhe deu esse nome, devido à sua situação geográfica. Perto do cais, destaca-se sobre o casario antigo a bonita igreja de Nossa Senhora da Corrente, preciosa jóia da arquitetura setecentista, com suas torres arredondadas e seu frontão barroco".
Faço minhas essas palavras da amiga Nilza Megale, porque assim vi Penedo nos idos da minha infância. Ali, aportei no navio Comendador Peixoto, uma embarcação a motor de médio calado, que realizava semanalmente o trajeto fluvial entre Penedo e Piranhas. Vim para Penedo a fim de fazer o curso ginasial. As estradas para Maceió eram precárias. Assim, o rio era o grande caminho, a via móvel dos ribeirinhos que buscavam complementos de instrução na cidade de Penedo, conhecida como "capital civilizatória do baixo São Francisco".
Já estávamos instalados nessa cidade, quando recebemos a visita de parentes há muito tempo residentes no Rio de Janeiro. Fui incumbido de passear de canoa com um jovenzinho carioca, recém-chegado. Ao voltar todos queriam saber se ele havia gostado da pequena viagem. A resposta foi breve e clara: "gostei, mas estranhei os marinheiros (canoeiros) sem farda, descalços, sem boné...".

A herança religiosa

Em um lar cris­tão tradicional, na cidade de Pe­nedo, onde fiz os estudos do antigo 1° grau, as quintas e sextas-feiras da Semana Santa eram motivo de respeito conforme os ensinamentos religiosos.
Numa quinta-feira da Sema­na Santa, já não recordo o ano, fui sorteado, entre os ginasianos, para participar da cerimônia ca­tólica do "lava-pés", em que o Bispo lavava os pés de 12 crianças que representavam os após­tolos de Cristo. Esse sorteio pro­vocou estranha agitação em nos­sa casa. Minha mãe, ciosa dos princípios higiênicos, achou que meus pés de jogador de futebol de rua eram sujos, maltratados e não estavam condizentes com esse ato religioso. Coitado de mim. Uma semana de suplício por conta: suspensão dos jogos de rua e, diariamente, obrigado a lavar os pés várias vezes com pedra-sabão; eles quase viraram espelho.
No grande dia, na igreja, ca­lor sufocante, metido em uma veste talar, aguardei o início da cerimônia. O bispo aproximou os lábios de meus pés. Um arrepio percorreu meu corpo; a herança religiosa falava mais alto.

A doação

“Quando partimos no vigor dos anos, / Da vida pela estrada florescente,/As esperanças vão conosco à frente, / Vão ficando atrás os desenganos!.../ Eu e o Rui, meu irmão, recitávamos esses versos do Padre Antonio Thomaz, em nossa adolescência e juventude. Esperanças e bom astral eram a tônica de nossos entusiasmos juvenis. Se a juventude não é apenas uma fase de vida, e sim, um estado de espírito tangido pelo sabor da aventura e da vontade de vencer, nós estávamos certos quando cultivávamos expectativas positivas de futuro.
            Minha mãe contava uma história poética que tem sido transmitida de geração a geração, cujo título é “Doação”. Não se conhecem o autor, a origem e o ano em que foi publicada. Faz parte da crônica oral das famílias, contou-me minha mãe. Decorei-a, e anos mais tarde, ensinei-a às minhas filhas, mantendo a tradição É uma historieta cheia de simbolismo, emoção e sentimento. Vamos conhecê-la.
“Amigo, faze o bem, esse prazer compensa a maior recompensa. Aqueles frutos saborosos que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar, custaram, com certeza, o trabalho de alguém que já sabia que nunca em sua vida os colheria, mas nem por isso deixou de plantar”. Minha mãe repetia que essa historieta deveria servir de modelo em nossa vida.

Um eterno retorno

Recentemente, voltei à cidade de Penedo. Cada vez que volto a Penedo repito um roteiro de sentimento e de recordações, ao visitar ruas, praças, igrejas e locais que povoaram minha infância e adolescência. São muitas lembranças guardadas com carinho nas gavetas de minha memória. Na rua do Rosário, continua intocada a residência do Monsenhor José Medeiros, Monsenhor Medeiros como era conhecido, um sacerdote dedicado às letras, ao ensino e à religião. Dele herdei o nome de batismo e o estímulo à leitura dos clássicos da literatura brasileira. Foi exigente comigo e com meu irmão Rui Medeiros: era obrigatória a leitura e compreensão de textos, que posteriormente deveriam ser repetidos para ele. Muito aproveitamos com esse método que ele utilizava.

O encaminhamento para medicina e os livros

Meu tio, o Monsenhor Medeiros, que sabia de meu interesse em realizar o curso de Medicina, dizia que medicina é, antes de tudo, a ciência do homem. Para ser um bom médico, seria necessário compreender a natureza humana, abeberando-se na cultura geral e nos conhecimentos humanísticos.
Acrescentava: “Não existe medicina sem cultura e sem filosofia”. De filosofia, nem imaginava o que seria; de cultura, supunha livros e mais livros e a estante da residência do Monsenhor Medeiros (tio do professor Medeiros Neto e meu tio) constituíam um desafio. Aprendi a amar os livros. A biblioteca de Penedo era o refúgio dos fins de tarde. E meu primeiro encontro foi com Monteiro Lobato: “Narizinho arrebitado”, “O Saci Pererê”, “Caçada de Pedrinho” e Emília, Dona Benta e Tia Anastácia, entes que povoaram minha imaginação.
Mas, devorador de livros, percorri – na biblioteca – obras valiosas: de Érico Veríssimo a Jorge Amado, de Machado de Assis a Eça de Queiroz, e tantos, tantos outros, desfilaram nos anos de minha permanência em Penedo.
Hoje, minha maior lembrança é o Rio São Francisco: canoas que dependiam do vento; minha linha e meu anzol que fisgavam peixes pequenos e grandes; o plantio do milho em 19 de março, dia de São José (chovia nesse dia); as festas coloridas de Bom Jesus dos Navegantes.
Se recordar é reviver, eu vivo as alegrias dessas lembranças.

 

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