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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

AMARAL, Vanine Borges. Iluminação Natural e Componentes Arquitetônicos: nas janelas da pobreza

 domingo, 20 de julho de 2014

Urbanismo: Paisagem e cotidiano: Maceio: Periferia:

Sexta-feira, 30 de dezembro de 2011




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AMARAL, Vanine Borges. Iluminação Natural e Componentes Arquitetônicos: nas janelas da pobreza. O Jornal,  Maceió, 28 Set. 2008.
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[URBANISMO: periferia: arquitetura: Maceió (Al)]

Umas poucas palavras
Luiz Sávio de Almeida

Vanine é jovem pesquisadora em formação. Ela aceitou um desafio que fiz: discutir uma aparente dualidade na arquitetura, no que diz respeito à carência e à abundância. Foi ao Feitosa, conversou com o povo, sentiu que se elaborava uma estética e uma prática associada à carência e explorou o assunto nesta matéria. É uma aproximação do saber  acadêmico à realidade da pobreza de um país que Octávio Ianni considerava inacabado. Não deixa de ser um ajuste de contas do saber com o poder. Para a publicação deste texto, ela contou com observações críticas do Professor Dr. Leonardo Salazar Bittencourt.
Um dos ponto altos do texto é a incorporação da fala do povo, o que é um sinal de modernização da pesquisa. É necessário reforçar que  Espaço trabalha uma linha que soma os cacoetes acadêmicos e a divulgação. O assunto é sobejamente importante e lida com a possibilidade de se discutir a existência de uma arquitetura de carência e uma arquitetura de abundância ou, em linguagem popular, construir e se virar.


Vanine Borges Amaral, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Alagoas. FAU/UFAL(2007). Durante a graduação participou do Programa de Educação Tutorial de Arquitetura e Urbanismo,  PETARQ e do Grupo de Pesquisa em Iluminação. GRILU. Atualmente é mestranda do Programa de Pós-Graduação Dinâmicas do Espaço Habitado - DEHA/UFAL e participa do Grupo de Estudos Representações do Lugar, RELU, atuando na linha de Percepção e Conceituação do Espaço Habitado. Escreveu este artigo para a disciplina intitulada Formação do Espaço Alagoano, ministrada pelo Professor Luiz Sávio de Almeida e sob sua orientação.





Iluminação Natural e Componentes Arquitetônicos: nas Janelas da Pobreza
Vanine Borges Amaral



O presente artigo discute a utilização dos recursos arquitetônicos para o aproveitamento de luz natural pela população de baixa renda. Longe de chegar a uma conclusão, almeja traçar apontamentos sobre a questão, a partir do exame de uma área da cidade de Maceió. Tomou-se como área de estudo uma pequena extensão do bairro do Feitosa, em que se verificou o uso da janela nas autoconstruções, a partir de visitas, registros fotográficos e entrevistas com os residentes, levantando- se a hipótese de que este universo iria repetir-se nas diversas áreas urbanas do mesmo nível de renda.
A maneira pela qual a luz penetra nos ambientes, a orientação do edifício, a tipologia das aberturas, localização e dimensão, a existência ou não de elementos de proteção e de transição para o ambiente interno, interferem na interação entre o espaço e o homem, e no modo pelo qual o primeiro é sentido, apreendido e percebido pelo segundo. Esses elementos também determinam as relações entre o meio interior e exterior à construção e entre o meio natural e o construído.
O uso de janelas tem sido bastante empregado nas edificações por atender, além das exigências de iluminação, às necessidades de ventilação e de visão do exterior. Sua tipologia foi se modificando ao longo da história de acordo com as necessidades humanas, bem como das técnicas construtivas disponíveis em cada época. O tamanho e a disposição das janelas variam de acordo com as condições locais. Por exemplo, enquanto em climas frios as janelas são projetadas a fim de admitir uma maior quantidade de radiação solar, garantindo ganho térmico no interior da edificação, nos climas áridos as janelas servem para eliminar calor, acolhendo uma menor quantidade de luz.

O que todas essas possibilidades significam para a classe pobre? No Feitosa, assim como nos demais bairros de periferia de Maceió, a população de baixa renda adquire ou se apropria e ocupa um pequeno lote, sem infra-estrutura, e inicia um extenso processo de autoconstrução de casa, geralmente no tempo livre entre as jornadas de trabalho. Devido à carência de recursos, modelos construtivos, participantes da experiência comum, são repetidos. Deste modo, por exemplo, as casas geminadas provenientes da herança colonial portuguesa são as formas mais comuns nas áreas periféricas da cidade.
O modelo conhecido como casa de meia-morada ou casa de porta e janela organiza a residência unifamiliar em uma sala de estar ladeada por corredor que dá acesso aos quartos de dormir . também chamados de alcovas, na literatura especializada, por não possuírem janelas . e leva à cozinha e ao banheiro, na parte posterior da casa. Um pequeno quintal aos fundos completa a ocupação do lote.


Diante desse padrão residencial se apresentam muitas questões acerca do conforto ambiental, já analisadas por diversos pesquisadores como Reis Filho e Philips Derek. O fato de as casas serem geminadas impede a disposição de janelas laterais, exigindo instalação de grandes janelas verticais na fachada, a fim de iluminar ao máximo a extensão longitudinal da edificação. A escuridão nas alcovas é minimizada com o uso de domos e paredes  descoladas do teto, artifícios que além de proverem alguma iluminação, proporcionam a circulação do ar entre os ambientes. A ausência de forro sob a coberta em estrutura de madeira e telha do tipo canal também influencia no movimento de ar interno.
Ao observarmos os modos de construir no bairro do Feitosa, percebemos a extensa utilização da casa de meia-morada, independentemente da orientação do terreno ou das condições ambientais de uma maneira geral. A
aparente similitude entre as residências é desfeita a partir de uma maneira mais atenta de olhar o lugar, que expõe as adaptações realizadas pelos moradores, adequando o modelo construtivo conhecido às realidades individuais, onde se somam necessidade e estética. Durante as entrevistas, não houve relato de uso das janelas para observar o exterior. Tal fato é compreensível, já que esta parcela da população da cidade ainda tem o hábito de conversar nas portas de casa, ficar nos quintais, ir às casas dos vizinhos, enquanto as crianças brincam soltas na rua.
O ventorzinho na casa de baixo

Na casa de Cristina, havia a possibilidade de abrir uma janela lateral, pois, situada no topo de uma encosta, a casa é geminada em apenas uma das laterais. Isso permitiria a ilumina ção de outros ambientes da casa. No entanto, neste caso, foi dado prioridade ao caráter plástico-espacial, a fim de concretizar a idéia que se tem de casa:
Porque essa janela assim, a gente pensou pela questão da frente da casa, né? Como geralmente é usado nas casas, geralmente tem a janela em vista e a porta, pra identificar que é uma casa. A gente queria que a janela fosse no corredor, mas ele achou melhor que a janela ficasse na frente da casa. (grifo nosso)
Nesta casa, só há uma janela horizontal, em ferro e vidro, na sala de estar. A porta de acesso, feita com os mesmos materiais da janela, funciona também para iluminar o interior da residência. Os dois quartos possuem as paredes descoladas do teto e não apresentam janelas, mas este fato não chega a ser um incômodo aos moradores. Ao final do corredor, tem-se a cozinha, também sem janelas. Para permitir iluminação ou ventilação em seu interior, é preciso abrir a porta dos fundos. A segunda abertura encontra-se no banheiro, preenchida por cobogós, tipo de elemento vazado bastante utilizado nas aberturas das casas visitadas. Além de possuir baixo custo, o cobogó funciona como protetor solar, amenizando a radiação direta do sol no interior do ambiente e permitindo a ventilação natural.
O emprego de um modelo de edificação pela baixa renda, como é o caso da meia-morada, denota a existência de uma teoria subjacente a este processo de repetição. Além de as estratégias utilizadas proporcionarem uma satisfação mínima aos usuários, seja do ponto de vista do conforto ambiental, seja do plástico-espacial da residência, é fundamental destacar a inteligência existente no processo de autoconstrução. Mesmo diante da reprodução de um modelo  que associado à escassa renda diminui as possibilidades construtivas, ao observar um pouco mais de perto tais moradias percebe-se a variedade de soluções encontradas para responder às situações cotidianas no que vamos chamar de arquitetura da carência, fundada na ausência de meios e de recursos em geral. Deste modo, a população ajusta a arquitetura ao seu próprio modo de vida, construindo a sua própria ordem de conhecimento e de construção, havendo, sem dúvida, uma engenharia e uma arquitetura absolutamente diferenciadas da versão acadêmica e fundadas na necessidade angustiante de sobreviver. A carência e a sobrevivência fundam um modo de perceber a vida e, nele, aparecem formas específicas de estar na construção do espaço.


Na casa de D. Carmela, que está em fase de construção há algum tempo, o menor comprimento do lote levou a locar um dos quartos na frente da casa. Deste modo, a janela que seria da sala de estar, passou a ser do quarto. Todas as aberturas ainda estão fechadas com tábuas ou panos, mas D. Carmela já define os horários que acredita serem os ideais para abrir as janelas:
Quando é no quarto eu sempre num abro ela, só vez em quando, agora quando taí numa sala, a sala assim, tem que abrir, né, um pouco, né?, assim, pra num ficar...mas quando é pro quarto,né?, eu sempre deixo fechado. Só abro assim um momento que eu vou fazer limpeza.
Atualmente, têm-se definido os níveis de iluminação adequados para os espaços construídos conforme a atividade desempenhada no recinto. De acordo com a atividade desenvolvida, são exigidas diferentes iluminâncias, que aumentam em função dos requisitos da visão. No entanto, estas normas baseiam-se apenas em condições de iluminação artificial, desconsiderando as variações inerentes à iluminação natural, bem como à subjetividade do ato de percepção por parte dos usuários.
Mais do que normas estabelecidas, é o cotidiano que orienta a  quantidade de iluminação necessária no interior da residência. Sendo a moradia um contínuo processo de construção, a população vale-se das experiências adquiridas no dia-a-dia para intervir no espaço. A influência do cotidiano é percebida na casa de D. Branca. Para ela, que é aposentada e tem o hábito de cochilar durante um período da tarde, o ideal é que não houvesse janela em seu quarto, contrariando qualquer normalização ou padrão construtivo ensinado nos cursos de arquitetura. Já acima do fogão, em sua sala-cozinha, há urgente precisão de uma abertura, a fim de permitir, com a entrada de mais luz, a perfeita visualização do conteúdo das panelas.
Abrir uma janela na parede onde se encontra o fogão de D. Branca é possível devido à existência de uma passagem externa entre esta e a casa vizinha, que permite o acesso às edificações situadas na encosta, abaixo do nível da rua. Uma janela semelhante a esta foi aberta no pavimento inferior da casa de D. Branca e Seu Joaquim, que o alugam para outra família. A janela serve para iluminar a cozinha e fica na base da parede lateral, ao lado do caminho de acesso. No entanto, seu Joaquim discorda da esposa sobre a instalação do ventorzinho, priorizando a segurança do casal e sugerindo a instalação de uma telha transparente. A discussão entre o casal continua, e D. Branca afirma ser muito melhor um .ventorzinho., pois a telha .enloda. e  nenhum dos dois tem condições de realizar a limpeza periódica.




REFERÊNCIAS
BITTENCOURT, Leonardo Salazar. Uso das Cartas Solares:
Diretrizes para arquitetos. 4ª ed. rev. e ampl. Maceió: EDUFAL,
2004
DEREK, Philips. Lighting Historic Buildings. Oxford:
Architectural Press, 1997.
REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da Arquitetura no Brasil.
10ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2004




Luiz Sávio de Almeida: Pedaços de memória: Penedo, It was fascination, I know

 

 

 

 

 

 

sábado, 19 de julho de 2014

Pedaços de memória: Penedo, It was fascination, I know


It was fascination, I know








Escute a música, leia e reveja os sons de sua vida.
Cuidado para não chorar. Lembre que ao clicar tem de  confirmar na imagem que aparece.

Clique para ouvir:

 O som da velha 78 rotações: Carlos Galhardo
Os sonhos mais lindos sonhei,
De quimeras mil meus castelos ergui
E no teu olhar, tonto de emoção,
Com sofreguidão, mil venturas vivi.
O teu corpo é luz, sedução,
Poema divino cheio de esplendor.
Teu sorriso prende, inebria, entontece,
És fascinação, amor.
A sorrir, a cantar e a beijar
Nossas bocas se uniam, então.
E os campos, sorrindo, viviam
E, nos vendo, as flores se abriam.
Mas, um destino mau certo dia chegou
E sem o teu meu coração ficou.
Hoje, sombra sou do que fui,
Minhas ilusões o destino levou.
Nada mais existe desde que partiste
E em meu coração só saudade ficou.
Vivo com o passado a sonhar,
Vendo-te, ainda, em meu coração.
Mas tudo promessas, quimeras, mentiras
Da tua fascinação.
 
Por anos a fio,  ouvi Carlos Galhardo, cantor da maior intimidade de meus pais; vez  em quando, um cantarolava  alguma valsa, algum bolero. Por causa deles, dos velhos, , estando certa feita em João Pessoa fui vê-lo em uma boate na praia.  Galhardo  estava velho, mas ainda portava uma aura de galã; o tenor meio trêmulo conseguiu puxar os versos  da encantadora  Fascinação. 
Isso deve ter sido perto de sua morte:  blazer,  gravata, o rosto atolado em maquiagem,  bigode e cabelo teimosamente pretos.  Com pouco tempo, deve ter morrido; ele faleceu em 1985 e nasceu em 1913.  Era  argentino de Buenos Aires. Estava ali, encostado numa boate-meio-quase-churrascaria, um dos mais importantes nomes da Era do Rádio neste país.  Seus pais eram italianos e Carlos Galhardo era Catello Carlos Guagliardi.

 Veio para o Brasil com dias de nascido, e então  segue para São Paulo e termina por bater com os costados no Estácio no Rio de Janeiro, onde vai se tornar alfaiate, e é em 1935 que se tem o início de sua carreira cultuada no Brasil;  ele  falava de amor e, com isto, cativava uma geração de tendência romântica, como se as mudanças no país não tivessem atrapalhado a estética da modinha que englobava  beijos velados a se fazerem tenazes no imaginário. 
O caminho começa com Cortina de Veludo e pouco a pouco foi se criando O Cantor que Dispensa Adjetivos, atuando nas grandes gravadores da época, desde os tempos das 78 rotações, no modelo que imperou até a altura dos anos 50. Ele é vencido pelo famoso long-play que cabia muita música e era mais fino, muito mais difícil de quebrar e com melhor qualidade de gravação. O pesadão era o de 78 rotações e 14 polegadas.

Quando eu era menino, assim por uns 18 anos, ouvi dizer, várias vezes, que o de 78 era feito com cera de carnaúba do vale do Açu no Rio Grande do Norte. Lembro quando o long-play entrou e o primeiro que vi foi em Palmares, Pernambuco. Passa tempo e aparece a primeira radiola lá em casa: era a Flor de Liz da RCA Victor. Tenho o móvel. Era um belo móvel de imbuia. Dentro, o pick-up e o rádio, além de divisões para colocar os álbuns de disco que, também, ainda guardo. 
A radiola ainda não era uma coisa comum e estou falando em 1958. Os amigos se visitavam levando long-play para ser ouvido. Alguns chegavam a ter o disco, mas não tinham como tocar e levava na casa do amigo. A juventude já começava a ouvir os acordes do rock, mas o pessoal da Era do Rádio ainda pontificava.

Foram muitas as músicas cantadas por Carlos Galhardo que ficaram em minha memória, desde a tenra idade em Penedo, quando era ouvido em um Zenith com ondas média, larga e curta e um olho mágico que ajudava na sintonia fina.
 Carlos Galhardo fazia parte do que vou chamar de sons e tons de uma cidade, no caso, a Penedo de minha infância. Carlos Galhardo se confunde com o que chamarei de recordações dos sons penedenses, pois ele viva nas raríssimas casas que teriam radiola, nas inúmeras casas com rádio, nas festas de rua pelos serviços de auto falante e na seleção que tocava nos cinemas, mormente, nas soiré.


Antes de começar o filme, as pessoas sentavam e ficam conversando, em um papo educadíssimo, ouvindo música e à espera da terceira chamada, quando então tocava o que era conhecido como o  prefixo do cinema. Lembro que em um deles, tocava a Aquarela do Brasil e no outro o Delicado. Você jamais consegue desalojar os sons de sua cabeça; eles fazem parte do cotidiano e são das mais diversas formas e valia. Carlos Galhardo não começou e terminou em Penedo; anda comigo pela vida e está aqui quando penso em sons de Penedo.  Eu não sei quando Fascination entrou nos meus ouvidos que jamais se libertaram da melodia. Possivelmente, eu comecei a ouvi-la a partir de uma versão inglesa que, comparada à em português, praticamente nada tem em comum.  Quem sabe, ela não seria bem diferente da sua feição inicial, composta em 1905 na França por Fèraudy e Marcheti.
 
Fascination

It was fascination
I know
And it might have ended
Right then, at the start
Just a passing glance
Just a brief romance
And I might have gone
On my way
Empty hearted

It was fascination
I know
Seeing you alone
With the moonlight above
Then I touch your hand
And next moment
I kiss you
Fascination turned to Love

A primeira versão brasileira foi gravada em 1943 por Carlos Galhardo e era de  de autoria de Armando Louzada e nada tem com a versão para o inglês:  são duas poesias diferentes para uma mesma melodia, mas ambas guardam aquilo que me fascina em Fascination: o tom nostálgico e o adocicado das cordas quando diz que o cara sabe que é fascination.  Ninguém pode esquecer, a interpretação dada por Elis Regina. Ela desfaz de uma forma sutil, toda a ideia da construção francesa e da construção americana, para dar uma tonalidade nossa a este lamento de amor.
Antigamente, como não havia a profusão das lojas de confecção, rara a casa de classe média que não tivessse o que se chamava de quarto de costura e, no mínimo, um lugar de trabalho onde ficasse a máquina de costura.  Lá em casa era uma Singer, comprada à prestação ainda quando meus pais moravam em Quebrangulo. Guardo com carinho este pequeno objeto que é tão grande em recordações. Minha mãe costurava e bordava pedalando a máquina que, em Penedo e na rua da Penha, ficava na varanda. Não era raro ouvir uma voz a se dizer maviosa,  infiltrando-se no meio dos ruídos das pedaladas, a linha enlaçada a brotar da carretilha. A voz em falsete falava de um modo extremamente delicado: Os sonhos mais lindos sonhei...

A máquina se encontra comigo e fica à esquerda da porta do meu quarto. Passo por ela e vez em quando me lembro da Fascinação, sinal de que, realmente, os  sons se agarram em nosso cabelo e os sons e tons de Penedo são carregados com peso de sentiento'.

 São muitas as músicas  cantadas por Carlos Gargalhado e que eu ouvia rebatidas dentro de casa. Já falei no Salão Grenat e agora lembrei-me de uma que retinha toda a condição de uma cavernosa modinha: A pequenina cruz do teu rosário:

Clique
 
 A pequenina cruz do teu rosário


Agora que eu não te vejo ao meu lado
A segredar apaixonadas juras
Busco às vezes do nosso amor de outrora
A recordar nossas íntimas loucuras
Faz tanto tempo, nem me lembro quando
A vida é longa e o pensamento é vário
Tu me mostravas vil, no idílio santo
A pequenina cruz de teu rosário
E sempre que eu a via, recordava
Do nosso amor, a fantasia louca
Todas as vezes que a pequena cruz beijava
Eu beijava febril a tua boca
Mas o tempo passou triste eu segui
Da minha vida um longo itinerário
E nunca mais, nunca mais eu vi
A pequenina, a pequenina
Cruz de teu rosário.


Muitas e muitas músicas de Carlos Galhardo ficaram gravadas em minha cabeça e tudo decorria de meu pai e de mimha mãe, especialmente depois que foi comprada a Flor de Liz que não era RCA como afirmei antes, mas Standard Eletric. Discos comprados em Palmares, em Recife e em Natal. Sempre, aqui e ali, Carlos Galhardo. 
Como separá-lo de minhas recordações de vida? Acho que a música é um botão de start para muita coisa, inclusive para relembrar e, numa estranha magia tomar os sons de vida que são alegrias e pobrezas.
  

domingo, 27 de setembro de 2020

Luiz Sávio de Almeida. Memória e história: o cinema mudo na Capela de Alagoas

 

 

 

 

 

 

 

Memory of everyday life, Movie theater, Recuerdos cotidianos, Ricordi di tutti i giorni

sábado, 19 de julho de 2014

Memória e história: o cinema mudo na Capela de Alagoas

Capela das Alagoas: o maestro e o cinema mudo


         Hollywood é algo presente em nossa vida, como símbolo do cinema que nos bombardeia desde a época do cinema mudo. Depois passou pelo falado e depois pelo colorido. São três ênfases tecnológicas em nossa vida. Do cinema mudo, restaram-me algumas coisas contadas por meu pai, que me transmitiu o culto por Carlitos. Acho que tenho quase tudo que Carlitos filmou;  vez em quando curto alguma coisa. Lembro das histórias do Cine Ceci na Capela, com o maestro Chico Caetano tocando piano, valsa nas partes tristes, chorinhos nas alegres.



Chico Caetano era músico de primeira, militar ferido em Canudos e tocava no Cine Ceci. Conheci muito a Naná, que morava na linha do trem em uma casinha simpática, aqui em Maceió. Dizem que ela puxava ao pai: alta e magra. Nana trabalhou muito em teatro e era ligada a Os Dyonísios, grupo do Bráulio Leite Júnior. Chico Caetano tinha composições e eu somente conheço uma, que ouvi ser cantada por suas de suas filhas, quando conversávamos em Maceió. Otávio Cabral estava comigo. A letra era a seguinte:

Mamãe tem, papai tem

Todos têm

A barriga empinada.


Muito se contava de Chico Caetano. Meu avô Fausto era o bilheteiro do cinema. Ir ao cinema era uma preparação. Não se ía maloqueiro e nem com a roupa das festas, mas com a roupa para ir para os cantos, arrumado. Me disse papai que teve cinema engraçado: as pessoas levavam suas próprias cadeiras, mas não foi o caso de Capela. Era um salão, cadeiras e a tele; um piano do Chico Caetano. Uma coisa triste, lá vinha o dolente de uma valsa. Uma valsa dolente é coisa que sumiu.  Saudades do Matão é dolente. Acho bonito, viajo quando a escuto e é uma forma de me lembrar de casa, de uma história que tive, como se o passado nunca se acabasse e fosse imediatamente uma situação de agora. Faz pouco, descobri que sou um ser que revive permanentemente. E que as pequenas coisas são senhoras de mim.

tom mix

buck jones

Contam, que Chico Caetano tomou um meio porre e foi ao piano, mais pra lá do que pra cá. Um idílio aparece na tela e a música deveria passar para um vivace, quem sabe um “feroce”, e a cana trazia o Chico Caetano para longe das luzes de Hollywood e espremia contra as pedras do Rio Paraíba.  Veio uma embolada:


Chuleia o besouro, Iaiá

Bem chuleadinho, Iôiô

O besouro avoa, Iaiá

E é bonitinho,  Iôiô.


A plateia caiu na gargalhada, mas o Chico Caetano, veterano de guerra, jamais se perturbaria mantendo a embolada a martelar nas teclas do piano,  o besouro avoando sobre o amor da tela. Acho fantástica esta desconstrução capelense, este ajuste de contas entre os peixes do Paraíba e as estrelas que depois farão a propaganda de sabonete. As meninas do Paraíba tomavam banho de cuia ou tibungavam no Poço do Pai Pedro. O beijo e o besouro chuleado ficaram enlaçados retomando para a Capela, o tempo que Hollywood parecia roubar-lhe.

Mas não foi somente esta façanha, que foi atribuída ao Maestro, antes do cinema falado chegar na Capela, exigindo a atualização do cinema em seu equipamento. Gente da Capela pegava o trem e vinha ouvir o cinema em Maceió. E isso dava o tom da ligação entre o trem e a possibilidade das novidades. Ms o Maestro tinha outra que se contava. Era Semana Santa e em um dos dias foi passada a vida de Cristo. O Maestro esqueceu dos tempos de trevas, entornou umas cinco e lá vai a cena comovente da cruz  sendo levantada e, com ela, o corpo de Cristo. Era o encontro do sagrado da tela com o profano do piano. O Maestro não se conteve e saiu:


Tatu subiu no pau

E na mata ninguém viu!


Isto tudo devia ser mangação, brincadeira de quem não tinha o que fazer. Não importa, contudo, a verdade,  mas o modo como se construía com o humor uma personagem urbana e, com ela, vinha o anedótico e o jocoso desconstruindo valores. Sei que do meio do universo do cinema, ficaram na cabeça de meus pais o Boca Larga, Carlito, Tom Mix, Buck Jones.

Eu gosto do cinema mudo.

ROMARIZ, Antônio. Scenas Rio de São Francisco

San Francisco River, Cascata Paulo Afonso,  Cascada Paulo Afonso,  Paulo Afonso Waterfall,

sábado, 19 de julho de 2014

Rio São Francisco: um texto de 1879

ROMARIZ, Antônio.  Scenas do  Rio de São Francisco


O velho Rio São Francisco

Luiz Sávio de Almeida

        Não há como negar o fascínio que o Rio São Francisco carrega com suas águas.  e não são poucas as horas, as tintas, os escritos que foram dedicados a ele.  Eu estava  pesquisando um antigo jornal que circulava em Alagoas, século XIX, e me deparei com uma crônica extremamente sensível  e escrita sobre ele. Era de autoria de Antônio Romariz. Achei interessante o modo poético como trazia o rio e seus costumes e então resolvi partilhar. O Orbe foi um jornal que começou a circular em Alagoas, no ano de 1879. Saía segunda, quarta e sexta, sendo propriedade de José  Leocádio Ferreira Soares, tendo sua redação situada na Rua da Boa Vista, 55, sendo impresso na Typographia Mercantil, que deveria sr do mesmo proprietário, pois ela tinha sede no mesmo número da antiga Boa Vista..
      Quem ama o Rio São Francisco, irá sentir-se em casa ao palmilhar o texto.
                                                                              http://www.joaodesousalima.com

Scenas  Rio de São Francisco

Antônio Romariz


 ( Ao Sr. Guido Duarte )
 
O Orbe. Maceió. 23 mar. 1879.
 
Opara— chamavam os aborígenes ao rio Francisco.

É um rio magestoso o meu pátrio rio

Quem nâo o conhece, ao menos, pela voz da fama?

A natureza deu-lhe um lugar distincto entre os systemas hydrographicos do ímperio.

A portentosa cachoeira de Paulo Affonso é o ponto luminoso, para onde convergém as vistas de toda a Europa.
Magestoso rio !

Mollemente  espreguiçado sobre o seu leito de areias, estende os braços o gigante do norte, e num estremoso abraço, a' dormece, soluçando beijos de espumas nos braços das cinco provincias que banha. São as suas bellas amantes. Quando a lua cheia derrama sobre a terra as suas amphoças de luz, o rio adormece, corno o somnambulo pela força de vontade do magnetisador; uma boia de prata fluctua nas águas: é a lua que dorme a estremecer no espelho liquido.


O silencio vagueia nos nos ares, no rio e no lago, no prado e no monte; apenas quebrado pelo chorar da mareia nas ribas, pelo cahir das folhas seccas sobre as pedras dos morros, pelo chiar e rangir da voga ou da zinga da canoa, que sobe a corrente, pela cantiga do sertanejo, repassada de  ternura, ungida de melodia, vaga como o pensamento do cantor, que a concebeu; porque muitas vezes o homem
dos sertoes, o cantor d'essas trovas tão nacionaes é  um poeta, rude, é verdade, mas original. A natureza é a sua amante a naturalidade, a sua arte. E, no meio de tudo isso, o cahir das   folhas e a voz do sertanejo despertam os eccos dormentes das serras, nas quebradas.

          De espaço a espaço, as araras gargalham nos morros sobre os ramos dos angicos ou dos mandacarús; a siriema solla uma escala chromatica, tão afinada, do grave ao agudissimo e viceversa, que dir-se-hia uma clarinella tocada por musico exímio.

         
Aquellas serras sào como que exercitos enfileirados, que lhe fazem continência  e lhe velam o dormir.

          Mais abaixo, sobre um penedo, a rainha daquellas águas mira-se enamorada nos chrystaes do rio. E' a noiva d'aquelle sultão que deita a fronte nas Canastras e lava os pés no mar.

          Corramos agora uma cortina sobre esses brilhos da lua.

É uma noite sem estrelas.

O  mar, do sua trompa oceânica  tira sons roucos, como as tempestades o que veem com os ventos tos das procellas morrer-nos aos ouvidos, sete léguas acima da foz, ou antes, expirar no regaço da  rainha daquellas aguas.

Uma toalha negra cobre a superfície do rio.

Para as bandas do sertão, montanhas de nuvens cobrem os ceos, negras, como os demônios da tradiccão.

De quando em vez, uma estrellinha espia por entre uma fresta de nuvem, e dá um beijo de luz no rio que se agita.
O relâmpago abre-se, o ronquejar do trovão rola e rola e uma lingueta de fogo,  tortuosa lambe as negridões.

É o raio que brinca.

O S. Francisco reflete essas imagens com uma fidelidade artislica.

Imagine o leitor uma immensa chapa de prata polida, no
meio das trevas, e allumiada por um incêndio de pólvora, e terá o relâmpago no S. Francisco.

O vento cresce de forca; o rio cava-se; a chuva cahe a
principio do peneira; engrossa-se, e chia sobre os telhados, as calçadas das ruas e sobre o rio e o trovão ribomba: é a harmonia espantosa da trovoada,

Ao fusilar dos relâmpagos, desenham-se as  formas fantásticas, enormes, negras, como a noite mesma: são os morros o as serras d'alem.

No dia seguinte, as  negruras e aos furores da noite sucedem os brilos de um ceo azul, franjado de brancas nuvens e dourado por um sol mais claro. 

As enxurradas passam descendo  as ruas da cidade heroica de uma extremidade á outra, como cachoeiras taes, que impedem o transito publico. 

As trovoadàS são a origem das enchentes. 

O Pajeú e o Moxotó, dois tributários do S. Francisco, recebendo as copiosas águas dos céus, engrossam-se, e as despejam aos pés .do grande senhor,  que principia a entumecer-se.

Depois: as chuvas sempre  a crescer o rio sempre a engrossar,  arrojam-se às suas águas sobre a grande penedia da cachoeira; esta por sua vez salta como um rebanho de alvíssimos liões sobre o grande abismo do baixo S. Francisco e causando, segundo [...] um estrondo que [...] muitas léguas, faz levantar uma nuvem de vapores, tão espessa, que assemelha-se a rolos de fumaça de um grande incêndio. 


Então, o rio rompe as ribanceiras, pula o álveo, e inunda os campos. 

Então, Penedo está com as ruas baixas todas alagadas.

As canoas servem de gondolas venezianas.

Os terrenos adjacentes são um lago-mar!

Agora o prazer das regatas. 

    Escaleres, canoas, jangadas, com as velas pandas, e ornadas de bandeírolas de diversas cores, levam músicos, homens, mulheres...

E partem. Os vivas, os foguetes, a grita de alegria vêm morrer aos ouvidos dos espectadores das margens.

São ãs regatas.

Mais tarde, o prazer para muítos converte-se em desgostos em molestias.

O rio vasou. As sezões, chamadas, tomam o seu lugar... Homem; palidos, mulheres descoradas; a moléstia não escolhe; faz-lhes pagar os banhos nas ruas em noites de luar. . .

Bello espectaculo na verdade o do S. Francisco transbordado I

     Quando se poderá contar com o auxilio do paiz para o impedimento das águas dentro da cidade?

E' interesse publico; será preciso que amadureçam séculos?

O sol entrou em capricórnio. O céu é de fogo, o ar é de fogo, o rio está como que incendiado. A Tabanga, em frente á vila do Traipu, assemelha-se a uma enorme baleia á flor d'agua e aí o calor é abafador.

O rio tem  faíscas electricas á vista.

O sol reclina-se sobre as ^montanhas da margem direita em frente á cidade  heróica, dizendo o ultimo adeus ás águas, aos montes e a cidade.  O rio tem sobre si uma toalha de pedras. O céu iria-se; as nuvens franjadas d’ouro e escarlate vão passando em  caravanas para  o sertão; bandos de aves selvagens descem o rio e somem-se para o mar.


O sol escondeu-se.  A claridade do sol sucede  a claridade da lua. Os ventos suspiram trazendo das vagas [...]

Luiz Sávio de Almeida.O Neuton da Capela e a Maria Furadinha são tesouros do feijão alagoano

 

sábado, 19 de julho de 2014

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Este artigo foi publicado em O Jornal em 14 de setembro de 2007

O  Neuton da Capela e a Maria Furadinha são tesouros do feijão alagoano

Luiz Sávio de Almeida

Não é fácil preparar bom feijão, sustentar a qualidade da comida diária de uma casa. A sua presença e a do arroz montam o trivial de nossa mesa, existindo, inclusive,  para a sua repetida e repetida presença,  uma expressão para a rotina que se faz chatinha: é o mesmo feijão com arroz. A gente já cresce sentindo o cheiro dele e quando é tempo de comida de panela, cuidadosamente ele vai sendo introduzido, por ser pesado e vai ser de absoluta necessidade para a sustança.  Se alguma nutricionista fizer uma pesquisa procurando saber os alimentos que o povo reconhece como forte, sem duvida vai ouvir falar muito de nosso feijão. Para curar a fraqueza, o feijão aparece no receituário: tá fraco das pernas, é preciso comer feijão.
E por ai seguem o de corda, arranco, preto, branco, mulatinho e haja feijão. A beleza de tudo esta na simplicidade;  cada casa tem seu feijão e penso que chegue a ser uma espécie de  impressão digital domiciliar. Como em cada casa existe um tipo de amor, em cada cozinha existe um tipo de feijão. Sei lá  como se pode ter tanto gosto diferente, tanta textura diferente de caldo... O mulatinho pesa em todos os lares, aquele caldo, o marrom, a sopa em potencial. Para mim, o feijão de maior presença publica é o dos pedreiros. Não sei se é a hora em que ele começa a cheirar, mas é como se de imediato o olfato recomendasse o sabor. O cheiro e o gosto assumindo a construção, como se estivessem emoldurados pelo Chico Buarque de Holanda.
Eu não sei se é o cimento, a poeira, o barro, a lata, a lenha... Não sei... Apenas sei que é uma bela hora de almoço. Quando faço amizade com pessoal de alguma construção perto de casa, vez em quando colaboro na comedoria, recebo meu quinhão e tome farinha e pimenta. Mas aqui pertinho da Maceió, existe um restaurante extraordinariamente pedreiro: mesmo feijão, mesmo poder de charque:  a Maria Furadinha, onde se encontra, também, o belo serviço de mesa prestado pela não menos competente Taioba. Seria difícil que o feijão da Maria Furadinha tivesse o poder que tem, sem a Taioba para brilhar em futuro esporte olímpico:  prato à mesa. Ela joga bem. Dois garçons ficam na minha memória: a Taioba e o Pescoço.  Pescoço quando eu pedia uma cachaça, ele colocava outra para ele e saiamos cambaleantes: o freguês e o garçom que se danava a fazer conta errada. Não é o Pescoço do Graci: é outro e talvez por parecer com o do Gracy, a gente chamava assim. A ultima vez que o vi, ele trabalhava na Peixada Pajussara, na esquina do quarteirão em que ficava o Bar das Ostras, lá na Lagoa. Faz é tempo...
Excelência do feijão  é o caldinho do Bar Sem Nome do  Neuton na Capela. Alias, o primo serve o de feijão, galinha e misto, valendo a pena sair de Maceió e deliciar o caldinho em uma rua calma, parece que em frente ao Cartório do primo Cícero Cocó, oitão do Forum e de frente para a Estação do Trem, parada, sem, movimento, com aqueles trilhos vivendo a toa por maldade do destino. Quando o trem chegou na Capela, o povo tinha pena do bicho cansado,  resfolegando de tanto andar e andar. Pois a estação esta ali, confronte o  Neuton.  
É impressionante a limpeza onde o caldo é preparado. Limpo, limpo, limpo... Nem parece que por ali andou galinha ou feijão. Não se vê uma pena, uma semente de tomate, uma queixa do galo marido da galinha. Maria Lopes tinha razão: vale a pena sair de Maceió, ir tomar o caldinho do primo. lsto é bom, ainda de acordo com a Maria Lopes, para quem deseje tomar um deforete, descansar do burburinho.   preciso um cuidado; vai chegando por perto do meio-dia, o primo fecha; não gosta de muita gente e eu entendo: não ha abuso mais chato do que de bêbado e de freguês gritando: eu quero isto e que quero aquilo! Maria Furadinha e o primo Neuton são exímios curadores da cozinha do feijão. Maria Lopes fala da sopa de feijão da Lurdes lá no Cajueiro Grande em Penedo, mas a Maria esquece que a Lurdes já morreu. Coitada, saudades. Foi quem me deu muito pirão de peixe e caldo de piranha quando eu era menino na Rua da Penha em Penedo.




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