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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

AMARAL, Vanine Borges. Iluminação Natural e Componentes Arquitetônicos: nas janelas da pobreza

 domingo, 20 de julho de 2014

Urbanismo: Paisagem e cotidiano: Maceio: Periferia:

Sexta-feira, 30 de dezembro de 2011




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AMARAL, Vanine Borges. Iluminação Natural e Componentes Arquitetônicos: nas janelas da pobreza. O Jornal,  Maceió, 28 Set. 2008.
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[URBANISMO: periferia: arquitetura: Maceió (Al)]

Umas poucas palavras
Luiz Sávio de Almeida

Vanine é jovem pesquisadora em formação. Ela aceitou um desafio que fiz: discutir uma aparente dualidade na arquitetura, no que diz respeito à carência e à abundância. Foi ao Feitosa, conversou com o povo, sentiu que se elaborava uma estética e uma prática associada à carência e explorou o assunto nesta matéria. É uma aproximação do saber  acadêmico à realidade da pobreza de um país que Octávio Ianni considerava inacabado. Não deixa de ser um ajuste de contas do saber com o poder. Para a publicação deste texto, ela contou com observações críticas do Professor Dr. Leonardo Salazar Bittencourt.
Um dos ponto altos do texto é a incorporação da fala do povo, o que é um sinal de modernização da pesquisa. É necessário reforçar que  Espaço trabalha uma linha que soma os cacoetes acadêmicos e a divulgação. O assunto é sobejamente importante e lida com a possibilidade de se discutir a existência de uma arquitetura de carência e uma arquitetura de abundância ou, em linguagem popular, construir e se virar.


Vanine Borges Amaral, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Alagoas. FAU/UFAL(2007). Durante a graduação participou do Programa de Educação Tutorial de Arquitetura e Urbanismo,  PETARQ e do Grupo de Pesquisa em Iluminação. GRILU. Atualmente é mestranda do Programa de Pós-Graduação Dinâmicas do Espaço Habitado - DEHA/UFAL e participa do Grupo de Estudos Representações do Lugar, RELU, atuando na linha de Percepção e Conceituação do Espaço Habitado. Escreveu este artigo para a disciplina intitulada Formação do Espaço Alagoano, ministrada pelo Professor Luiz Sávio de Almeida e sob sua orientação.





Iluminação Natural e Componentes Arquitetônicos: nas Janelas da Pobreza
Vanine Borges Amaral



O presente artigo discute a utilização dos recursos arquitetônicos para o aproveitamento de luz natural pela população de baixa renda. Longe de chegar a uma conclusão, almeja traçar apontamentos sobre a questão, a partir do exame de uma área da cidade de Maceió. Tomou-se como área de estudo uma pequena extensão do bairro do Feitosa, em que se verificou o uso da janela nas autoconstruções, a partir de visitas, registros fotográficos e entrevistas com os residentes, levantando- se a hipótese de que este universo iria repetir-se nas diversas áreas urbanas do mesmo nível de renda.
A maneira pela qual a luz penetra nos ambientes, a orientação do edifício, a tipologia das aberturas, localização e dimensão, a existência ou não de elementos de proteção e de transição para o ambiente interno, interferem na interação entre o espaço e o homem, e no modo pelo qual o primeiro é sentido, apreendido e percebido pelo segundo. Esses elementos também determinam as relações entre o meio interior e exterior à construção e entre o meio natural e o construído.
O uso de janelas tem sido bastante empregado nas edificações por atender, além das exigências de iluminação, às necessidades de ventilação e de visão do exterior. Sua tipologia foi se modificando ao longo da história de acordo com as necessidades humanas, bem como das técnicas construtivas disponíveis em cada época. O tamanho e a disposição das janelas variam de acordo com as condições locais. Por exemplo, enquanto em climas frios as janelas são projetadas a fim de admitir uma maior quantidade de radiação solar, garantindo ganho térmico no interior da edificação, nos climas áridos as janelas servem para eliminar calor, acolhendo uma menor quantidade de luz.

O que todas essas possibilidades significam para a classe pobre? No Feitosa, assim como nos demais bairros de periferia de Maceió, a população de baixa renda adquire ou se apropria e ocupa um pequeno lote, sem infra-estrutura, e inicia um extenso processo de autoconstrução de casa, geralmente no tempo livre entre as jornadas de trabalho. Devido à carência de recursos, modelos construtivos, participantes da experiência comum, são repetidos. Deste modo, por exemplo, as casas geminadas provenientes da herança colonial portuguesa são as formas mais comuns nas áreas periféricas da cidade.
O modelo conhecido como casa de meia-morada ou casa de porta e janela organiza a residência unifamiliar em uma sala de estar ladeada por corredor que dá acesso aos quartos de dormir . também chamados de alcovas, na literatura especializada, por não possuírem janelas . e leva à cozinha e ao banheiro, na parte posterior da casa. Um pequeno quintal aos fundos completa a ocupação do lote.


Diante desse padrão residencial se apresentam muitas questões acerca do conforto ambiental, já analisadas por diversos pesquisadores como Reis Filho e Philips Derek. O fato de as casas serem geminadas impede a disposição de janelas laterais, exigindo instalação de grandes janelas verticais na fachada, a fim de iluminar ao máximo a extensão longitudinal da edificação. A escuridão nas alcovas é minimizada com o uso de domos e paredes  descoladas do teto, artifícios que além de proverem alguma iluminação, proporcionam a circulação do ar entre os ambientes. A ausência de forro sob a coberta em estrutura de madeira e telha do tipo canal também influencia no movimento de ar interno.
Ao observarmos os modos de construir no bairro do Feitosa, percebemos a extensa utilização da casa de meia-morada, independentemente da orientação do terreno ou das condições ambientais de uma maneira geral. A
aparente similitude entre as residências é desfeita a partir de uma maneira mais atenta de olhar o lugar, que expõe as adaptações realizadas pelos moradores, adequando o modelo construtivo conhecido às realidades individuais, onde se somam necessidade e estética. Durante as entrevistas, não houve relato de uso das janelas para observar o exterior. Tal fato é compreensível, já que esta parcela da população da cidade ainda tem o hábito de conversar nas portas de casa, ficar nos quintais, ir às casas dos vizinhos, enquanto as crianças brincam soltas na rua.
O ventorzinho na casa de baixo

Na casa de Cristina, havia a possibilidade de abrir uma janela lateral, pois, situada no topo de uma encosta, a casa é geminada em apenas uma das laterais. Isso permitiria a ilumina ção de outros ambientes da casa. No entanto, neste caso, foi dado prioridade ao caráter plástico-espacial, a fim de concretizar a idéia que se tem de casa:
Porque essa janela assim, a gente pensou pela questão da frente da casa, né? Como geralmente é usado nas casas, geralmente tem a janela em vista e a porta, pra identificar que é uma casa. A gente queria que a janela fosse no corredor, mas ele achou melhor que a janela ficasse na frente da casa. (grifo nosso)
Nesta casa, só há uma janela horizontal, em ferro e vidro, na sala de estar. A porta de acesso, feita com os mesmos materiais da janela, funciona também para iluminar o interior da residência. Os dois quartos possuem as paredes descoladas do teto e não apresentam janelas, mas este fato não chega a ser um incômodo aos moradores. Ao final do corredor, tem-se a cozinha, também sem janelas. Para permitir iluminação ou ventilação em seu interior, é preciso abrir a porta dos fundos. A segunda abertura encontra-se no banheiro, preenchida por cobogós, tipo de elemento vazado bastante utilizado nas aberturas das casas visitadas. Além de possuir baixo custo, o cobogó funciona como protetor solar, amenizando a radiação direta do sol no interior do ambiente e permitindo a ventilação natural.
O emprego de um modelo de edificação pela baixa renda, como é o caso da meia-morada, denota a existência de uma teoria subjacente a este processo de repetição. Além de as estratégias utilizadas proporcionarem uma satisfação mínima aos usuários, seja do ponto de vista do conforto ambiental, seja do plástico-espacial da residência, é fundamental destacar a inteligência existente no processo de autoconstrução. Mesmo diante da reprodução de um modelo  que associado à escassa renda diminui as possibilidades construtivas, ao observar um pouco mais de perto tais moradias percebe-se a variedade de soluções encontradas para responder às situações cotidianas no que vamos chamar de arquitetura da carência, fundada na ausência de meios e de recursos em geral. Deste modo, a população ajusta a arquitetura ao seu próprio modo de vida, construindo a sua própria ordem de conhecimento e de construção, havendo, sem dúvida, uma engenharia e uma arquitetura absolutamente diferenciadas da versão acadêmica e fundadas na necessidade angustiante de sobreviver. A carência e a sobrevivência fundam um modo de perceber a vida e, nele, aparecem formas específicas de estar na construção do espaço.


Na casa de D. Carmela, que está em fase de construção há algum tempo, o menor comprimento do lote levou a locar um dos quartos na frente da casa. Deste modo, a janela que seria da sala de estar, passou a ser do quarto. Todas as aberturas ainda estão fechadas com tábuas ou panos, mas D. Carmela já define os horários que acredita serem os ideais para abrir as janelas:
Quando é no quarto eu sempre num abro ela, só vez em quando, agora quando taí numa sala, a sala assim, tem que abrir, né, um pouco, né?, assim, pra num ficar...mas quando é pro quarto,né?, eu sempre deixo fechado. Só abro assim um momento que eu vou fazer limpeza.
Atualmente, têm-se definido os níveis de iluminação adequados para os espaços construídos conforme a atividade desempenhada no recinto. De acordo com a atividade desenvolvida, são exigidas diferentes iluminâncias, que aumentam em função dos requisitos da visão. No entanto, estas normas baseiam-se apenas em condições de iluminação artificial, desconsiderando as variações inerentes à iluminação natural, bem como à subjetividade do ato de percepção por parte dos usuários.
Mais do que normas estabelecidas, é o cotidiano que orienta a  quantidade de iluminação necessária no interior da residência. Sendo a moradia um contínuo processo de construção, a população vale-se das experiências adquiridas no dia-a-dia para intervir no espaço. A influência do cotidiano é percebida na casa de D. Branca. Para ela, que é aposentada e tem o hábito de cochilar durante um período da tarde, o ideal é que não houvesse janela em seu quarto, contrariando qualquer normalização ou padrão construtivo ensinado nos cursos de arquitetura. Já acima do fogão, em sua sala-cozinha, há urgente precisão de uma abertura, a fim de permitir, com a entrada de mais luz, a perfeita visualização do conteúdo das panelas.
Abrir uma janela na parede onde se encontra o fogão de D. Branca é possível devido à existência de uma passagem externa entre esta e a casa vizinha, que permite o acesso às edificações situadas na encosta, abaixo do nível da rua. Uma janela semelhante a esta foi aberta no pavimento inferior da casa de D. Branca e Seu Joaquim, que o alugam para outra família. A janela serve para iluminar a cozinha e fica na base da parede lateral, ao lado do caminho de acesso. No entanto, seu Joaquim discorda da esposa sobre a instalação do ventorzinho, priorizando a segurança do casal e sugerindo a instalação de uma telha transparente. A discussão entre o casal continua, e D. Branca afirma ser muito melhor um .ventorzinho., pois a telha .enloda. e  nenhum dos dois tem condições de realizar a limpeza periódica.




REFERÊNCIAS
BITTENCOURT, Leonardo Salazar. Uso das Cartas Solares:
Diretrizes para arquitetos. 4ª ed. rev. e ampl. Maceió: EDUFAL,
2004
DEREK, Philips. Lighting Historic Buildings. Oxford:
Architectural Press, 1997.
REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da Arquitetura no Brasil.
10ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004




quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Pei Fon.Uma visão macro a partir de uma experiência individual

 

 

Uma visão macro a partir de uma experiência individual

Pei Fon

Texto e fotos

 2020 não começou com todos gostariam.

Todo mundo teve que desfazer suas programações em virtude do novo, do desconhecido, de algo assustador que se espalhou pelo mundo.  

A pandemia do coronavírus não viu conta bancária, posição social, religioso, sexual, nada.Como morada do famigerado bairro do Pinheiro, já convivia com o medo do desconhecido (pessoas) e com a indignação de erros humanos cometidos no passado. 

Nesse presente, conviver com medos distintos, me fez observar mais para dentro do que o mundo externo. E essa visão, a partir da minha casa, não é acolhedora, nem motivadora.

Observar meu vizinho deixar o seu lar, não foi nada reconfortante. Ele olha para a sua casa em pedaços na certeza de que, para onde ele for, não será a mesma coisa. Ele escolheu onde morar e decidir sair, em meio à pandemia, não foi uma das tarefas mais fáceis. 

 

E não tem sido nem para mim. Todos os dias surgem curiosos e pessoas que tentam subtrair o que foi deixado para trás. Ou tentam entrar nas casas vizinhas para levar o que não é seu. 

 

Esse medo é mais um capítulo da indignação que todo morador do Pinheiro sente. Sinto-me refém em minha própria casa. Um lugar de refúgio se tornou uma prisão.

Diante disso, é preciso manter a esperança de que dias melhores possam vir e que, ao menos, sejamos reparados materialmente. Muito embora, o verdadeiro bem, o que não é palpável, não tem preço, é a memória afetiva. Essa, definitivamente, nunca será reparada.

Enquanto isso, todos da minha casa se preparam emocional e psicologicamente para abandonar o lugar de nossas mais belas memórias.

  
Um belo trabalho e uma bela sensibilidade
        Sávio de Almeida 
 
 
 

Sinto-me na obrigação de intervir neste trabalho,  por ele mostrar como a arte é capaz de expressar a densidade de um drama humano e, por outro lado, de uma cidade. Pei Fon consegue transformar a dor do Pinheiro em símbolo das dores de Maceió e a sua própria na de todos os abalados pela tragédia que roubou sonhos, momentos na tempestade do tempo que se formou de virus e de destruição.
 
Um grande abraço na autora e no povo do Pinheiro.  Um velho poeta, acho que Gonçalves Dias, no meio de toda a sua orgia de rimas, tem um verso magistral e que  salta em minha cabeça: Meninos, eu vi! Pode ser tomado como o grito de uma testemunha que olha e recorda e  sente o peso dos dias. Pei Fon viu, recordou e sentiu, deixando um lindo documento para o historiador no futuro poder colocar em seu texto, o suor e sangue desta nossa Jerusalém a quem perguntamos: Quo vadis?





 
O Projeto Jornalistas e Pandemia é coordenado pela jornalista 
Elen Oliveira
 

 
Quem é
Pei Fang Fon é Jornalista formada pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Vinda de uma família com ascendência chinesa e que atua na fotografia desde 1934, o amor pela oitava arte floresceu em 2009, na graduação. Começou a carreira no jornal impresso Gazeta de Alagoas, que considera a primeira escola dentro do Fotojornalismo. Fez trabalhos para a Folha de São Paulo, Itaú Cultural, Lance, Portal TNH1 e Agência Raw Image. Atualmente está como repórter fotográfica da Secretaria Municipal de Comunicação de Maceió (Secom). É editora-chefe e criadora da revista on-line Rock Meeting, que nasceu ainda na universidade, com o objetivo de movimentar a cena de Rock/Metal underground de Alagoas. Atualmente, é conhecida nacional e internacionalmente e já cobriu os principais eventos do Brasil e do mundo como Hellfest (França), Download Festival (Espanha), Primavera Sound (Espanha), Maximus Festival, Liberation Fest, Solid Rock, Abril Pro Rock e 70000 Tons of Metal (EUA). É membro diretivo da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de Alagoas (Arfoc-AL). (Elen Oliveira)
 
 

 
 
 

domingo, 12 de julho de 2020

Alberto Rostand Lanverly. Bodegas da minha infância




BODEGAS DA MINHA INFÂNCIA


 

Engenheiro Civil, Professor da Universidade Federal de Alagoas, autor de 13 livros sendo 5 deles voltados para o público infantil e que tem seus netos como protagonista das aventuras. Membro de diversas instituições acadêmicas. Presidente da Academia Alagoana de Letras.

         

           Dias atrás realizava faxina no rol dos contatos telefônicos em meu celular, quando de repente me assustei: estava ainda, na letra “C”, quando notei que para concluir o intento, haveria de remover cinco registros, todos amigos perdidos para o coronavírus, nos últimos três meses.
            Preocupei-me, pois, apesar de consciente da existência de momentos na vida em que é necessário excluir pessoas, apagar lembranças, jogar fora o que machuca, abandonar o que nos faz mal, libertar de coisas que nos prendem, não me encontrava preparado para vivenciar tamanha perda.
            Acontece, que um dos falecidos a quem estava a pensar, era meu amigo desde a infância. Juntos tanto estudamos no colégio e universidade, quanto participamos de diversas atividades outras que se tornam inesquecíveis.
            E na oportunidade, de olhos fechados, debruçado nos alpendres do tempo, notei-me caminhando ou correndo com meu colega pela velha rua onde crescemos. Tudo era diferente e aqueles dias me tornavam o menino mais realizado que pude ser.
            Ainda parado, me via, juntamente ao meu amigo, brincando de chutar bola de borracha marca Pelé, tendo os postes da calçada como trave, de garrafão e queimado, bolinha de gude que chamávamos ximbra, e até com a coleção de figurinhas que vinham nos chicletes.
Como não me emocionar de ver um mundo que era tão diferente? Como posso esquecer daqueles gritos amados da minha mãe Marlene, chamando para entrar porque já era a hora do banho? Fomos felizes de verdade e aproveitamos cada momento um com o outro, sendo apenas crianças. Por tal razão, jamais haverei de deletar o número do seu telefone gravado em meu aparelho celular.
            Mexer no baú das lembranças, me permitiu encontrar pequenos pedaços que me fizeram feliz. Residi, grande parte da minha infância e início da juventude, na Rua Santa Cruz, bairro Farol, em um primeiro momento no trecho próximo a ladeira dos Martírios, época em que não existia o prédio da Embratel e posteriormente no segmento, ainda sem pavimentação, que liga a Rua Comendador Palmeira à Avenida Tomás Espindola.
Muitos acontecimentos inesquecíveis que enfeitaram aquela época, e que estavam escondidos em minha memória, foram aos poucos sendo resgatados. Lembrei dos nomes de todos os vizinhos, da sede da Igreja Batista com os seus cultos diários, rotineiramente, às dezenove horas, quebrando o silêncio da região, das praças da redondeza onde passeávamos de bicicleta.
Recordei também dos baleiros giratórios (hoje objeto de decoração) onde ficavam todas as opções dos confeitos que mais desejava, sem falar nos pirulitos em forma de chupeta, peão ou cônica, estes últimos, acomodados em uma tábua de aproximadamente um metro quadrado, cheia de furinhos, tudo isso; sempre expostos nas bodegas que tanto frequentava quando tinha um trocadinho no bolso para comprar guloseimas.
Nas redondezas de onde habitava, funcionavam três estabelecimentos do tipo, também conhecidos por Venda: a Bodega do Pedro Rico, na Praça Sergipe, a do Crente na própria Rua Santa Cruz próximo a Avenida Moreira e Silva e a de Dona Lenita na Rua Comendador Palmeira, bem em frente à Praça Gonçalves Ledo... 


                               
                                Domínio público: Internet

 

            Recordo que as bodegas assimilavam o nome do dono e a freguesia era composta por moradores da redondeza e colegas de trabalho. Os bodegueiros, em geral, tinham outra profissão.  Praticamente todas possuíam as mesmas características: balcão de madeira, com uma balança de prato, um jogo de peso, papel manilha na cor parda, em bobina, usado para embrulho, também uma caderneta, para anotar o fiado, depósitos de vidro com confeitos (bala), uma manta de charque e outra de bacalhau (que a época era alimento acessível a todos), algumas garrafas na prateleira, lata de querosene, munido de bomba para a comercialização no retalho, alguns sacos com farinha, feijão, milho, açúcar e outros produtos não tão visíveis.
INTERIOR DE UMA BODEGA. IMAGEM DE DOMÍNIO PÚBLICO, PESQUISADA JUNTO A INTERNET EM 19/06/2020
Costumeiramente, frequentava com maior assiduidade a Venda de Dona Lenita, casada com o Senhor João, genitores de Daia, eles amigos de meus pais, enquanto a filha, professora de minha única irmã, Marcinha. Lembro de um inesquecível bolinho de chocolate de receita própria que era disponibilizado aos clientes no final das tardes. Sempre que podia, degustava uma dessas delicias acompanhado de refresco (que era oferecido como garapa) de maracujá bem geladinho, fabricação caseira, usando frutos do próprio quintal da casa.
A Bodega do Crente, apesar de ser localizada quase defronte à minha casa, e serem seus filhos Marcos, Dinho e Jane, meus amigos, eu pouco frequentava, pois o achava muito sério e não dava muito cabimento às crianças. Ali, recordo que comprava quebra queixo e chicletes Ping-Pong.
A Bodega do Pedro Rico, apesar de funcionar na sala principal da sua própria residência, era a maior de todas nos arredores, quando precisávamos de algo, lá encontrávamos, desde agulha, alimentos, roupas, até bicicleta novinha em folha, que ficava em exposição dependurada no madeiramento do telhado aparente. Quando as crianças queriam ver novidades iam até lá e ficavam a admirar.
Já Dona Lenita era de conversar, simpaticamente, com todos. Lembro que uma vez ela segredou para a minha mãe, que não raro, alguns fregueses deixavam de pagar suas dívidas ou, então, tentavam driblar o controle a partir da análise de apontamentos em folhas de papel que mantinha como lembrete, e o pior: às vezes eram pessoas ligadas à famílias conhecidas.
 Esse problema não era uma prerrogativa somente dela; os filhos do “Crente”, também contavam que seu pai se preocupava muito, pois a caderneta do fiado era a única segurança que tinha. Mas, às vezes dava problema, não era bem segura. Sempre existiam, os que metido a esperto, compravam a crédito e depois diziam haverem pago a conta integralmente. Porém, a grande maioria dos compradores era decente.
Já a Bodega do Pedro Rico, como o nome já explicita, era um estabelecimento diferenciado, chegando a admitir funcionário que não pertencia a família do dono. Guga, hoje responde pela gerencia de uma das agências do Banco do Brasil em Alagoas, era nosso vizinho de rua, e nas férias escolares do Colégio Marista, trabalhava no balcão da lojinha, atendendo à clientela; e em contrapartida, recebia uma ajuda de custo, com a qual nos fazia inveja, pois podia frequentar parque de diversão, circos mambembes, que se instalavam por perto, e também o cinema São Luiz, o melhor e mais caro da cidade, sem pedir dinheiro ao pai.

Guga nos contou que o seu patrão era muito esperto, pois possuía um livro caixa com mais de quinhentos nomes de fregueses e que controlava, minuciosamente, a entrada e saída dos itens secos ou molhados que vendia, e, também os pagamentos dos que adquiriam fiado, até porque sabia de cor os dias em que cada freguês recebia o seu ordenado, e já esperava o pagamento das dívidas do mês naquela data, que se não acontecesse fazia valer a frase: “fiado, só amanhã!”.
            Guga, segredou um acontecimento que nos levou a sorrir muito: “certa vez, chegou um vendedor oferecendo ao senhor Pedro Rico, “arapuca para pegar caranguejo”. O proprietário agradeceu a oferta, afirmando não existir mercado para tal, pois a sua clientela era mais exigente e dificilmente se interessaria por tal produto.
 


    Domínio público: Internet


            O representante, muito astuto, caminhou até a Praça Centenário, que se situava próximo de onde tentara negociar, ali contratando alguns meninos que perambulavam nas redondezas, para que fossem na Venda do Senhor Pedro e questionassem se ele vendia “arapuca para caranguejo”. Nos dias seguintes umas vinte pessoas passaram por lá perguntando pelo apetrecho, sendo a resposta sempre negativa.
            O bodegueiro ficou preocupado, pois possuía em seu estoque, desde remédio para mordida de cobra até elixir para curar dor por traição de mulher, e estava perdendo clientes. Semana seguinte, o arguto vendedor caminhou pela calçada existente no lado oposto da rua, onde situava-se o pequeno comércio, anunciando aos gritos a armadilha para pegar os bichos na Lagoa Mundaú.
            O Senhor Pedro, mais do que depressa, correu, chamou o cidadão e comprou toda as arapucas que possuía. O tempo passou e nenhuma foi vendida. Logo depois, a trama foi descoberta. O Pedro Rico não ficou pobre, mas sim muito brabo por haver sido enganado.
Voltando ao presente, mas de olho em minha meninice, deparei com a composição do poeta nordestino de Campina Grande, Jessier Quirino que diz assim:

Tem uma placa de Fanta encardida
A Bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.
Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço e armador
Enxadeco, fueiro, e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco e alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.
É Bodega pequena cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.
No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom... tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.
A Segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho e cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum março de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se encontra uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.
Prateleiras são tábuas enjanbradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio de flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.
Tem cabides de copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Uma rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado num sabão
E o bodegueiro despacha ao artesão
Um parafuso de cabo de serrote
Na construção desses versos, o poeta Jessier Quirino registra o que foi visto por ele; ele apresenta a bodega como o grande supermercado popular, onde tudo se vende. Conforme o autor, costumava-se adquirir naqueles estabelecimentos todo tipo de mercadoria: querosene, óleo de cozinha, cigarro, bolacha, pão doce, meia quarta de café, farinha, doces e as mais variadas quinquilharias.
Realmente, o termo bodega, como uma variação linguística bastante singular, à época servia para designar lugares onde de tudo se podia encontrar. Na vida, sentimos saudade de tantas coisas, da infância, do cheiro do pai, do sorriso da mãe, da alegria de colorir no papel um céu azul. Eu também sinto falta das bodegas, de uma época em que falar em supermercado era o sonho de estar no Rio de Janeiro ou São Paulo. Por aqui, quando muito, frequentávamos os armazéns.

E assim, conversando com um amigo cujo pai foi bodegueiro, aprendi o seguinte: “A bodega era um espaço livre que se transformava na dispensa da casa dos moradores vizinhos: dente de alho, pacote de arroz, garrafa de manteiga, nas prateleiras de madeira, estavam  disputando o mesmo espaço, com canos, torneiras, alicates, serrotes, prego, martelo e arame, enfim uma variedade de mercadorias que satisfaziam à clientela no preço, no prazo e, sobretudo, no atendimento personalizado oferecido pelos donos do estabelecimento”
Nas bodegas de outrora, a diferença estava no atendimento disse-me ele. “lá podíamos comprar, por um exemplo, meio quilo de cimento, cinquenta centavos da margarina, meio pacote de café, uma colher de extrato de tomate, um copo de azeite, lamparina do século passado, pipa, estilingue, anzol e uma cabeça de alho e até, somente, uma correia de sandália ou um cigarro acompanhado de um palito de fósforo.”,
Os alimentos eram comercializados a pesos e medidas, isto é, fragmentados. As embalagens não tinham a regulamentação do comércio atual. Os itens eram pesados pelo próprio dono numa balança de prato com pesos comparativos, ou utilizava-se de um recipiente de zinco para medir o produto, denominado litro, que segundo ele, equivalia a um quilo. 


                                 Domínio público: Internet


O negociante tinha maleabilidade; era ele que lidava com as mercadorias, preparando-as para a transação. Produtos como tempero, farinhas, grãos, arroz, sabão eram manipulados pelo bodegueiro, que pesava, embalava e dava o preço. Não vinham prontos como no comércio urbano atual, com peso e preços fixos, podendo ser, facilmente, comparados de local para local.
Nesse sentido, não existia uma uniformização dos pesos e medidas. O litro utilizado na Venda de Dona Lenita, por exemplo, poderia ser maior ou menor do que o empregado nas Bodegas do Crente e Pedro Rico, o que afetava diretamente a quantidade dos alimentos.
Se por um lado, as vendinhas, que frequentei como criança, eram como templos que ornamentavam ruas e esquinas, aromatizando as calçadas. Elas eram, tanto, local de abastecimento de gêneros alimentícios; representava como também, um ponto de encontro para jogar conversa fora, se inteirar dos últimos acontecimentos da cidade ou falar da vida alheia, pois o bodegueiro era sempre uma pessoa bem informada.
Meditando sobre as minhas experiencias com as bodegas, restou a certeza de todos termos nossas máquinas do tempo. Algumas nos levam para trás, são chamadas de memórias. Outras nos empurram para frente, são visitadas por sonhos. Continuarei reverenciando ambas, sem nunca deletar do registro do meu celular o número de contato daqueles que um dia foram importantes para mim.

FATOS PITORESCOS

            Em recente encontro virtual da Academia Alagoana de Letras, um dos sócios declamou a seguinte estrofe da poesia de Cecilia Meireles:

“De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
Vagarosas saudades
Silenciosas lembranças...”

            Neste instante, inspirado pela palavra “lembranças”, informei que estava a escrever sobre “as bodegas da minha infância”, relatando uma época em que nem o Supermercado CEIA existia em Maceió, quando adorava visitar as vendinhas das vizinhanças, e por fim questionei o que tinham a dizer sobre o tema. As seguintes pérolas em forma de dialogo surgiram:

Acadêmico Carlos Mero


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Eu me lembro, sim, de algumas delas. Aqui em Maceió, recordo-me da bodega do Seu Edmundo, lá na Saldanha da Gama, Como eu morava bem perto, de vez em quando ia papear miolo de pote. Já em Penedo, comprei muito quebra-queixo da Bodega da Bena e figurinha na Bodega do Seu Domingos, as duas na Ladeira do Cajueiro Grande. Mas também havia, entre outras, a do Seu Jason, na Rua da Penha, que ficava na esquina que dava para a janela de Seu Filadelfo Luz, um devoto terceiro franciscano.

Eita Penedo para dar saudades. Lembro de Leninha, como se fosse hoje, na janela da casa da sua avó, com aquele olhar distante de moçoila sonhadora. Mas também me lembro de você e do Mário Aloísio por aquelas bandas. A venda do "açúcar cande"  era a do seu Jason, bem pertinho da casa da Mércia e da casa da Cláudia Cristina Correia Mousinho. A da sua avó ficava um pouco acima, olhando ou quase olhando para o oitão da Rádio Difusora.
Esqueci de uma coisa: a bodega do Seu Jason era vizinha à casa do Garapa e distante uns sessenta metros da casa de Dona Flor e seu Quelé e mais um pouco da casa de Dona Zefinha, mãe do Fred Tompson e do Amaro Apara-raio.

Nem fale no cheiro do pão assando enquanto o sol começa a mostrar o rosto afogueado. Houve um tempo em que, lá no Penedo, moramos quase vizinhos à padaria de Dona Toinha Calçola (isso mesmo!!!), na Rua da Penha. Nos dias de Educação Física acordávamos com os galos e a primeira coisa era ir até lá, pegar um pão quentinho, abri-lo ao meio, recheá-lo com uma fatia generosa de goiabada e ir rasgando Ladeira do Cajueiro Grande afora. Coisas da meninez.

Acadêmica Heloisa Moraes

Lembro sim da venda do seu Pedro Rico, e também das bodegas em Penedo, onde passava todas as minhas férias quando criança. Sempre que a avó e os tios davam um dinheirinho (era uma forma de mostrar afeto, naquela época!), ia a uma venda comprar um docinho que não sei exatamente de que era feito, mas cujo sabor está vivo na minha memória. Lembro que a gente chamava "açúcar candi". Essa bodega ficava numa esquina da rua da Penha, pertinho da casa da minha vó, no lado contrário da Ladeira da Preguiça. Boas lembranças!

Acadêmica Vera Romariz

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Amigos, lembro a bodega de seu Pedro Rico, pai de Alba, que fazia arranjos. E a de dona Lenita, pois morei, entre 17 e 20 anos na Comendador Palmeira. E namorava com Augusto no Parque Gonçalves Ledo.

Acadêmica Rosiane Rodrigues

Lembro-me com saudades do comércio de Piranhas e que era quase totalmente composto pelas bodegas: Bodega, padaria e Bar no Reservado, do meu saudoso papai Antônio Rodrigues, Bodega de seu Eviládio, meu tio, Bodega de Seu João Amâncio, Bodega de seu Antônio Campos, Bodega de Seu Piano, Bodega de Seu Benedito, Bodega de Tio Chiquinho, Loja de Tecidos de Tio Joãozinho, Bodega de Seu Zé de Coruja e Bodega e Bilhar de Seu Pedro Chico e para finalizar Bodega de Seu Arthur Palmeira. Que tal?

Acadêmico Vinícius Maia Nobre

Conheci todas citadas por Rostand. Outras da rua da Areia a do Seu Humberto, a de Dona Lídia e a conhecida pela meninada da Fernandes Lima que ficava bem recuada cujo proprietário era Sr João. Essa vendia o lanche mais procurado por nós: Chipaca , futuro Vice-Governador Francisco Holanda , Beba , futuro usineiro da Coruripe Vitor Wanderley, Bobó , Ambrósio Gusmão filho do saudoso Acadêmico nosso Carlos de Gusmão, Tuíta , também o mais escrachado de todos e famoso pelos “foras “ que ele e seus irmãos davam cujo nome Nilson Souza poucos conheciam e sim seu apelido!

Acadêmico Jorge Tenório

Lembro-me de algumas bodegas, mas duas ficaram indelevelmente marcadas na minha memória. A primeira localizava-se no povoado Anum Velho, onde nasci, bodega de Seu Alfredo. Certo dia, minha mãe encarregou-me de ir comprar meia barra de sabão e meio quilo de açúcar e eu troquei as bolas: "Seu Alfredo, minha mãe disse pro senhor mandar meio quilo de sabão e meia barra de açúcar ". A outra bodega pertencia ao meu próprio pai, ficava no Alto dos Bodes, bairro de Palmeira dos Índios. Meu pai era político, então a bodega faliu de tantas contas anotadas no caderno de "fiados".

E assim, encerramos aquela reunião virtual, felizes como sempre, e cada vez mais certos de que nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos.



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