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sábado, 26 de setembro de 2020

Lautheney Perdigão. Cláudio Pacheco. Um depoimento para a história

 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Lautheney Perdigão. Cláudio Pacheco Um depoimento para a história




Texto  publicado em Contexto de 11 de dezembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.
 

Um pequeno bilhete sobre futebol

Luiz Sávio de Almeida 


Passado o mês de novembro, Lau e seu Museu 
voltam às páginas deste suplemento, que
tem a finalidade de construir um painel de
visões sobre a sociedade alagoana. Contexto
precisa e muito do Lau, jornalista a quem admira de
longa data - bote tempo nisso, né Setton? mesmo
ele sendo azulino de corpo e alma. Felizmente,
neste número, ele lembrou que CRB existe, e assim
Contexto se encontra em seu estado puro, devidamente
dezazulizado.

Ainda hoje, eu não sei, objetivamente, a razão de
justificar-me como CRB. Acho que tudo decorreu
de uma graça conduzida pelo destino, tão angélica
e sagrada quanto é ser tocado pela chama mágica
do rubro-negro, aquilo que identifica o meu amado
e decantado Clube de Regatas Flamengo, a aurora
mundial do futebol, o por do sol da glória a renovar-se
pudica e simples, a noite inspirada do esporte, o dia
da justiça final dos adversários vítimas dos mais fortes
e inteligentes peiotaços.
Amigo Lautheney, é pena, contudo, que a beleza das
rivalidades tenha se tornado em coisa feia, pela violência
do que ainda é, talvez erroneamente, chamado
de torcida. Meu bom Lautheney, quando isso vai
parar? Amigo, pode escrever sobre o CSA novamente,
quantas vezes desejar; aqui é livre, como deve ser
livre a amizade. Vamos nos encontrar e misturar as
cores das bandeiras numa comemoração pela paz,
cerimônia que bem poderia ser puxada pela Federação
Alagoana de Futebol e, quem sabe, o exemplo
partir de uma solenidade pública comandada pelas
diretorias de nossos clubes. Seria um belo exemplo
para nosso futebol.
                                                                 Um abraço amigo para todos os legítimos torcedores
                                                                  azulinos. Eu prefiro um torcedor azulino decente, a
             

                                                       um baderneiro que se possa dizer CRB. Será que a
                                                                 Federação Alagoana promoveria o Dia da Paz? Não
                                                                         importa se já fez algo neste sentido; o fundamental é
                                                                           água mole bata tanto em pedra dura até que fure.
                                                                             Contexto pede humildemente, que a Federação
                                                                          Alagoana de Futebol pense no assunto. Nossa! Seria
                                                                  uma belíssima cerimônia pela paz, contra qualquer
                                                                      indicação de violência. Lautheney, você que conhece
                                                                         mais de perto os homens, fala com eles.





Cláudio Pacheco Um depoimento para a história
 
Lautheney Perdigão

A ESTRADA DA VIDA

Cláudio Moreira Pacheco é filho de Lafaiete Pacheco, o principal fundador do Clube de Regatas Brasil. Nasceu em Maceió, no dia 19 de setembro de 1931. E como não poderia deixar de ser, Claudinho começou jogando no clube da Pajuçara. Com a camisa do CRB, ele começou a mostrar suas qualidades de um futuro craque. Não demorou muito e logo chegou ao time titular se consagrando bi campeão alagoano nos anos de 1950/1951. Era um jogador inteligente dentro e fora do campo. Seus movimentos eram rápidos e objetivos. Com o passar dos anos, seu futebol foi amadurecendo, ganhando mais cadência, habilidade e técnica refinada.

Em 1952, foi contratado pelo Esporte Clube Bahia e formou o chamado “esquadrão de aço” dos tricolores da Boa Terra. Foi campeão, destaque do time e convocado para a Seleção Baiana. Ainda defendeu o Sport Recife, Ferroviário do Ceará, Botafogo da Paraíba e encerrou sua carreira no Capelense em 1962, onde ajudou o clube do Dr. Horácio Gomes a ser Campeão Alagoano naquele ano. Quando ainda estava atuando pelo CRB, Claudinho jogou voleibol pelo Flamengo de Maceió.


Depois de viver fortes emoções no esporte, deixou os gramados e continuou o mesmo moço simples e amigos de seus amigos. Hoje, aos 80 anos, vive na lembrança de todos aqueles que o viram jogar um futebol cadenciado e no melhor estilo. Seu depoimento está bem vivo nos arquivos do Museu dos Esportes.

OS FILHOS DE LAFAYETE PACHECO

Três filhos de Lafaiete Pacheco jogaram futebol. Nos anos trinta, o zagueiro Bacurau participou do tetra campeonato conquistado pelo CRB. Nos anos cinqüenta, foi a vez de Claudinho que também foi campeão pelo clube da Pajuçara. Vetinho também foi campeão, mas pelo Ferroviário em 1954. Claudinho tinha orgulho do seu pai. Afinal, Lafaiete Pacheco foi o grande incenti- vador para a fundação do CRB, clube que ele defendeu com um amor acima do normal. O interessante é que mesmo quando Claudinho defendia o clube da Pajuçara, ninguém sabia desse detalhe. 

Somente depois um depoimento de Lafaiete ao Arquivos Implacáveis do Jornal Gazeta de Alagoas é que a história começou a ter um melhor colorido nas páginas dos nossos jornais e a torcida ficou sabendo a verda deira história do Clube de Regatas Brasil.


Claudinho começou jogando nas peladas de ruas. Muitas vezes deixava de ir à aula para jogar futebol. Na Praça da Cadeia, havia jogos memoráveis entre o Águia Negra do Colégio Diocesano e o Monte Castelo que era o time local. Como morava no Poço, Claudinho jogava pelo Treze de Maio. Em 1948, já estava disputando o campeonato alagoano pelo juvenil do CRB. No ano seguinte, integrava o time principal dos alvirrubros. O bi campeonato foi conquistado por um time maravilhoso. Claudinho lembra com saudade: Bandeira. Cacau. Miguel Rosas. Walfrido Vieira. Cacará. Divaldo. Macedo. Laxinha. Dario. Carlos Santa Rita e ele mesmo, Claudinho. Os treinamentos eram realizados às seis horas da manhã, porque a grande maioria dos atletas trabalhava. A diretoria comparecia e Zequito Porto era o técnico que, ao logo dos anos, transformou-se no maior nome da história do clube. O Zé de Barros tomava conta do Estádio e era muito querido por todos os atletas. Depois do treino, lá estava Zé de Barros com o seu munguzá e pão com manteiga para os jogadores. Esses jogadores tinham amor pelo clube e a amizade dos dirigentes.

A DEVOÇÃO AO ESPORTE

Claudinho jogava de graça e ainda era sócio do clube. Isso lhe garantia certo privilégio, dando condições de entrar nas festas do CRB que eram realizadas nos salões do Clube Fênix Alagoano. Além da alegria em defender o clube do coração, ele tinha o reconhecimento de ser convocado para a Seleção Alagoana várias vezes. Ele viveu uma época em que os torcedores presenteavam seus ídolos com chapéus, guarda-chuvas, sapatos, camisas etc. Um tempo que, mesmo no dia de clássico, Claudinho e Dida, no domingo pela mânhã, iam bater bola no campo da Faculdade até onze horas. Depois iam a pé até a praia do Sobral, tomavam banho e iam para casa. À tarde, no Mutange ou na Pajuçara, lá estavam Dida com a camisa do CSA e Claudinho com a do CRB. Também acontec ia que jogadores participavam da preliminar atuando pelo aspirante e, quando faltava um titular, o atleta era escalado do time principal.

Foi defendendo a Seleção Alagoana em 1952, que Jorge Gazar o enviou para o Esporte Clube Bahia. Claudinho foi, fez teste e ficou. O CRB recebeu apenas uma taxa de transferência, já que o atieta era amador. O primeiro contrato com o Bahia valeu para Claudinho doze contos de réis de luvas e um conto e quinhentos por mês mais o pagamento da pensão onde o atleta passou a residir em Salvador. Os dirigentes prometeram muita coisa e cumpriram tudo. Sua passagem pelo Bahia foi uma das coisas boas de sua vida. Fez amizades, ganhou títulos, foi ídolo e participou de um dos maiores times da história do clube que tinha uma excelente diretoria e uma fanática torcida.


A fase do supercampeonato baiano foi uma loucura. Claudinho levou o amigo Bandeira para o Bahia. O goleiro se transformou em uma barreira no gol do clube tricolor. Na decisão com o Vitória, foi o melhor jogador em campo e garantiu o título defendendo até pênalti. Claudinho e Bandeira foram convocados para a Seleção Baiana. Ele; eram como irmãos. Quando Bandeira foi entrar por um portão que não devia um diretor não teve bons modos e puxou o goleiro de maneira grosseira. Houve uma discussão e Claudinho comprou a briga. Depois o Bahia não quis renovar o contrato com Bandeira e o companheiro resolveu reincidir o seu e retornar a Maceió.

Voltando a Alagoas, Claudinho foi passar alguns dias em Recife na casa de uma tia. Dida queria levá-lo para o Flamengo. Estava tudo certo. Dida telegrafou para o amigo viajar e treinar na Gávea. Lafaiete Pacheco, ao invés de mandar o telegrama para a casa de sua irmã, enviou para o Sport Recife onde Claudinho estava, treinava e tentava acertar um contrato. Um diretor do Sport ficou com o telegrama. Somente depois de assinar com o clube pernambucano é que o craque alagoano soube da existência do telegrama de Dida.

Ele nunca perdoou o diretor Galvão. O contrato com o Sport valeu para Claudinho trinta contos de luvas e quatro mil por mês e mais o pagamento do hotel onde passou a mora com outros alagoanos: Hého Miranda, Carijó e Ita- mar Dengoso. Ele ficou trà as anos em Recife. Depois, foi para o Ferroviário do Ceará e para o Campinense.

UM RETORNO A MACEIÓ 

Já casado, resolveu retornar a sua terra. Estava com trinta e um na cidade de Capela para tomar contar e ! ficar perto da sua família. Nessas alturas,  o Capelense entrou na sua vida. Assinou contrato com Dr. Horário e ficou como técnico e jogador. A diretoria não interferia no seu departamento de futebol. Os jogadores eram amigos e ajudavam ao ! técnico. Logo depois da sua contratação,  Dr. Horário chamou Claudinho e lhe
 entregou um pacote cheio de dinheiro para ele ir a Recife comprar todo material  novo para o clube. O Presidente guardava  o dinheiro em casa e deu liberdade  para o treinador contratar os melhores  jogadores do interior. Apenas Aguiar que  tinha jogado no CRB e Zé de Gemi que  defendeu a seleção sergipana não eram | do interior. A grande maioria era das
Usinas de Alagoas e Pernambuco.

A estreia de Claudinho no Capelense  foi contra o CRB e uma decepção: CRB  6x1. Uma goleada. Ninguém reclamou  de ninguém. Os treinos continuavam, o time foi se arrumando e, no final do I campeonato, o Capelense foi campeão  de 1962 vencendo a decisão contra os | Estivadores. O trabalho foi tão bom que  Claudinho foi convidado para ser o técnico da Seleção Alagoana que disputaria  o Campeonato Brasileiro daquele mesmo ano. A Seleção era a base do Capelense. Conseguimos passar por Sergipe e, depois de empatar em Maceió, perdemos : para os cearenses em Fortaleza. Para esse jogo, houve muitos problemas. A viagem para o Ceará atrasou. Em Recife, o avião somente saiu para Fortaleza no mesmo dia do jogo. A delegação alagoana chegou a tarde para jogar a noite. Os dirigentes da Federação Alagoana não tentaram adiar o jogo e nos sos atletas estavam sem condições ideais para enfrentar a Seleção ! Cearense.

Claudinho foi convocado para a Seleção pela primeira vez em 1952, quandoos alagoanos disputaram um Campeonato Brasileiro amador. Depois, ele foi convocado para a Seleção principal. Contra os sergipanos, aconteceu um jogo memorável. O jogo dos 163 minutos. Alagoas havia perdido em Aracaju. Precisava vencer no Mutange o jogo e a prorrogação. Claudinho lembra com certa emoção. Alagoas venceu o jogo por 2x1. Veio a primeira prorrogação e 0x0. Veio a segunda e novamente 0x0.

Somente aos treze minutos da terceira prorrogação é que Laxinha assinalou o gol que garantiu vitória de Alagoas. Os jogadores estavam cansados, mesmo assim, festejaram no gramado uma das maiores vitórias do Futebol Alagoano. Um triunfo da garra e da vontade de vencer. E nada teria sido possível se não fosse a ajuda da torcida. Depois perdemos para Pernambuco.

AS FORTES EMOÇÕES

Todos nós sentimos fortes emoções ao longo de nossas vidas. No bi campeonato alagoano de 1951, o CRB conquistou o título vencendo o CSA na decisão. O futebol começava a lhe oferecer as primeiras emoções. Nesse mesmo ano, o CSA enfrentou o Vélez Sasfield da Argentina no Mutange e convidou alguns jogadores do CRB e, entre eles, estava Claudinho, que vestiu a camisa do clube azulino pela primeira vez. O jogo foi na véspera do Natal e o empate de lxl lhe rendeu uma gratificação de cinco mil réis. Claudinho lembra o jogo da Seleção Baiana contra o Botafogo do Rio.

Foi uma das suas grandes atuações. Jogando de ponta direita, deu um show no grande Nilton Santos e ainda fez o gol da vitória baiana. Entre suas decepções, que foram poucas, ele cita quando t entou ser treinador do seu querido CRB. Em 1966, deixou Capela e voltou para Maceió. Tinha feito um grande trabalho no Capelense e poderia repetir no clube da Pajuçara. Logo que começou, sentiu que as coisas não eram como no seu tempo de jogador. Havia muitas dificuldades. O clube foi campeão em 1964 e aquela equipe estava se desfazendo.

Os jogadores que ficaram, não tinham muito interesse em jogar. Certa vez, Aguiar, Paulo Nylon e Canhoto procuraram Claudinho e disseram que não podiam jogar. Cada um tinha um problema: dor de cabeça, contusão no pé e desenteria. Foram substituídos por Ademir, Beba e Silva que logo se tornaram titulares e grandes figuras do nosso futebol. O clube não tinha dinheiro para contratar e seu trabalho tinha de ser com os juvenis. Os dirigentes queriam r aparecer, reclamavam contra os juvenis e não lhes davam apoio. Quando o time está mal, eles desaparecem. Então, Cláudio resolveu parar com o futebol e cuidar da sua vida fora dos gramad os.

Para Claudinho, o maior jogador que viu atuar foi o zagueiro Miguel Rosas. Era um espetáculo. Não dava pancada. Era inteligente e tirava a bola do adversário sem ele sentir. Claudinho se sentiu privilegiado em jogar ao seu lado. O melhor time foi o Esporte Clube Bahia de 1952. Um time que jogava por música. Cada um sabia o que fazer dentro de campo. O treinador era Gentil Cardoso queinha tudo ensaiado. Ele sabia de tudo e dizia aos jogadores que não era da Seleção Brasileira porque era preto e não tinha olhos azuis. Jogando em Maceió, Claudinho nunca se concentrou. Já no Bahia e no Sport, havia concentração. Com Gentil Cardoso, o pessoal somente ia para casa na segunda- -feira. Concentração longa não é uma boa.

PASSOS DE VIDA

A partir da sexta-feira a noite até q ue é bom. Ele acredita que o treinador tem muita influência no rendimento de uma equipe.

Gentil Cardoso era realmente maravilhoso. Muitos jogos eram ganhos no intervalo quando ele conversava com seus atletas, consertando os erros e mostrando sua visão e como aproveitar as falhas do adversário. Com relação à arbitragem, ele destaca Wal- domiro Breda, Cláudio Règis e Agustim Farrapeira. Em dezesseis anos de carreira como jogador de futebol foi expulso apenas duas vezes.

No seu tempo de jogador no CRB, os dirigentes tinham os atletas como filhos. Chegavam a ir a suas casas para visitar seus familiares. Havia bastante afinidade entre dirigente e jogador. Hoje está tudo diferente. Tudo é profissional. Futebol virou comércio. Quando o time ganha, querem aparecer no rádio e na televisão. Quando o time perde, eles têm sempre um culpado: o técnico. No submundo do futebol, escondem- -se muitos interesses e nisso, tudo pode acontecer. Sobre a rivalidade entre CSA e CRB, sempre existiu, mas somente dentro do campo. Fora dos gramados, todos eram amigos. 

Muitos estudavam no mesmo Colégio. Quando o CSA ganhava; Claudinho não aparecia na Praça Deodoro, porque a turma era azu- lina e caia em cima dele. Quando o CRB ganhava, a gozação era d ele e do Bandeira em cima da turma do CSA. Era uma época de diversos craques e pouco dinheiro. Diferente dos dias de hoje, muito dinheiro e poucos craques. Os jogos eram realizados no Mutange e na Pajuçara. No campo do CSA quando chovia, o gramado virava lama. Quando fazia sol, a grama ficava dura. No campo do CRB, nos intervalos dos jogos, os jogadores tinham que tirar as chu- teiras e jogar a areia fora. Apesar disso, era gostoso jogar naquele tempo. Na imprensa, havia Luiz Alves, Aldo Ivo, Osvaldo Braga e outros que sabiam criticar. Faziam críticas construtivas. Existia uma crónica completa de todo o jogo. Hoje mudou. Existe mais espáço no jornal, no rádio e na televisão. Infelizmente, esses espaços são ocupados mais com o noticiário do futebol do Rio e de São Paulo.

E Claudinho contou um detalhe de sua vida esportiva que poucos sabem. Ele participou ativamente do esporte amador, atuando pelo Flamengo de Maceió como jogador de vôlei e basquete. Com ele, jogavam outros craques do futebol: Carijó, goleiro do CSA; Dudu, goleiro do CSA; Arroxeias, do CRB; Geraldo, do América; Ve- tinho, do Ferroviário. As partidas eram disputadas na quadra de cimento da Polícia Militar. Para ele, o negócio era jogar. No gramado, na quadra, na praia ou em qualquer lugar. Tendo uma bola e ura pedaço de chão, já era suficiente. Voltando ao futebol de campo, Claudinho sente saudade de jogadores com Bandeira, Miguel Rosas, Cacau, Divaldo, Castelar, Nezinho, Cão, Dida, Laxinha, Da- rio, Santa Rita e Miltom Mongôlo. Nunca ouviu falar em suborno no se u tempo de jogador. Talvez, porque a divulgação não tinha a mesma dimensão dos dias atuais.

Claudinho afirma que valeu a pena ser jogador de futebol. Se pudesse, começava tudo de novo. Foram dezesseis anos de muitas emoções e poucas decepções. Fez diversas amizades douradoras e soube ser um profissional responsável. Ganhou algum dinheiro, gastou outro tanto, contudo ficou com alguma coisa. Aposentou-se como funcionário do Estado e, apesar de seus oitenta anos de idade, vive a vida que Deus reservou para ele.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

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terça-feira, 3 de junho de 2014

Lauthenay Perdigão. Depoimento para a história: Alfredo Ramires Bastos

 

 

Estes textos foram publicados em Contexto de 04 de setembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.





Depoimento para a história: Alfredo Ramires Bastos
       Lauthenay Perdigão
 



Alfredo Ramiro Bastos nasceu no dia 25 de fevereiro de 1923. Formou-se em Medicina em 1948, na Universidade de Recife e se especializou em cardiologia. Também fez curso de especialização em Medicina do Trabalho. Foi professor atuante de Medicina na UFAL, Chefe do Departamento Médico da Clínica Médica do Hospital Universitário e do Serviço Médico da Salgema. Foi treinador do Centro Sportivo Alagoano e médico da Seleção Alagoana. Foi campeão pelo clube azulino no ano de 1952 e no tetracampeonato de 1955 a 1958. Também treinou as equipes de voleibol do Bonfim, CSA e Fênix. Foi campeão pela Fênix e, pelo CSA, conquistou I Jogos Abertos de Voleibol da FADA.


Existem treinadores que a torcida e o dirigente acreditam que dão sorte.Talvez este seja o caso do Dr. Alfredo Ramiro Bastos. Sempre foi um técnico vencedor, um homem capaz de levar seus comandados a vitórias sensacionais e seu clube a títulos memoráveis. Um desportista que aliava seus conhecimentos técnicos à liderança e à amizade que tinha com os jogadores. Seu grande trunfo era ser um comandante único. Ele treinava, orientava, escalava e comandava seu time sem ajuda de ninguém. Dr. Alfredo era um treinador diferente, um homem enérgico, líder, corajoso, leal e com muita moral. Um técnico que deixou seu nome gravado na história do Centro Sportivo Alagoano.

A formação profissional

Alfredo Ramiro Bastos é de família tradicionalmente azulina. Seu irmão, Dr. Carlos Ramiro Bastos, chegou a ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. Por isso, logo cedo ele foi levado para jogar nos juvenis do clube azulino. Entretanto, sem muito jeito para praticar 0 futebol, resolveu parar antes mesmo de começar. Apenas participou de algumas peladas no tempo do colégio. Preferiu os estudos e terminou seu curso de Medicina.

Quando regressou a Maceió, recém-formado foi logo consultado sobre a possibilidade de aceitar ser Presidente do Centro Sportivo Alagoano. O convite foi recusado. Dr. Alfredo não se achava com qualificações, com o gabarito e a experiência para ser Presidente de um clube como o CSA. Esse conhecimento significou 0 enfoque para que 0 jovem médico iniciasse uma atenção toda especial para as atividades do seu clube e também do próprio futebol alagoano.

A iniciação no CSA


Foi Segismundo Cerqueira, diretor do CSA, quem começou a levá-lo ao Mutange para
observar os treinamentos da equipe azulina. Assim, ele começou a se entrosar com o grupo. Um dia, Dr. Alfredo se descobriu treinador do clube. Foi quase incessível. Segismundo, que treinava o CSA junto com Palito, ex-goleiro do clube, foi aos poucos cedendo seu lugar. Em dado momento, lá estava Dr. Alfredo junto com Palito dirigindo o time azulino. Aliás, a dupla contrastava pela altura. Palito era magro e alto; Dr. Alfredo, baixo e forte.

Houve momento em que ele já treinava 0 time e outras pessoas o ajudavam, mas desde 0 dia em que começou a sentir a responsabilidade de comando da equipe, deixou bem claro que ele seria 0 treinador único. Existem técnicos que são treinadores, contudo não são comandantes. Dr. Alfredo teve que optar por uma técnica melhor ou um comando único. Ficou definido comandante único. Não iria admitir interferência de ninguém. Ele gostava da expressão "comandante". Não se considerava um técnico, e sim, um comandante. Aos poucos foi adquirindo conhecimentos técnicos e começou a se desenvolver. Mandar sozinho foi um fator preponderante para ele vencer e o time ser campeão.

Dr. Alfredo dirigia 0 time principal e 0 aspirante. Isso facilitava seu trabalho, porque ele manuseava as duas equipes, utilizando-se, quando necessário, dos jogadores dos aspirantes que eram escalados no time principal sem problemas. As duas equipes jogavam dentro do mesmo sistema e estavam todos sempre jogando. Os aspirantes jogavam nas preliminares do time principal e o CSA chegou a ser hexacampeão

Sua estreia oficial como treinador do CSA aconteceu no dia 5 de agosto de 1952, em uma partida realizada na Pajuçara pelo Campeonato Alagoano contra o Ferroviário. O clube da Rede Ferroviária estava formando uma grande equipe que, nos dois anos seguintes, seria bicampeão. O jogo era muito importante para Dr. Alfredo que sentia uma grande responsabilidade diante da torcida azulina. As lembranças estavam bem vivas para o técnico azulino, principalmente pelas mudanças no marcador: Ferroviário 2x0.

O congraçamento no esporte


Depois do jogo, Zequito Porto, falando com Segismundo Cerqueira, parabenizava-o pela bela exibição do CSA. Naquele instante, Segismundo foi muito sincero e leal. Ele disse para Zequito que todos os elogios deveriam ser para Dr. Alfredo, 0 verdadeiro e único responsável pelo sucesso do time do Mutange. Para 0 comandante dos azulinos, aquilo era gratifi-
cante, porque ele sempre considerou Zequito Porto como a maior autoridade do futebol Alagoano, e Dr. Alfredo não poderia deixar de registrar a importância de Zequito na sua participação dentro do futebol. Nas seleções alagoanas, um era 0 técnico e 0 outro o médico. Nesse convívio, havia muita conversa, principalmente sobre 0 futebol, suas táticas e suas técnicas. Tudo aquilo transformou os dois em verdadeiros amigos cuja amizade perdurou até os últimos dias do Zequito.


Dr. Alfredo já era comandante do time do CSA e, por isso, observava com atenção as instruções dadas por Zequito aos jogadores da Seleção. Era uma maneira diferente daquele que aprendera com Segismundo Cerqueira. Este era um técnico exclusivamente de campo. Zequito reunia essas qualidades e acrescentava a de psicólogo. Mostrava aos jogadores como se colocar em campo, como se defender e atacar. Seu time era bem distribuído e ocupava todos os espaços do campo. Tudo era observado e anotado por Dr. Alfredo e foi de grande utilidade
para quando ele retornou ao CSA. Começou a compreender a necessidade da teoria no futebol. Mandou buscar livros que comentavam sobre táticas e técnicas no futebol. Quando grandes equipes do futebol brasileiro jogavam em Maceió, e ele gostava de conversar com seus treinadores para aprender sempre mais.


O gosto pelo teórico

Com o passar do tempo, Dr. Alfredo foi se transformando, de certa forma, em um teórico. Chegou a dominar razoavelmente bem a técnica do futebol. Como comandante, ele considerava-se mais um técnico teórico do que propriamente um treinador prático e tático. Sua grande dificuldade, em determinado momento da partida, era transformar seus conhecimentos técnicos quando tinha que alterar 0 sistema de jogo da sua equipe. Apesar disso, não deixava transparecer a seus comandados qualquer indecisão de sua parte.

A Sofia e o Xaxado: 4 a 0

Xaxado era a música do momento e com os jogadores do CSA jogando dentro do gramado da Pajuçara e a torcida azulina batendo palmas e gritando Xaxado, Dr. Alfredo viveu um momento de grande emoção no futebol. O jogo era contra 0 CRB em 1952. Foi um verdadeiro "olé". Jamais se pensou em desrespeitar 0 adversário. Aquele era 0 dia do CSA. Tudo dava certo e para Dr. Alfredo era gostoso observar o passeio que os atletas do velho rival estavam levando naquela tarde de 21 de setembro. O CRB comemorava mais um aniversário e 0 CSA ofereceu 0 baile. Nesse jogo, aconteceu uma coisa curiosa. Por incrível que pareça, Dr. Alfredo não sabia do caso da Sofia, aquele jogo em que 0 CRB goleou o CSA por 6x0 em 1939 e, até os dias de hoje, o CSA não conseguiu fazer o mesmo placar. Quando no jogo do Xaxado o marcador marcava 4x0, a torcida começou a pedir mais. Entretanto, ninguém o advertiu que havia uma Sofia atravessada na garganta dos azulinos. Os jogadores azulinos queriam fazer a bola correr de pé em pé, sem se preocupar em fazer mais gois. Muitos foram perdidos. Apesar de não conseguir os 6x0, outra exibição daquela vai ser difícil de acontecer em um campo de futebol.

A força bruta de King


Um dos jogadores mais discutidos do plantei do CSA, na época, era King. Jogava nos aspirantes e muitas vezes era aproveitado no time principal, chegando mesmo a disputar um campeonato inteiro como titular. Apesar de ser chamado de "grosso", King sabia fazer gois, muitos gois. Tecnicamente era fraco. Contudo, uma bola lançada em profundidade à frente de King era meio gol. Não era veloz, mas sua robustez, pela sua massa muscular enorme que fazia do centroavante um bloco de músculo, dificilmente era derrubado. Dr. Alfredo gostava de utilizar King no segundo tempo dos jogos. O ataque do CSA era formado por jogadores leves, habilidosos que gostavam de tabelar, driblar. Durante quarenta e cinco minutos, a defesa adversária ficava sentindo a leveza, os dribles, os toques. Quase que não havia o corpo a corpo. No segundo tempo, entrava King e as coisas mudavam. Os zagueiros passavam a serem assediados, molestados. Eles sentiam a diferença e ficavam preocupados com 0 atacante azulino. King entrava duro, forte, dividia e dificultava as rebatidas dos âdversários.

E a luz sumiu

A rivalidade entre CSA e CRB atravessa os anos e todos que passaram pelos dois clubes sentiram de perto fortes emoções e também algumas decepções. Certa vez, Dr. Alfredo fez uma coisa que se fosse hoje não faria. Por isso, ele fez questão de contar o acontecido. Foi em um clássico CSA e CRB que começou atrasado e terminou mais atrasado ainda por falta de energia no campo do Mutange. Naquele tempo, os jogos eram disputados com bola alaranjada. A noite, essas bolas eram pitadas de branco, que com o passar dos minutos, a tinta ia saindo e a redonda não ficava branca nem amarela. O CSA vencia por 1x0 e ficou na defesa para garantir 0 resultado. O CRB foi todo para 0 ataque. A iluminação era deficiente. O goleiro azulino passava por dificuldades por causa da bola e dos refletores. Os dirigentes do CSA pediam para a Federação trocar a bola e não eram atendidos. Quando Dr. Alfredo sentiu que as coisas estavam pretas e 0 CRB podia empatar a qualquer momento, usou de um expediente nada correto.

Chamou Seu Antônio, que tomava conta do Mutange, e ordenou: desligue as luzes e desapareça. O pai do Peu, que obedecia cegamente ao Dr. Alfredo, não pensou duas vezes. Foi até a Casa de Força e desligou os refletores. Ninguém percebeu o que aconteceu. Todos pensavam que tinha havido um problema com a Força e Luz, hoje Ceai. Com o jogo paralisado, houve tempo para conversar com 0 árbitro, trocar a bola, esfriar a reação do CRB e acertar alguns detalhes com os jogadores do CSA. Quando Dr. Alfredo achou que estava tudo em ordem, a energia voltou, os refletores voltaram a funcionar, 0 jogo continuou e 0 clube azulino manteve o resultado. Dias depois, quando a diretoria do CSA soube o que realmente tinha acontecido, não gostou da atitude do Dr. Alfredo, principalmente Napoleão Barbosa.

A amizade acima de tudo

Apesar da grande rivalidade, aconteceram casos que mostram que uma grande amizade pode passar por cima de tudo. Dr. Alfredo tinha em Zequito Porto um grande amigo.

Um comandante do CSA; outro, treinador do CRB. Além da amizade, existia muita confiança entre os dois. Um exemplo disso está nesse detalhe. Dario Marsiglia, que jogava pela meia esquerda do CRB e era o grande craque do clube da Pajuçara, estava contundido. Era a semana que antecedia o clássico. Zequito levou Dario para Dr. Alfredo curá-lo. Ele trabalhou a semana toda para que o atacante ficasse bom do tornozelo. No dia do jogo, já no campo. Dr. Alfredo, técnico do CSA, enfaixou o pé do Dario e ele jogou normalmente. Esse não foi um caso isolado. Muitos outros jogadores alvirubros eram enviados ao consultório do Dr. Alfredo.

Depois da conquista do campeonato de 1952, Dr. Alfredo foi aos Estados Unidos para fazer um estágio a fim de aprimorar seus conhecimentos na cardiologia. Quando regressou, voltou ao CSA para conquistar o primeiro tetra- campeonato da história do clube azulino. Revendo as fotos dos quatro campeonatos, Dr. Alfredo não destacou nenhuma. Todas foram boas, cada uma dentro da sua temporada. O ambiente foi sempre o mesmo. Havia grandes  jogadores, porém a disciplina estava acima de tudo e foi um dos fatores mais importantes para se conquistar o campeonato quatro vezes. A cada título era uma emoção. No esporte, não tem coisa melhor do que sair vencedor em uma competição.

Dr. Alfredo nunca teve problema com seus comandados.

  A indisciplina violenta o esporte. Por isso, ganhava a disciplina de seus atletas com exemplo de assiduidade, pontualidade, esforço e boa vontade para resolver os problemas particulares de seus comandados. Dr. Alfredo recebia os atletas e seus familiares no seu consultório sem receber nenhum tostão. Com suas atitudes simples, franca e firmes deixavam os jogadores à vontade e conquistava a amizade e o respeito de todos.

A entrada de Dida no CSA


Foi Dr. Alfredo quem levou Dida para o CSA. Um dia um jogador chamado Penedo e que atuava nos aspirantes do CSA, convidou o seu treinador para assistir a um jogo de pelada na Praça da Cadeia. Lá jogava um garoto endiabrado chamado Dida. As jogadas do jovem atleta impressionaram Dr. Alfredo, que logo que terminou a pelada, procurou Dida e lhe perguntou se queria jogar no CSA. Dida bem que gostaria, mas ia depender da permissão de seus pais. O médico-técnico não perdeu tempo. Foi junto com Dida até sua casa para conversar com Seu Jaime. Ficou acertado que o CSA, nos dias de treinos e jogos, mandaria um carro para pegar Dida e depois trazê-lo de volta para sua casa, além de pagar seus estudos.

Na mesma semana, o futuro craque já estava no Mutange como titular da equipe azulina. Muita gente estranhou aquele menino franzino no time principal. Todavia, em uma das primeiras jogadas do treino, Edgar lançou uma bola para área. Dida suspendeu a perna direita, matou a bola lá em cima e quando ela desceu, chutou violentamente de pé esquerdo para o gol dos reservas. Estava ali o jogador que Dr. Alfredo precisava. Ali estava o malabarista, o artista e o futuro campeão do mundo.

No domingo, o CSA jogaria contra o Auto Esporte, vice campeão do ano anterior e uma das boas equipes do campeonato. Dida foi regularizado às pressas para jogar no domingo. Sua escalação foi uma surpresa para muita gente. Segismundo Cerqueira, que não tinha ido aos treinos do CSA, achava que Dr. Alfredo estava louco. Escalar um garoto para um jogo tão importante. Afinal, Dida era desconhecido e nem tinha passado pelos aspirantes. Depois da partida, com uma excelente atuação, Dida calou a boca dos descrentes. Dida, como todo artista, tinha sentimentos delicados, tinha uma forma toda especial de ser conduzido e, nesse aspecto, parecia frágil, mas não era. Jogava valentemente contra duros zagueiros.

No início da década de cinquenta, Dr. Alfredo foi médico da Seleção Alagoana e participou de duas memoráveis partidas. Em 1952, contra os sergipanos no famoso jogo dos 163 minutos. Jogo disputado no Mutange e que, além da vitória nos noventa minutos, os alagoanos tiveram que disputar duas prorrogações de trinta minutos e o gol alagoano que definiu nossa classificação veio aos treze minutos da terceira prorrogação. Neste jogo. três fatores decidiram a nossa vitória: disciplina, bom nível técnico dos jogadores e preparo físico. A outra partida aconteceu em 1954 contra os paraibanos. Alagoas perdia de 3x1 e virou o marcador para 4x3 com Dida fazendo dois golaços. Foi o jogo que levou Dida para o Flamengo. Na virada, valeu a raça e a vontade de vencer dos alagoanos. 

Quando serviu à Seleção Alagoana, Dr. Alfredo era médico e Zequito Porto era o técnico. Foi um período de muito aprendizado para o técnico do CSA. Era muito observador e tirava proveito de tudo de bom que via nas preleções, nas mudanças táticas da seleção durante o jogo e o comportamento de todos. Dr. Alfredo que sempre foi um comandante sério e um técnico teórico habilitou-se a ser um vencedor. O mesmo sucesso também se repetiu no esporte amador quando foi treinador de voleibol.

Por tudo de bom que aconteceu com ele, valeu à pena ser um comandante no esporte. As amizades que conquistou, as emoções pelas muitas vitórias que viveu e pelo aprendizado que recebeu, Dr. Alfredo agradece ao esporte, hoje. aos 88 anos de idade.

Lautheney Perdigão. Lautheney. Depoimento para a história: César, goleiro do CRB

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 19 de fevereiro de 2012 em Tribuna Independente 

domingo, 15 de junho de 2014

25 de setembro de 2020 

Lautheney Perdigão. Depoimento para a história: César, goleiro do CRB

Texto publicado em Contexto de 19 de fevereiro de 2012 em Tribuna Independente. Para este blog, estas utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.

Um pequeno bilhete sobre futebol

Luiz Sávio de Almeida

Mais uma vez, o  futebol aparece em Contexto sob  a batuta do maestro Lautheney Perdigão e  agora balanceando o que é do  CSA e o que é do CRB. Houve uma grande transformação no futebol de Alagoas, com o deslocamento do papel de Maceió; antes o interior não estava consolidado, apesar do que acontecia em Penedo, mas atualmente, ninguém pode negar a importância de posições como a de Arapiraca a partir de uma brilhante reestruturação do ASA. Isto significa, que há massa de capital suficiente para sustentar a profissionalização, redistribuída territorialmente. Alguns locais parecem ter fracassado nesta sustentação, como é o caso de Palmeira dos índios e a minha querida Capela.

A relação entre capital e futebol é estreita: poder de sustentação de profissionais, pagamento de massa salarial e outras despesas de monta. Os clubes não conseguem mais viver sem o merchandising. A camisa está alugada E interessante ver a transformação do símbolo e a própria resignificação de termos no mundo do futebol. Perdeu em densidade expressões como amar a camisa, sua a camisa, dar a alma pelo time e por aí vai. É que o universo do futebol cada vez mais se dilui em mercado. Bom, Contexto tem se beneficiado e muito da participação de Lautheney Perdigão que se prepara para um blog do Museu, que merece ser acessado por todos nós. Hoje ele nos traz a história de César, goleiro que marcou época. Ser goleiro é algo dificílimo e requer, a meu ver, um enorme senso de ângulos. O goleiro é um geômetra, um calculador de ângulos. Foi uma posição em que nunca pisei. Fui ruim em outra, eu era péssimo em tudo mas especialmente onde eu teimava em jogar: center- half. Não sei como se chama hoje. A bola era quem jogava e não eu.

Apesar de tudo, continuo amando o futebol e vendo sentido em declarar minha ligação com o CRB e com o Flamengo, coisa bem semelhante ao Toroca. Acho que foi por conta do Toroca que me deram um título de Sócio Honorário do CRB. É isso, Toroca?
•Sávio Almeida
 
Depoimento para a história: César, goleiro do CRB

Lautheney Perdigão


Defender uma bola que vem alta, rebater de soco ou fazer uma ponte, são coisas que um bom goleiro deve saber fazer para não errar. Socar uma bola no ar não é tão fácil quanto pode parecer. Exige uma coordenação de movimentos muito grande, principalmente se o goleiro usar apenas os punhos. E todo bom goleiro precisa ser tranquilo, elástico e voador, quando necessário. Carlos César tinha tudo isso e mais alguma coisa. Seguro, correto, profissional compenetrado de seus deveres, primando sempre pela disciplina, César sempre foi querido pelos companheiros e respeitado por dirigentes e torcedores. Nasceu no dia 22 de setembro de 1954. Estudou no Colégio Guido. Sempre gostou de uma boa música e é fã de Roberto Carlos.
Começou nos juvenis do CSA em 1971. A oportunidade surgiu através de um convite do amigo Capeta. No clube do Mutange se deu bem e logo era titular da equipe.

O técnico era Gerson que o incentivava bastante. César ganhava vinte cruzeiros por semana. No momento da reforma do compromisso dos dirigentes azulinos, prometeram um aumento e não cumpriram. O tempo foi passando, surgiu um convite do CRB que lhe garantiu uma boa gratificação e César se transferiu para Pajuçara.

No clube alvirrubro, assinou um contrato de gaveta que deram entrada na Federação em março de 1973. Durante dois anos atuou pelo juvenil do clube. Formou ao lado de Jeová, Ailton, Marcus, Jorge Siri, Roberval Davino, Capeta, Everaldo e outros, um dos melhores times da categoria. Graças as suas boas atuações no gol do time juvenil o treinador Jorge Vasconcelos começou a colocar César no banco de reservas nos jogos do time principal. Sua estreia se deu contra o ABC de Natal no jogo de entrega das faixas aos Campeões Alagoanos de 1972. Jorge Vasconcelos foi o técnico que acreditou em seu futebol. Ofereceu a Cesar as grandes oportunidades que ele soube aproveitar. Quando era escalado como titular, sentia- -se muito bem.
 
CRB - Tetracampeão

Fisicamente estava excelente. Tecnicamente lhe faltava experiência. Isso ele foi conquistando com os jogos. E a partir do jogo contra o Bahia no Campeonato Brasileiro de 1973, Cesar se tornou titular absoluto do CRB. Honesto e aplicado nos treinamentos, o jovem goleiro começava a ter o gostinho de ser ídolo de uma grande equipe.

Houve um período que Cesar poderia ser transferido para o Flamengo do Rio de Janeiro. Seria uma grande chance para o jovem goleiro. Acontece que os dirigentes do CRB acharam que era muito cedo para sua saída da Pajucara. Sua inexperiência poderia lhe prejudicar no futebol carioca, porem prometeram que no futuro poderiam facilitar sua transferência. No começo, Cesar ficou chateado. Jogando no futebol carioca, ao lado de grandes craques, ele poderia aprender bastante. Mas, como bom profissional, acatou as ordens de seus superiores.

Continuou defendendo a meta do CRB com uma frieza que, as vezes, amedrontava seus torcedores. Quando o perigo rondava sua area, ele se mantinha calmo, procurando se colocar de acordo com o rumo da bola. Uma de suas qualidades era a de não ficar nervoso. Por isso, inspirava confiança a todos os seus companheiros. A chegada do novo goleiro Jonas serviu de incentivo para Cesar. Ele era o titular. Tinha confiança em si mesmo e para Jonas tomar seu lugar tinha que provar em campo que era melhor do que ele. A sombra de Jonas fazia com que ele treinasse mais, cuidasse-se mais. E Cesar se tornou amigo de Jonas. A rivalidade era apenas no campo.


Nem sempre os chutes contra seu gol sao motivos para fazer pontes sensacionais ou voos espetaculares. Cesar preferia as defesas mais simples e sem complicações. Para impedir que a bola ultrapassasse sua meta era necessário muito treino, muito preparado físico, muito talento. Para Cesar, o chamado gol frango era normal. E como se um atacante perdesse um gol feito. Todos falham e o goleiro também.

O gol perdido e sempre esquecido e o frango passa a ser uma triste lembrança para o goleiro que falhou. Na historia do futebol, ate os grandes goleiros falharam. Ele era favorável à concentração, porque nem todos os atletas eram responsáveis. No CRB, foi tetracampeao nos anos de 1976. 1977. 1978. 1979.

No ano seguinte, o clube da Pajucara poderia ser pentacampeao. Na penúltima rodada, em jogo realizado na cidade de Arapiraca, o CRB enfrentou o ASA. Quando o marcador era de 2x2, aconteceu um pênalti a favor do clube da Pajucara. Cesar foi para a cobrança e perdeu.

Se o CRB vencesse, jogaria pelo empate na rodada final contra o CSA. Com o empate, quem jogou com a vantagem foi o clube azulino. Para Cesar, o pênalti perdido contra o ASA não teve muita repercussão depois da partida. Afinal, o clube ainda tinha um ultimo jogo. Depois do clássico com o CSA, o qual ganhou o campeonato com o empate, e o CRB perdeu o tão sonhado título, foi que começaram os comentários. “Quem devia ter cobrando o pênalti era o Joãozinho Paulista”, “Se Cesar tivesse feito o gol o CRB teria sido penta”. Coisas assim ele ouviu muito.


Suas grandes atuações no Brasileiro de 1980, principalmente depois do jogo contra o Paysandu, quando Cesar fechou o gol, chamou a atenção do treinador João Avelino, que indicou seu nome para Osvaldo Brandão que estava reformulando o plantei do Corinthians. Veio a Maceió um empresário que tomou informações sobre Cesar junto a torcedores, cronistas e dirigentes. Nem precisou observar Cesar jogando. O goleiro alagoano estava contratado pelo Corinthians. No inicio, financeiramente não foi muito bom. No CRB, ganhava quarenta mil e tinha casa, comida, a família e os amigos. Assinou com o Corinthians sem luvas e cem mil por mês, contudo pagava apartamento, comida, não tinha a família ao seu lado e os amigos estavam longe. Tudo era compensado pelas gratificações que recebia por vitorias. Muitas vezes as gratificações mensais eram maiores do que o salário.

No Corinthians teve bons e maus momentos. Treinava muito, pois tinha que mostrar servico. A imprensa paulista e a torcida corinthiana achava que Cesar era um goleiro baixinho. Mesmo sem ligar para algumas criticas, ele treinava mais que os outros. Entre 1981 e 1983, Cesar vestiu a camisa do Corinthians com muito profissionalismo. Seu grande momento no futebol aconteceu no dia 14 de marco de 1982, quando o Corinthians enfrentou o Internacional de Porto Alegre no Morumbi. Os paulistas venceram por 1x0 e Cesar fechou o gol.

CRB 1982

A torcida gritava seu nome e ele ganhou todos os prêmios de maior jogador da partida. Na segunda-feira, os jornais só falavam em Cesar:
“A Cesar o que e de Cesar” - “ As mãos de Ouro” - “O pequeno grande Cesar” - “O Dia em que Cesar foi herói corinthiano” - “Corinthians supera Inter em tarde de Cesar” - “Nunca vi coisa Igual”.

Essas foram algumas manchetes de jornais de Sao Paulo depois do jogo contra o Internacional. Cesar foi uma muralha. Era reconhecido na rua, dava autógrafos, chegou a fazer parte da lista de 40 jogadores pre-inscritos para a convocação de Tele Santana para a Copa de 1982. Era uma felicidade que parecia não ter fim. Dias depois, um chute sem maiores pretensões do lateral do Grêmio de Porto Alegre foi exatamente em cima de Cesar que falhou e o gol foi marcado. O goleiro jura que a bola não entrou.


Foi um jogo noturno e o juiz somente marcou o gol porque o bandeirinha apontou para o centro do campo. Se no domingo tinha sido herói, naquela noite passou a ser o vilão da fiel torcida. A derrota tirou o Corinthians do campeonato e, desclassificado, Cesar foi dispensado. Depois do jogo contra no Grêmio, Cesar ficou conhecendo como e o tratamento de dirigentes com os jogadores.

O diretor de futebol do clube era Adilson Monteiro que depois dos jogos sempre lhe procurava para os tradicionais tapinhas nas costas e a promessa de boas gratificações. Depois do jogo com o Internacional, Adilson só faltou colocar Cesar nas costas e sair correndo pelo gramado. Quando o jogo do Grêmio terminou, o diretor fez que não viu o goleiro. Logo depois, Cesar era emprestado ao Juventus.
  
A posição de goleiro é difícil e ingrata. Quando toma um gol defensável é o bandido, o estraga festa ou simplesmente o frangueiro. Na alegria das vitórias nem sempre são lembrados pelas belas defesas. As atenções são voltadas para os artilheiros. Dificilmente acontecem casos como aquele de César contra o Internacional, já que no jogo seguinte o melhor pode virar o pior. As mãos que aplaudem são as mesmas que jogam pedras. César foi emprestado ao Juventus de São Paulo onde teve grandes atuações. O clube da rua Java- ri estava pronto para comprar seu passe que pertencia ao Corinthians.


César não teve paciência de jogar em um time considerado pequeno como o Juventus e isso atrapalhou seu trabalho em São Paulo. Poderia continuar jogando e depois conseguir um clube de maior torcida. Magoado com as críticas de certa parte da imprensa e da torcida do Corinthians, preferiu retornar a Alagoas e assinar contrato com o ASA de Arapiraca. Foi uma boa passagem pelo clube alvinegro, afinal estava perto da família e dos amigos. Não foi melhor, porque o ASA tinha problemas que eram passados para o plantei. Depois, foi jogar no Flamengo do Piauí. Foram dois anos e meio de muito sucesso. Foi campeão e sempre como o melhor goleiro do campeonato. Criou grandes amizades e tinha o crédito de todos daquela cidade. Retornou para Maceió e lembra com muita saudade o período quem vestiu a camisa do Flamengo.

Para César, o melhor treinador foi Jorge Vasconcelos. Com ele aprendeu muito. Jorge era um técnico exigente, mas justo. Seus jogadores eram seus amigos. Por isso, o time foi muitas vezes campeão com ele. Quando César chegou no Corinthians, encontrou Osvaldo Brandão. Um bom técnico, entretanto na hora do aperto sempre procurava colocar a culpa nos jogadores mais humildes. Tecnicamente, o melhor foi Candinho. Ainda no Corinthians, encontrou um goleiro que não era flor que se cheirasse. Chamava-se Rafael. Tinha jogado no Coritiba e achou que seria o titular.

Na reserva, não falava com César e procurava, de todas as maneiras, criar problemas para o goleiro alagoano. Por ser um atleta disciplinado e que não discutia com arbitragem, César nunca foi expulso de campo em mais de dez nos de profissão. Ele pretende receber o prêmio Belfort Duarte que foi instituído para os atletas mais disciplinados do nosso futebol. Outro episódio que tira César do sério, é quando se comenta sobre a Máfia da Loteria. No início dos anos oitenta, o radialista Flávio Moreira o denunciou como integrante da Máfia da Loteria.


Apesar de logo depois seu nome ter sido retirado da lista, o boato se espalhou e muita gente olhava atravessado para ele. Foram momentos difíceis de sua vida. Quando se fala sobre o assunto, César duvida que alguém possa acusá-lo novamente. Para aqueles que o conhecem, sabem do comportamento de César dentro e fora dos gramados. Todavia, a injustiça serviu para realçar sua grande virtude: a personalidade. Lutando calado em meio à tempestade, sem lamentar ou lançar acusações precipitadas, ele continuou dando duro nos treinamentos.

Apesar de tudo, valeu a pena passar mais de dez anos jogando futebol. Fez muitas viagens, conheceu países lindos e desfilou seu grande futebol em estádios normalmente lotados. Um rapaz que saiu de Maceió para jogar no Corinthians, um clube que tem uma das maiores e fanática torcida do mundo e começar a viajar de Jumbo para conhecer países com  costumes e tratamentos diferentes. O México foi aquele que mais o impressionou.

Um povo que ama o futebol e sempre lota seus estádios. César conta que foi na cidade do México que fez sua maior defesa como goleiro.
Um chute forte, um pulo para o lado, a bola desviada para o outro e ele teve que voltar e fazer sua grande defesa. Como todo mundo, César também teve suas grandes emoções. Conquistar o tetracampeonato pelo CRB jogando nos quatro anos consecutivos foi bom demais. No ano do tetra, o clube tinha como base jogadores da nossa terra. Eram sete os nossos jogadores. Apenas Deco, Mundinho e Flávio vieram de outros Estados. O CRB passou um sufoco nas três últimas rodadas, mas valeu a pena. E o título chegou no clássico contra o CSA, quando o CRB venceu por 2x0. Conquista de título derrotando o tradicional rival tem um gosto mais especial.






Nos dias de hoje Cesar vive na Barra de São Miguel


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