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domingo, 12 de julho de 2020

Alberto Rostand Lanverly. Bodegas da minha infância




BODEGAS DA MINHA INFÂNCIA


 

Engenheiro Civil, Professor da Universidade Federal de Alagoas, autor de 13 livros sendo 5 deles voltados para o público infantil e que tem seus netos como protagonista das aventuras. Membro de diversas instituições acadêmicas. Presidente da Academia Alagoana de Letras.

         

           Dias atrás realizava faxina no rol dos contatos telefônicos em meu celular, quando de repente me assustei: estava ainda, na letra “C”, quando notei que para concluir o intento, haveria de remover cinco registros, todos amigos perdidos para o coronavírus, nos últimos três meses.
            Preocupei-me, pois, apesar de consciente da existência de momentos na vida em que é necessário excluir pessoas, apagar lembranças, jogar fora o que machuca, abandonar o que nos faz mal, libertar de coisas que nos prendem, não me encontrava preparado para vivenciar tamanha perda.
            Acontece, que um dos falecidos a quem estava a pensar, era meu amigo desde a infância. Juntos tanto estudamos no colégio e universidade, quanto participamos de diversas atividades outras que se tornam inesquecíveis.
            E na oportunidade, de olhos fechados, debruçado nos alpendres do tempo, notei-me caminhando ou correndo com meu colega pela velha rua onde crescemos. Tudo era diferente e aqueles dias me tornavam o menino mais realizado que pude ser.
            Ainda parado, me via, juntamente ao meu amigo, brincando de chutar bola de borracha marca Pelé, tendo os postes da calçada como trave, de garrafão e queimado, bolinha de gude que chamávamos ximbra, e até com a coleção de figurinhas que vinham nos chicletes.
Como não me emocionar de ver um mundo que era tão diferente? Como posso esquecer daqueles gritos amados da minha mãe Marlene, chamando para entrar porque já era a hora do banho? Fomos felizes de verdade e aproveitamos cada momento um com o outro, sendo apenas crianças. Por tal razão, jamais haverei de deletar o número do seu telefone gravado em meu aparelho celular.
            Mexer no baú das lembranças, me permitiu encontrar pequenos pedaços que me fizeram feliz. Residi, grande parte da minha infância e início da juventude, na Rua Santa Cruz, bairro Farol, em um primeiro momento no trecho próximo a ladeira dos Martírios, época em que não existia o prédio da Embratel e posteriormente no segmento, ainda sem pavimentação, que liga a Rua Comendador Palmeira à Avenida Tomás Espindola.
Muitos acontecimentos inesquecíveis que enfeitaram aquela época, e que estavam escondidos em minha memória, foram aos poucos sendo resgatados. Lembrei dos nomes de todos os vizinhos, da sede da Igreja Batista com os seus cultos diários, rotineiramente, às dezenove horas, quebrando o silêncio da região, das praças da redondeza onde passeávamos de bicicleta.
Recordei também dos baleiros giratórios (hoje objeto de decoração) onde ficavam todas as opções dos confeitos que mais desejava, sem falar nos pirulitos em forma de chupeta, peão ou cônica, estes últimos, acomodados em uma tábua de aproximadamente um metro quadrado, cheia de furinhos, tudo isso; sempre expostos nas bodegas que tanto frequentava quando tinha um trocadinho no bolso para comprar guloseimas.
Nas redondezas de onde habitava, funcionavam três estabelecimentos do tipo, também conhecidos por Venda: a Bodega do Pedro Rico, na Praça Sergipe, a do Crente na própria Rua Santa Cruz próximo a Avenida Moreira e Silva e a de Dona Lenita na Rua Comendador Palmeira, bem em frente à Praça Gonçalves Ledo... 


                               
                                Domínio público: Internet

 

            Recordo que as bodegas assimilavam o nome do dono e a freguesia era composta por moradores da redondeza e colegas de trabalho. Os bodegueiros, em geral, tinham outra profissão.  Praticamente todas possuíam as mesmas características: balcão de madeira, com uma balança de prato, um jogo de peso, papel manilha na cor parda, em bobina, usado para embrulho, também uma caderneta, para anotar o fiado, depósitos de vidro com confeitos (bala), uma manta de charque e outra de bacalhau (que a época era alimento acessível a todos), algumas garrafas na prateleira, lata de querosene, munido de bomba para a comercialização no retalho, alguns sacos com farinha, feijão, milho, açúcar e outros produtos não tão visíveis.
INTERIOR DE UMA BODEGA. IMAGEM DE DOMÍNIO PÚBLICO, PESQUISADA JUNTO A INTERNET EM 19/06/2020
Costumeiramente, frequentava com maior assiduidade a Venda de Dona Lenita, casada com o Senhor João, genitores de Daia, eles amigos de meus pais, enquanto a filha, professora de minha única irmã, Marcinha. Lembro de um inesquecível bolinho de chocolate de receita própria que era disponibilizado aos clientes no final das tardes. Sempre que podia, degustava uma dessas delicias acompanhado de refresco (que era oferecido como garapa) de maracujá bem geladinho, fabricação caseira, usando frutos do próprio quintal da casa.
A Bodega do Crente, apesar de ser localizada quase defronte à minha casa, e serem seus filhos Marcos, Dinho e Jane, meus amigos, eu pouco frequentava, pois o achava muito sério e não dava muito cabimento às crianças. Ali, recordo que comprava quebra queixo e chicletes Ping-Pong.
A Bodega do Pedro Rico, apesar de funcionar na sala principal da sua própria residência, era a maior de todas nos arredores, quando precisávamos de algo, lá encontrávamos, desde agulha, alimentos, roupas, até bicicleta novinha em folha, que ficava em exposição dependurada no madeiramento do telhado aparente. Quando as crianças queriam ver novidades iam até lá e ficavam a admirar.
Já Dona Lenita era de conversar, simpaticamente, com todos. Lembro que uma vez ela segredou para a minha mãe, que não raro, alguns fregueses deixavam de pagar suas dívidas ou, então, tentavam driblar o controle a partir da análise de apontamentos em folhas de papel que mantinha como lembrete, e o pior: às vezes eram pessoas ligadas à famílias conhecidas.
 Esse problema não era uma prerrogativa somente dela; os filhos do “Crente”, também contavam que seu pai se preocupava muito, pois a caderneta do fiado era a única segurança que tinha. Mas, às vezes dava problema, não era bem segura. Sempre existiam, os que metido a esperto, compravam a crédito e depois diziam haverem pago a conta integralmente. Porém, a grande maioria dos compradores era decente.
Já a Bodega do Pedro Rico, como o nome já explicita, era um estabelecimento diferenciado, chegando a admitir funcionário que não pertencia a família do dono. Guga, hoje responde pela gerencia de uma das agências do Banco do Brasil em Alagoas, era nosso vizinho de rua, e nas férias escolares do Colégio Marista, trabalhava no balcão da lojinha, atendendo à clientela; e em contrapartida, recebia uma ajuda de custo, com a qual nos fazia inveja, pois podia frequentar parque de diversão, circos mambembes, que se instalavam por perto, e também o cinema São Luiz, o melhor e mais caro da cidade, sem pedir dinheiro ao pai.

Guga nos contou que o seu patrão era muito esperto, pois possuía um livro caixa com mais de quinhentos nomes de fregueses e que controlava, minuciosamente, a entrada e saída dos itens secos ou molhados que vendia, e, também os pagamentos dos que adquiriam fiado, até porque sabia de cor os dias em que cada freguês recebia o seu ordenado, e já esperava o pagamento das dívidas do mês naquela data, que se não acontecesse fazia valer a frase: “fiado, só amanhã!”.
            Guga, segredou um acontecimento que nos levou a sorrir muito: “certa vez, chegou um vendedor oferecendo ao senhor Pedro Rico, “arapuca para pegar caranguejo”. O proprietário agradeceu a oferta, afirmando não existir mercado para tal, pois a sua clientela era mais exigente e dificilmente se interessaria por tal produto.
 


    Domínio público: Internet


            O representante, muito astuto, caminhou até a Praça Centenário, que se situava próximo de onde tentara negociar, ali contratando alguns meninos que perambulavam nas redondezas, para que fossem na Venda do Senhor Pedro e questionassem se ele vendia “arapuca para caranguejo”. Nos dias seguintes umas vinte pessoas passaram por lá perguntando pelo apetrecho, sendo a resposta sempre negativa.
            O bodegueiro ficou preocupado, pois possuía em seu estoque, desde remédio para mordida de cobra até elixir para curar dor por traição de mulher, e estava perdendo clientes. Semana seguinte, o arguto vendedor caminhou pela calçada existente no lado oposto da rua, onde situava-se o pequeno comércio, anunciando aos gritos a armadilha para pegar os bichos na Lagoa Mundaú.
            O Senhor Pedro, mais do que depressa, correu, chamou o cidadão e comprou toda as arapucas que possuía. O tempo passou e nenhuma foi vendida. Logo depois, a trama foi descoberta. O Pedro Rico não ficou pobre, mas sim muito brabo por haver sido enganado.
Voltando ao presente, mas de olho em minha meninice, deparei com a composição do poeta nordestino de Campina Grande, Jessier Quirino que diz assim:

Tem uma placa de Fanta encardida
A Bodega da rua enladeirada
Meia dúzia de portas arqueadas
E uma grande ingazeira na esquina
A ladeira pra frente se declina
E a calçada vai reta nivelada
Forma palmos de altura de calçada
Que nos dias de feira o bodegueiro
Faz comércio rasteiro e barateiro
Num assoalho de lona amarelada.
Se espalha uma colcha de mangalho:
É cabestro, é cangalha e é peixeira
Urupema, pilão, desnatadeira
Candeeiro, cabaço e armador
Enxadeco, fueiro, e amolador
Alpercata, chicote e landuá
Arataca, bisaco e alguidar
Pé de cabra, chocalho e dobradiça
Se olhar duma vez dá uma doidiça
Que é capaz do matuto se endoidar.
É Bodega pequena cor de gis
Sortimento surtindo grande efeito
Meia dúzia de frascos de confeito
Carrossel de açúcar dos guris
Querosene se encontra nos barris
Onde a gata amamenta a gataiada
Sacaria de boca arregaçada
Gargarejo de milhos e farelos
Dois ou três tamboretes em flagelo
Pro conforto de toda freguesada.
No balcão de madeira descascada
Duas torres de vidro são vitrines
A de cá mais parece um magazine
Com perfume e cartelas de Gillete
Brilhantina safada, canivete
Sabonete, batom... tudo entrempado
Filizolla balança bem ao lado
Seus dois pratos com pesos reluzentes
Dá justeza de peso a toda gente
Convencendo o freguês desconfiado.
A Segunda vitrine é de pão doce
É tareco, siquilho e cocorote
Broa, solda, bolacha de pacote
Bolo fofo e jaú esfarofado
Um porrete serrado e lapidado
Faz o peso prum março de papel
Se embrulha de tudo a granel
E por dentro se encontra uma gaveta
Donde desembainha-se a caderneta
Do freguês pagador e mais fiel.
Prateleiras são tábuas enjanbradas
Com um caibro servindo de escora
Tem também não sei qual Nossa Senhora
Com um jarrinho de louça bem do lado
Um trapézio de flandres areados
Um jirau com manteiga de latão
Encostado ao lado do balcão
Um caneiro embicando uma lapada
Passa as costas da mão pelas beiçadas
Se apruma e sai dando trupicão.
Tem cabides de copos pendurados
E um curral de cachaça e de conhaque
Logo ao lado se vê carne de charque
Tira gosto dos goles caneados
Pelotões de garrafas bem fardados
Nas paredes e dentro dos caixotes
Uma rodilha de fumo dando um bote
E um trinchete enfiado num sabão
E o bodegueiro despacha ao artesão
Um parafuso de cabo de serrote
Na construção desses versos, o poeta Jessier Quirino registra o que foi visto por ele; ele apresenta a bodega como o grande supermercado popular, onde tudo se vende. Conforme o autor, costumava-se adquirir naqueles estabelecimentos todo tipo de mercadoria: querosene, óleo de cozinha, cigarro, bolacha, pão doce, meia quarta de café, farinha, doces e as mais variadas quinquilharias.
Realmente, o termo bodega, como uma variação linguística bastante singular, à época servia para designar lugares onde de tudo se podia encontrar. Na vida, sentimos saudade de tantas coisas, da infância, do cheiro do pai, do sorriso da mãe, da alegria de colorir no papel um céu azul. Eu também sinto falta das bodegas, de uma época em que falar em supermercado era o sonho de estar no Rio de Janeiro ou São Paulo. Por aqui, quando muito, frequentávamos os armazéns.

E assim, conversando com um amigo cujo pai foi bodegueiro, aprendi o seguinte: “A bodega era um espaço livre que se transformava na dispensa da casa dos moradores vizinhos: dente de alho, pacote de arroz, garrafa de manteiga, nas prateleiras de madeira, estavam  disputando o mesmo espaço, com canos, torneiras, alicates, serrotes, prego, martelo e arame, enfim uma variedade de mercadorias que satisfaziam à clientela no preço, no prazo e, sobretudo, no atendimento personalizado oferecido pelos donos do estabelecimento”
Nas bodegas de outrora, a diferença estava no atendimento disse-me ele. “lá podíamos comprar, por um exemplo, meio quilo de cimento, cinquenta centavos da margarina, meio pacote de café, uma colher de extrato de tomate, um copo de azeite, lamparina do século passado, pipa, estilingue, anzol e uma cabeça de alho e até, somente, uma correia de sandália ou um cigarro acompanhado de um palito de fósforo.”,
Os alimentos eram comercializados a pesos e medidas, isto é, fragmentados. As embalagens não tinham a regulamentação do comércio atual. Os itens eram pesados pelo próprio dono numa balança de prato com pesos comparativos, ou utilizava-se de um recipiente de zinco para medir o produto, denominado litro, que segundo ele, equivalia a um quilo. 


                                 Domínio público: Internet


O negociante tinha maleabilidade; era ele que lidava com as mercadorias, preparando-as para a transação. Produtos como tempero, farinhas, grãos, arroz, sabão eram manipulados pelo bodegueiro, que pesava, embalava e dava o preço. Não vinham prontos como no comércio urbano atual, com peso e preços fixos, podendo ser, facilmente, comparados de local para local.
Nesse sentido, não existia uma uniformização dos pesos e medidas. O litro utilizado na Venda de Dona Lenita, por exemplo, poderia ser maior ou menor do que o empregado nas Bodegas do Crente e Pedro Rico, o que afetava diretamente a quantidade dos alimentos.
Se por um lado, as vendinhas, que frequentei como criança, eram como templos que ornamentavam ruas e esquinas, aromatizando as calçadas. Elas eram, tanto, local de abastecimento de gêneros alimentícios; representava como também, um ponto de encontro para jogar conversa fora, se inteirar dos últimos acontecimentos da cidade ou falar da vida alheia, pois o bodegueiro era sempre uma pessoa bem informada.
Meditando sobre as minhas experiencias com as bodegas, restou a certeza de todos termos nossas máquinas do tempo. Algumas nos levam para trás, são chamadas de memórias. Outras nos empurram para frente, são visitadas por sonhos. Continuarei reverenciando ambas, sem nunca deletar do registro do meu celular o número de contato daqueles que um dia foram importantes para mim.

FATOS PITORESCOS

            Em recente encontro virtual da Academia Alagoana de Letras, um dos sócios declamou a seguinte estrofe da poesia de Cecilia Meireles:

“De que são feitos os dias?
De pequenos desejos,
Vagarosas saudades
Silenciosas lembranças...”

            Neste instante, inspirado pela palavra “lembranças”, informei que estava a escrever sobre “as bodegas da minha infância”, relatando uma época em que nem o Supermercado CEIA existia em Maceió, quando adorava visitar as vendinhas das vizinhanças, e por fim questionei o que tinham a dizer sobre o tema. As seguintes pérolas em forma de dialogo surgiram:

Acadêmico Carlos Mero


  Domínio público: Internet
Eu me lembro, sim, de algumas delas. Aqui em Maceió, recordo-me da bodega do Seu Edmundo, lá na Saldanha da Gama, Como eu morava bem perto, de vez em quando ia papear miolo de pote. Já em Penedo, comprei muito quebra-queixo da Bodega da Bena e figurinha na Bodega do Seu Domingos, as duas na Ladeira do Cajueiro Grande. Mas também havia, entre outras, a do Seu Jason, na Rua da Penha, que ficava na esquina que dava para a janela de Seu Filadelfo Luz, um devoto terceiro franciscano.

Eita Penedo para dar saudades. Lembro de Leninha, como se fosse hoje, na janela da casa da sua avó, com aquele olhar distante de moçoila sonhadora. Mas também me lembro de você e do Mário Aloísio por aquelas bandas. A venda do "açúcar cande"  era a do seu Jason, bem pertinho da casa da Mércia e da casa da Cláudia Cristina Correia Mousinho. A da sua avó ficava um pouco acima, olhando ou quase olhando para o oitão da Rádio Difusora.
Esqueci de uma coisa: a bodega do Seu Jason era vizinha à casa do Garapa e distante uns sessenta metros da casa de Dona Flor e seu Quelé e mais um pouco da casa de Dona Zefinha, mãe do Fred Tompson e do Amaro Apara-raio.

Nem fale no cheiro do pão assando enquanto o sol começa a mostrar o rosto afogueado. Houve um tempo em que, lá no Penedo, moramos quase vizinhos à padaria de Dona Toinha Calçola (isso mesmo!!!), na Rua da Penha. Nos dias de Educação Física acordávamos com os galos e a primeira coisa era ir até lá, pegar um pão quentinho, abri-lo ao meio, recheá-lo com uma fatia generosa de goiabada e ir rasgando Ladeira do Cajueiro Grande afora. Coisas da meninez.

Acadêmica Heloisa Moraes

Lembro sim da venda do seu Pedro Rico, e também das bodegas em Penedo, onde passava todas as minhas férias quando criança. Sempre que a avó e os tios davam um dinheirinho (era uma forma de mostrar afeto, naquela época!), ia a uma venda comprar um docinho que não sei exatamente de que era feito, mas cujo sabor está vivo na minha memória. Lembro que a gente chamava "açúcar candi". Essa bodega ficava numa esquina da rua da Penha, pertinho da casa da minha vó, no lado contrário da Ladeira da Preguiça. Boas lembranças!

Acadêmica Vera Romariz

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Amigos, lembro a bodega de seu Pedro Rico, pai de Alba, que fazia arranjos. E a de dona Lenita, pois morei, entre 17 e 20 anos na Comendador Palmeira. E namorava com Augusto no Parque Gonçalves Ledo.

Acadêmica Rosiane Rodrigues

Lembro-me com saudades do comércio de Piranhas e que era quase totalmente composto pelas bodegas: Bodega, padaria e Bar no Reservado, do meu saudoso papai Antônio Rodrigues, Bodega de seu Eviládio, meu tio, Bodega de Seu João Amâncio, Bodega de seu Antônio Campos, Bodega de Seu Piano, Bodega de Seu Benedito, Bodega de Tio Chiquinho, Loja de Tecidos de Tio Joãozinho, Bodega de Seu Zé de Coruja e Bodega e Bilhar de Seu Pedro Chico e para finalizar Bodega de Seu Arthur Palmeira. Que tal?

Acadêmico Vinícius Maia Nobre

Conheci todas citadas por Rostand. Outras da rua da Areia a do Seu Humberto, a de Dona Lídia e a conhecida pela meninada da Fernandes Lima que ficava bem recuada cujo proprietário era Sr João. Essa vendia o lanche mais procurado por nós: Chipaca , futuro Vice-Governador Francisco Holanda , Beba , futuro usineiro da Coruripe Vitor Wanderley, Bobó , Ambrósio Gusmão filho do saudoso Acadêmico nosso Carlos de Gusmão, Tuíta , também o mais escrachado de todos e famoso pelos “foras “ que ele e seus irmãos davam cujo nome Nilson Souza poucos conheciam e sim seu apelido!

Acadêmico Jorge Tenório

Lembro-me de algumas bodegas, mas duas ficaram indelevelmente marcadas na minha memória. A primeira localizava-se no povoado Anum Velho, onde nasci, bodega de Seu Alfredo. Certo dia, minha mãe encarregou-me de ir comprar meia barra de sabão e meio quilo de açúcar e eu troquei as bolas: "Seu Alfredo, minha mãe disse pro senhor mandar meio quilo de sabão e meia barra de açúcar ". A outra bodega pertencia ao meu próprio pai, ficava no Alto dos Bodes, bairro de Palmeira dos Índios. Meu pai era político, então a bodega faliu de tantas contas anotadas no caderno de "fiados".

E assim, encerramos aquela reunião virtual, felizes como sempre, e cada vez mais certos de que nossas digitais não se apagam das vidas que tocamos.



sábado, 11 de julho de 2020

Escute um artista alagoano. IRINA COSTA




Irina Costa

Escute Irina
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Luiz Sávio de Almeida confessa que é fan d'ambos os dois


                                         https://www.youtube.com/watch?v=98YljOeJ2kw


                                   Luiz Sávio de Almeida confessa que é fan d'ambos os dois


Irina Costa é portuguesa, nascida em Angola, em 1975. Chegou ao Brasil ainda criança, com sua família, depois de terem fugido da guerra civil em Angola. A primeira parada foi Portugal, país dos seus pais, mas foram chamados de retornados. Seguiram então para o Brasil, morando, desde então, na cidade de Maceió, no Estado de Alagoas. Formada em Direito e Psicologia; exercendo as funções de Analista Judiciário do Tribuna de Justiça de Alagoas.

Em 2002 rendeu-se à paixão pela música e fez a sua primeira apresentação pública, o show intitulado “Meu primeiro canto”, numa proposta de releitura do fado acompanhada por músicos brasileiros. Além de cantar as suas raízes tem-se dedicado também à música produzida pela terra que a acolheu e se constitui pedra fundamental da sua identidade híbrida.

Representou o BRASIL e ALAGOAS, duas vezes, no LUSAVOX (concurso da RTPi e das Comunidades Portuguesas pelo Mundo transmitido para mais de 141 países), VENCENDO a 2ª edição, escolhida pelo público, com a música “O Cravo e a Rosa” do cantor e compositor alagoano Sóstenes Lima. Na primeira edição, levou ao festival a música “Valsinha de Esquinas” do compositor e cantor alagoano Mácleim e, em razão do mesmo evento, foi convidada para o programa “Praça da Alegria” da RTP (Televisão Portuguesa).

Ganhou três vezes consecutivas (2008 a 2010) o Prêmio Notáveis da Cultura Alagoana: duas como melhor cantora do ano e outra como melhor espetáculo musical do ano “Irinavegar”  (de 2007).

Em novembro de 2013 apresentou-se em Macau no Venetian Theatre e no Clube Militar Português, em razão dos LusoTalentos 2013, com o Projeto INÉDITO Fado-GuZheng ao lado das Musicistas Sissy Zhou (GuZheng – França) e Andréa Teixeira (Piano – Brasil).

Em Abril de 2014, a convite do Ministério dos Negócios Estrangeiros, apresentou-se em Paris e em Lyon, ao lado da Pianista Andréa Teixeira em razão das comemorações dos 40 anos do 25 de abril (Revolução dos Cravos). Em maio de 2014, a convite da RTP, participou do Programa de TV "Portugal no Coração".

Em Outubro de 2014, num projeto inédito em Maceió, estreou o espetáculo “O mar fala de mim” com banda, orquestra e coral, no Teatro Deodoro, com quase 50 músicos em palco. Em Agosto de 2015, numa segunda etapa do Projeto “O Mar fala de mim”, reapresentou o espetáculo em forma de Concerto com a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Alagoas, banda e coral do Cesmac, com 100 músicos no palco. Ambos com LOTAÇÃO ESGOTADA!

Em Janeiro de 2016 participou do Festival Maceió Verão.

Em outubro de 2016 lança o DVD “O MAR FALA DE MIM”, gravado ao vivo, no Teatro Deodoro. Também em Outubro estreia o novo show E SONHOS NÃO ENVELHECEM, uma homenagem ao Clube da Esquina.

Em Agosto de 2017 foi convidada para produzir a Orquestra Filarmônica de Alagoas, ficando até o fim de 2019.

Em setembro de 2019, “O Mar fala de mim” é reapresentado no Teatro Deodoro com a Orquestra Filarmônica de Alagoas, banda e coro. Sucesso de público, em 2020 o concerto ganha o título de melhor espetáculo do ano.



Irina Costa. 121 dias passados


121 dias passados
                               Irina Costa


Sexta, 13 de março de 2020. Chega uma notícia apressada de que devíamos levar os computadores para casa: tudo ia fechar. Sim, ele havia chegado. Aquele vírus, que eu acreditava estar tão longe, do outro lado do mundo, estava entre nós e veio com vontade de ficar.

Quase como quem recebe uma ordem de que é preciso sobre”viver”, fui ao supermercado comprar comida, mantimentos, álcool, máscaras e luvas (que a essa hora já estavam sendo vendidos a preço de ouro), numa corrida desenfreada pelas últimas garrafas de álcool disponíveis no mercado.

                        FIQUE EM CASA!! Essa foi a palavra de ordem.
                        VAI PASSAR!! O mantra que eu carrego até hoje.

 Numa confusão de sentimentos e uma enxurrada de informações, tudo era muito incerto. Ver e ouvir o noticiário era sinônimo de tristeza e preocupação. Mas com a certeza: não poderia haver medo. Não é/era um sentimento que eu permitiria chegar até mim. Cuidado, sim. Medo, não. Justamente pela possibilidade de abalar a fé, de paralisar os bons pensamentos que, fundamentalmente, me mantém bem e forte para cuidar de mim e dos meus.

Passada a fase do susto inicial, a ordem foi reaprender. Estabelecer contatos virtuais, cuidar do outro à distância, não ver tanto noticiário. Cuidar do espaço que nunca fez tanto sentido para mim: CASA!
Das tantas coisas já vividas nesse tempo de vida ao avesso (ou vida em pausa parcial), perdi o meu avô paterno, o Dudu, e, antes mesmo que ele se fosse, a vida me fez reaproximar dos meus tios e prima, como num aviso antecipado de que um capítulo da nossa vida viraria história com a partida dele.

Fomos dando um jeito de viver. De estar perto, mesmo longe. Partidas, chegadas. Aniversários  celebrados à distância, virtualmente. O dia das mães sem abraço, mas com a imagem guardada pra sempre: ver a minha mãe, a minha Gabi, da porta de casa, tão linda. Vestido novo. Maquiada. Pra me ver. Sem poder entrar para abraçá-la, aquela, certamente, é uma das imagens que marcam a minha “quarentena”.

Dos dias inesperados: gravei e ganhei músicas, retomei contatos com pessoas queridas, Thiago salvou um cachorrinho (Pirata) que, milagrosamente, está vivo e foi adotado. Ajudamos amigos. Deu-se um reencontro há muitos anos esperado. Dos dias difíceis: as partidas antecipadas. Perdas que foram chegando mais perto de nós. Dos dias alegres: estar com saúde, ver o sol, o mar, ter alguém para amar e cuidar... e rir. Só por estar aqui.

E fomos/vamos vivendo uma rotina, sem rotina. Casa pra arrumar, amores para cuidar (Sofia, Thiago e os três doguitos da família), teletrabalho. Um mundo adaptado. Com muito riso e lágrimas. Está demorando a passar. E os dias tão ocupados e cheios de afazeres, se misturam à dor das perdas de tantos, à angústia e às incertezas de um País que parece naufragar no mar da pandemia.

Mas… e se não passar? Nada será como antes. Mantenho a fé no mundo. Disseram que 2020 seria um ano de profundas mudanças, onde o reencontro com a espiritualidade se fazia necessário. Não mentiram. Os tempos vividos são divisores de água, de transformação. É muito além do vírus. É sobre conscientização política, ambiental e humanitária, a nível mundial, sobre causas que nunca adormecem, sobre não se saber do “amanhã”. É sobre ver as águas de Veneza ficarem cristalinas e ouvir o silêncio... dos carros... do homem... que fez acordar os pássaros e as borboletas da cidade.

O ser humano é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou. Passamos pela era da individualidade e agora sentimos falta de estarmos juntos. Passávamos tanto tempo “agarrados” ao celular e desconectados do mundo ... quando veio a necessidade de nos aquietarmos, de ficarmos isolados, e usarmos o mundo virtual como ferramenta para diminuir distâncias, ficamos em pânico com essa possibilidade.

Há coisas e fatos ruins? Há. Sempre haverá. Preciso, e prefiro, ficar com as boas coisas que vejo refletirem no ser humano. É quase uma urgência falar sobre o amor.

Precisamos ter de volta os “dias comuns”. Há muitos anos, recebi um e-mail que falava sobre a chatice dos dias comuns. E o quanto era importante agradecer pela existência desses dias. Nos dias comuns, não adoecia tanta gente, não havia tanto desemprego, não se perdia tanta gente que se ama, não havia catástrofes. Era tudo igual. Para tanta gente, os “dias comuns”, afinal, eram dias de paz.

E ter dias comuns vai além da vacina contra o vírus. Temos a chance de olhar para dentro, para poder olhar para fora. A oportunidade, ainda que sofrida, de perceber (e sentir) o outro.  Mesmo sabendo que todos os dias pessoas vão ter fome, vão perder empregos, vão partir… Mas que nós não vamos ser tão indiferentes.

121 dias passados. E assim chegamos a julho de 2020. 45 anos e meio. Cabelos brancos descortinados pelo isolamento. E a fé de que será tudo novo. De novo. Olhos postos no presente, já que 2020 veio nos mostrar que o futuro mudou, desfez-se. E já começo a ouvir menos os pássaros...


O blog pode concordar, no todo ou em parte, com os textos publicados




D.C. Vanderlei. Pandemia e Isolamento social: A cidade arquipélago e sua busca pela lanterna dos afogados




Pandemia e Isolamento social: A cidade arquipélago e sua busca pela lanterna dos afogados

Por D.C. Vanderlei

Estudante trabalhador e amante da geografia

            Aos meus 6 anos ocorreu um daqueles momentos revolucionários da vida, e veio com um déjà-vu. Foi num velho sítio da Santa Amélia, à beira da mata do Parque Municipal, uma área coletiva compartilhado por 5 casas entre mãe, avós, tios, padrinhos, primos. Foi ali, naquela paisagem bucólica do banco de madeira em forma de lua crescente, que cresci; que tive noção do discorrer do tempo e do valor da socialização.
            Me lembro do entusiasmo e receio que me afogaram em tal descobrimento, o qual me fez puxar o primo Nanã pela barra da camisa; o ingênuo Alan pela cacunda; o avô, até onde eu alcançava. O caçula queria atenção! E do ponto de vista dele, espécie de autoproclamado legítimo descobridor, a revelação era digna de grande genialidade, feito de invejável sagacidade, somente igualável aos predicados de um extraordinário gênio cientista, um suprassumo do saber, um oráculo. Como gosta de pronunciar a nova geração: “Top das galaxias”. Eureca!!
            O que era pra mim grande feito, era para eles motivo de altos gritos e gaitadas. – Tolo!, eles diziam. Ao sair do meu complexo de Peter Pan, onde o limite da cronologia é um dia após o outro, eu fui apresentado a uma das maiores crises existenciais da nossa era: o caráter líquido do tempo.
            Sim. Oh Grande Poderoso Cronos! Magnífico e paradoxo rei dos Titãs! Tua percepção que nos trás clareza e, concomitantemente, pode nos deixar diante de uma depressão tão profunda e dissecada quanto aquela do vale do parque municipal.
            E se a geografia nos revela que em todo vale há um curso d’água, nesse abismo onde nos enfiamos, o fluxo do rio representa o curso normal do tempo; a água, a vida. Às vezes é preciso represar o rio aqui, pra liberar ali, senão dá enxurrada. Sabe bem disso o autêntico brasileiro, aquele vítima do “saneamento trágico”, sempre atento à previsão do tempo.
            Porém por aqui, desde os tempos de Cabral,  é muito comum se confundir planejamento e metáfora, e essa é razão pela qual tanta gente nesse país nada muito enquanto morre de sede. A metáfora apresenta um viés pragmático, quando estudamos os efeitos do coronavírus no corpo de um doente terminal. Ele é levado a morte com os pulmões cheios de líquido, afogado em si mesmo. Um paradoxo terminal.

            A primeira vez a gente nunca esquece

            A primeira vez que ouvi falar da associação Corona Virus/Covid-19 foi como quase todo leigo em virologia ou estranho ao serviço secreto: pelos meios de comunicação. Naquele 06 de janeiro deste ano, uma matéria da BBC internacional falava sobre “a misteriosa pneumonia que preocupa a China” e que pelo, então, recente posicionamento das autoridades chinesas, não se tratava da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla em inglês).
            No dia seguinte, enquanto ouvia a rádio, dirigia para o trabalho, e pisava fundo  no sinal amarelo pra escapulir do vermelho, feito um diabo que corre da cruz, porque esse era o espírito do velho cotidiano: desafiar o tempo. Cazuza escreveu certa vez algo sobre o desafio de transformar o cotidiano em poesia, como forma de vencer a melancolia. O cotidiano nos deixa cegos, escravos do tempo.
            Não há dúvida de que o “trabalho dignifica o homem”, mas honrando sua etimologia latina (tripalium), ele pode significar tortura e maldição. Como bem explicaram Marx e Engels, através do trabalho o homem pode mudar e moldar a natureza e a si próprio, edificar a cultura e a sociedade; mas não obstante disso é preciso romper com o idealismo e a alienação. O trabalho humano nos diferencia    dos deais  pela ação intuitiva e repetitiva dos animais, e é por isso que quando não refletimos sobre nossos atos, apenas reproduzimos o cotidiano, viramos tal ser coisificado.    
            A despeito do que dirão alguns saudosistas, a verdade é que no mundo pré Covid-19 o cotidiano já cegava as pessoas. Sua consequente estupidez permitiu que, em pleno mundo globalizado,  alguns relativizem e distanciem algo que acontece logo ali, do outro lado do mundo: “Mais uma gripizinha!”, “Coisa da  China”.
            Inegável. No mundo pré-covid-19 havia uma melancolia digna dos anos de chumbo: Guerra Fria entre Washington e Moscou na Guerra Civil da Síria e na questão Coreana; Amazônia em chamas e democracia em vertigem no Brasil; ataques a diversidade e bairros afundados pelo capitalismo voraz na retirada da Salgema em Maceió. Mas foi neste cenário que a humanidade encontrou o sinal vermelho.        
            Em 23 de janeiro, a mídia em geral já chamava a atenção pelos 213 mortos em decorrência da já chamada COVID-19 no Extremo Oriente. Àquela altura havia 9 casos suspeitos no Brasil. O que setores conservadores e conspiratórios da sociedade chamaram de “alarde da imprensa”, no dia 30 de janeiro foi classificado como Emergência Internacional pela Organização das Nações Unidas (ONU).
            Todavia, de certa forma, a pandemia logo foi incorporada ao “jeitinho brasileiro”. Matéria da Folha de São Paulo de 08 de fevereiro destaca que “Mulher é presa em Unidade de Saúde do Rio de Janeiro por mentir que estava com coronavírus para furar fila”.
            Em 20 de março, o congresso aprovou na primeira votação por videoconferência da história do legislativo federal, o decreto de Estado de calamidade pública. Naquele mesmo dia, o Governo de Alagoas decretara, pela primeira vez, situação de emergência em todo o Estado em decorrência da pandemia.

Isolamento Social

            E falando em  paradoxos, redundante destacar o quão frustrante e necessário  é o isolamento social, especialmente pra nós, seres gregários. De um lado, o deixar de viver: a angústia pela privação da liberdade, a impressão de perdermos  preciosos dias (meses) de nossas vidas, em plena era do tempo líquido. Do outro, a luta pelo sobreviver: medidas de restrição, são sim, estratégia fundamental na ordem do dia; é o que nos prova os exemplos de países que hoje se encontram menos expostos a pandemia, como Nova Zelândia e Alemanha (dentre outros fatores).
            Não distante disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça desde o anuncio da emergência internacional que o isolamento social é a melhor alternativa contra o coronavírus. Definindo o objeto, isolamento social (ou distanciamento social) consiste em uma prática de saúde pública que tenta tardar a contaminação na população, já que diminui o contato entre pessoas doentes e saudáveis.
            Entretanto, desde 11 de março deste ano, data em que a ONU reconheceu a pandemia de COVID-19, especialistas ressalvam que as medidas de isolamento social não impedem a transmissão em si. Seu objetivo é na verdade, tardar essa transmissão, mitigando a explosão dos casos e o colapso dos sistemas de saúde.
            É verdade que não é a primeira vez, nem mesmo neste século, que uma emergência de saúde pública em escala mundial foi decretada: Pandemia de H1N1 em abril de 2009; disseminação internacional de poliovírus, em maio de 2014;  surto de Ebola na África Ocidental, em agosto de 2014; vírus zika e aumento de casos de microcefalia e outras malformações congênitas, em fevereiro de 2016; surto de ebola no Congo, em maio de 2018; já receberam tal status. Por outro lado, nenhuma dessas emergências possui um caráter tão mortal quanto o Covid-19.
            Considerando os dados internacionais de 05 de julho de 2020, publicados pela ONU/OMS no “Painel da Doença de Coronavirus (COVID-19)”, o numero de casos chega a 11.108.580 e 587.085 mortes. Conforme a própria ONU, como o estudo se baseia em dados oficiais disponibilizados por cada país, é muito forte a hipótese de que a realidade seja bem mais grave. Como se sabe, alguns países têm baixa taxa de testagem e/ou governos de forte viés ideológico reacionário, com negação da ciência.
            No Brasil, por exemplo, há um abismo no índice de testagem apresentado por estudos mais rígidos 2,28 pessoas a cada grupo de 100 mil habitantes; e pesquisas mais otimistas 7,66 pessoas a cada grupo de 100 mil habitantes (dados de 28/06/20).
            O que se sabe, certamente, é que o país testa pouco. Dos testes RT-PCR feitos no país, 36,68% têm resultado positivo para COVID-19. Segundo especialistas, esse índice muito alto ocorre porque se testa principalmente os casos mais graves, o que por se só denuncia o caos da saúde pública. A cargo de exemplo, Austrália e Nova Zelândia, também potências do Hemisfério Sul mas com gestão exemplar na crise, têm 1% de testes positivos, conforme o painel da Universidade Johns Hopkins (EUA).
Pleonástico dizer que no Brasil o isolamento social nunca foi seguido à risca. Principalmente por conta de uma visão econômica imediatista e seu discurso de negacionismo científico que assombra esferas do Estado e setores poderosos da sociedade.
Do norte ao sul, a quarentena minou na velha metáfora “pra inglês ver”. Pode-se dizer que se nas primeiras semanas houve um cenário menos visível de desrespeito ao estado de emergência, posteriormente, esse desrespeito foi logo escancarado. O trânsito das cidades atesta um isolamento social fictício, na prática, distante do próprio sentido da expressão. E esse pleonasmo é fundamental para entender como o Brasil foi parar no Olho do Furacão desta crise.
           
“A história se repete pela primeira vez como tragédia. A segunda, como farsa.”

Já falei que no banco a sombra do antigo sítio da Santa Amélia, a socialização era regra e com ela afloravam histórias e contos. Meu avô, saudoso Domingos Vanderlei, gostava de depois da peleja, ao fim da tarde, sentar no velho banco e contar suas histórias para quem quisesse ouvir. Eram narrativas de infância, que viveu ou ganhou dos mais velhos.
E por muitas vezes, contou as histórias de dirigíveis ianques que invadiram os céus das Alagoas; de uma tal faca abençoada que seu pai recebera de –Padim Padre Ciço-; ou ainda do tempo em que as pessoas morriam aos montes nas portas das casas, a espera do socorro médico ou crentes em um remédio dito milagroso.
Nesse caso, ele narrava algo que foi dramaticamente detalhado aqui neste mesmo jornal e onde o leitor teve a oportunidade de testemunhar como a anti-ciência foi definitiva: a gripe de 1918 (espanhola), capaz de levar a morte milhares de brasileiros, inclusive um presidente eleito, e dar as calçadas de Maceió uma conotação de Necrotérios.
Ainda naquele confuso 1918, às pressas foi criado aquele que é até hoje o maior cemitério público da cidade, o São José. E 102 anos depois a historia se repete, a prefeitura se apressa para definir uma nova área para o crescente número de vítimas do COVID-19 na capital alagoana. 
O Brasil é hoje o 2º maior epicentro da pandemia no mundo, perdendo apenas para EUA, nosso Big Brother do norte e seu governo, por vezes, parceiro no negacionismo científico e populismo conservador. Coincidência? Já falei aqui da melancolia retrô dos anos de chumbo que assombram nosso tempo, resgata-se na prática ao slogan da ditadura militar “ninguém segura este país” e, faz-se jus a famosa frase de Karl Marx em 18 brumário de Louis Bonaparte: “A história se repete pela primeira vez como tragédia, na segunda como farsa”.
            É neste sentido que dissernimos que o Brasil vai ao encontro da tradicional política Paraguaçu e do “jeitinho brasileiro”. O carro sempre à frente dos bois, o relaxamento antes do isolamento propriamente dito. No protocolo internacional, a revisão das medidas de restrição são consequente a famosa “curva do gráfico de casos”, no Brasil a revisão é concomitante ao recorde no registro de casos.
            Segundo o consorcio de veículos de imprensa (G1, O Globo, Extra, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e UOL), só nas 24h que se seguem das 20h do dia 03/07 (Sexta-feira),  até as 20h do dia 04/07 (Sábado), foram 1.111 óbitos no Brasil. Isso equivale a queda de 3 aviões do Modelo Boing 747 (o 2º maior do mundo) lotados de passageiros. No dia  05 de julho havia registro de 1.539.081 casos confirmados e 63.174 mortes (Dados painel da ONU/OMS).
            Aqui, a aplicação relativa de tais medidas pode ser sintetizada nas versões customizadas da quarentena. Coisas como “isolamento vertical”, “isolamento inteligente” e “isolamento itinerante”, se antecedera a qualquer indício do achatamento da curva no país. Em números, a pandemia de 2020 já é uma versão muito mais piorada daquela de 1918, já representa mais que o dobro das ±30 mil mortes provocados pela gripe espanhola no País.

A corda arrebenta sempre no lado mais fraco
 
Importante dizer, essa dicotomia tem certamente seus impactos mais perversos na classes populares, formadas por aqueles que o sistema econômico vigente veda o direito a escolha pelo isolamento social. Há ali duas batalhas simultâneas e antagônicas: uma contra o coronavírus, outra pelo prato de comida.
O primeiro caso de morte por COVID-19 no Estado do Rio de Janeiro é bastante elucidativo. Uma negra, secretária doméstica e idosa, que se contaminou após contato com a patroa, residente do Leblon e que retornou da Itália com o vírus. Assim, a pandemia do Covid-19 escancara problemas presentes no Brasil desde o século XVI, dominantes em Alagoas a partir do genocídio do colonizador contra os caetés e tapuias; já transpostos por navios negreiros junto ao sequestro e escravidão do povo africano subsaariano: a injustiça social.
E que outra razão explicaria dramas do cotidiano? Pegamos como outro exemplo o transporte coletivo, serviço essencial, na garantia da mobilidade da força de trabalho. Em 16 de abril de 2020, o canal de tv de maior audiência de Alagoas mostrou imagens que já circulavam na internet, de um coletivo lotado em plena quarentena. As cenas foram o bastante para chocar, princialmente, quem não pega ônibus, ou tão pouco, parou para observá-los no trânsito cada dia mais movimentando da cidade e seus invisíveis urbanos.
Durante a quarentena, a trabalho, embarcamos em algumas linhas do transporte público da cidade. Especialmente em duas: 711 Cidade Universitária / Ponta Verde, itinerário que passa por 25 dos 50 bairros de Maceió; ou na 104 Benedito Bentes / Trapiche, que atende os bairros maceioenses mais populosos (Benedito Bentes e Jacintinho), além da região lagunar (um dos principais epicentros de Convid-19 no município).
Com base nessas experiências, não seria um exagero dizer que todo “busão” tem um pouco de Navio Negreiro. Do motorista ao último passageiro, encontramos, predominantemente, os filhos dos caetés e dos tapuias; os descendentes bantus e nigero-congoleses. Tanto assim, que tal cenário é captado pela consciência de classe. “Navio Negreiro” é como os trabalhadores rodoviários chamam o coletivo que pela madrugada passa pelas principais vias da cidade, transportando os trabalhadores do setor até a garagem.
Esse exemplo cotidiano reproduz uma adaptação trágica do ditado popular. Agora, poderíamos dizer assim: Se ficar a fome aperta, se sair o Covid-19 pega. E é por isso, que para a classe popular na guerra contra a pandemia da Covid-19, ante o enfrentamento ao Corona vírus em si, há a batalha pra “pescar o peixe” e alimentar a si e seus entes. O patronato sabe disso, e sabe também do exército de reserva a seu dispor. O trabalhador se vê numa “sinuca de bico”.
Quando a necessidade do trabalho fica submetida à ação exploradora do poder econômico e reduzida à dura sobrevivência do trabalhador,  encontramos  o sentido indigno de trabalho, a miséria do ser reificado e fracasso da humanidade. Mais do que nunca, o trabalho é tripalium.
Outro caso cotidiano que reforça essa tese, aconteceu  ainda em abril. Saindo de uma visita em um dos trabalhos, embarquei na linha 104, ainda no Trapiche da Barra, próximo ao tradicional bar do Saudoso Amaurir. Estava exausto. Estando o ônibus  ali vazio, sentei-me em uma cadeira junto ao corredor, com ferro apoiador atrás. É minha poltrona predileta, porque sou alto e barrigudo, e nesses bancos de ônibus apertados que queimam os joelhos, ao menos o ferro permite encostar a cabeça e tirar um cochilo. A viagem era longa, Antares, no outro lado da Cidade.
Nem deu tempo! Pouco depois, no ponto do HGE (Hospital Geral do Estado), sobe um passageiro e senta ao meu lado. Se dirigia ao trabalho, que fica na Serraria. Pediu licença pra ir para a poltrona da janela, sem perder a oportunidade de pisar no meu pé. Não teve disposição para pedir desculpas, mas, afoito, como se estivesse prestes a estourar, ainda na Siqueira Campos, ele começa a desabafar. Assim que ele abriu a boca, pensei: Agora deu!
- Trabalho numa funilaria, mas  não tenho carro. O patrão anda reclamando que com o Covid (-19) os EPI’s (Equipamentos de Proteção individual) andam ficando caros. A máscara dura 2 horas, agora a gente tem que usar por uma semana inteira; o álcool gel, é gel de cabelo misturado a álcool 70%; se ficar doente, não podemos ir ao hospital, patrão tem medo de levarmos esse tal bicho corona pra dentro da empresa. Se reclamar é rua, “a fila pra entrar é grande, dobra a esquina”, ele diz.
 Tento parar o homem, olho pro lado, respondo com uma monossílaba, penso em tirar um livro da bolsa. Mas o seu desabafo e persistência na conversa me cativam. Além do que, interromper um semelhante “peão” que fala de seu patrão, é  um verdadeiro sacrilégio contra a classe, entre trabalhadores.
E o homem prossegue. Diz que trabalha com verdadeiras “máquinas”, que já pegou Carango e Mercedes dos ricos do Aldebaran e do San Nicolas; que prefere estes, porque recebe melhor gorjeta, mas o patrão não pode ver, ser ver, “quer sociedade”. Pega também carros de aluguel do aeroporto, e destes é que tem medo: - Sabe-se lá quem andou nesses carros?
Aproveito o ensejo, e já no Jacintinho pegunto a ele como é a convivência dentro da empresa durante o isolamento social?
- Isolamento? Lá só existe um. Antes havia uma sala de espera para os clientes com TV, sofá, café, bolacha. Agora tá fechada. Os clientes, quando esperam, ficam com a gente mesmo. O patrão não desce mais, fica trancado no escritório, no primeiro andar. Fala com a gente  e clientes pelo telefone, mas diz que é pra gente não ter medo, que é coisa passageira, que nem adianta correr, porque essa “gripe” todo mundo uma hora vai pegar mesmo.
E pro final da conversa eu estou encucado, e pegunto a ele por que não tenta algo mais perto, sair do Trapiche da Barra para a Serraria, com tanta funilaria na parte baixa? Compensa? 
- Não moro no Trapiche não. Moro no Ouro Preto. Vim do Trapiche porque minha patroa tá internada. Suspeita de Covid (-19).
Após isso o homem se levantou. Esboçou apertar minha mão, mas eu ofereci o cotovelo (saudação alternativa nestes tempos).  Lhe desejei boa sorte. Ele me deu um “Fique com Deus”. Respondi com um desejo de “saúde para você e sua família, melhoras para sua esposa”. Ele, mais sem jeito do que eu, deu o esperado amém. Tentei adivinhar em qual funilaria aquele pobre trabalhava, havia ali perto daquele ponto duas ou três, subtraídas aquelas que poderiam ser confundidas com mecânicas. Pensei em dá uma passadinha lá no dia seguinte, saber de sua esposa. Nunca fui.
Depois dali, até o caminho de casa, um silêncio interno tomou conta de mim. Ora por ter contato tão próximo com alguém que poderia ter tido contato com outro alguém com Covid-19. Depois, conclui que isso era besteira minha. Tendo que trabalhar fora, o contato é inevitável, pegar ônibus, andar na rua, falar com pessoas… inevitavelmente teria contato.
Após isso, me senti mal, pequeno, egoísta. Me veio a reflexão sobre a situação daquele pobre diabo. A mulher no hospital e ele trabalhando naquele cenário, certamente não é caso a parte, mas um padrão entre sua classe. É Nesta direção, que concluímos: mesmo com a iminente pandemia e isolamento social, em geral, quem precisa sair de casa para vender sua força de trabalho, não teve diminuída a pressão e responsabilidade no emprego. Oposto a isso, repete-se o mantra do sistema: a corda arrebenta sempre no lado mais frágil. Mas, sobretudo, isso nos revela que não estamos lá tão distantes da servidão.
E dentro de uma perspectiva capitalista, não poderia ser diferente. São conhecidas as múltiplas facetas do sistema de manipulação para a manutenção da exploração do homem pelo homem. O aparentemente singelo e empreendedor discurso de que “a economia não pode parar!”, esconde na verdade uma imposição: Cifrões valem mais do que a vida das pessoas. Mas sem pessoas há economia?
 E, assim, os pescadores de ilusão seguem na luta pela sobrevivência, enfrentando seus desafios: achar coragem pra entrar no oceano de aflições que se tornou a rua, pegar o coletivo cheio até o trabalho, se concentrar na labuta em meio a tempestade de notícias, suportar a birra do patrão.

Trabalho Remoto

E mesmo para o celetista ou autônomo que tem a alternativa do trabalho remoto, nada é fácil. Os professores, por exemplo, vivem hoje um enredo digno de uma obra do dramaturgo Nelson Rodrigues. Para muitos, a sala de casa virou um perfeito palco da "comédia da vida privada"; a tal inviabilidade do lar, consagrada no Art. 5º da Constituição Federal de 1988, é despojado em transmissões caseiras para um público exigente, acostumado às produções Netflix e a qualidade 4k.
A tragédia tem seu clímax quando o educador, que se reinventa continuadamente num universo didático intangível e improvisado, recebe da plataforma digital multinacional a mensagem de que o limite de 30 minutos de reunião da versão gratuita expirou, mas ele pode aderir a uma versão intermediaria, com valor mínimo equivalente a várias dezenas de horas/aula($).
Assim, outra grande injustiça social é escancarada no Brasil. Enquanto a média salarial do último clube campeão nacional de futebol, o Flamengo, é de, aproximadamente, R$ 466.666,60. Considerando o valor de R$12,00 como média da hora aula em Maceió, um professor precisa de 9 dias (manhãs) de aula para ganhar aquilo que um jogador de futebol, do último clube campeão brasileiro, ganha em 1 minuto de jogo (R$ 648,15).
Isso quer dizer que um professor precisaria de aproximadamente 39 anos, nas condições atuais, para ganhar o salário de um jogador de futebol, com uma diferença: Jogador de futebol ganha por direito de imagem, professor, mesmo com a invasão a privacidade, não.
E o que dizer de nossos jovens? Uma geração que para se atender a curta licença maternidade, corre um significativo risco de ser parida no local de trabalho da progenitora. Como se não fosse o bastante, é desmamada cedo, porque lá se passaram os 4 meses da licença de sua mãe. O que vai de encontro à recomendação da ONU/OMS, a qual recomenda que os bebês sejam alimentados exclusivamente pelo leite materno até os 6 meses.
E logo a precocidade escolta essa geração, ano a ano. Na falta de tempo e atenção dos pais, por vezes, aprende-se a depositar sua aflição em um celular smartphone, e ali encontra o abrigo ideal para despertar sua juvenil ansiedade.
Com a pandemia, e o inevitável isolamento social, nossos jovens se tornaram membros de um alistamento obrigatório, soldados de uma produção escolar fordista, e sua regra de ouro: tarefa dada é tarefa cumprida. Nesse contexto artificial, o intangível substitui o tangível, o psicólogo é trocado pela rede social e, como exemplo, uma adolescente ali desabafa: 15 atividades por semana, 60 tarefas por mês, 120 em um bimestre. Menos do que o assustador número de mortes por Covid-19 em Alagoas, mas, o bastante para comprometer nossa saúde mental.
É importante destacar aqui, o cenário que o nostalgico geógrafo brasileiro Milton Santos chamou de circuito inferior. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE – 2017), a internet alcança 79,9% dos domicílios brasileiros; havendo uma considerável diferença regional, desfavorável ao Nordeste.
Se associarmos esse dado a outro da mesma pesquisa, a presença do analfabetismo, a discrepância é ainda mais alarmante, há um verdadeiro abismo entre o RJ com 2,5% (melhor colocado); e AL com 18,2% (pior colocado). Segundo matéria da BBC Brasil (de 12 de novembro de 2018), 3 a cada 10 brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais.
Pleonástico dizer aqui dos riscos que esses dados representam para Alagoas e o Brasil, não só sobre o aspecto da educação, como também da própria saúde pública: sem o básico que é ler, escrever e interpretar por uma gama tão significativa da população, até onde vai a eficácia das políticas públicas de prevenção/mitigação da pandemia COVID-19?

Impactos  da Pandemia: da perda momentânea a permanente

Sabe-se que dos muitos estudos que vem tentando investigar os efeitos psicológicos do isolamento social sobre as pessoas (e até outros animais), são salientados os impactos negativos como a excessiva ansiedade, estresse pós-tramático, irritabilidade, entre outros.
Mas, ainda com tudo isso, o pior dos traumas da pandemia é certamente a morte. Sabemos que o luto é uma questão muito relativa. Para algumas pessoas o luto é breve, dias; mas não é raro o caso de pessoas que levam o luto por uma prolongada angústia de anos e/ou até a morte.
Um caso que sintetiza isso é aquele que ocorreu em 02 de julho deste ano, e foi publicado no G1 notícias. Em Manaus, o neto resgata o cadáver de sua avó, falecida há 2 anos, do cemitério. Abraçado ao corpo, ele dança pela rua, a distância de 1Km do cemitério. Ao avistar a cena fúnebre, populares vão até o local, e com dificuldade imobilizam o rapaz de 32 anos, amarrando-o em um poste.
A cena ganha conotação ainda mais dramática, quando, transtornado e diante do corpo da avó no chão, ele dizia que queria doar os seus órgãos para fazer na avó um transplante e trazê-la de volta a vida, pois sentia muita saudade.
Por hipótese, acredita-se que o crescimento geométrico no número de óbitos gerado pela pandemia, somado a quebra do rito de despedida dos entes, proporcionará ainda mais pessoas com experiências traumáticas.
Soma-se a isso, o gigante contingente que terá que passar pela transição para o mundo pós-pandemia. Filósofos e cientistas comumente afirmam que nada será como antes ou ainda, que o “normal” do mundo pré pandemia acabou,  morreu. Assim como outras pandemias históricas que mudaram o curso da humanidade, essa terá um legado, em diversos ramos.
Retomando Cazuza e suas imortais frases, “o tempo não para”. Tudo muda,  às vezes pra pior. O Sábio Domingos morreu; a mangueira foi cortada e o banco em formato de lua crescente, evanesceu. O que era público, agora é grilagem; o primo ingênuo virou capitalista, uma versão piorada do Paulo Honório; a Santa Amélia, agora é a nova São Bernardo, Bebedouro afunda em profunda angústia. E ainda assim, não foi tempo perdido, de tudo isso algum aprendizado se pode tirar.
E é por isso que a pandemia também ensina, mesmo que da pior maneira, ao custo da reclusão e mortes. Na urbanização, se discute a iminência necessidade da Revolução Sanitária; na Saúde Pública, políticas que mitiguem os efeitos de uma pandemia dessa proporção; na educação, o uso mais intenso de tecnologias da informação veio pra ficar. Diante da expectativa da descoberta da vacina contra o coronavirus/covid-19 e medicações de combate ao problema, a ciência (por alguns renegada) sai fortalecida, e se apresenta como o único Porto Seguro para sair da crise.
É inegável que a pandemia covid-19 trouxe impactos em todos os setores da comunidade global e da sociedade. Entretanto, é importante compreender, como discorrido aqui, que a pandemia não criou diferenças regionais e as discrepâncias sociais, mas, intensificou-as. A cidade desde muito é segregada, um arquipélago de ilhas por vezes incomunicáveis, e onde os problemas, sejam eles de qualquer natureza, afetam principalmente as classes mais populares.
Ainda em 1935, o poeta baiano Jorge de Amado lançou o livro Jubiabá, que retratava o cotidiano das classes populares soteropolitanas. Dentre os vários relatos, o caso dos corajosos pescadores, que ao se aventurar na imensidão do oceano, nem sempre conseguem achar o caminho de volta. E é neste drama, entre a perda momentânea e a perda permanente, que entra em cena suas bravas companheiras, munidas de lanternas para guiar a embarcação de seu companheiros até o cais do porto, a “lanterna dos afogados”, brilhantemente musicada pelos Paralamas do Sucesso.
Em meio a pandemia da COVID-19 e o isolamento social, qual é o cais do porto da humanidade? Quem é a nossa lanterna dos afogados?

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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Alvaro Brandão.Relatos de uma experiência pessoal sobre pandemia, ansiedade e acolhimento




Saúde pública é promoção, proteção e recuperação

Relatos de uma experiência pessoal sobre pandemia, ansiedade e acolhimento

Alvaro Brandão

Professor mestre em Linguística Aplicada pelo PPGLL/Ufal

Acordei na terça-feira, dia 7/07, com uma grande indisposição. Uma dor muscular no lado direito das costas, dificuldade de respirar forte e uma leve sensação de febre (pescoço quente e olhos ardendo). Procurei me acalmar e me resignar com o fato de ser mais uma vítima da Covid-19. Mas, então, decidi: não vou me entregar assim facilmente, vou correr atrás o quanto puder. Afinal, com diz o poeta "viver é melhor que sonhar". Na quarta-feira à tarde, ainda com os sintomas, fui até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jacintinho buscar ajuda médica. Sou do proletariado e, bom ou ruim, o SUS é o meu plano de saúde.

Tomei um carro por aplicativo e durante a viagem falei sobre minhas suspeitas e recomendei ao motorista a tomar todos os cuidados durante e depois da corrida (nunca se sabe, né?). Ao entrar na unidade de atendimento já observei certas diferenças no ambiente em relação aos serviços de saúde pública que são oferecidos pelas redes municipais e estaduais. O ambiente climatizado e impecavelmente limpo. Não há porteiro/segurança barrando a entrada de ninguém (esses seguranças ficam na segunda porta de acesso). Primeiro, fui atendido por um técnico de saúde que mediu sua pressão, a temperatura, batimentos cardíacos e faz uma rápida anamnésia dos seus sintomas. Após esse contato inicial, fui encaminhado para fazer o prontuário e em seguida atendido por uma enfermeira que completou a anamnésia da sua situação. Depois disso, o atendimento médico. Depois de uma conversa criteriosa encaminhado para medicação, exames, etc. nessas alturas, o medo de haver contraído o vírus e está com sintomas da doença já tinham sumido.

Bem, para tranquilizar quem chegou até aqui na leitura, o meu diagnóstico: a dor lombar era resultado de uma má postura durante o sono e a febre o sintoma de uma leve infecção urinária. Medicado e de receita na mão voltei pra casa, para seguir vivendo e sonhando. Sem desembolsar um centavo de real.

Em casa, depois de passado o susto tomei a iniciativa de escrever esse depoimento, prestar meu testemunho sobre a importância desse projeto de saúde pública idealizado durante o governo da ex-presidenta Dilma Rousseff. Um projeto que atente criteriosamente tudo o que a Constituição Federal (a partir do Art. 196) de que é dever do Estado, garantir políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Portanto, rico ou pobre valorize o SUS. Se o Word 2010 salva texto, o SUS salva vidas.

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