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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Luiz Sávio de Almeida. Rio São Francisco: as águas e pedaços de mim

 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

  1. São Francisco River: the waters and pieces of me

  2.  Río São Francisco: las aguas y pedazos de mí

  3. Rio São Francisco: as águas e pedaços de mim 

Luiz Sávio de Almeida

texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.

Fotos, 1  2  3 

 
Nem precisa comentar. A canoa é a mesma do meu tempo de menino. A vela tem o mesmo formato, mas não  é a mesma canoa e nem a mesma  vela. E nem o mesmo vento, no que basta olhar para o motor de rabeta.

Foto 4 

Quem reconhece a força das águas do rio?  A âncora? Ela seguramente segura com segurança. Mas a âncora não decide, ela é mandada e esta é uma âncora quatridente e singelamente repousando.  Parece que entre navegar e ancorar, a diferença é pouca. E se eu jogasse a âncora agora, o que aconteceria? Não sei. Deveria saber?


Foto 5
A escada é diferente da âncora. A escada fica sobre o azul e branco, enquanto a âncora fica sobre o verde. Ninguém facilmente é capaz de subir e descer pela a âncora. Pela escada pode. A escada é um caminho feito por duas ladeiras: uma que é subida e outra que é descida. 
 
Foto 6
 
Já subi e desci o rio nesta barca. É a Zanata. O pessoal é gente fina, mas nunca vi tanta barata dentro de um barco. Saí do salão, pois não aguentava e fui dormir aí em cima, enrolado em um lençol velho ou, melhor dizendo, histórico. O  vento batia mesmo, mas me livrei do que poderia ser um baraticídio.


Fotos 7  8   
 
Já subi

Eis a cara da Penedo, a mui leal e valerosa Vila. Quando eu era menino, cantava-se:
Penedo vai,
Penedo vem.
Penedo é terra
De quem quer bem!

Não esqueço desta música que cantavam lá em casa. Parece que o compositor morava na Rua da Penha, numa casa verde.

Lindo berço dos poetas
E das artes sublime inspiração...
Do São Francisco és a Princesa
Cidade amor Penedo!
Esta, também, é a formosa Rua da Praia, montada com algodão e gado. Lá está o Hotel das vedetes.
 



Fotos 9  10  11

Os povos andam nas águas; todo mundo que mora nas beiras do rio, tem que ser anfíbio. Quem não nada como peixe e jacaré,  anda de alguma forma nas águas. O que pensam estes menino pendurados na janela? O que eles vêm? Sera que adivinham o fato de que não somos daqui? Eles andam na Valéria. Eu penso que Valéria deve ser filha ou esposa do dono da lancha.

 
Fotos  12
 Esta é a minha velha e conhecida Carrapicho. Fica quase em frente a Penedo. Menino, eu brincava com os bois  de barro que faziam no Carrapicho, como as meninas brincavam com as panelas. Depois, fui diversas vezes subir a ladeira, entrar nas casas pobres dos artesãos que moram ali. É interessante o monumental da Igreja, a  casa a fazer uma das  esquinas da rua da ladeira.
 
 
 
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Luiz Sávio de Almeida, O começo do crepúsculo em Passagem

 

uinta-feira, 24 de julho de 2014

Rio São Francisico: o crepúsculo e as águas em Passagem

O texto sobre as fotografias está da forma como foi redigido em campo,  logo após ter sido tirada a foto ou depois, à noite, quando as imagens do dia eram repassadas.


Río São Francisco: el comienzo del crepúsculo
Fiume São Francisco: l'inizio del crepuscolo
 
 
O começo do crepúsculo em Passagem
 Luiz Sávio de Almeida

      Passagem é minha velha conhecida; mas, quando menino, sempre a vi de longe.  Via as lanchas saírem e voltarem, mas nunca atravessei o rio.  Houve uma época que meus pais íam muito. Faltava luz em Penedo e eles pegavam a lancha pra irem ao cinema do outro lado do rio. Somente fui à Passagem depois e adulto e ouvindo a falar de Neópolis,  uma palavra meio chata e até engrola um pouco a língua. Ela exige que a gente pense em um néo e em uma polis. Néo de novo, polis de cidade. Ela engana, faz a gente sentir-se  inteligente ao decifrá-la. Cidade Nova. Era uma cidade calçada na famosa fábrica de tecidos que aconteceu por lá.

      Penedo está ao fundo; na verdade eu não teria visto esta paisagem.. Aquele hotel não existia. Era, se não me engano, um sobrado. Derrubaram. Fizeram o Hotel São Francisco.  Corre uma urban legend engraçada. O dono do Hotel era muito rico e teria se chateado com vedetes de uma companhia que passou em Penedo. Elas diziam que a cidade não prestava, por não ter um Hotel. Aí, ele pegou dinheiro e fez uma obra monumental, uma imensa representação de um capital que já estava decadente. Macacos me mordam: a falência deveria estar prestes a bater, em face, inclusive, da crise têxtil. Macacos me mordam novamente: um dinheiro que fez falta.


     Hoje, as lanchas também não são as mesmas que vi. É de se ver a brancona turistosa, pensada para descer até a foz, pssando pelos canais e  caindo do manejos das marolas, dando o bordo antes que o mar começe a falar gosso.


     Até que deste ângulo, ela fica bonita. Salve a beleza. Acho que a foto foi na hora de uma preámar. O rio parece um piscina, sem marola, sem balançar canoa salvo pelo peso, algumas vezes, da refrega nas velas.

 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Luiz Sávio de Almeida. Propriá: sua igreja e chaminés

   Quarta-feira, 24 de julho de 2014  San Francisco River, Propriá City

Propriá:  sua igreja e chaminés
Luiz Sávio de Almeida
 
   As fotos foram tiradas durante a Opara ou Racha II. Propriá sempre me chamou a atenção por alguns fatos simples. O primeiro deles é o lamento absolutamente triste e gemido de Luiz Gonzaga em um baião que fala da Rosinha que ficou em Propriá.  Outro é mais família:  é lá que se encontra enterrada a minha avó Adelaide,  mãe  de meu pai.  É vizinha do Cedro, onde havia uma famosa carne do sol. E finalmente, recordo uma cachaça que tomei em Porto Real do do Colégio.

   Era meninote. Minha mãe foi até Arapiraca, passar o Natal com a vovó Dondon, que morava na casa da Tia Lurdes. O casal aproveita e vai visitar a velha Adelaide.  Pelo que me  recordo, ainda não havia a ponte ligando Alagoas e Sergipe e que seria tão reclamada pelo povo do Penedo. Já estava construído o hotel que  ficava  perto da estação de Colégio.  Tomamos dois quartos. Lembro dos banheiros estarem imprestáveis e o cheio nauseabundo que assumia os ares. 

   Meu pai e minha mãe tomam uma canoa. Preferi ficar. E fiquei e emburaquei na cachaça e o resultado foi quase uma coma alcoólica, e quem sabe não  estive. Lembro de vomitar sem parar com o rosto quase dentro da latrina imunda.  Barbaridade. Propriá me olhava do outro lado, rindo sem parar. Pela segunda vez: barbaridade.

   


Aqui está a famosa ponte numa péssima fotografia. A ponta da canoa se intromete e um pequeno ramalhete de baronesa desce devagar. A baronesa desce. O rio às vezes leva um balsedo para o mar. É um belo espetáculo.





Eis a estranha vista da cidade com as torres sem proporção e sem harmonia.  A sujeira domina a beira desta praia. Um velho ponto comercial em evidência, foi um restaurante. Hoje está completamente abandonado. Já almocei várias vezes aí. Do lado direito, nas noites de sexta a domingo, funciona a vida boêmia da cidade.






Aqui, aparecem os espigões das chaminés, tempo das beneficiadoras de arroz, que foram sumindo com a mudança do arroz de vazante.









Aí está a lateral da igreja. Sou fascinado pelo prédio que se encontra à esquerda. Nada entendo. Apenas acho bonito. Gosto de ver, mas de longe.





terça-feira, 29 de setembro de 2020

José Medeiros. Um pouco sobre a vida e sobre as águas de um rio

 

 

 

 

 

 

 

Memória: minha vida e as águas do São Francisco

domingo, 20 de julho de 2014 

Um pouco sobre a vida e sobre as águas de um rio
José Medeiros

Nasci numa fazenda, no município de Traipu, que era um santuário ecológico. Ao amanhecer, acordava ouvindo verdadeira orquestra de pássaros canoros. Mesmo no verão,  o sol não chegava a cauterizar toda a vegetação, na qual se escondiam teiús, perdizes e codornas.

Como era a minha pequena cidade

O que era Traipu? Uma cidade à moda antiga, de ruas estreitas,   calçadas com pedra rachão, ou mantidas em terra batida e poeirenta; casas de biqueira, janelas de madeira maciça, sem venezianas. Nas ruelas secundárias predominavam residências de taipa, nem sempre rebocadas. Os nomes das ruas de outrora eram bem diferentes das atuais: Rua das Flores, Rua da Igreja, Rua Grande, Rua do Papouco. Os nomes dos amigos de infância guardavam sempre relação de origem com seus pais: Mitinho do Américo, Luizinho da Santinha, Zequito da Luizinha, Aurinha da dona Carminho. São retratos sem retoques e recordações de uma cidade do interior, de vida pacata e mansa, porém imagens bem vivas em minha memória.
Nas noites de lua cheia, coincidência ou não, o motor elétrico sofria defeito. A cidade ficava às escuras, e as famílias sentadas nas calçadas, colocavam em dia as modestas novidades e acontecimentos locais. Dentro da casa, os lampiões de querosene, os candeeiros e velas, garantiam as arrumações na hora de deitar.
A poucos metros dali, o rio São Francisco deslizava mansamente, voluptuosamente, e uns poucos afoitos arriscavam tomar banho à noite. Predominava o medo de piranhas (peixes vorazes) alicerçado nas muitas histórias de pessoas desaparecidas, nunca mais encontradas.
A cidade de Traipu, nos idos de 1940, foi testemunha de minha infância alegre e feliz. Durante o dia, após as obrigações da escola, braçadas no rio, em disputa de distâncias a serem alcançadas. Emolduravam esse cenário canoas com velas infladas, traquetes coloridos, canoas de tolda assim eram conhecidas. Para quem viajava nesses transportes fluviais a alimentação era especial, uma feijoada de tão bom  paladar que celebrizou a expressão ribeirinha: "tão gostosa quanto feijoada de popa de canoa".
Esse quadro não estaria completo se não fosse citado o novenário da festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora do Ó, durante o qual transbordava religiosidade, animado por foguetórios, zabumbas, dobrados musicais e leilões.


A serra Tabanga, o rio e a canoa

Uma aventura no rio

Neste verão, lembrei-me de um episódio ocorrido em minha adolescência. Morávamos (eu e meu irmão Rui Medeiros) na fazenda Mata Verde, à margem do Rio São Francisco. Além de futebol, nossos esportes favoritos eram a pesca – como eram fartos os peixes e pitus àquela época! – e a natação à distância, sempre tentando superar limites anteriormente conquistados. Éramos adolescentes, vivíamos uma crise paranóica de auto-suficiência, cada um querendo ser dono do próprio nariz, sem medo de enfrentar riscos e obstáculos. A cidade mais próxima ficava a uma légua de distância (6 km) de onde nos encontrávamos, e o percurso era feito em canoas.
Julgávamos conhecer os segredos do rio e tínhamos confiança em sermos exímios canoeiros. Certa tarde comuniquei à minha mãe que íamos à cidade fazer compras, pilotando uma canoa à vela. Um “Não” foi a resposta; um “Não” redondo e definitivo. Explicou, que em algumas horas cairia uma trovoada; o céu já se tomava de uma coloração azul-chumbo e o rio ficaria perigoso durante a chuvarada. Tentamos convencê-la, em nada resultavam os argumentos.
            Desobedecemos, rumamos à cidade. Na volta – e já estávamos no meio do rio – desabou uma chuva torrencial, seguida de ventos fortes, que mais pareciam um furacão; os raios e trovões se sucediam. A vela foi arrancada violentamente, inteiramente destroçada. Desesperados, remamos com todas as nossas forças para alcançar a margem do rio. Entretanto, isso já parecia impossível. De repente, julguei ouvir a voz de minha mãe que me orientava: “Filho, tenha calma, deixe a canoa ser arrastada pela correnteza; é o melhor que você pode fazer”. Parei o que estava fazendo e segui o conselho recebido. O barco foi levado pela corrente impetuosa e depois jogado em terra firme, em local bem distante.
       O pensamento positivo e a energia da preocupação de minha mãe haviam transmitido uma mensagem à minha mente. Uma mensagem telepática.
            No dia seguinte (ela ainda estava uma “arara”) contou-nos que, no momento da trovoada, ajoelhou-se e pediu a Deus que orientasse seus filhos. Como penitência, acompanharia a “via-sacra”, de joelhos, nas semanas santas dos anos seguintes na cidade de Traipu.

As brincadeiras e seus encantamentos

Na minha infância tinha a curio­sidade de conhecer a fazenda de meus avós, chamada de "Saco dos Medeiros", situada à mar­gem do Rio São Francisco, 10 km rio acima do local que nasci. Du­rante um verão inesquecível, a bordo de um barco à vela, viajei até lá. Quedei-me mudo de emo­ção diante de uma casa grande no alto de um penhasco, de onde se divisa as curvas do trajeto do rio. Entro na sala: quanta emo­ção nas lembranças e reminis­cências familiares. Ali, reside um pouco da história de meus antepassados. Minha avó teve 16 filhos; não sei se recla­mava da extensão dessa tarefa. Ela era doce e meiga. O amor era a vitamina para todos os males do corpo e da alma. Renovava energias no contínuo trabalhar.
Brincadeiras infantis na fazenda: “Boca de forno, forno!” “Tirando bolo, bolo!” “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar...” “O cravo brincou com a rosa, a rosa...” Eram cantigas entoadas nas brincadeiras infantis preferidas pelas meninas, ao anoitecer. A bola que os garotos jogavam interrompia as brincadeiras femininas, acredito que por ciúme de terem sido isolados dos folguedos. O rio corria lá em baixo, no barranco, uma imensa caudal de águas claras e de fortes correntezas.
Se a tristeza do entardecer emergia mística, de imediato palavras-mágicas eletrizavam a garotada com o anúncio: “Venham, a sopa vai esfriar!” E eles, por graça, repetiam: “Café com pão, bolacha não!”.
São inesquecíveis imagens que povoaram minha infância nos idos da década de 1940. O rio, ainda intocado, guardava as características da época do descobrimento. Não havia hidrelétricas, nem represas. Durante as enchentes anuais, as águas se expandiam por quilômetros e quilômetros além das margens, e, nesses alagadiços, plantava-se o arroz que garantia a subsistência de muitas famílias. E aí, veio a primeira grande agressão. As hidrelétricas de Sobradinho, Xingó e Itaparica absorveram parte das águas do rio. Era o progresso, levando iluminação a cidades e vilas, energia necessária ao consumo e à modernização industrial. Quem arriscaria insurgir-se contra o progresso? Entretanto, a partir daí, o rio minguou em largura e volume de água. Em algumas partes virou riacho. Nessa época, a melhor alternativa de locomoção dos ribeirinhos do baixo São Francisco era o transporte fluvial. O rio era o caminho natural; as poucas estradas existentes eram quase veredas.


A cidade vista do lado oposto do rio

A importância de Traipu e de Penedo

Traipu e Penedo marcaram minha formação e delas guardo recordações que me sensibilizam. Repito sempre de memória: O tempo não para, para onde eu vou, ele me segue, traçando meu destino, fascinante, im­previsível.
Nessa época, não havia escola secundária em Traipu, e os adolescentes emigravam para a cidade de Penedo. "Quem desce de barco o rio São Francisco, a poucos quilômetros de sua foz, tem a agradável surpresa de avistar, sobre enorme penhasco, uma fileira de casas coloniais de variadas cores, realçando sobre as águas verdes-amareladas do rio. É a cidade de Penedo, uma das mais antigas do Brasil, fundada por Duarte Coelho Pereira, que lhe deu esse nome, devido à sua situação geográfica. Perto do cais, destaca-se sobre o casario antigo a bonita igreja de Nossa Senhora da Corrente, preciosa jóia da arquitetura setecentista, com suas torres arredondadas e seu frontão barroco".
Faço minhas essas palavras da amiga Nilza Megale, porque assim vi Penedo nos idos da minha infância. Ali, aportei no navio Comendador Peixoto, uma embarcação a motor de médio calado, que realizava semanalmente o trajeto fluvial entre Penedo e Piranhas. Vim para Penedo a fim de fazer o curso ginasial. As estradas para Maceió eram precárias. Assim, o rio era o grande caminho, a via móvel dos ribeirinhos que buscavam complementos de instrução na cidade de Penedo, conhecida como "capital civilizatória do baixo São Francisco".
Já estávamos instalados nessa cidade, quando recebemos a visita de parentes há muito tempo residentes no Rio de Janeiro. Fui incumbido de passear de canoa com um jovenzinho carioca, recém-chegado. Ao voltar todos queriam saber se ele havia gostado da pequena viagem. A resposta foi breve e clara: "gostei, mas estranhei os marinheiros (canoeiros) sem farda, descalços, sem boné...".

A herança religiosa

Em um lar cris­tão tradicional, na cidade de Pe­nedo, onde fiz os estudos do antigo 1° grau, as quintas e sextas-feiras da Semana Santa eram motivo de respeito conforme os ensinamentos religiosos.
Numa quinta-feira da Sema­na Santa, já não recordo o ano, fui sorteado, entre os ginasianos, para participar da cerimônia ca­tólica do "lava-pés", em que o Bispo lavava os pés de 12 crianças que representavam os após­tolos de Cristo. Esse sorteio pro­vocou estranha agitação em nos­sa casa. Minha mãe, ciosa dos princípios higiênicos, achou que meus pés de jogador de futebol de rua eram sujos, maltratados e não estavam condizentes com esse ato religioso. Coitado de mim. Uma semana de suplício por conta: suspensão dos jogos de rua e, diariamente, obrigado a lavar os pés várias vezes com pedra-sabão; eles quase viraram espelho.
No grande dia, na igreja, ca­lor sufocante, metido em uma veste talar, aguardei o início da cerimônia. O bispo aproximou os lábios de meus pés. Um arrepio percorreu meu corpo; a herança religiosa falava mais alto.

A doação

“Quando partimos no vigor dos anos, / Da vida pela estrada florescente,/As esperanças vão conosco à frente, / Vão ficando atrás os desenganos!.../ Eu e o Rui, meu irmão, recitávamos esses versos do Padre Antonio Thomaz, em nossa adolescência e juventude. Esperanças e bom astral eram a tônica de nossos entusiasmos juvenis. Se a juventude não é apenas uma fase de vida, e sim, um estado de espírito tangido pelo sabor da aventura e da vontade de vencer, nós estávamos certos quando cultivávamos expectativas positivas de futuro.
            Minha mãe contava uma história poética que tem sido transmitida de geração a geração, cujo título é “Doação”. Não se conhecem o autor, a origem e o ano em que foi publicada. Faz parte da crônica oral das famílias, contou-me minha mãe. Decorei-a, e anos mais tarde, ensinei-a às minhas filhas, mantendo a tradição É uma historieta cheia de simbolismo, emoção e sentimento. Vamos conhecê-la.
“Amigo, faze o bem, esse prazer compensa a maior recompensa. Aqueles frutos saborosos que o teu vizinho colhe, às vezes, a cantar, custaram, com certeza, o trabalho de alguém que já sabia que nunca em sua vida os colheria, mas nem por isso deixou de plantar”. Minha mãe repetia que essa historieta deveria servir de modelo em nossa vida.

Um eterno retorno

Recentemente, voltei à cidade de Penedo. Cada vez que volto a Penedo repito um roteiro de sentimento e de recordações, ao visitar ruas, praças, igrejas e locais que povoaram minha infância e adolescência. São muitas lembranças guardadas com carinho nas gavetas de minha memória. Na rua do Rosário, continua intocada a residência do Monsenhor José Medeiros, Monsenhor Medeiros como era conhecido, um sacerdote dedicado às letras, ao ensino e à religião. Dele herdei o nome de batismo e o estímulo à leitura dos clássicos da literatura brasileira. Foi exigente comigo e com meu irmão Rui Medeiros: era obrigatória a leitura e compreensão de textos, que posteriormente deveriam ser repetidos para ele. Muito aproveitamos com esse método que ele utilizava.

O encaminhamento para medicina e os livros

Meu tio, o Monsenhor Medeiros, que sabia de meu interesse em realizar o curso de Medicina, dizia que medicina é, antes de tudo, a ciência do homem. Para ser um bom médico, seria necessário compreender a natureza humana, abeberando-se na cultura geral e nos conhecimentos humanísticos.
Acrescentava: “Não existe medicina sem cultura e sem filosofia”. De filosofia, nem imaginava o que seria; de cultura, supunha livros e mais livros e a estante da residência do Monsenhor Medeiros (tio do professor Medeiros Neto e meu tio) constituíam um desafio. Aprendi a amar os livros. A biblioteca de Penedo era o refúgio dos fins de tarde. E meu primeiro encontro foi com Monteiro Lobato: “Narizinho arrebitado”, “O Saci Pererê”, “Caçada de Pedrinho” e Emília, Dona Benta e Tia Anastácia, entes que povoaram minha imaginação.
Mas, devorador de livros, percorri – na biblioteca – obras valiosas: de Érico Veríssimo a Jorge Amado, de Machado de Assis a Eça de Queiroz, e tantos, tantos outros, desfilaram nos anos de minha permanência em Penedo.
Hoje, minha maior lembrança é o Rio São Francisco: canoas que dependiam do vento; minha linha e meu anzol que fisgavam peixes pequenos e grandes; o plantio do milho em 19 de março, dia de São José (chovia nesse dia); as festas coloridas de Bom Jesus dos Navegantes.
Se recordar é reviver, eu vivo as alegrias dessas lembranças.

 

domingo, 27 de setembro de 2020

ROMARIZ, Antônio. Scenas Rio de São Francisco

San Francisco River, Cascata Paulo Afonso,  Cascada Paulo Afonso,  Paulo Afonso Waterfall,

sábado, 19 de julho de 2014

Rio São Francisco: um texto de 1879

ROMARIZ, Antônio.  Scenas do  Rio de São Francisco


O velho Rio São Francisco

Luiz Sávio de Almeida

        Não há como negar o fascínio que o Rio São Francisco carrega com suas águas.  e não são poucas as horas, as tintas, os escritos que foram dedicados a ele.  Eu estava  pesquisando um antigo jornal que circulava em Alagoas, século XIX, e me deparei com uma crônica extremamente sensível  e escrita sobre ele. Era de autoria de Antônio Romariz. Achei interessante o modo poético como trazia o rio e seus costumes e então resolvi partilhar. O Orbe foi um jornal que começou a circular em Alagoas, no ano de 1879. Saía segunda, quarta e sexta, sendo propriedade de José  Leocádio Ferreira Soares, tendo sua redação situada na Rua da Boa Vista, 55, sendo impresso na Typographia Mercantil, que deveria sr do mesmo proprietário, pois ela tinha sede no mesmo número da antiga Boa Vista..
      Quem ama o Rio São Francisco, irá sentir-se em casa ao palmilhar o texto.
                                                                              http://www.joaodesousalima.com

Scenas  Rio de São Francisco

Antônio Romariz


 ( Ao Sr. Guido Duarte )
 
O Orbe. Maceió. 23 mar. 1879.
 
Opara— chamavam os aborígenes ao rio Francisco.

É um rio magestoso o meu pátrio rio

Quem nâo o conhece, ao menos, pela voz da fama?

A natureza deu-lhe um lugar distincto entre os systemas hydrographicos do ímperio.

A portentosa cachoeira de Paulo Affonso é o ponto luminoso, para onde convergém as vistas de toda a Europa.
Magestoso rio !

Mollemente  espreguiçado sobre o seu leito de areias, estende os braços o gigante do norte, e num estremoso abraço, a' dormece, soluçando beijos de espumas nos braços das cinco provincias que banha. São as suas bellas amantes. Quando a lua cheia derrama sobre a terra as suas amphoças de luz, o rio adormece, corno o somnambulo pela força de vontade do magnetisador; uma boia de prata fluctua nas águas: é a lua que dorme a estremecer no espelho liquido.


O silencio vagueia nos nos ares, no rio e no lago, no prado e no monte; apenas quebrado pelo chorar da mareia nas ribas, pelo cahir das folhas seccas sobre as pedras dos morros, pelo chiar e rangir da voga ou da zinga da canoa, que sobe a corrente, pela cantiga do sertanejo, repassada de  ternura, ungida de melodia, vaga como o pensamento do cantor, que a concebeu; porque muitas vezes o homem
dos sertoes, o cantor d'essas trovas tão nacionaes é  um poeta, rude, é verdade, mas original. A natureza é a sua amante a naturalidade, a sua arte. E, no meio de tudo isso, o cahir das   folhas e a voz do sertanejo despertam os eccos dormentes das serras, nas quebradas.

          De espaço a espaço, as araras gargalham nos morros sobre os ramos dos angicos ou dos mandacarús; a siriema solla uma escala chromatica, tão afinada, do grave ao agudissimo e viceversa, que dir-se-hia uma clarinella tocada por musico exímio.

         
Aquellas serras sào como que exercitos enfileirados, que lhe fazem continência  e lhe velam o dormir.

          Mais abaixo, sobre um penedo, a rainha daquellas águas mira-se enamorada nos chrystaes do rio. E' a noiva d'aquelle sultão que deita a fronte nas Canastras e lava os pés no mar.

          Corramos agora uma cortina sobre esses brilhos da lua.

É uma noite sem estrelas.

O  mar, do sua trompa oceânica  tira sons roucos, como as tempestades o que veem com os ventos tos das procellas morrer-nos aos ouvidos, sete léguas acima da foz, ou antes, expirar no regaço da  rainha daquellas aguas.

Uma toalha negra cobre a superfície do rio.

Para as bandas do sertão, montanhas de nuvens cobrem os ceos, negras, como os demônios da tradiccão.

De quando em vez, uma estrellinha espia por entre uma fresta de nuvem, e dá um beijo de luz no rio que se agita.
O relâmpago abre-se, o ronquejar do trovão rola e rola e uma lingueta de fogo,  tortuosa lambe as negridões.

É o raio que brinca.

O S. Francisco reflete essas imagens com uma fidelidade artislica.

Imagine o leitor uma immensa chapa de prata polida, no
meio das trevas, e allumiada por um incêndio de pólvora, e terá o relâmpago no S. Francisco.

O vento cresce de forca; o rio cava-se; a chuva cahe a
principio do peneira; engrossa-se, e chia sobre os telhados, as calçadas das ruas e sobre o rio e o trovão ribomba: é a harmonia espantosa da trovoada,

Ao fusilar dos relâmpagos, desenham-se as  formas fantásticas, enormes, negras, como a noite mesma: são os morros o as serras d'alem.

No dia seguinte, as  negruras e aos furores da noite sucedem os brilos de um ceo azul, franjado de brancas nuvens e dourado por um sol mais claro. 

As enxurradas passam descendo  as ruas da cidade heroica de uma extremidade á outra, como cachoeiras taes, que impedem o transito publico. 

As trovoadàS são a origem das enchentes. 

O Pajeú e o Moxotó, dois tributários do S. Francisco, recebendo as copiosas águas dos céus, engrossam-se, e as despejam aos pés .do grande senhor,  que principia a entumecer-se.

Depois: as chuvas sempre  a crescer o rio sempre a engrossar,  arrojam-se às suas águas sobre a grande penedia da cachoeira; esta por sua vez salta como um rebanho de alvíssimos liões sobre o grande abismo do baixo S. Francisco e causando, segundo [...] um estrondo que [...] muitas léguas, faz levantar uma nuvem de vapores, tão espessa, que assemelha-se a rolos de fumaça de um grande incêndio. 


Então, o rio rompe as ribanceiras, pula o álveo, e inunda os campos. 

Então, Penedo está com as ruas baixas todas alagadas.

As canoas servem de gondolas venezianas.

Os terrenos adjacentes são um lago-mar!

Agora o prazer das regatas. 

    Escaleres, canoas, jangadas, com as velas pandas, e ornadas de bandeírolas de diversas cores, levam músicos, homens, mulheres...

E partem. Os vivas, os foguetes, a grita de alegria vêm morrer aos ouvidos dos espectadores das margens.

São ãs regatas.

Mais tarde, o prazer para muítos converte-se em desgostos em molestias.

O rio vasou. As sezões, chamadas, tomam o seu lugar... Homem; palidos, mulheres descoradas; a moléstia não escolhe; faz-lhes pagar os banhos nas ruas em noites de luar. . .

Bello espectaculo na verdade o do S. Francisco transbordado I

     Quando se poderá contar com o auxilio do paiz para o impedimento das águas dentro da cidade?

E' interesse publico; será preciso que amadureçam séculos?

O sol entrou em capricórnio. O céu é de fogo, o ar é de fogo, o rio está como que incendiado. A Tabanga, em frente á vila do Traipu, assemelha-se a uma enorme baleia á flor d'agua e aí o calor é abafador.

O rio tem  faíscas electricas á vista.

O sol reclina-se sobre as ^montanhas da margem direita em frente á cidade  heróica, dizendo o ultimo adeus ás águas, aos montes e a cidade.  O rio tem sobre si uma toalha de pedras. O céu iria-se; as nuvens franjadas d’ouro e escarlate vão passando em  caravanas para  o sertão; bandos de aves selvagens descem o rio e somem-se para o mar.


O sol escondeu-se.  A claridade do sol sucede  a claridade da lua. Os ventos suspiram trazendo das vagas [...]

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