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sábado, 30 de maio de 2020

Plínio Lins. Bar Casablanca, 1989-1996: a cerveja comunista





Bar Casablanca, 1989-1996: a cerveja comunista Plínio Lins

 O boteco de esquerda que tinha tudo para dar errado fez história na vida cultural e política de Maceió  


 Plínio Lins,  jornalista, 66 anos e 39 de profissão. Nasceu na Tijuca e se criou na Ilha do Governador. Fugiu do Rio em 1970, na ditadura, porque sentiu aquilo que Gilberto Gil canta: “amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais...”. Chegou em Maceió em 1973, pobre de marré, para conhecer a cidade. Gostou e foi ficando. Para sobreviver, lavou carros, deu banho em cachorros, foi massagista de madame e vendeu jazigos do Parque das Flores. Depois trabalhou como comprador em usina, deu aulas e foi bancário da Caixa. No jornalismo, começou em 1976 na Rádio Novo Nordeste,  trabalhou na TV Gazeta, jornal Gazeta em três ocasiões, Tribuna de Alagoas, O Diário e O Jornal, e fez fila em semanários. Como colaborador voluntário e militante comunista, teve trabalhos publicados nos jornais A Classe Operária, Tribuna Operária e na revista Princípios.  Atualmente é assessor parlamentar no Senado.

Dois dedos de prosa
Casablanca foi um bar que marcou época em Maceió e Campus teria que abordá-lo. Foi quando procuramos o Marola, ex dono do bar e hoje da Marola Produções e Locações.  Juntos lembramos do nome do Plínio Lins que aceitou a encomenda e nos deu este belo texto.
Um pouco da vidada boemia de esquerda aparece, nesta iniciativa singular de militantes do PCdoB, à época.
Vamos agradecer ao Plínio e ao Marola eu nos deu as fotografias.
Um abraço em ambos.
Luiz Sávio de Almeida

Esta matéria fopi publicada em Campus/O Dia em maio de 2015


Bar Casablanca, 1989-1996: a cerveja comunista



Foi um ano curioso, aquele de 1989. Talvez por ser o dos 100 anos da República. Ou porque o Botafogo foi campeão carioca, e logo em cima do glorioso Flamengo (1 a 0 na final), ou por outro motivo misterioso qualquer.

Para o autor destas lembranças, 1989 foi o ano do aniversário de 40 anos, e também da experiência fascinante de viver e participar, em São Paulo, da primeira campanha eleitoral de presidente da República depois da ditadura (Lula x Collor), trabalhando no comitê nacional de Lula, em diversas ocasiões conversando pessoalmente com o candidato da Frente Brasil Popular – a emocionante campanha do Lula-lá.

O ano de 1989 foi curioso principalmente porque o país vivia o sufoco do final do governo Sarney. Mas a reconquista da liberdade e a proximidade da eleição direta para presidente animava as pessoas. Ainda mais em Alagoas: um dos candidatos era Fernando Collor, apoiado pela maioria e combatido pela esquerda.

Pois foi em abril daquele curioso 1989, numa rua pacata do bairro da Ponta Verde, em Maceió, que seis amigos, todos militantes do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, iniciaram a história do primeiro bar de esquerda na cidade, o Casablanca.

O Casablanca já existia antes. Na “fase comunista” durou de abril de 1989 a outubro de 1996. Uma criança de sete anos e seis meses, mas vivida e experiente como um senhor de meia-idade.
O bar viveu nos governos de quatro presidentes: Sarney, Collor, Itamar e FHC. Passou por três governadores (Moacir Andrade, Geraldo Bulhões e Suruagy), além de quatro prefeitos de Maceió (Guilherme Palmeira, João Sampaio e Pedro Vieira como tampões, e Ronaldo Lessa).

Sem contar as mudanças de moeda que se sucederam naquela inflação louca. De 1989 a 1996, pendurei  minhas contas no Casablanca em cruzados novos, em cruzeiros, em URVs e finalmente em reais. Coisas do milênio passado.

Eu era freguês do Casablanca desde bem antes de ele ser comprado pelos seis amigos. Morava quase vizinho, na Rua Campos Teixeira, uma transversal da Carlos Tenório, onde ficava o casarão de dois andares que virou Casablanca.

A sucessão de gaúchos

O lugar abriu em 1983, com o nome de Espaço Bar. O casarão foi comprado por uma família que viera de São Paulo. Seu Gilberto revezava no balcão com o casal de filhos, Fernando e Fernanda, ambos jornalistas recém-formados.

Em pouco tempo o Espaço Bar virou febre. Era um local agradável, vivia cheio. A juventude lotava o Espaço todos os dias.

O Espaço acabou em 1985 porque a família viveu um drama. Fernanda, um doce de menina, foi raptada e estuprada. A polícia nunca encontrou os criminosos. Nanda ficou traumatizada. Voltaram todos para São Paulo.

Por um breve período o bar ficou com um gaúcho que morava ali perto, Gercy Pires. Ele passou o ponto para um casal também gaúcho: Gerda e Günter. Duas figuraças. Eles rebatizaram o bar: nascia o Casablanca.

Gerda, simpatia gorducha, filha de alemães, 40 e poucos anos e bonachona, cuidava de tudo: além de orientar os cozinheiros e preparar ela própria alguns pratos, servia bebidas no balcão, controlava os garçons e caixa, fechando as contas. Günter, alemão de raiz, vermelhão e louro, só ficava no balcão tomando cerveja. Só saía dali para ir ao banheiro, e conversava pouco, num português carregado de sotaque germânico.

Em 1987 o casal alemão voltou para o sul. O Casablanca passou para outro gaúcho, Jorge, ex-dono do Ipaneminha, barraca muito conhecida na praia ali perto.

Foi Jorge quem vendeu o Casablanca para os seis comunistas em 1989.

E adivinhem quem foi o intermediário, o facilitador, o corretor?
Pois é, eu mesmo.

Ênio, Eduardo Bomfim e Ronaldo Lessa

Os seis sócios: um breve prontuário

Antes de prosseguir, vai aí um resumo da vida pregressa dos seis elementos que adquiriram o Casablanca. Aliás, cinco elementos e uma elementa.
Marola – Seu nome na certidão é Mário Vinícius Vilela, filho do saudoso Mário Vilela e de Vânia, e irmão do também saudoso Beto, o Betola. Na época Marola era conhecido como surfista, militante do PCdoB e come-quieto. Dizia-se que Marola era uma prova de que o alagoano é um povo acolhedor e hospitaleiro. Por exemplo, se uma turista solitária queria conhecer as coisas de Alagoas, o pessoal apresentava a ela – nesta ordem – a carapeba frita, a Barra de São Miguel, uma cachacinha de Joaquim Gomes (com mel) e o Marola. E que nunca, jamais houve reclamação da parte de nenhuma turista. E que inclusive algumas delas eram casadas e voltavam para casa muito alegrinhas e convencidas de que Alagoas é mais, muito mais, e elas não se despediam com adeus, era até o ano que vem. Quer dizer, o trabalho de promoção turística era sério e funcionava. No início dos anos 90 Marola casou com Leidijane, nasceu o João Victor e o predador sossegou o facho – pelo menos é o que consta.

Victor Palmeira – Era diretor da UNE, militante dedicado, grande figura, membro da família política mais diversificada de Alagoas (ali tem liberal, tem direitista, centrista, tem petista, comunista, e se surgir alguma outra corrente ideológica, haverá um Palmeira no meio; o clã é democrático). Flamenguista e regatiano, Victor, na vida mundana, revezava com Marola na dura faina de endoidar mulher. Recrutou muitas militantes para o PCdoB com argumentos políticos e, quando esses não eram suficientes, como ele dizia modestamente, “aí o argumento era o zépinto, mas só em último caso” – e havia quem acreditasse nessa alegação. Hoje Victor está casado e mora em Brasília. Trabalha com o ministro Aldo Rebelo.

Bolinho – Lúcio Antônio Vieira da Rocha, eis o nome de batismo do sujeito. O apelido vem de tempos imemoriais, sabe-se lá por quê. Homem sério, pau pra toda obra, criado com leite de jega preta. Torcedor do Flamengo e do CSA. Médico laboratorista, tinha dois filhos pequenos, Lula e Victor, com a mulher, Sandra, bancária da Caixa e dona da gargalhada mais rasgada de Alagoas, quiçá do Nordeste. No período do Casablanca, Sandra engravidou. Eram gêmeos! Bolinho se apavorou. De repente a ninhada dobrava de tamanho, tinha que comprar outro enxoval. Meses depois chegaram o Vinícius, hoje jornalista, e a Liara. Está tudo certo.

Solange Viégas – Economista, esposa do boa-praça Osvaldo Viégas, Solange entrou para a sociedade vendendo o carro e acabou ficando só no primeiro ano. Tinha dois filhos para cuidar, pequenos na época, e o rojão de ficar atrás do balcão até tarde da noite nos seus plantões ficou pesado demais. Frequentou o bar até o fim.

Cléo – Cleonilson Alves da Silva, economista, Flamengo e CRB. Sou suspeito para falar nele. Além de amigo antigo e querido, é compadre em dobro: batizou meu filho número três (tenho seis) e foi padrinho do meu segundo casamento. Cozinheiro de mão cheia, não tinha capital como os cinco sócios para ajudar na “vaquinha” e comprar o Casablanca e entrou com o talento culinário e o trabalho. Tem prazer em receber as pessoas em casa. Há poucos como ele. Trabalha na área cultural do Estado.

Magadelmo – O nome de pia é Adelmo Mota Mendonça. Vascaíno, coitado, e CRB. Economista, trabalhou no Planejamento, bom analista e formulador de políticas públicas, uma opinião ouvida com atenção. Além disso, é um dos papos mais animados de Maceió. Se um pinguço encostasse no balcão do Casablanca querendo palestrar, não ficava falando sozinho. Com Magadelmo a conversa nunca morre, ele sempre tem assunto para esticar. E não é qualquer assuntinho não! Só digo uma coisa: Adelmo Mota Mendonça escapou de dois acidentes com avião. Não um: dois. Aposentou-se mas é fominha de bola e ainda joga seus rachas.


Ricardo, Sandoval, Plínio Marcos

O PCdoB, as eleições e os Meninos da Albânia

Em 1989, o PCdoB ainda era a legenda mais importante na esquerda em Alagoas. O partido estava legalizado desde a Constituinte de 88 e tinha em seus quadros lideranças políticas, sociais e populares reconhecidas, principalmente em sindicatos e no movimento estudantil, além de presença respeitada em círculos intelectuais de Alagoas.

Desde bem antes, em 1982, o PCdoB, ainda na clandestinidade e abrigado sob o guarda-chuva do PMDB, havia elegido seu primeiro deputado estadual, Eduardo Bomfim, e dois vereadores em Maceió, Edberto Ticianeli e Jarede Viana.

Em 1985, na primeira eleição para prefeito nas capitais, o PCdoB apoiou a candidatura do então presidente estadual do PMDB, deputado federal Djalma Falcão.

A militância do PCdoB, numerosa, organizada e aguerrida, foi para as ruas, organizou a boca-de-urna e virtualmente garantiu a eleição de Djalma – que lamentavelmente estragou tudo, fazendo uma das mais desastradas administrações da história da capital alagoana. Felizmente para a cidade, Djalma só ficou três anos no poder.

Para o PCdoB, a campanha de Djalma acabou resultando, vejam só, na criação de um bloco de carnaval, os Meninos da Albânia. Ele desfilou pela primeira vez em 1986 e ajudou a trazer de volta o carnaval de rua e a sátira política em Maceió.

O nome do bloco, Meninos da Albânia, era como Edécio Lopes, locutor da propaganda eleitoral do PDS, partido da ditadura, referia-se de forma jocosa aos jovens militantes comunistas da campanha de Djalma Falcão. Com a vitória, nós, do PCdoB, achamos que o apelido da campanha podia batizar um bloco de carnaval. E assim foi feito. O próprio Edécio, grande incentivador do carnaval de rua, ao anunciar o novo bloco em seu programa no rádio, gostou da ideia, deu parabéns aos comunistas pela solução bem-humorada e concordou em ser “padrinho de batismo” do bloco, com muita honra para nós.

Eu fui escolhido presidente dos Meninos da Albânia – pelos estatutos, a exemplo da “matriz”, o mandato era limitado em 45 anos, com direito a apenas uma reeleição, para garantir a alternância no poder...

Eu era o presidente mas o bloco era parlamentarista, de maneira que o presidente não mandava nada.
Conto essa história porque o Casablanca, em sua fase de esquerda, tornou-se o local da “concentração” dos Meninos da Albânia antes dos desfiles. Ali no bar eram compostos os frevos do bloco, criados e cantados por Ricardo Mota, na época militante do partido.

Procura-se um bar

Em 1986, o PCdoB elegeu Eduardo Bomfim deputado federal Constituinte. Em 88, na eleição municipal, o jornalista Ênio Lins foi eleito vereador de Maceió.

Tudo muito bom, o partido vai muito bem, mas e nós, os boêmios comunistas? Nós continuávamos errantes, sem um bar para chamar de nosso. E éramos exigentes. Nesse bar aqui a comida é boa mas a cerveja é morna. Aquele ali não tem um tira-gosto que preste. Aquele outro é bom mas fica longe. E assim éramos beberrões nômades.

E então algum dos seis – certamente embriagado, ou quase – teve a ideia de jerico: por que a gente não faz um bar nosso, ao nosso gosto?

Perguntaram minha opinião, eu falei no Casablanca e suas paredes com fotos do Humphrey Bogart e da Ingrid Bergman, a suave canção As Times Goes By, a imensa amendoeira que dava sombra até o lado de lá da rua. Os seis gostaram, alguns já conheciam.

Pediram que eu sondasse o Jorge sobre venda e preço, sem dizer que queriam comprar.

Era março de 1989, fim da temporada de verão. Uma noite, o Jorge já fechando o bar, perguntei se a temporada havia sido boa. Ótima, disse ele, ganhei um bom dinheiro.

– Então você nem pensa em vender, né?

– Quero vender, sim – disse ele, e eu disfarcei minha surpresa. – Estamos mudando para Lisboa, minha filha vai estudar lá.

– Já tem proposta, tem comprador? – perguntei.

– Não. Até agora não achei quem queira fazer negócio.

Silêncio.

Depois ele parou de fazer o que fazia, chegou mais perto e disse:
– Eu vendo por (e disse o preço). Por menos que isso não dá. Se você arrumar um comprador, eu te pago 5% de comissão.

Era uma boa grana.

O preço estava mais ou menos dentro da previsão dos seis comunistas.
– Vou procurar. Se achar alguém interessado eu lhe falo.
Contei a conversa aos seis, inclusive a parte em que o Jorge ofereceu a comissão. Ficou acertado que a comissão voltaria para eles.

E assim foi feito. Jorge não sabia que eles eram meus amigos e queriam um bar.

O negócio foi fechado. Eu sou testemunha: os seis na minha casa contando, nota por nota, todas as suas economias. Cada um tratou de arrumar o que podia, sem mexer nos salários, porque todos tinham família para sustentar. Venderam carros, terrenos e tudo que podia ser vendido, alguns pegaram grana emprestada, até que a vaquinha chegou ao valor da compra. Zeraram as contas bancárias, esvaziaram os bolsos, rasparam os cofres, tudo.

Depois de pagar ao Jorge e assinar o contrato, os seis estavam completamente lisos. Eram afinal donos de um bar, com mesas, geladeiras, fogões, panelas, pratos, talheres e todo o resto, inclusive engradados de bebida com garrafas vazias – só não tinham o que gelar, nada para cozinhar nem para servir aos fregueses.

Ficou acertado que no dia seguinte eu iria ao bar, na qualidade de corretor, pegar as chaves para entregar aos compradores. Sim, e receber minha comissão.
Na hora marcada eu estava lá. Recebi o cheque e corri para casa.
Os seis estavam lá, escondidos e aguardando ansiosos. Cheguei com o cheque e nem pudemos comemorar – aquele dinheiro tinha destino certo.

Um dos sócios, não me lembro qual, falou em nome dos seis:
– Você vai beber de graça durante um ano.
Fiz ver a eles que aquilo era uma temeridade, tanto para as finanças deles como para meu pobre fígado. Mas a decisão estava tomada.


A esquerda sob a amendoeira

O Casablanca, sob nova administração, abriu as portas numa quinta-feira, 13 de abril de 1949. Meu aniversário de 40 anos. Não foi homenagem a mim, nem precisava. É que o pessoal precisava fazer dinheiro o quanto antes, porque já estava contando o prazo do aluguel.

A sombra generosa da amendoeira abrigou, naqueles sete anos e meio, todas as emoções, bobagens e delícias da convivência humana que só mesmo um bar proporciona. Com a diferença de que ali uma parte importante do mundo político de Alagoas tinha refúgio seguro para discutir, salvar o mundo ou simplesmente jogar conversa fora.

O Casablanca “sob domínio comunista” nunca foi propriamente um empreendimento comercial, muito menos um bom negócio. Foi uma ideia para juntar pessoas conhecidas.
Como negócio, aquilo não podia dar certo. Aliás, tinha tudo para ser um desastre.

Onde já se viu um bar com seis sócios? Com três economistas na sociedade? Com um surfista come-quieto, um líder estudantil e um médico? Um bar em que apenas um dos sócios sabia e gostava de cozinhar?

Um bar em que, dos seis sócios, cinco eram eméritos bebedores?

Com a honrosa exceção de Solange Viégas, os outros – Magadelmo, Cléo, Marola, Bolinho e Victor – eram valentes no copo.

Antes do Casablanca, eles bebiam o equivalente a uma piscina de cerveja. No Casablanca, bebiam uma piscina olímpica.
Os cinco eram os maiores fregueses do bar.
Não podia dar certo. Mas deu, seja lá como for.
O bar resistiu, de pé e com dignidade, durante sete anos e seis meses. Tornou-se conhecido em toda Maceió.

A Conversa de Botequim

De 1990 até o fim, nas noites de quinta-feira, mais ou menos das 11 horas até o rabo da madrugada, acontecia no Casablanca a Conversa de Botequim, ideia do Victor, que eu apresentava.
Um pequeno palco na varanda, uma mesa e duas cadeiras. Eu e o entrevistado, cada um com um microfone, conversávamos.  O público também podia fazer perguntas por escrito, entregues aos garçons, que levavam para mim.

Na estreia, o entrevistado foi Cristovam Buarque, ex-reitor da UnB, depois governador do Distrito Federal pelo PT e atual senador pelo PDT.

Depois passaram pela Conversa de Botequim governadores, prefeitos, deputados, senadores, até ministros que vinham a Alagoas, gente das artes e do esporte, empresários, personalidades, figuras marcantes. A cidade comentava, a imprensa cobria. Não sei quantas pessoas entrevistei. Sei que tinha prazer em fazer aquilo, como jornalista e boêmio.

Uma das entrevistas, talvez a melhor de todas, foi com um personagem que virou lenda viva, Benedito Alves da Silva, o Mossoró, dono do puteiro mais conhecido de Alagoas. Bem-humorado, Mossoró contou para o Casablanca lotado, até a madrugada, casos de sua vida que haviam virado folclore, como a história das putas na Fênix, a do Galaxie e muitas mais. Entornou meio litro de uísque, e eu na vodca. Havia até ministro de tribunal superior que veio de Brasília para ouvir e abraçar Benedito Mossoró. Grande noitada.

Houve muitas outras, memoráveis. Ficam para outro relato. As duas últimas entrevistas, em outubro de 1996, foram com a cantora Leureny Barbosa e, na despedida, o então prefeito de Maceió, Ronaldo Lessa.

Solange Viégas havia saído da sociedade depois do primeiro ano. De 1990 até 1993, os outros cinco continuaram. Os últimos três anos do Casablanca, até 1996, foram só com Marola e Leidjane no comando.

O corno e o pé-de-pano




O bar fechou, mas não por desistência. Foi porque Seu Gilberto, de São Paulo, exigiu a devolução do prédio para negociar. Marola adiou a entrega o quanto pôde, até a ameaça de despejo. Aí entregou. Acabou-se o Casablanca. E nasceu o Movimento dos Sem-Bar, que éramos nós.

Um detalhe curioso: nunca houve uma briga no Casablanca comunista. Houve um episódio que, como outros, acabou em gargalhada. Foi o caso do pé-de-pano que pensou que um corno vinha entrando para matá-lo, saiu correndo pelo bar adentro, pulou o muro dos fundos, se cortou todo nos cacos de vidro – e o corno, inocente, tinha só um jornal enrolado na mão...

O mais triste no fim do Casablanca – no ano que vem faz 20 anos –  foi a primeira providência dos novos donos. Derrubaram a amendoeira.

Sinto saudade de tudo o que houve ali, das conversas, das entrevistas, das bebedeiras. Mas a lembrança mais viva, até hoje, é da velha amendoeira.



Goretti Brandão. Entre vírus, chineladas, e sem uma vela na mão. Memória da pandemia em Alagoas





















Entre vírus, chineladas, e sem uma vela na mão

Goretti Brandão

 Jornalista e escritora

Tossiu, e eu olhei pra ela com receio. A ver pela minha cara, Violeta me disse, olhe Odete, minha tosse é seca assim mesmo. É desde sempre e a minha garganta, se interessa saber, me dói mais à noite. Tenho alergias, você nunca notou? Nesses dias, agora, quando acordo, tenho medo de estar com febre. Mão no pescoço a ver se a temperatura subiu. Não subiu? Então agradeço a Deus. Sorte minha. Mas só amanheço no susto, como se tivesse acabado de vir de muito longe, correndo, e me livrasse por um cabelinho de sapo, do infeliz do vírus. Vou ver Aprígio que dorme que nem anjo e que acorda com um bom dia, Violeta! Saudação de sempre, mas que se faltar, eu cismo logo. Sabe-se lá? Tenho enveredado por pensamentos repetitivos, que se contasse pra Nena ela ia dizer, tá doida, menina? Eu, não. Nem pensar. Maluco de verdade eu conheço uns dois.

O medo, não nego. Mas, o meu confronto com ele é na sexta-feira de tarde, quando lembro que tenho de ir à feira no outro dia. Ontem mesmo pelo celular falei pro Adilson, ‘eu me sinto como uma galinha prestes a ser abatida. Por que, dona Violeta? Ora, ela grita, esperneia, solta pena pra todo lado, quando se sente em perigo. Nunca prestou atenção no estresse? A diferença é que eu sou igual galinha, mas disfarçada de gente, fazendo papel de não estou nem aí’. Quem não tem tu é tu mesmo. Se tenho que enfrentar o problema, eu vou. Passei a vida inteira ouvindo Nena falar isto, quando não havia ninguém para ajudar, com aquele monte de menino. No caminho vou dizendo a mim mesma, ‘em cima do medo, coragem e, meu Jesus, misericórdia. Perdi o gosto que eu tinha de ir pra rua, Odete. E quarentena pra mim é como retiro espiritual.

Quando a pandemia estava vindo, Analice me perguntou, que troço é esse, e como é o nome desse negócio mesmo, hein Violeta? É covid-19, mulher. Ouviu a resposta, temerosa, que pra ela, falar nisso atrai a doença - fez o sinal da cruz - e que Deus nos proteja. Tinha que saber o nome, né? Ficou um tempo calada, mão no queixo, pensando e falou ‘condenação miserável,’ Depois enfiou-se no quarto de costura, abrindo tudo o que era de gaveta, procurando tecido. Desencavou muito pano. Terminado o café da manhã, ela tirou tudo de cima da mesa e espalhou o material. ‘A tesoura está cega’, e olhou pra mim com o rabo do olho, porque pego vez ou outra pra cortar papel. Por isso não, minha filha, e fui buscar uma garrafa para amolar. Amolei, amolei, sem tirar os olhos dela, fiz o teste do corte e fiquei ali, disfarçando riso, vendo ela morder a língua enquanto cortava o tecido.

Aprígio interessou-se em destrinchar o coronavírus. Pelo que eu o conheço, era pra encontrar uma possível luz e se sentir seguro. Depois de ter lido e assistido muita coisa e vendo tanta informação contraditória, entrou em parafuso e falou na hora do jantar, ‘a coisa só se resolve mesmo é com vacina’. Coitado, só relaxa quando dorme. Trancou-se no quarto. Confinado. Essa coisa que ele tem de ser extremado em tudo. A barba por fazer e a cara desanimada, faz até pena. Penso no que posso oferecer de mim a Nosso Senhor, pela salvação do mundo e pela angústia dele, muito maior que a minha. Mas eu estou numa pobreza só. De tudo, meu Deus. Não tenho nada de mim para dar. Tenho é vergonha dessa pretensão. O que teria eu para oferecer em sacrifício? Por esses dias de quarentena, deito, leio, durmo, acordo, penso, espero e dou regulagem em Aprígio, que vira e mexe repete, ‘a gente vai continuar nessa merda até não sei quando’. Misericórdia, Aprígio, me dê um tempo. Deixe essa cantilena para dia de sexta-feira.

Fui ver em quantas iam as costuras de Analice. Encontrei dúzias de máscaras prontas, ela falando, que tomara que essas máscaras sirvam a quem precisa delas e ‘dai pressa, Virgem Santíssima, em favor do mundo’. Os olhos cheios d’água de tanta comoção que o coração está cheio. O que me entristece é o meu, incapacitado, ter a vontade, e estar longe de imitar o dela. Então, Odete? As coisas são assim mesmo; quanto mais se tem conhecimento, mais se sofre. E aquela mulher, dizendo que matou o vírus a chineladas, pode? Estava ali, cheio de mãozinhas, andando no chão da cozinha. Conheceu. Tinha visto, uns, do mesmo jeitinho, assistindo televisão. Covardia do corona fazer judiação dela, coitada. Merece não, que está desarmada pela ingenuidade, não é, Violeta? Eu disse que sim. Está sim, Analice, e repeti, pobrezinha, pobrezinha, não sei quantas vezes. Era coisa pra gente rir muito, se os dias não fossem como têm sido.

Voltei a pensar em Pedrinho, que há dias me preocupa, dando plantão em duas utis. É muito pra ele. Deus que o defenda. De sorte que o manto de Nossa Senhora, tem dado conta de cobri-lo. ‘Olhe, minha filha, a gente sem Deus não é ninguém, sabe?’ Estou que nem a Nena, invocando Deus toda hora. É porque a minha precisão de querer a fé que ela tinha é muita. Odete, ali, eu sei, me achando de uma pieguice sem tamanho, nem aí pra minha conversa. O que é, não me conhece? Eu, hein? Ela que gaste palavrório. Eu me socorro é em Deus. Me distraio com a polêmica que cria de qualquer assunto, aquele tanto de argumento e com tanto bracejo. Nem cabe eu botar na conversa, umas duas frases das meditações de Marco Aurélio, coisa e tal, filosofia. É, não cabe. Odete é tão unilateral e se acha tão dona da verdade.  Dando opinião, porque sim, porque não, sobre cloroquina, ivermectina, anticoagulante. E quando classifica quem presta e quem não presta? Pensou um pouquinho diferente dela... Entro nessa não. ‘Você não entra nas discussões, é tão omissa, tem medo de que, Violeta?’. Tenho medo de nada não, Odete. Não quero é que você me classifique. Pra que tanto esperneio? Remédio, se precisar, eu tomo. Todos os que o meu médico recomendar. Estou vendo essa coisa toda é com o meu olho sobressalente.

Medo mesmo é de sufocar e morrer sem ar, sem luz, sem ter uma criatura caridosa, que me coloque uma vela na mão, pra eu não correr o risco de errar o caminho. De obscurantismo eu ando é cheia. Afaste, minha filha. Vá mais pra lá que eu preciso tossir.


 Projeto Memória da Pandemia nas Alagoas

Coordenação
Luiz Sávio de Almeida e José Carlos Silva de Lima
O blog pode concordar ou não, em parte e no todo, com a matéria publicada
Nosso objetivo é deixar um painel diversificado sobre a pandemia nas Alagoas



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Igor Machado. Questões de Quarentena. Memória da pandemia nas Alagoas


Questões de Quarentena

Igor Machado

  
Tantos receios. Pessoas queridas se aninham no miúdo do lar. Por mais amor que tenhamos a dar, é preciso destilar esse doce com cuidado. O que era normal tomou novos ares. Ares de receio. Beijos e abraços são agora sorrisos amarelos e olhares receosos. O amor que reside no contato físico está avizinhado da perda dolorida, do luto. Como esta crise mudará nossos hábitos culturais. Será que o jeito caloroso e alegre do brasileiro sobreviverá ao vírus e ao bolsonarismo?
Espirro bastante nas primeiras horas da manhã, um quase ex-fumante e alérgico não praticante. Mas ao acordar tenho espirrado com um certo temor… Será que meu espirro tá em dia com o que sempre foi ou tem coisa a mais por aí? E aquela minha asma de infância? Pode se tornar uma arma nesse momento?
Voltei a fumar nesse período da pandemia. Contrassenso? Sim. Mas que fazer? Passei quase um ano sem fumar, dei uma recaída no final de ano, até que conheci o cumbaiá, um composto básico de alecrim, hibisco e camomila, e estava bem de boa. Mas aí veio o vírus, as tensões, as incertezas financeiras e de futuro... E a nicotina, velha muleta emocional, chegou e me tragou. Veio também o medo do cigarro me fragilizar ainda mais nesse período de diversas mortes causadas por problemas no pulmão. Fui no Google, vi diversos textos a respeito e me chamou a atenção uma pesquisa sobre menores índices de fatalidade em fumantes. Nada comprovado, tese ainda em estudo. Mas seria bastante paradoxal um fumante não ser um dos principais alvos do coronavírus, né? Vai entender.
Várias viradas acontecendo e por acontecer, mas viramos para onde? Mundo está acamado, convalescendo. Nosso país ainda na UTI, e não há sinais de melhoras para logo. Insanidades se abrindo, fronteiras se fechando “...e a loucura finge que isso tudo é normal”. Como é que se conecta a paciência desse jeito?
E as mortes? Ai, as mortes. Próximos de próximos morrendo, já não é mais coisa de TV. Tanta verborragia gasta em compra de armas, em matar bandido. E a ciência tão maltratada ultimamente é (e sempre será) a chave para diminuir o vírus. E os vermes. E o 38 vai servir para que nesse combate?
Arte para quê? Para salvar vidas. Quem diria que a indústria mais marginalizada, seria a redentora desse momento. Fina ironia do mundo e um grande aviso. Não é possível numa sociedade em que o conhecimento já é grande matéria-prima econômica, ter preconceitos chulos. A arte está salvando você e sua família do vazio, da loucura, do ódio, da violência. Está lhe dando motivos e auxiliando a processar da melhor forma possível tudo o que estamos passando. Para quem via de menos, já consegue ver com mais clareza a importância da arte para todos nós?
Tempos difíceis para vislumbrar um futuro risonho para meu menino risonho de 2 anos e pouco... O que será que será? O vírus, o mundo em transe, a quarentena, a mentira, a solidariedade, a morte, as máscaras, a terra plana, a economia colaborativa, a inteligência artificial, a milícia, o Papa Francisco… Que mundo é esse que está chegando para o meu Tintim? A cooperação vencerá o medo? O ódio dará lugar à gentileza?
E os conhecimentos adquiridos nessa quarentena. Milhares de cursos disponíveis. Atualizações várias de idiomas e do “mind set”. Sacando mais dos hábitos geracionais, dos novos hábitos de consumo, das economias compartilhadas, colaborativas, criativas etc. O consumo consciente é cada vez mais necessário. Consciência. Alguém sugere um curso que diminua essas mortes pandêmicas que não param de crescer?

 Igor Machado


É cantor, compositor, poeta e documentarista alagoano, além de sócio-fundador da produtora Arteiros S/A. Realizou obras musicais autorais como “Coco Pop Xote Novo”, “Coco da Raiz ao Pop”. Dirigiu a produção musical da obra lítero-musical “Amores Ébrios” e da trilha do filme “O Juremeiro de Xangô”. É autor do livro “Pausas Corrompidas” e coautor de “Amores Ébrios”, livro correalizado com amigos e grandes nomes da poesia alagoana. Como documentarista está circulando com o curta “Nas Quebradas do Boi". Dirigiu também o clipe musical homônimo da banda alagoana Tequilla Bomb. Está em processo de gravação do seu próximo trabalho musical.

Projeto Memória da Pandemia nas Alagoas
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terça-feira, 26 de maio de 2020

Fernando de Jesus Rodrigues. Mercados musicais-dançantes e periferias: trajetórias individuais e de circuitos de diversão em Salvador e Maceió

Mercados musicais-dançantes e periferias: trajetórias individuais e de circuitos de diversão em Salvador e Maceió

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Mercados musicais-dançantes e periferias: trajetórias individuais e de circuitos de diversão em Salvador e Maceió

Fernando de Jesus Rodrigues

Resumo


A partir das trajetórias de dois personagens – um de uma cena musical em Salvador e outro de Maceió – exploro o curso de diferenciação de suas posições e, assim, desenho aspectos da expansão de circuitos de diversão musical nas “periferias” dessas cidades. Destaco dois problemas: (i) as interpenetrações e tensões entre repertórios de gestos e símbolos e a diferenciação funcional de mercados religioso e diversional e (ii) a relação entre agentes culturais e os empreendimentos marcados por lógicas de poder típicas de mercados ilícitos e altamente criminalizados na construção dos espaços de lutas simbólicas nas “periferias”.
Palavras-chave: mercados culturais, periferias, trajetórias.


Introdução: duas cenas e dois problemas


Observei, anos atrás, um pequeno garoto tocando atabaque no terreiro
de Oxumarê, em Salvador. A vivacidade com que expressava os toques capturou  minha atenção por vários minutos. Mostrando um domínio “quase-natural” dos aguidavis3 ao extrair sons do couro do atabaque em uma cerimônia para o orixá Tempo, o vi passar os instrumentos, sem que a música cessasse, para um ogã--tocador que aparentava ser bem mais velho. Apesar de, naquele período, já ter visto umas duas dezenas de performances de alabês em diferentes terreiros de Salvador, aquele momento foi especialmente importante para reforçar a compreensão de aspecto de um fenômeno exterior ao candomblé que me interessava, qual seja, o crescimento da textura percussiva de matriz afro-baiana na música feita em Salvador a partir dos anos 70, expresso particularmente no sucesso das bandas de axé, nos anos 90, e das bandas de pagode, nos anos 2000.
O aspecto que ganhava nitidez aos meus olhos era a identificação de uma das “fontes” da vigorosa tradição acústico-percussiva soteropolitana assentada sobre uma rede de transmissão intergeracional de gestos e símbolos. No caso, interdependências entre pessoas mais velhas e mais novas em terreiros de candomblé que
estavam no fundamento de organizações sociais de adensados bairros populares de Salvador, mediante as quais foram e ainda são legados toques percussivos. Por diferentes vias, tais práticas haviam sido ressignificadas em expressões com sentido de entretenimento, seja no circuito de carnavais e shows, na indústria fonográfica, seja, ainda, em cerimônias musicais de cultos pentecostais, apropriadas como música “gospel”.
Aponto aqui, especialmente, a transferência de disposições percussivas afro-religiosas – que, até o final dos anos 70, ficaram represadas nas “roças” de candomblé e em diversões de rua em regiões que haviam se urbanizado precariamente – para espaços de divertimento confraternal e semiprofissional “territorializados” em bairros populares, expressos em um circuito de grupos de samba junino. Tal circuito assumiu forma nos anos 80
e foi símbolo de uma nova síntese social em Salvador, formada em torno de complementaridades e conflitos direcionados para a busca de diversão, mediada, de diferentes maneiras, pelo dinheiro. Vários músicos - que ganhariam destaque em bandas de cantores e de conjuntos associados ao rótulo axé, como a Banda Eva, Daniela Mercury, Chiclete com Banana, Araketu e a Timbalada, bem como grupos de pagode, conhecidos também
sob o rótulo swingueira, tais como o Gerasamba (É o tchan!) e o Psirico – sairiam do circuito de grupos de samba junino.
Este, por sua vez, foi o resultado de um desenvolvimento social de diversões associadas ao samba duro, expressão de uma rede de interdependências que gravitava em torno de divertimentos carnavalescos, como os afoxés, cordões, escolas de samba e charangas, principalmente homens e, em torno de famílias-de- -santo, especialmente mulheres. Ao buscar uma compreensão sobre esses eventos, notei como as interdependências humanas
que tinham funções religiosas e diversionais pareciam importantes para compreender as direções da diferenciação do entretenimento musical-dançante em Salvador e seu papel político e econômico na direção das tramas de poder mais abrangentes da cidade.
Ao morar em Maceió, estava familiarizado com as lógicas de bailes em “periferias”, organizados como pequenos, médios ou até mesmo grandes empreendimentos de diversão dançante. Rapidamente, interessei-me pelo fenômeno das discotecas de reggae, especialmente os bailes conduzidos por DJs. Nesse circuito, vi fenômenos homólogos aos que tinha observado em Salvador e Belém (Rodrigues, 2011). Em Maceió, a cena era mais
modesta e pobre do que nas anteriores, mas lá pude me demorar na compreensão de alguns condicionamentos econômicos da acumulação capitalista que estavam na raiz do sucesso de vários desses empreendimentos. Ao tentar construir a trajetória de Gran-Valter4, um dos principais renovadores do negócio de discotecas de reggae em Maceió, atento a fala de diferentes interlocutores, confrontando diferentes percepções. A importância
de sua atuação em mercados informais e ilegais de vales- transportes, drogas, armas, serviços de cobrança e proteção é notável. Os relatos expressavam ambivalências pela admiração que sua figura despertava entre os DJs mais jovens e também por mágoas e medos do exercício de seu poder na luta contra  adversários, expressa por pessoas que, em algum momento, teriam sofrido usurpações de Gran-Valter. Segundo depoimentos obtidos, ele teve de sair de Maceió após ter sofrido um “atentado”, levando muitos tiros. O esforço para assassiná-lo estaria
relacionado a uma rivalidade desencadeada a partir do que anteriormente teria sido uma parceria e uma amizade com um importante personagem da polícia militar de Alagoas. Sob a sombra dessa amizade ou parceria, Gran-Valter teria expandido sua atuação no mercado de drogas, como a maconha, e atuado em grupos de extermínio, auxiliando as pretensões de moradores e setores policiais de pôr fim aos “maloqueiros” em bairros sob sua influência. Aí  staria uma das raízes do dinheiro e das redes de proteção que auxiliariam a expansão, não sem conflitos, e elevadas tensões ambivalentes do que se tornaria a principal Radiola de Reggae de Maceió ao longo de quase duas décadas.
Quando posicionei tal trajetória com a de outras três dezenas de interlocutores que entrevistei em Maceió, também ligados ao circuito de bailes de reggae, grupos de rap ou mesmo a conjuntos de bois-bumbá, vi-me pressionado a lidar com o problema de que as trajetórias ocupacionais de crianças e adolescentes
oriundos de “periferias” - que viriam a ser reconhecidos como agentes artístico-diversionais - estavam altamente constrangidas pela busca de dinheiro, prestígio e sobrevivência em mercados ilícitos e altamente criminalizados (Misse, 2005; Telles, 2012) como o de drogas, armas e mercadorias roubadas. As fronteiras entre o reconhecimento como trabalhador da diversão e como “maloqueiro” eram, em determinados espaços, pouco nítidas, ao mesmo tempo em que há fortes sinais de que a ampliação de tais circuitos de apresentações nas periferias tem pressionado a rediscussão das fronteiras morais entre as ocupações econômicas conspícuas e não conspícuas em espaços públicos na cidade.
Nesses parágrafos iniciais, busquei ressaltar dois problemas sociológicos – que percebi no diálogo com o material
de campo – relacionados à expansão de mercados culturais em “periferias” de diferentes cidades brasileiras a partir de dois fenômenos distintos, mas aproximados pela identificação de relacionarem-se com circuitos de diversão musical-dançante.

Trato, especificamente, (i) das interpenetrações e tensões entre repertórios de gestos e símbolos e a diferenciação funcional de linguagens expressas em dinâmicas concorrenciais entre o quepoderíamos nomear como mercados religioso e diversional nas “periferias”; (ii) da necessidade de incluir a relação entre as posições  de produtores, distribuidores e consumidores culturais e os empreendimentos marcados por lógicas de poder típicas de mercados ilícitos e altamente criminalizados na construção dos espaços sociais e de lutas simbólicas nas “periferias”, atentando-se para as mútuas interferências entre tradições de agressividade e formação de mercados de dinheiro e de crenças.

Fernando Rodrigues. “CORRO COM O PCC”, “CORRO COM O CV”, “SOU DO CRIME” Facções, sistema socioeducativo e os governos do ilícito em Alagoas

“CORRO COM O PCC”, “CORRO COM O CV”, “SOU DO CRIME” Facções, sistema socioeducativo e os governos do ilícito em Alagoas

Professor Dr. Fernando Rodrigues


Nosso blog divulga trabalhos do Professor Fernando Rodrigues sobre a periferia de Maceió. 
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Revista Brasileira de Ciências Sociais

Print version ISSN 0102-6909On-line version ISSN 1806-9053

Rev. bras. Ci. Soc. vol.35 no.102 São Paulo  2020  Epub Apr 17, 2020


link: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092020000100515

Introdução


Neste artigo, trato de mudanças expressas em sensos de grupo e de regulação de conflitos entre jovens criados em periferias urbanas alagoanas, ligados a mercados de drogas e mercadorias ilegais. A partir de pesquisa de campo e interlocuções em quebradas e no sistema socioeducativo, discuto a alteração de códigos de justiça no mundo do crime durante os últimos 20 anos em Alagoas, centrando-me em Maceió.

Abordo o surgimento e o cultivo de um senso de aliança às facções PCC e CV1 e como tais fenômenos têm se mostrado interdependentes de transformações em mercados ilegais e políticas de segurança pública. Ademais, trato como a crescente polarização entre sentimentos de defesa e afeição aos símbolos PCC e CV em Alagoas pressionou a demarcação de uma terceira zona de posição não faccional, referida e autorreferida como “do crime”2.
Inicialmente, proponho um desenho parcial a partir do qual se pode compreender as mudanças no sistema socioeducativo alagoano e o papel das facções em seu funcionamento. Em seguida, trato das mudanças nos padrões de agressividade desses adolescentes, relacionando expressões êmicas, padrões de canalização das agressividades e prestígio no mundo do crime. Tomo como marcador de anterioridade e posterioridade o período das pressões vindas de lideranças do sistema prisional para que os adolescentes no socioeducativo fossem separados por indicação de simpatia às facções, expressas nas ideias de “correr com o PCC ou com o CV”3. Isso começou por volta de 2014, mas foi sedimentado como referência de governo do sistema socioeducativo em finais de 2016.

Aponto como, em um período anterior, padrões de agressividade embutidos em termos nativos como “ser sujeito-homem” e “cabra-homem” estavam entrelaçados a uma figuração mais descentralizada da distribuição do poder criminal. Assinalo que, posteriormente, o encarceramento de jovens crescentemente ligados às facções alterou os equilíbrios de poder entre os adolescentes no socioeducativo, reduzindo relativamente os gradientes de descentralização da regulação dos conflitos daqueles envolvidos no crime.

Entretanto, encontrei um processo distinto daqueles estudados em estados como São Paulo e Rio de Janeiro (Barbosa, 1998Feltran, 2012Hirata e Grillo, 2017Willis, 2015), mas estreitamente dependente deles. A adoção e reelaboração de práticas de regulação de conflitos entre ladrões e traficantes vindas de cadeias e favelas do Rio de janeiro e São Paulo, como tribunais informais mediados por pessoas não diretamente envolvidas nos conflitos – e também expressas em termos tornados nativos como “buscar saber a caminhada”, “resolver da melhor forma”, “esperar vir o resumo” –, pressionaram a uma transformação nas balanças de poder entre grupos e, consequentemente, na figuração dos mercados ilegais em periferias urbanas de Maceió (Rodrigues, 2019).

Se, por um lado, parece ter aumentado a percepção de que diferentes tipos de conflitos e assassinatos entre traficantes e ladrões sofreram maiores pressões de regulação por lideranças e redes faccionalizadas, de outro a polarização entre as alianças PCC e CV e as disputas por zonas cujas lideranças se anunciavam como não envolvidas desencadearam um novo redirecionamento das agressividades letais. Nesse contexto, aumentou-se a impressão de guerra “na cidade”, e não apenas em bairros, ruas ou quebradas, homóloga aos movimentos que se desenrolavam em escala nacional (Candotti, Cunha e Siqueira, 2017Melo e Rodrigues, 2017) e transnacional.

Manso e Dias (2018) destacam que entre 2013 e 2014 há uma alteração na intensidade de esforços do PCC para se expandir em diferentes presídios do Brasil, alterando os equilíbrios de força com o CV, coincidente com o aumento de tensões que observei em campo, em Alagoas4. Na mesma senda, desenvolvem-se estratégias para assegurar trânsitos privilegiados de drogas, contrabandos e armas nas fronteiras sul e oeste (Feltran, 2018), aumentando decisivamente as interdependências entre as lutas por poder nos presídios do Nordeste com as dinâmicas criminais nas fronteiras (Hirata, 2015Paiva, 2019b).

Trato dessa transformação por meio de um registro de campo no sistema socioeducativo de Alagoas. A partir de eventos em torno de um assassinato dentro de uma das unidades, aponto como a recente divisão de alojamentos de acordo com a indicação de simpatia a uma das facções e o reforço do poder de adolescentes com fortes alianças ou vínculos faccionais engendraram eventos não intencionados para os administradores do “sistema”. A relutância de muitos jovens em aceitar as lideranças e práticas de regulação faccionais (em muitos sentidos, os que “corriam com PCC e com o CV” adotavam práticas semelhantes, ainda que guardassem significativas diferenças) expôs as tensões no macrocosmo da cidade no microcosmo do sistema de internação. Além da característica de guerra entre os aliados do PCC e do CV, veio à tona o profundo incômodo de muitos adolescentes em colocar os vínculos familiares abaixo do compromisso faccional, aumentando ainda mais a tensão nas personalidades de alguns dos adolescentes e, por conseguinte, nas quebradas. Isso se expressou numa terceira categoria que circulava como identificação de grupos não alinhados ao PCC e ao CV, não unidos sob uma terceira facção, mas abrigados sob a denominação genérica “do crime”.

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