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quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Luiz Sávio de Almeida e Viviane Rodrigues. A evidência das grotas no urbano de Maceió

 

  domingo, 1 de junho de 2014

Maceió: a cidade e suas grotas. Falas da periferia!

 

Estes textos foram publicados em Contexto de 25 de setembro de 2011 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.

 


Um pequeno bilhete sobre as grotas de Maceió

Luiz Sávio de Almeida

 O  Museu Cultura Periférica é um dos parceiros do Contexto e desenvolve projeto sobre a história das grotas em Maceió, começando por mapear as que se estabeteceram no Jacintinho.As entrevistas são conduzidas por Viviane Rodrígues para preparação de um livro, onde memória e referência ao local se estabelecem. Hoje, teremos um pouco sobre a Grota da Bananeixa. Contexto destaca o esforço da pobreza para construir o seu lugax urbano e a decência do povo que vive nas grotas.
A Tribuna Independente ao veícular os depoimentos presta serviço à comunidade do Jacintinho e a todo o Movimento Periférico de Maceió.

A evidência das grotas no urbano de Maceió

Luiz Sávio de Almeida e Viviane Rodrigues

A evidência das grotas em Maceió decorre da ocupação de áreas que hoje são consideradas de periferia, em face do processo de urbanização e ocupação do solo deslanchado na década de sessenta do século passado. As causas são conhecidas e decorrem da ancoragem da pobreza, tanto a gerada urbanamente como a transferida do campo pelos impasses da estruturara fundiária e organização da produção.


A periferia de Maceió não pode ser considerada homogênea; tem desníveis internos de renda muito fortes, como se pode verificar no Jacintinho. Para tanto, basta notar a diferença das construções que estão feitas nas vizinhanças da praça nova, a que chamam de Mirante. São residências que se assemelham às que se encontram edificadas na Pitanguinha, havendo, portanto, uma paisagem distante do grosso do bairro que se derivou, justamente, da opção pobre para residência.

O Jacintinho - no que vamos chamar de sua parte chã -, não é homogêneo, sendo possível identificar diversas porções territoriais, cada uma com suas características próprias. Uma das divisões é vista nas áreas do mercado e da feirinha com a estrutura de serviços que serve ao bairro e, inclusive, os prédios dos supermercados que são considerados grandes estabelecimentos, verdadeiros marcos de referência espacial e que vivem ao lado dos chamados mercadinhos e, ainda, das antigas formas de bodega.

Super, hipo e feirantes fazem um grande contexto de comércio que vara o bairro, sobretudo a partir do viaduto em direção ao Barro Duro; a feirinha, praticamente, faz a fronteira entre eles. Caminhando do viaduto para o Canal 5, o comércio diminui de intensidade, ficando uma parte mais residencial. É nas proximidades do Canal 5 que fica a Grota da Bananeira, uma de tantas que fazem o lugar, devendo, desde logo ficar claro, que as grotas tendem a ser mais pobres do que a porção de cima e elas são hoje em dia, praticamente, vistas, especialmente como matéria da crônica policial. Está sendo lançado um estigma sobre seus moradores.

Contexto traz hoje, duas figuras da grota, contando parcelas de vida; são entrevistas realizadas com o intuito de montar um grande painel da história do bairro e que os autores estão montando para o Museu Cultura Periférica. A áreã chama-se Bananeira pela razão óbvia de plantações. A Coronel Paranhos cortou o espaço em duas partes, uma a leste e outra a oeste, com a Benilda falando desta última. É como se a Benilda olhasse para o lado do Reginaldo e o Eucalixto ficasse vendo o mar.

São duas histórias do lugar, mencionando detalhes sobre o que foi assentar a Grota e, delas, destacamos alguns pontos como a fracionamento da área, a procura da Grota como área pobre, a integração paulatina de serviços, a integração também paulatina ao contexto da cidade, a revelação de elementos do cotidiano, o papel político da religião, o lazer, a moralidade, a dureza da vida.

O modo urbano de Maceió foi ocupando as grotas e deixando os locais dos severamente empobrecidos.

GROTA DA BANANEIRA: A FALA DE Benilda Lima dos Santos

A Coronel Paranhos como divisória

Eu sou alagoana, nascida em Maceió, 1957. Nasci na maternidade Sampaio Marques. Morei na Rua João Ulisses Marques de traz do cemitério São José até os meus nove anos. Minha madrasta morreu deixando três filhos para criar, foi quando meu pai tinha uma casinha ali descendo aquelas duas ladeiras do Jacintinho e que antigamente a gente conhecia tudo ali como Aldeia do índio, porque não era muito civilizado, só tinha Grota: Pau D arco, Bananeira, Reginaldo, fazíamos parte daquela região.

Um pouco da história

Fui morar na Grota da Bananeira que o dono loteou o sítio e começou a vender os terrenos; meu pai foi o primeiro morador. Lá o povo dizia que tinha uma mula sem cabeça. Eu tinha muito medo do seu Artur, o homem que era dono: era alto, magricelo, branco, com dois olhos enormes bem azuis, era esquisito. Ele me dava bananas, muitas frutas, lá tinha de tudo, chegava de supetão e dizia: Toma. Nunca o fitei nos olhos, tinha medo. Ele morreu com mais de cem anos.
O sítio da Grota da Bananeira era toda aquela região ali do canal 5, atravessando o que hoje é a Avenida Coronel Paranhos até o outro lado; descendo pela Rua Jardineira e pela Rua Belém, encontra-se o Reginaldo; subindo tem-se o Centro Santo Antônio e as duas ladeiras que hoje são asfaltadas; antigamente não eram. Ali onde existe o Cepa Quilombo (Rua Santa Luzia) era uma lavanderia pública, onde nós lavamos roupas. Ali próximo ao Mirante, onde hoje existem as apresentações do folclore, era uma lavanderia pública. 
Tudo mundo lavava’ roupa porque não tinha água encanada. Nós descíamos a grota, a gente chamava de “escorrega lá vai um”, para comprar água perto do Buganvília e da Grota do Pau D 'Arco. Tinha uma cacimba com água boa, o cara ali fez muito dinheiro. Também tinha a caixa d'água do Seu Manezinho, que abastecia o Jacintinho; quando quebrava uma peça íamos buscar no Riacho Reginaldo ou descíamos para o Rego do Sapo.

Energia e transporte

Poucas eram as casas que tinham energia; tinha várias casas que ainda usavam o candeeiro. Os sítios que foram surgindo como a Grota da Bananeira e que depois foi urbanizada. Tinha um matagal de jurubeba, palha do ouricuri e muita planta medicinal, onde tirávamos para fazer vassoura, onde hoje é o Conjunto José Peixoto. Surgiu em 1967, foi o primeiro conjunto.

Em 1968 colocaram o primeiro ônibus do Jacintinho da empresa Santa Maria. A estrada era de barro, levantava um poeirão, no verão só Jesus tinha piedade, Santa Maria rodando e meu Deus do céu. Só tinha um ônibus, mas foi a alegria do povo do Jacintinho. 
Começamos a ter valor!
No canal 5 era um campo que não tinha nada de civilização, era um campo de jogar. O time Palmeiras foi quem inaugurou ali. Antigamente a diversão que nós tínhamos na época, 1967, 68, 70, era esse time chamado Palmeiras... Todas as mocinhas da época ficavam naquele campinho paquerando seus namorados; o meu como sou muito católica, religiosa, saiu do nichozinho de Santo Antônio, numa das quermesses. Conheci seu “bendito” Orlando aos 14 anos e tenho 40 anos de casamento.

Descida da Grota leste

Não tínhamos igreja, era capelinha, depois com a vinda de padre Adriano e Silvestre (já morreu) foi que o Jacintinho começou a ter um valorzinho. Esses padres eram holandeses, chegaram ali na Vila Paroquial do Poço, na paróquia do Senhor do Bomfim, mas assessoravam a capela de Santo Antônio. Não sabíamos o que era comunidade, nos ensinaram. Não sabíamos o que era uma festa, só tínhamos a Catedral, Igreja do Livramento, Nossa Senhora das Graças, mas ainda existia aquela separação entre a elite e os pés de chinelo. Os pés de chinelo não desciam para a elite, e a elite que era Catedral, Senhor do Bomfim, Paróquia de Nossa Senhora das Graças, de São José (Trapiche) não subia para o Jacintinho. O Jacintinho era conhecido como Aldeia do índio porque, dizem os antigos, que viveram índios ali. Não alcancei essa época.
Com os padres, surgiu o projeto que hoje é a Igreja Nossa Senhora da Conceição, mas antigamente eles construíram como Santo Antônio. Para mim eles trouxeram para o Jacintinho a civilização e a esperança, as mocinhas da minha época aprenderam o significado de comunidade e a ter responsabilidade. Fundamos o grupo jovem da igreja: Eu, Mar- luce, Nadilma, Fernando, Joab- son, Ademildes, Beto (falecido), Antônio (falecido). Nós tivemos um avanço muito grande como pessoas, como católicos e foi dali que a gente viu a presença mesmo da igreja... Trouxeram umas irmãs, tudo era para essa igreja. Eles construíram a Igreja de Santo
Antônio. Em 1979 veio à construção do Centro Comunitário Santo Antônio e a transformação da igreja em paróquia.
Em 1979 começaram os projetos de urbanização do Jacintinho. Para construir a pista, foi necessário demolir a lavanderia pública e várias casas, cortaram barreiras para fazer a leste e oeste. Hoje temos uma avenida belíssima, e de um lado o Mirante e do outro as casas. Asfaltaram e construíram a Avenida Coronel Paranhos.

Lazer e namoros

O Jacintinho não tinha essa violência, a
não ser em época de carnaval quando o bloco Caveira descia arrastando tudo e todas. Onde é a sede do CEPA Quilombo (rua Santa Luzia) e o Mirante Cultural (no Mirante Kátia Assunção) a gente conhecia como Engenho de Dentro. Lá tinha o bloco Caveira e a Escola de Samba Treze de Maio (tradicional) - do pai da Sônia, depois ficou com ela, agora com as irmãs. O que existia muito eram raparigas; rapariga tinha muito, porque se perdiam com os “dondoquinhos”. Tinha a sede do Palmeiras que era a famosa gandaia e no Triunfo ( no final da rua), antigas no tempo de gandaia. Gandaia mesmo; agora falo como o Sávio de Almeida, que não incesta o sururu; aprendi com ele a não ter papa na língua. Era o tempo da famosa gandaia de prostituição.
A sede do Palmeiras ficava na travessa que dá para o Canal 5. O pai do Helcias (Coordenador pelo Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu - CEASB junto à Comunidade da Vila Emater II (antiga favela do lixão), o finado Biu, era sócio e abria a gandaia que era o divertimento das moças para dançar. Lá você não podia cortar cavalheiro; eu dançava lá porque ia com um amigo-irmão que dizia: “Você gosta tanto de dânçar que vou te levar para a gandaia”, ai eu dizia: “Filho da peste, vai me levar para a gandaia!”. Um dia papai me pegou, levei uma pisa da “bouba” porque estava lá na gandaia dançando. Na Rua Santa Luzia tinha a gandaia JK, o Forró do Carrero próximo a Rua Triunfo, a Real na Rua Floresta e a Pioneira na Avenida Coronel Paranhos.

A ideia de civilização

A feirinha surgiu já com a civilização, o bairro foi crescendo. Eles viram a necessidade das pessoas venderem as frutas que tiravam dos seus sítios naquela pista, depois se tornou um mercado. Hoje é um mercado. A gente comprava antes no mercado velho (Levada). A mudança principal da minha época foi quando lotearam o sítio e começou a se formar as ruas; cada um foi comprando seus lotes e fazendo suas
casas, que não tinha casa própria ficou beneficiado porque era barato comprar os terrenos. A chegada do ônibus também foi muito importante. Vale ressaltar o surgimento do Canal 5 que tinha o programa da D. Fernanda que era voltado para a comunidade, escolhia meninas das escolas públicas para se apresentarem nele.

Tristeza e alegria

O fato mais triste para mim foi quando o Seu Calixto matou o Afrânio, responsável pela caixa d'agua, por ter ciúmes da filha. O Seu Calixto também “comeu” as três filhas. Esse fato não aconteceu na Grota da Bananeira, mas causou comoção a todos. Na Grota não houve nada tão triste que me marcasse. Naquele tempo não havia violência na grota, só sabão (as pessoas namoravam muito).
O fato mais alegre foi construírem a Igreja de Santo Antônio. Não houve nada na grota tão feliz para falar. Era uma vida de dificuldade porque todos eram pobres, a maioria lavava roupa de ganho, trabalhava em casa de família, mas era tranquilo. 


Grota da bananeira: a fala de José dos Santos Eucalixto

Meu nome é José dos Santos Eucalixto, tenho 68 anos e moro
faz  37 anos na Grota da Bananeira. Nasci em São Luiz do Maranhão, morei até os meus oitos anos de idade. Minha mãe me teve de noite e no outro dia morreu, quando tinha oito anos meu pai botou a pes te de uma mulher dentro de casa que batia na gente. Tudo o que a gente fazia, ela contava ao velho e a gente ia para o cacete, ai pensei: “Não é assim”. Fugi de casa por causa da madrasta, até a data de hoje. Cheguei a Alagoas debaixo de um caminhão, agora o motorista era um primo meu que vinha para Maceió. Tinha muito irmão aqui, mas não procurei ninguém porque iam querer me levar de volta e a surra seria dobrada.

A saga familiar
 

Fui trabalhar no Farol de jardineiro numa casa. Quando estava com 14 anos, a mulher morreu, fiquei sozinho de novo. Comprei uma casa na Pitanguinha, com 14 anos já tinha minha casa e uma mulher. A mulher foi embora e me deixou sozinho, arranjei outra, vendi a casa da Pitanguinha e fui morar no Pilar, mas ela adoeceu e perdeu o juízo. Passava uma semana boa e quatro meses doente, me separei e vim morar aqui.


Cheguei aqui com 31 anos, só tinha três casas com a minha. Quando a gente chegou aqui só tinha capim, ai a primeira coisa que fiz foi um sítio de banana e de cana de açúcar, também tinha uma horta de tomate, cebola, pimentão.

Serviços públicos

A gente pegava água perto da Buganvília tinha um cacimbão lá, onde passa o Reginaldo. Tinha o rapaz aqui, o Renato, quando não tinha a gente descia para o Riacho Reginaldo ou para a Mangabeira (Riacho do Sapo). A água a gente se juntou, fizemos um abaixo assinado e formos à Casal, que colocou água na primeira grota e de lá para cá ficou de resolver e até hoje não botou. A gente se juntou, compramos os canos e puxamos lá do cano mestre, mas pela Casal mesmo não tem, a obrigação era eles trazerem o cano até aqui. Primeiro veio à luz, agente se juntou fez um abaixo assinado e a CEAL veio. Antigamente era "gato”, gambiarra, a gente puxava lá de cima da pista.


Quando chegava uma família, eu dava um terreno se o cara fosse conhecido ou através de um que me pedia. As casas eram de taipas, aqui ainda tem muita assim. Quem tinha dinheiro para pagar pedreiro, pagava quem não tinha a gente se juntava e construía a casa. A divisão das ruas a gente foi fazendo. A maioria do povo veio do interior; trabalhava de pedreiro e servente.
Quando vim para cá, só passava dois ônibus por dia, quem tinha dinheiro ia de ônibus que não tinha ia a pé. Tinha gente que tinha medo de andar de ônibus por que na ladeira de pedra aqui na Legião às vezes o ônibus descia de ré. Antigamente a gente batia tudo de pé, era melhor, a gente descia para ir tomar banho de rio de água doce por traz da Mapel, chamasse Rego do Sapo. Esse rego de água podre que agora passa por ai era água doce, hoje é que está uma carniça que não presta.

A gente tinha de arrastar para o Pronto Socorro lá embaixo na feirinha, ou para o que ficava por detrás da Santa Casa, em último caso o do Trapiche. Agora a saúde está boa, porque tem posto por todo canto, aqui mesmo na Rua Jardineira tem um, na Feirinha tem outro, na Pista Nova, na Maravilha que era aonde a gente ia, mas agora está em reforma. No mercado tem outro bem antigo.

 Tristes e alegres

Tiveram muitas mudanças aqui, a prefeitura calçou. Não tinha luz, a CEAL botou, não tinha água a Casal botou. Para vista do que era hoje é bom. Aqui não tem associação de moradores, mas tem uma patota, os mais velhos, que quando a gente quer uma coisa faz um abaixo assinado: Eu, Seu Vicente, Ciço, outro Vicente, Carlos, Tânia, Reinaldo (hoje é que é o responsável por aqui).

O fato mais alegre que aconteceu aqui era quando não existia bagunça.Todo vida foi bom aqui, não tem fato triste. Onde chego sei viver, respeito e considero todos. O lugar quem faz é você, não é ninguém. A mudança maior que teve aqui foi vê essas casas todinhas de tijolo; antes era tudo de barro, a minha também era de taipa e agora estoiu construindo de tijolo.



terça-feira, 11 de agosto de 2020

Lúcio Verçoza. Balanço


 
Meu pai, menino
Balanço

 Lúcio Verçoza

Para o meu pai 


Na estrada, só eu e ele acordados. Descemos a ladeira São Gonçalo com os dois em silêncio, escutando a voz do Milton Nascimento:

De novo na esquina os homens estão. Todos se acham mortais, dividem a noite, a lua e até solidão.  

Depois da ladeira uma longa reta, e no meio da reta ele apontou para a margem da pista. Havia um imenso pasto verde e morros ao fundo. – Foi atrás daquele cocuruto de morro que eu nasci. Atrás daquele morro era o Sítio Balanço. Ele não lembrava bem como era o sítio. Recordava apenas do cheiro, de imagens dispersas que pareciam sonhos e de histórias contadas pelos mais velhos. Não sabia se eram imagens criadas pelas memórias herdadas ou se eram imagens vividas. Deixou o sítio quando era uma criança pequena. E desde então, nunca mais retornou.
            O carro aos poucos foi se afastando do morro, se aproximava da entrada da cidade de Porto Calvo. O cocuruto do morro que escondia o Balanço não era calvo. Eu tentava gravar a silhueta do cocuruto e imaginava meu pai criança se balançado debaixo de uma árvore frondosa. Foi nessa hora que entrou o som da faixa Morro Velho:

Filho do branco e do preto, correndo pela estrada atrás de passarinho. Pela plantação adentro, crescendo os dois meninos sempre pequeninos.

A voz do Milton vinha como que detrás do morro, e os olhos do meu pai se encheram de lágrimas. Ele não falou mais nada. Eu senti o que ele estava sentindo e ficamos calados. Cada um chorando a sua maneira metida a de homem, enquanto meus irmãos e minha mãe dormiam.

Filho do senhor vai embora, tempo de estudos na cidade grande. Parte, tem os olhos tristes, deixando o companheiro na estação distante.

            Seguíamos em direção a Recife, sem tocar mais no assunto. Não precisava. Sabíamos que éramos cúmplices. Ele do desejo oculto de voltar à infância e eu por ter visto, ainda que por alguns instantes, o meu pai criança. E era uma criança tão doce que se permitia chorar na frente do filho, mesmo que escondido.
            Ainda hoje quando eu desço a São Gonçalo, fico procurando a silhueta do cocuruto do morro. E traço planos de um dia subir o morro e ir procurar o que restou do Balanço, de vasculhar rastros da infância do meu pai, de encontrar a sombra de uma jaqueira que já não há, as memórias adormecidas e as trilhas do que ele é e do que eu sou. E faço promessas a mim mesmo de voltar ao Balanço junto com ele.

Não esqueça, amigo, eu vou voltar. Some longe o trenzinho ao deus-dará.
 

domingo, 9 de agosto de 2020

Luiz Sávio de Almeida. Chorinho: Maceió: Grutinha

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Chorinho: Maceió: Grutinha



Esta roda de choro acontece aos sábados no Grutinha






Yatan Lima dos Santos AQUI O TORÉ PAROU, OS PÁSSAROS CONTINUAM A CANTAR: OS XOKÓ NA LUTA CONTRA A PANDEMIA DO COVID-19.



AQUI O TORÉ PAROU, OS PÁSSAROS CONTINUAM A CANTAR: OS XOKÓ NA LUTA CONTRA A PANDEMIA DO COVID-19

Yatan Lima dos Santos - Indígena Xokó
Graduando em Geografia Licenciatura, UFAL-Sertão.

Para entendermos um pouco sobre o caos que estamos vivendo nesse momento epidêmico, é preciso voltar um pouco no tempo; é preciso considerar pouco mais de 500 anos de luta, história, massacre, genocídio e resistência indígena. Refletir sobre o passado nos faz compreender melhor como se deu as contaminações de diversas doenças, desde a invasão do território brasileiro até hoje. Dessa forma, fica mais fácil falar sobre o COVID-19. Resistir ao colonizador não foi tarefa fácil, mas éramos muitos, nossos arcos e flechas chegaram a vencer os invasores em muitas batalhas.
Nesse contexto, nossos ancestrais lutavam bravamente em defesa de nossas terras, de nosso povo e pela própria sobrevivência. Resistir foi preciso, vencer o colonizador se tornou impossível, pois nossos parentes tinham que lutar contra o opressor e contra as doenças trazidas por eles, essas abriram espaço para os invasores, destruindo povos inteiros. Poucos conseguiam escapar, os sobreviventes ou eram capturados, ou buscavam abrigos junto aos grupos aliados.
As histórias de lutas dos povos indígenas do Brasil contra as doenças que assolavam as etnias, remontam aos primeiros contatos com os europeus. Com eles, entranhados em seus corpos sujos veio uma arma mortífera invisível, o vírus. Este, através dos contatos com os colonizadores, transmitiu a nós povos indígenas diversas doenças infecciosas: sarampo, gripe, catapora, varíola, pneumonia... dizimando vários povos originários que aqui habitavam. A colonização do Brasil, se fez possível ou pelo menos de forma mais acelerada, devido ao contágio de doenças que reduziu drasticamente a população indígena.
As doenças trazidas pelos europeus, que assolavam nossos ancestrais séculos atrás, atravessavam continentes, e continuam atravessando ainda hoje. Os indígenas foram os que mais sofreram com as diversas pandemias (e ainda sofrem); isso porque a forma de vivência dos povos indígenas é bem diferente da vida cotidiana dos não indígenas. Essa forma de vida fica bem clara quando uma doença contagiosa chega às aldeias, como é o caso do COVID-19. Esta doença, transmitida através do contato, logo ganha proporção diante de um povo cujo costume é estar sempre junto, pois somos uma família onde compartilhamos tudo: as rodas de conversas frequentes com os mais velhos em baixo de uma árvore, ou envolta de uma fogueira, ou no Ouricuri, nosso lugar sagrado dos momentos de orações e dos nossos cantos, o Toré.
O coronavírus que apareceu lá na China, hoje se encontra em meio aos indígenas de todas as aldeias do Brasil. Há muitos indígenas infectados, isentos de recursos médicos, sem acompanhamento adequado das equipes de saúde, precisando urgentemente de medidas que os ajudem a passar por esse momento de caos pandêmico. As aldeias mais afetadas se encontram na Amazônia, lá os recursos médicos são mais escassos, isso porque não podemos contar com o atual governo que pouco se importa com a saúde indígena. A Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), deveria ser mais atuante, no entanto, estamos à mercê do novo coronavírus até que algo seja feito.
A aldeia indígena Ilha de São Pedro, etnia Xokó, está localizada no município de Porto da Folha, Sergipe. Tem uma população aproximadamente de 400 habitantes. Os Xokó estão com as portas da aldeia fechadas para os não índios, uma decisão da comunidade para evitar que o COVID-19 entre na aldeia. Não é inesperado que os Xokó estejam com medo dessa doença, pois as notícias que a mídia traz a cada dia é alarmante. Então, a fim de conscientizar a população indígena, o Polo Base de Saúde da Aldeia organizou uma equipe e montou uma barreira sanitária; essa equipe de saúde foi formada somente por integrantes da aldeia, com uma enfermeira, dois agentes indígenas de saúde (AIS), dois agentes indígenas de saneamento (AISAN), dois técnicos de enfermagem, um técnico em saúde bucal, e pessoas que não fazem parte da equipe de saúde, mas estavam prontas para ajudar.
Essa equipe foi formada com o seguinte propósito: monitoramento, orientações de prevenção, busca ativa de sinais e sintomas para o COVID -19. A enfermeira de saúde local, da própria aldeia, com sua equipe, passava em todas as casas dando instruções e orientações de como evitar o contágio do novo coronavírus. Essas medidas preventivas ajudavam no entendimento e a encarar a realidade de forma mais segura; no entanto, mesmo com uma equipe bem preparada na conscientização dessa nova doença, era impossível olhar nos olhos das pessoas e não sentir o medo em seus olhares, elas estão assombradas, como se não houvesse palavras que as confortassem. O medo ficava estampado na cara dos indígenas, e piorava quando chegavam notícias que parentes de outras aldeias, haviam perdido sua vida para o COVID-19.
A ciência mostrava o índice de mortalidade, tanto para índios como para brancos, indicando que os mais velhos eram os mais vulneráveis ao vírus. Então, olhar para nossos anciãos e saber que a qualquer momento poderíamos perdê-los, era angustiante. O COVID-19 nos reprimiu de muitas coisas: como o futebol – por ser um esporte bastante praticado por quase toda juventude da aldeia –, as rodas de conversas embaixo das árvores durante o dia ou a noite sob o brilho da lua. Por se tratar de uma doença transmissível através do contato, ela nos afastou também do nosso ponto de encontro mais importante da aldeia, nosso Ouricuri, lugar sagrado onde cantamos e dançamos o Toré.
Numa determinada sexta-feira, um índio Xokó se assusta e deixa a comunidade inquieta ao receber a notícia de que um colega de trabalho não indígena foi diagnosticado com o novo coronavírus; para a tranquilidade do povo Xokó, ele testou negativo para COVID -19. Outro dia, não muito distante desse acontecido, uma índia que reside numa cidade próxima à aldeia, e que no momento se encontrava na comunidade, teve notícia que seu cunhado testou positivo para o novo coronavírus. Ela havia tido contato com ele há poucos dias, isso deixou a comunidade tensa, mas a tranquilidade veio logo, após ela testar negativo. Os casos não pararam por aí. Um homem não índio, casado com uma índia, morador da comunidade, havia tido contato com um colega de trabalho que testou positivo para o novo coronavírus, ele estava doente e todos os sintomas nos levavam a crer ser o COVID-19. Ele foi isolado em sua própria casa, com os cuidados da equipe de saúde local, foi examinado e testado negativo.
Esses fatos e relatos marcaram nossa aldeia. Foi como se nos preparassem para o que estava por vir. Os Xokó estavam muito apreensíveis, tensos com a nova situação.  O medo dos anciãos, das crianças e de todos da comunidade era percebido através do olhar. E como foi previsto por quase todos da aldeia, o novo coronavírus chegou à comunidade no dia 12/06/2020, com um parente que testou positivo para o coronavírus. A preocupação do povo e o medo aumentaram ainda mais, mas a equipe de saúde fez todo o monitoramento da pessoa infectada, dando orientações aos familiares, esposa e filhos, a fim de evitar o contágio nos mesmos. O paciente ficou isolado em sua própria casa com sua família, e não apresentou sintomas graves que viesse a interná-lo.
Após o primeiro caso confirmado, em menos de quinze dias já havia sete casos confirmados; a equipe de saúde tentou conter o contágio, mas parece ser inevitável, pois até esse momento a SESAI não havia mandado uma equipe de saúde especializada para combater o COVID-19. Só depois dos sete casos, a SESAI enviou no dia 22/06 uma equipe composta por três profissionais, uma enfermeira e duas técnicas de enfermagem para dar suporte a nossa comunidade; a partir daí, os cuidados foram redobrados. No dia 02/07 de 2020, a Universidade Federal de Sergipe (UFS) veio à comunidade realizar testes sorológicos que identificam os anticorpos do novo coronavírus. Dos 194 testes realizados em indígenas Xokó, 47 apresentaram resultados positivos para anticorpos do novo coronavírus. Antes desses testes realizados pela UFS, havia sete casos apenas confirmados pela secretaria municipal de Porto da Folha/SE. O teste sorológico não detecta o novo coronavírus, apenas os anticorpos produzidos pelas pessoas ao ter contato com o vírus, diz a UFS.
Dos resultados obtidos pela UFS, foram 141 negativo, 34 apresentaram IgG + e estão possivelmente curados, 10 estavam com IgM + e poderia estar na fase inicial da infecção, 7 foram indeterminados, e 3 apresentaram IgM +, que pode estar em fase de recuperação. Com esses resultados, o povo Xokó entraram em desespero e todos passaram a temer o novo coronavírus. Alguns tentam esconder o medo que sentem, outros preferem não acreditar. Estamos lidando com uma ameaça invisível, enfrentar o vírus que assombra toda a população não é nada fácil, e há quem diga que essa doença não existe, que é uma farsa; porém, essas mesmas pessoas que dizem não acreditar no coronavírus, são as que mais fazem uso de máscaras e álcool em gel.
Podemos sentir o medo nos mais velhos e nas crianças. Esse medo ficou mais evidente quando a equipe de saúde passava nas casas dos indígenas dando o resultado dos testes, e mesmo aquelas que não apresentavam sintoma algum, ainda assim sentiam medo. Uma criança com aproximadamente 11 anos de idade, ao receber o resultado que estava com anticorpos do novo coronavírus, supostamente curado, correu para o seu quarto chorando com medo do COVID-19. Só depois dos resultados divulgados pela UFS, a SESAI envia outra equipe de saúde, dessa vez junto com enfermeiras e técnicas de enfermagem e um médico. Até este momento, foram 28 casos confirmados e todos curados. Segundo a enfermeira Jéssica (Xokó), o monitoramento foi realizado pela equipe da SESAI durante 14 dias. A nossa comunidade continua lutando até que esse vírus esteja totalmente controlado em todo o território nacional.

sábado, 8 de agosto de 2020

Luiz Sávio de Almeida. Meu velho diário e a macumba nas Alagoas

domingo, 15 de junho de 2014

Meu velho diário e a macumba nas Alagoas

Luiz Sávio de Almeida


Texto publicado em Contexto de 04 de março de 2012 em Tribuna Independente. Para este blog, estamos utilizando material digitalizado e com gerenciamento das imagens realizado por Kellyson Ferreira, com a coordenação do Professor Antônio Daniel Marinho.
UM PEQUENO BILHETE SOBRE MACUMBA NAS ALAGOAS
Continuamos o texto que foi publicado na edição de. É uma pequena notícia de um tempo e do que restou dele em meu arquivo. O que e poderia dizer?
Teria sido um tempo de perseguição e também de afirmação? Como é que a história vai se acumulando nos terreiros e como vai sendo a torma deles lidarem com o rastreamento do passado? Eu gostaria muito de saber como esta ideia de tempo é vista e compreendida pelos terreiros; penso, no mais que li, que, normalmente, o tempo é abstraído por um corte epistemológico que ancora o terreiro e nisso  futuro e passado vão embora. Será que isso faz sentido? Bom, tá aí mais uma parte de um mero depoimento em cima de velhas anotações. As fotos foram tiradas na Festa de lemanjá e são de nossa autoria.
Saravá que eu vou de banda!
Sávio de Almeida

Meu velho diário e a macumba nas Alagoas

Luiz Sávio de Almeida
INTELECTUAIS

A área da chamada ciência social demorou a ficar clara em Alagoas; e, em grande parte, isso somente aconteceu quando a Universidade ingressou na pós-graduação. Somente a partir dai, é que Alagoas vai conhecer a especialização de antropólogos, sociólogos e outras categorias, inclusive beneficiando-se de alguns profissionais que vinham de outros Estados e passam a incorporar a produção e discussão à nossa. Anteriormente, o intelectual provinciano espelhava-se no beletrismo e tendia à universidade enciclopédica. Na área social, destacavam-se o historiador e o folclorista. A história de um era a história do outro, o folclore de um era o folclore de outro. A diferença estava simplesmente em ser bom ou não, mas a produção girava em torno do mesmo eixo.
História e folclore eram tudo e a síntese de tudo. Não estou minimizando o que foi produzido, estou somente pondo na mesa o fato de que tínhamos dois modos de saber da sociedade e o tom monocórdico de tratamento. Há uma possibilidade de diferenciação em trabalhos de Sant’Ana e colocações relativas sobre método, aqui e ali, feitas com um gosto naive, como se nota em passagens de Theo Brandão. Nisso, dois outros nomes obrigatoriamente devem ser
contemplados: Félix Lima Júnior e Abelardo Duarte. O forte do Félix era a percepção do cotidiano, a construção da crónica, o almofadinha e a priminha urbana, com o negro indo para o escaninho dos tipos populares e sempre tratados com afabilidade. O forte de Abelardo Duarte era a tentativa de chegar às raízes. Essa diferenciação que ele vive dentro do conjunto é acompanhada pelo trato do negro, não importa o viés assumido.
Parece-nos imprudente afirmar que inexistiu produção sobre o negro; o que sempre existiu foi o negro na condição de uma temática periférica ou subordinada e não tratado como um sujeito político. Na verdade, contudo, a religião passou de raspão nesse conjunto. Continuidade do preconceito? Jamais se poderia seguramente afirmar tal coisa, mas jamais poderíamos deixar de considerar dois pontos básicos: em primeiro lugar, existem as opções pessoais de eleição de campos de investigação e, em segundo, a sociedade continuava escondendo o mundo religioso negro, até mesmo pelo fato de que a gente da macumba estava a viver submersa, a não ter presença marcante na sociedade civil por onde uma representatividade política se poderia fazer. A “ciência” não a pretendia descobrir, encontrar. O chamado Quebra já havia indicado a sua colocação no universo da barbárie. SantAna em diversas situações trabalha o negro, mas preferencialmente na sua condição de escravo, situado portanto na ordem econômica da produção. Theo Brandão vê negro, mas especialmente no contexto do folguedo, dos contos: era o negro-folclore. Abelardo Duarte está bem mais próximo da questão religiosa, ele de fato, ensaia passos, mas sempre a arquitetura dos textos funda- -se na perspectiva do folclore, fazendo parte da montagem de um campo científico próprio.
O que seria folclore? No fundo, a ausência da especialização e a herança histórica do açúcar e que junto à história davam conta da sociedade e da cultura.
Talvez, como é de praxe, eu esteja sendo absolutamente simplista. Entendo que nenhum dos grandes folcloristas de Alagoas daquela época seria capaz de discutir, teoricamente, o campo, e ele, o campo, era uma imposição. Não é que não tivessem suficiência pessoal, mas havia uma severa falta de formação específica; então, a coleta era ótima e o trato ficava limitado, pois o marco teórico não era aprofundado; da geração da Escola de Viçosa, três eram médicos; Theo, José Maria e o Pimentel. Isso não implica em que existisse um mau trabalho; pelo contrário, Alagoas se representava muito bem no ambiente nacional do folclo- rismo, mas faltava-lhe a base antropológica e fundamentação historiográfica.
Via de regra e ressalvadas as exceções, os historiadores estavam presos ao heróico para aconstrução de uma história do exemplar, enquanto os folcloristas pagavam o preço de suas origens intelectuais e sociais, devendo ainda ser levado em conta que havia regra para validar o intelectual provinciano; ele deveria parecer com os demais, repetir a ordem emanada de um espelho posto em duas grandes instituições de notáveis, espécies de templo onde cabiam as sumidades - ditas “assumidades” no linguajar coloquial das Alagoas dentre os não muitos afeitos ao trato da inteligentzia.

AS DOENÇAS DO FOLCLORISMO

Uma velha anotação que realizei, informa sobre uma conversa que tive com o Theo Brandão na casa dele. Estava havendo um encontro e fui convidado para falar: a temática era algo como o Ciclo do Gado. Telefonei para o Theo, vi que estava disponível. Para testar se ele estava com tempo para perder comigo, eu sempre me anunciava no telefone como Pedro II. Se ele respondesse que era o Marechal Deodoro, iríamos conversar e eu sempre lucrava com isso. Eu disse que não sabia nada sobre ciclo e nem era vaqueiro para entender de boi; começamos a rir e a conversa foi derivando para o que me interessava.
Aí, o Theo Brandão foi audacioso: “Sabe de uma coisa, não fale sobre esse negócio não. Fale sobre nossa conversa”. Alinhamos o que passamos a chamar, talvez por influência dele que era médico, as cinco doenças do folclorista, coisaque parece havia sido tocada por um folclorista americano, do qual não recordo o nome, gente da UCLA. Dito e feito. Dei o recado com a empáfia afrontosa da juventude calçada pela autoridade do “mestre”. Nas doenças estavam o memo- rialismo e as atitudes de classe. A velha anotação me trouxe saudade, mas vou continuar lendo e comentando o que está no meu Diário sobre o assunto, em uma anotação sobre o que seria o folclorismo nas Alagoas.
O grande modelo do folclorista era dado pela escola de Viçosa, expressão que segundo me consta foi criada pelo Manoel Diégues Júnior em tom de brincadeira, mas que deve ser explorada em profundidade. Manoel Diégues Júnior nunca abandonou Alagoas, apesar de ter mudado daqui, como saíram Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Humberto Bastos... Uma vez, em jantar na casa do Diégues no Rio de Janeiro, perguntei a razão de ele ter ido para o sul e a resposta foi óbvia: oportunidade, não teria condições de viver em Maceió.
Anotei que a idéia do Doutor Diégues não era a existência de uma Escola de Viçosa, no sentido usual que o termo carrega acadêmico; era a de que os folcloristas se escolarizavam na Viçosa. Nada a ver com a educação formal; é uma imagem que leva à ideia de organicidade, escola como referência ao orgânico. Nunca conversei com o Doutor Diégues sobre isso e arrependo-me. Mas foi assim, que o assunto foi parar no meu Diário: o que se encontrava em evidência era a circunstância de Viçosa e que ela havia permitido a safra representada pelo Theo, pelo Zé Aloísio Vilela, pelo Doutor José Maria de Mello, continua- dores de uma geração anterior de intelectuais, brutalmente confrontada por Otávio Brandão e possivelmente oriunda de Alfredo Brandão.
Jamais os componentes da Escola poderiam fugir do fato de serem Mello, Vilela e Brandão que plantaram costados na mata. O lastro da Baixa Funda e outros estavam presentes e eles, os folcloristas, não escondiam essa vinculação açuca- reira e nem tinham razão para esconder. O Theo e o Doutor José Maria de Mello se urbanizariam, mas manteriam a ideia de uma raiz no rural da mata; Zé Aloísio continuaria agarrado nas canas da Boa Sorte (não sei se inventei o nome).
O lastro do Doutor José Maria continuava como se pode ver nos seus trabalhos literários e sobre folclore. Era um homem afável, comedido, sério, desviado de uma carreira mais numerosa em livros pela atividade política, engenho e sua medicina. Era aparentado e amigo do meu pai. Certa feita, eu estava no Instituto Histórico e ele conversou um bom tempo sobre este relacionamento.
Nessa circunstância, ser folclorista era bem mais do que trabalhar o que se consideravadentro da área do folclore; era uma indicação que remetia à mata, ao açúcar, á Baixa Funda, Boa Sorte... Eram espelhos, a gente olhava para eles como verdadeiros exemplos e não posso esquecer o terno branco de linho que o Doutor José Maria gostava de usar, engomado, passado, vinco nas calças, tudo emoldurando um sorriso simpático. Além do mais, todos eles eram acolhedores, rião se furtavam à rapaziada, apesar de gente da Academia Alagoana de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Gente consagrada, de alto prestígio social e cultural.
Como se fosse um passe de mágica e por serem espelho, Boa Sorte e associados arrastavam a todos nós que não tínhamos outra opção para estudar Alagoas: folclore. Não posso deixar de dizer sobre minha expectativa, quando pelas mãos do Theo fui ser membro da Comissão Alagoana de Folclore, coisa ainda do tempo do Doutor Renato de Almeida e do Vicente Salles, gente do Pará que havia ancorado na Comissão Nacional de Folclore e com quem passei a manter contato constante, época em que conheci e papeava com o Edson Carneiro, eu ainda molecote, menino que não havia tirado o cheiro da urina.
Então, a circunstância de Viçosa invadia o anseio da molecoreba que via e podia conviver com os grandes. No meu caso, ainda havia o peso da herança dos Almeidas da Capela; meus pais a não deixarem de lado as origens rurais na cabeça do filho. Então, pra mim, foi um encontro pessoal, o mergulho no folclore. Theo andou lendo Redfield e começou a falar de comunidade folk e coisas afins. Falava de Chã Preta e esse foi meu primeiro destino: mergulhar em Chã Preta, lá pelos lados do Cavaleiro, subida bem após a Baixa Funda quando ainda havia ladeira a considerar, carro bambeando na lama a quase derrapar para o precipício.
Chã Preta era a continuidade de Viçosa e de lá surgia um extraordinário Professor Pedro Texeira, costados na Medina, filho de Seu Al e que se considerava um homem folk. Andei muito na Medina e por toda Chã Preta, acompanhado às vezes pelo Netinho, chafurdando no engenho do Benedito, conversando com os povos daquelas bandas. Devo imensamente ao Theo e ao Professor Pedro Texeira.
Essas coisas lidas no velho Diário (todos os dias continuo a escrita, vício que aprendi com o meu pai) falam um pouco do que era o universo intelectual nas Alagoas do meu tempo de menino e, se a gente pensar direitinho, tudo interferia no campo dos estudos das religiões afro-brasileiras.
Pelo que deve ser notado, o folclore era uma espécie de terra sem fronteira, possivelmente, pelo fato de que nascia no vácuo de uma tradição antropológica nas Alagoas. Apesar dessa abertura, ele envolvia o seleto que se lastreava, dentre outros pontos, nas origens do próprio estudo do folclore no Brasil, tradição de Silvio Romero, João Ribeiro e outros pais fundadores. Pelo que entendo, o folclore é anterior à antropologia no Brasil. Por outro lado, em razão derivada em grande parte das ligações históricas, tinha-se a procura pelas origens das manifestações (como eram chamadas) folclóricas, dando-se o com- parativismo e privilegiando-se Portugal e o que nele se fazia naquilo que era chamado, à época, de etnografia do além- -mar e necessariamente bisonha. Acredito que ao folclore se incorporava basicamente o senso ibérico.
O mais importante, contudo, é que privilegiava o quadro agrário, que transparece na existência de uma Escola de Viçosa. Aí, pontos devem ser considerados, já que estamos falando de macumba. Em primeiro lugar, convém lembrar que a macumba era vista no urbano e não no rural. É claro que era difundida no território, mas as referências eram sempre urbanas, pelo menos, conforme anotei; em segundo lugar, havia um sacrário onde estava a religiosidade católica apostólica romana e tudo passava a girar em torno dela, usando-se a interessante expressão: catolicismo de folk. Nesse contexto da religiosidade, jamais poderia ser construído uma religião afro-brasileira-folk. Semelhante ao isolamento policialesco havia o isolamento teórico, a não constituição de um campo, matéria tão a gosto dos intelectuais rigorosos e ciosos, aos quais invejo pela tanta ciência que conseguem.
Aprisionado pelo preconceito, perseguido e desamparado de campo de investigação, somente poderia acontecer o que se deu. Theo reclamava negligenciamento; nas minhas velhas anotações está escrito impossibilidade. Somente quando Maceió adquire o quadro urbano de hoje, quando, inclusive, aparece o negro como movimento, é que se pode pensar em modificações. A quebra do círculo passa pela Marilu de Gusmão, embora episódico. Do século passado, há material na literatura de Pedro Nolasco Maciel; em nosso século é no contexto do período em que se escuta a queixa do Theo, que ai aparece um texto chamado “Tambores de Ponta Grossa” (citado de cabeça e, portanto passível de equívoco) de Lindalvo Lins e não conheço algo mais, embora, seguramente, deva existir.
Voltando ao início, não tenho qualquer intenção de chegar a conclusões. Penso, apenas, que dei uma contribuição e que ela poder ser insti- gante com a relação ao tema. Há um grande espectro que se abre sobre o assunto, indo da construção da sociedade ao campo científico. No entanto, muito deve ser pesquisado. Acredito que as anotações velhas e amareladas tenham contribuído com alguma coisa. Continuamos sabendo de nossa posicao: o cerco ao afro- brasileiro era global.

OS REGISTROS DA FEDERAÇÃO

E necessário esclarecer o universo: estamos diante de associados de uma organização chamada Federação dos Cultos Afro-Brasileiros de Alagoas. Nada pode garantir, embora a hipótese caiba, sobre estarmos diante de uma amostra efetivamente representativa do conjunto dos cultos nos finais da década de sessenta do século XX. Gostaria que durante toda a leitura desta parte do meu Diário, esse fato estivesse evidente. No entanto, desejo afirmar que os dados sugerem um quadro possivelmente colado às características do conjunto; devem ter aigum nível de representati- vidade.
Então, o texto do Diário, suas anotações, deve ser entendido como abertura de pistas, informações sugestivas sobre o universo a partir do que se pode observar em cima de uma simples listagem de endereços. Recordo-me que fui ajudado, na coleta dos endereços, por dois estudantes de medicina: Terezi- nha e Júlio. Agradecido agora, como deveria ter agradecido antes, caso eu realmente tivesse estudado o assunto. A listagem era preparatória para que eu fosse visitar e entrevistar os diversos centros. Não foi possível.

A GEOGRAFIA URBANA DOS CULTOS 

Lins (com quem convivi) que era jornalista penso que do Jornal de Alagoas, percorreu inúmeros terreiros de Maceió. Sabia que eles funcionavam nos mais diversos bairros da cidade, mas frisava a concentração na Ponta Grossa. De fato, dizia-se que na sexta-feira, os sons dos toques tomavam conta do bairro. Na realidade, conforme anotei, em diversas ruas da Ponta Grossa se tinha os terreiros em culto, mas eles se universalizavam pelas áreas pobres da cidade. Não se escondiam e nem podiam; o traçado urbano os enfiava no meio das casas. A Ponta Grossa, o Prado, o Vergel do Lago englobavam cerca de 31% (n=185) dos casos, formando o que poderia ser considerado como o complexo Sul do Xangô em Maceió.'
Essa concentração ocupava uma imensa área da cidade, mas os bairros de maior densidade xangozeira eram Ponta Grossa, Ponta da Terra, Prado, Bebedouro, Jacintinho e Vergel do Lago. A porção norte era xangozeiramente menor. Eles se destacam, o que deve decorrer, em parte, do tamanho e da densidade de ocupação. O fato é que se poderia ouvir toque por todos aos cantos, nos dias normais, nos dias de festa, nas Salvas de Exu que sempre eram ditas perigosas. Uma boa Salva de Exu é impressionante e hoje, no peso da Umbanda, a Pomba Gira, seu Zé Pilintra, Tranca Rua dão as cartas.
Aliás, tenho amizade com o Zé Pilintra e com o Tranca Rua, mas tenho, também, amizade com o nagô do Tiriri, parebetile de nanan, Exu Tiriri! É a amizade com os homens. Anotei a participação em duas dessas salvas, onde baixavam os mais diversos Exús atrás de cabeças, dando preocupação aos Pais e Mães de Santo - expressões nem sempre bem recebidas pelos Ialorixás e Babolorixás além de abrirem margem para a possibilidade de uma intervenção policial pela cachaça que um Zé Pilintra entorna. Um deles quis se engraçar comigo, certa feita, cheio de cana, mas eu saí de banda que não sou besta e soube reconduzir a conversa, levando as baforadas de um charuto na cara. Foi o Tranca Rua, depois um bom amigo quando viu que eu não reagia, mas não esfriava.
Parece-nos possível afirmar que a Federação espalhava a sua atuação e que apesar de estar sediada na Ponta Grossa, conseguia atuar em toda a cidade de Maceió, além de ter alguns poucos inscritos em outros Municípios. O número de entidades do interior era estatisticamente insignificante.
Fora um único no Jacintinho, justamente o Ijexá do Celestino, eu frequentava a porção Norte, talvez pelo fato de que a maioria dos amigos morava naquela parte da cidade, talvez pela concentração, talvez por ser o local da sede da Federação ou por conta da junção em todo ou em parte desses elementos. Pelo Diário, a minha intenção era familiarizar-me com uma área central dos cultos, esperando que ali estivesse refletindo o geral da cidade. Demorava-me mais no terreiro do Luiz Marinho, pois objetivava conhecer um núcleo a chamar-se Nagô em maior profundidade, para sair comparando e perguntando. São anotações dessas perguntas e dessas comparações que se encontram perdidas. Luiz Marinho achava que eu era Filho de Santo do terreiro dele e eu nunca contradisse. Jogou os búzios e me deu Xangô de frente (Eiô, Cabecinha).

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