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sábado, 6 de junho de 2020

Christina Vasconcelos. Uma vida e o ballet



















Uma vida e o ballet
Christina Vasconcelos

Reprodução de material publicado em Campus/O Dia em agosto de 2015

Dois dedos de prosa

Este é o nosso segundo texto sobre o ballet em Alagoas e traz o depoimento de uma pessoa que o vive em profundidade, desde os tempos de sua mãe: Emília Vasconcelos, de quem, na realidade, herda uma escola e a eleva a uma das principais em nossa Maceió.
Ao lado da excelência como escola de ballet, a sua escola devota um projeto à talentos da baixa renda e à pessoas com Síndrome de Down. Pela importância que teve e tem no desenvolvimento do ballet em Alagoas, Campus traz este depoimento e o reparte com seus leitores.
Sávio Almeida

Cristina Vasconcelos, alagoana, diretora do Ballet Emília Vasconcelos. Bailarina, professora e coreógrafa. Iniciou seus estudos e interesse pelo ballet com sua mãe. Fez curso de aperfeiçoamento clássico com os professores Emílio Martins (RJ), Norma Lílian (DF) e Eduardo Sucena (SP). Especialista em sapateado pela Academia do TAP, no Rio de Janeiro e Nino Geovanete, mestre em sapateado.  Aperfeiçoamento em jazz com Carlota Portela, Rio de Janeiro.  Participou de festivais de dança com a Cia. de Ballet Emília Vasconcelos em cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e Campina Grande. Foi responsável por trazer para a academia a remontagem de grandes repertórios do ballet no mundo, como Quebra Nozes, Dom Quixote, Paquita e Copélia. Premiada no Festival de Dança Engidan, no Rio de Janeiro e no Festival de Campina Grande como o melhor Ballet de Alagoas. Professora responsável pela formação de aluna aprovada para fazer parte da Escola Ópera de Paris e por profissionais que atuam no estado de Alagoas atualmente.


Uma vida e o ballet
Christina Vasconcelos

Eu poderia começar esse texto falando sobre minhas experiências no cenário artístico daqui de Alagoas, mas não. Vou começar agradecendo o convite do professor Sávio Almeida, a quem eu admiro muito como ser humano e profissional, para escrever um pouco a respeito das minhas memórias sobre o ballet. Foi um pedido que logo me emocionou, afinal, são 45 anos respirando essa dança que eu teria que colocar em um papel. Falar do ballet é contar uma história de vida que começou na minha infância e me fez despertar para o lado artístico. Sim, o ballet é uma arte e é essa arte que respiro todos os dias da minha vida.

Eu lembro do meu primeiro espetáculo, a minha fantasia, a música e até do frio na barriga que se apoderou de mim quando eu estava para entrar no palco. Tudo isso já não existia mais quando eu comecei a dançar. Poderia ter mil pessoas na plateia, palco ou em qualquer outro canto, mas, para mim, só existiam três coisas: eu, a música e a dança. Tudo parecia um sonho. Subir ao palco, encarar o público e perceber cada melodia da música. Ali era o início do meu despertar como bailarina.

         Foram anos com o ballet em minha rotina. Eu já dançava há muito tempo, já era bailarina avançada, quando, finalmente, comecei a ensinar. Com a notícia que eu iria ser professora, veio a responsabilidade e o dilema entre seguir a minha carreira na área em que me formei ou largar tudo e abraçar o ballet. No início eu tive receio, pois uma professora da universidade me incentivava muito a seguir carreira acadêmica em Literatura. Mas a vocação falou mais alto e o desafio também era algo que me motivava a superar limites e arriscar.


Eu não assumi uma turma simples. Era o babyclass, que estava sendo introduzido pela primeira vez aqui no estado pela minha escola. Ou seja, teria que ensinar àquelas meninas de três anos que o ballet não era apenas uma dança, mas uma responsabilidade que trazia em si disciplina e organização. E o melhor disso tudo é que, junto com elas, eu tive sucesso e fui amadurecendo profissionalmente. E apesar de já ser bailarina experiente, junto com aquelas crianças também crescia uma nova versão minha. Junto com elas desabrochava uma bailarina professora, uma professora bailarina.

         Para minha surpresa, não parou por ali. Os anos foram passando, as responsabilidades foram aumentando junto com as turmas que eu ensinava. Já não era mais só o babyclass. As meninas das turmas intermediárias também eram minhas alunas. As perguntas das alunas também começaram a ficar mais elaboradas. Foi aí que eu senti a necessidade de viajar e fazer cursos de aperfeiçoamento. Era a hora de aprender mais!

         Com o coração ansioso, cheguei ao Rio de Janeiro para fazer aulas na escola de Carlota Portela, importante professora de Jazz, formada pela Academia Internacional de Dança em Paris. Conhecer o trabalho dela de perto era um grande sonho, saber como ela direcionava uma aula, conhecer os tipos de exercícios que ela utilizava no centro, na diagonal. Ela focava muito no jazz americano, que era o que eu desejava seguir.  Foi nesse momento que conheci a minha mais nova paixão. Além de fazer aulas de ballet, frequentei as aulas de jazz também. Nunca saía da escola sem assistir aulas de outras turmas, afinal, era preciso aperfeiçoar os passos e saber corrigir com precisão cada aluna minha.

         Voltando para Maceió eu vi como a escola tinha crescido. A televisão brasileira, através da novela Dancing Days, começava a focar em personagens que faziam dança. Através desse  incentivo, a cultura do ballet foi disseminada, aumentando o interesse das meninas por essa arte.  O número de alunas havia multiplicado de uma forma assustadoramente incrível e eu sentia que era o momento de colocar em prática todo conhecimento adquirido fora do Estado de Alagoas, que, à época, só dispunha de 2 escolas de ballet.

Era a hora de aumentar a responsabilidade mais uma vez. Eu precisava ajudar a minha mãe, que até então ensinava as alunas avançadas a coreografar. Foi então que eu comecei a assumir a coreografia das minhas alunas e vi que coreografar era muito mais que dançar. Era um processo de criação que envolvia muito mais responsabilidade e criatividade. Foi assim que eu descobri um jeito muito peculiar de coreografar, que com o passar do tempo ficou muito simples. Antes de tudo eu preciso me apaixonar pela melodia, para depois inserir os passos técnicos da dança na música. Tudo precisa estar em perfeita harmonia para o bailarino conseguir passar emoção para o público. Essa criação, particularmente, não tem hora e nem momento. Algumas vezes consigo criar em plena aula; outras vezes preciso me isolar para as coisas saírem exatamente como eu quero.


         Em meio a toda essa procura e euforia pelo ballet, vem o susto: o Teatro Deodoro estava fechado para reforma, sendo a única casa de espetáculos em Maceió. Foram períodos críticos para quem necessitava do teatro. Não tinha onde expor todo o trabalho de um ano. Era muito difícil fazer as apresentações em lugares que não ofereciam qualquer condição. Foi aí que veio outra ideia: vamos trazer os nossos grandes mestres do ballet para a nossa escola. Essa ideia funcionou muito bem. As alunas, que até então estavam tristes porque não tinha um local ideal para dançar, foram se empolgando cada vez mais com os novos professores que estavam fazendo “intercâmbio”. Veio a bailarina clássica Norma Lílian, de Brasília; logo depois trouxemos os professores Emílio Martins e Marilda Azevedo, ambos do Rio de Janeiro. Todos profissionais internacionalmente conhecidos na área de dança. Até hoje nós fazemos questão de trazer pessoas de fora para reciclar o conhecimento das meninas e o meu também. Orgulho-me de fazer parte da escola que mais trouxe professores convidados.

         Com a reabertura do Teatro Deodoro, a boa fase voltou. Voltamos também a apresentar os espetáculos anuais, que são um grande estímulo para as bailarinas, que estavam muito motivadas. Com a estabilidade na escola, eu me senti mais tranquila para voltar ao Rio de Janeiro. Dessa vez para realizar outro sonho, onde contei com ajuda de dois profissionais a quem eu sou grata até hoje: professor Emílio Martins e professora Marilda Azevedo. Eles me levaram para a melhor escola de sapateado do Rio, e o resultado foi uma grande identificação com essa modalidade de dança. Tive oportunidade de conhecer Berry, coreógrafo da Rede Globo, com quem fiz várias aulas de sapateado. Como sou muito desligada, não percebi que fazia aula com as Paquitas da Xuxa, precisei da minha irmã para reconhecer as meninas em uma das aulas que ela foi assistir.

Apesar de todas essas novidades, voltar para Maceió foi muito mais fácil. Tinha alguém que precisava de mim: Dudu, o meu primeiro filho. A saudade dele e a vontade de introduzir aulas de sapateado na escola me trouxeram correndo. E, como eu já imaginava, a novidade foi um grande sucesso. A procura pelo sapateado foi maior do que eu imaginava.

         Com o sucesso vem a responsabilidade. Comecei a trabalhar os três horários do dia. Tinha horas que eu achava que não era possível mais ficar em pé. Respirar plié e dormir pensando em tendu todos os dias me deixava exausta, mas ao mesmo tempo eu ficava feliz. Quando eu escutava que a aula havia sido boa, todo o cansaço desaparecia como mágica.

       
  Cada um dos meus alunos sempre foi único. Era um desafio para  mim descobrir cada um deles, suas necessidades, seus medos, seus sonhos. Eu conhecia cada gesto, cada sorriso, cada movimento. Para mim não importava a quantidade de alunos numa sala de aula, mas a conexão que eu procurava estabelecer com cada um, individualmente. O que eu sempre procurei foi passar para eles que o ballet clássico requer empenho diário e dedicação em transformar seu corpo e possibilitar que ele realize movimentos difíceis, que inclusive desafiam a gravidade. Também não podemos esquecer que o ballet é uma arte e, como toda arte, tem o dom de encantar. Cada passo, cada compasso corresponde a uma interpretação, um sentimento e um desempenho artístico.

         Após alguns anos, quando a academia já estava solidificada e eu achava que já estávamos equilibrados, a vida me mostrou o contrário mais uma vez. A academia tinha crescido junto com a quantidade de alunos e só a unidade do Farol já não estava dando conta. Era a hora de amadurecer a ideia de abrir uma filial, só não sabia aonde.

         Depois de muito planejar, em 1996 nasceu o ballet da Ponta Verde. Como o novo assusta, eu fiquei assustada em alguns momentos. Tive aquela insegurança inicial que não durou muito tempo. Com dois anos de história, nossa escola já contava com mais de 300 alunas. Eram várias meninas para administrar, algo que demandava muito tempo do meu dia. Nessa época eu já era esposa, mãe e profissional, o que por muitos anos exigiu muita dedicação e tempo meus.

        
Quando tudo já estava calmo e as minhas crianças já não eram tão crianças assim, eu decidi que precisava ajudar outras pessoas. Foram meses pensando no que eu poderia fazer, até que surgiu a ideia do projeto social no ballet. Nós já tínhamos 3 alunas bolsistas na escola. Acompanhando o desenvolvimento delas pude perceber o quão a dança estava fazendo diferença na vida daquelas crianças. Se antes eu já tinha vontade de desenvolver um projeto social, aquelas alunas me incentivaram ainda mais. Era muito gratificante poder contribuir, de alguma forma, para a realização do sonho de algumas meninas.

         Esse projeto, que foi pioneiro nas escolas particulares da cidade, contou com a parceria da TV Pajuçara, responsável pela divulgação. Inicialmente a ideia era disponibilizar 30 bolsas integrais de estudo no Ballet.  No entanto, no dia da seleção fomos surpreendidos com a imensa procura, o que nos fez aumentar o número de bolsas, fechando em 60 alunos. Fiz a seleção, busquei patrocínio para as fardas do ballet e ministrei as aulas voluntariamente.

Esse novo universo foi um desafio porque, como professora do ballet, até aquele momento, eu nunca havia convivido com uma realidade tão diferente e difícil. Eu passei a não ser apenas professora, mas a ser procurada pelas mães para ajudar algumas crianças que enfrentavam dificuldades escolares; passei a ser procurada por alguns alunos que chegavam para a aula com fome ou com dificuldades financeiras que os impediam de pegar o transporte até o ballet.

Foi um envolvimento emocional que tomou conta de mim e me fez querer buscar novas formas de ajudar aquelas crianças. E foi assim que passamos a direcionar parte do lucro do ballet para investir nesse projeto. Não era justo deixarmos de fazer mais por alunas que estava se dedicando arduamente em prol da dança.  Por isso fomos em busca de parcerias, que em nosso estado era e ainda é muito difícil. Mas nada vence o esforço, por isso conseguimos investir em transporte, médicos e dentistas para essas crianças. E como essas conquistas eram gratificantes para todos nós.

O mundo do ballet poderia ser mais fácil para quem tem uma melhor condição financeira, mas nem por isso ele precisava ser impossível para essas crianças que tinham um sonho, do coração à ponta dos pés. Realizar esse sonho era o nosso maior objetivo. Era necessário e fazia-se urgente diminuir a distância entre essas duas realidades sociais tão distintas. O universo glamouroso da dança parecia tão distante para algumas meninas, que só queriam que alguém acreditasse na intensidade dos seus sonhos.  Nós conseguimos encurtar distâncias sociais; conseguimos quebrar paradigmas e hoje, tantos anos depois do despertar desse sonho, nos sentimos gratificados em saber que ainda existem crianças desse projeto em nossa escola, bem como atuais professoras e bailarinas que foram descobertas através desse projeto social.

Além disso, tive a ideia de criar uma turma específica para crianças portadoras da Síndrome de Down. Inicialmente havia uma dúvida entre montar uma nova turma ou colocá-las nas turmas já existentes. Decidimos criar a turma específica e acompanhar o desenvolvimento das meninas. Foi um desafio para a escola e para mim, como professora. Mas o trabalho que fizemos com essas crianças foi muito gratificante e, após 3 anos, elas já estavam prontas para serem integradas às turmas convencionais. Algumas chegaram, inclusive, a fazer aula de ponta.

 Existe um fato nesse contexto que eu sempre me emociono ao relembrar: havia um hábito meu de sinalizar a entrada dessas crianças no palco, no momento do espetáculo. Um certo dia eu me distraí e não sinalizei para uma aluna. Quando lembrei e fui buscá-la, para surpresa minha ela já estava dançando e na saída me disse: “tia, viu que eu entrei sozinha? Sou uma bailarina”. Isso me emocionou muito. Era a certeza de que havíamos feito um lindo trabalho, quebrando preconceitos e mostrando que a dança é uma arte que está ao alcance de todos e, além de toda a sua beleza, ainda desenvolve o lindo papel de integrar e unir as diferenças.

         Outra coisa que é bom pontuar é a criação da Cia de Dança Emília Vasconcelos. Depois de notar muito empenho e evolução dos alunos, vi que eles mereciam uma atenção maior. Foi aí que a ideia da Cia surgiu. Foi feita uma seleção dos melhores alunos da escola e tentamos dar mais responsabilidades para eles, que seriam o cartão de visita da escola. O grupo selecionado passou a frequentar a escola 3 vezes por semana e a fazerem aula com uma visão mais profissional como, por exemplo, estudo de repertórios clássicos, uma visão mais ampla do que a aula convencional de ballet, noções de sequências de barra, trabalho de alongamento específico e direcionado para profissionais, além do maior compromisso com disciplina e assiduidade. Vale ressaltar que esse grupo não era formado por bailarinos profissionais, ou seja, eles não recebiam nenhum retorno financeiro para fazerem aquilo.

A dedicação era resultado de muito amor pelo ballet. E o que muito me orgulha é saber que conseguimos, com esse pouco tempo de Cia., formar profissionais que atuam em outras escolas de ballet da capital, além de termos conseguido inserir, nessa Cia., alunos do projeto social que ainda permanecem recebendo apoio e patrocínio da escola.  Viajamos muito com a Cia de Dança,  mas o momento mais importante foi receber o prêmio de melhor grupo daqui do estado, já no início da existência dele. De 78 grupos de dança, nossa academia levou para casa três troféus do primeiro Encontro de Ginástica e Dança (Engydança), no Rio de Janeiro. Débilis, Vivaldi e Cansões, que foi um espetáculo criado pelo professor Emílio Martins e montado por mim.

         Durante esses 35 anos que estou à frente da escola, montei diversos espetáculos de dança e posso citar alguns que me deixaram mais emocionada em realizá-los. Retalhos de um Brasil, por exemplo, contou com a presença do coreógrafo Heron Nobre, que estava no auge de sua carreira, contando com várias premiações e convites para festivais. Esse espetáculo retratava a história do Brasil, desde a colonização até os tempos atuais.

Outro espetáculo que me tocou bastante foi Penedos, o último trabalho da Cia.  Foi uma homenagem à professora Vera Romariz. Estudei alguns poemas e coreografei aqueles que mais me tocaram, sempre unindo o poema à música. Penedos é uma obra do ballet moderno, que buscou promover uma experiência de integração entre poesia e dança.

Outros espetáculos que marcaram a minha trajetória foram Vida, A Casinha da Vovó, Divertissent, Celebração, Disney, Peter Pan, Uma Noite em New York, Os Brinquedos Encantados, É hora de brincar, A Fabulosa viagem a Oz, Broadway Tunes, entre outros. Além dos repertórios clássicos como Quebra Nozes, Paquita, Don Quixote e Coppélia.

         Quando eu vejo os meus alunos no palco sentindo o que eu senti lá no começo da minha carreira, é uma resposta de que sim, eu fiz o certo. São vários anos de espetáculos montados, coreografias pensadas, estudadas e elaboradas, muitas vezes exigindo de mim uma dedicação exclusiva, abrindo mão de noites e finais de semana. Ver o teatro lotado é sem dúvida nenhuma a minha recompensa. E não é só a recompensa de um ano de trabalho, mas de toda uma vida voltada para a dança aqui em Alagoas.
        
Hoje, com a maturidade adquirida ao longo do tempo e com a experiência que o ballet me trouxe, fico me perguntando se tudo valeu a pena. A resposta é clara: sim, valeu. Valeu a pena por ter seguido os passos da minha mãe, que me inspirou desde a minha infância; valeu a pena pelos mais de 3 mil alunos que formei e que ajudei a realizar sonhos; valeu a pena por cada espetáculo, por cada criança que subiu ao palco ao longo de todos esses anos; valeu a pena por cada sorriso dos pais, que eram, junto comigo, realizadores daquele sonho. Valeu a pena por tudo que conquistei, mas sobretudo por tudo que ajudei outras pessoas a conquistarem. Quando a gente faz o que ama, a realização supera qualquer parâmetro financeiro. Realização tem muito mais a ver com o legado que deixamos, com as memórias que adquirimos e com as marcas positivas que deixamos em alguém. O ballet foi um divisor de águas na minha vida, foi a realidade transformada em realização pessoal e profissional.

Clébio Correia. A ANTIPANDEMIA DO AXÉ. [Memória da pandemia nas Alagoas]


                                       

A ANTIPANDEMIA DO AXÉ

Prof. Clébio Correia – NEAB/UNEAL


Reza um itan (conto) Nagô que orixá Iku (a morte) não sabia mais onde depositar os corpos de suas vítimas e propôs um pacto à terra, que também reclamava de tudo produzir para os homens sem receber nada em troca. A terra aceitou acolher os corpos humanos tocados pela morte, todavia exigiu que, a partir de então, estes lhes fizessem oferendas de tudo que comem, de forma que os que não cumprissem seriam cobrados por Iku. Este aceitou, mas pediu para incluir no pacto Arun (a doença), sua esposa, pois esta prepararia tudo para que ambos, terra e morte, alcançassem seus propósitos.

Nesse conto há muito da concepção de mundo dos povos de terreiros alagoanos, sobretudo em tempos de pandemia. A doença, sob esse olhar, não é fatalidade ou punição. Ela se apresenta como instrumento de reequilíbrio de um ciclo (o pacto) natural que fora violado, sintetizado na expressão Nagô: “o que a terra dá, a terra come,” pois tudo dela provém e a ela pertence, inclusive o ser humano, humus hominizado. Na verdade, para os povos de matriz africana todos os seres estão interligados, todos são elos de um sistema cósmico antropocêntrico que liga os homens entre si, com a natureza, com as divindades e com os ancestrais, onde todos estão em todos, ou como dizem os bantu, através do termo umbutu: sou porque somos.

Essa ótica não comporta o indivíduo absolutizado. Ao contrário, tudo que compõe o sistema flui alimentado por uma corrente de energia vital, o Axé, que se expande eternamente, em um fluxo constante de trocas, ou seja, de reciprocidades, onde viver significa dar e receber. O acumular, ao romper esse fluxo, gera o desequilíbrio, a perda do Axé que esvai toda a vitalidade, atraindo a morte, pois a vida só é gerada em comunhão. Não há Axé de um só, todo Axé é produzido no compartilhamento, exigindo a presença do Outro, da alteridade.  Por isso mesmo, não há terreiro individual, mas sempre de uma comunidade, uma família de Axé.   

Assim, para os povos de terreiro a pandemia é o sintoma de uma sociedade cuja reprodução se baseia na morte, pois incapaz de produzir Axé. Nela, o ideal de humano foi reduzido ao do indivíduo acumulador, modelo bem sucedido a ser imitado, solitário em suas herméticas residências. Ele de tudo se apropria para consumir até o esgotamento total. O vírus, nada mais é do que a metáfora viva dessa atomização predatória em escala microscópica.  É individualista como o próprio ser que parasita. Para ele não há reciprocidade com o humano, apenas a auto sobrevivência a todo o custo, inclusive da própria vida da qual se alimenta.

O terreiro é a antítese da necrosociedade. Nele tudo é vida porque é oferenda (ebó), é troca, reciprocidade. Não há dicotomização pois, assim como Orixá Exu, o terreiro tudo conecta de forma complementar, bem e mal, vivos e mortos, visível e invisível. Por isso no terreiro não se toma mas se trocam bençãos: mais novos com mais velhos, visíveis com invisíveis, humanos com divindades e vice e versa. Tudo se retroalimenta de todos, numa linguagem distributiva incompreensível ao indivíduo acumulador. O ser do terreiro o é enquanto comunidade em todas as situações e passeia com olhos de estrangeiro no necroterritório pandêmico, pois sua terra é fonte de vida, de fartura, de acolhimento. Invisíveis enclaves na sociedade da escassez e da miséria, os terreiros são terras fecundas onde não se passa fome e sua gente é “povo de barriga cheia”, pois neles tudo começa e termina em comida, em partilha, para que o Axé possa ser multiplicado.

Em sentido inverso, o vírus exige o isolamento social e a pandemia – que não é o vírus, mas a insana forma de sociabilidade que o liberou e que pretende enfrenta-lo em seus próprios termos - estabelece o “salve-se quem puder”, acentua a individualização, estoca-se comida e relativiza-se a vida. Os idosos tornam-se danos residuais. Enquanto isso, os povos de terreiro, antipandemicamente, sacralizam anciãos e anciãs, curvam-se às forças da natureza, aos ancestrais, partilham e oferendam o seu melhor alimento em nome de toda a humanidade. Até da virótica, da qual só recebem preconceito e desprezo.

São dois sistemas opostos e, nessa oposição, a beleza e vitalidade do segundo não pode ser suportada pela pulsão de morte do primeiro que, na impossibilidade de “quebra-lo” permanentemente, opta por silenciar sua existência, na tentativa de sua morte simbólica. Dessa forma, o necroestado continua desconhecendo os povos de terreiros como sujeito de direito. Assim na pandemia como na história, na morte como na vida.

Diaspóricos, os afro-alagoanos reconstituíram nos terreiros suas aldeias ancestrais. Hoje, impossibilitados pelo vírus de nelas habitarem, nem por isso descuidam de pagar tributo a Obaluaye – o senhor da terra – e, generosamente, fazem de seus corpos, isolados fisicamente, o território ancestral onde o Axé é ativado a cada vela e em cada pipoca arriada para limpar o mundo e trazer o humano à plenitude da sua telúrica existência, afinal a terra dá e a terra come.     





sexta-feira, 5 de junho de 2020

Cássio Júnio Ferreira da Silva. POVOS INDÍGENAS E O CONTEXTO DE PANDEMIA. [Memória da pandemia nas Alagoas]



POVOS INDÍGENAS E O CONTEXTO DE PANDEMIA

Cássio Júnio Ferreira da Silva
Xucuru-Kariri e mestrando em antropologia

Colonialismo, Colonialidade e Contaminação

Antes de falarmos sobre os povos indígenas no contexto da pandemia (coronavírus), faz-se necessário pontuar que os povos indígenas lidam com o perigo invisível (contaminação por vírus e outros agentes) desde a invasão do Brasil por europeus. Um dos vírus com maior letalidade entre a população indígena foi a varíola, introduzida no território brasileiro pelos colonizadores.
Na década de 1660, ocorreu uma grande epidemia de ‘bexigas’ (nome popular da varíola) na Amazônia colonial, sobre esse contexto os historiadores Rafael Chambouleyron, Benedito Costa Barbosa, Fernanda Aires Bombardi e Claudia Rocha de Sousa ao dialogarem com escritos do período afirmam que “o ouvidor Maurício de Heriarte relatava igualmente a desolação causada pela doença”. Segundo ele, na ilha de São Luís havia inicialmente 18 “aldeias grandes de índios” de diversas nações; com as bexigas, “se consumiram e ficaram três” (2011, p. 989).
A forma como o vírus da varíola infectou a matou a população indígena impressiona pois em uma única localidade dizimou 15 aldeias, se pensarmos na extensão do território brasileiro podemos projetar um terrível cenário de destruição. Mas a contaminação por esse vírus não ocorreu apenas no Brasil colonial, e muitas vezes foi realizada de forma proposital.
No livro Brasil: uma biografia, as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling ao analisarem o conjunto dos crimes cometidos pela ditadura civil-militar (1964-1985) chegaram à conclusão que “nada se compara aos crimes cometidos pela ditadura contra as populações indígenas” (2015, p. 463). As comprovações desses crimes foram documentadas em um relatório produzido pelo procurador Jader Figueiredo, responsável por coordenar uma comissão de inquérito administrativo responsável por apurar denúncias que incidiam contra o Serviço de Proteção ao Índio – SPI (órgão que antecedeu a Fundação Nacional do Índio – FUNAI).
Jader compilou e classificou os crimes cometidos por invasores de terras indígenas com a cumplicidade do órgão indigenista oficial, de modo que apresenta os seguintes crimes, “assassinatos, prostituição de índias, sevícias, trabalho escravo, apropriação e desvio de recursos do patrimônio indígena” (2015, p. 463), uma das maneiras de se cometer esses assassinatos era através da inoculação do vírus da varíola em povos indígenas em situação de isolamento, mostrando que armas biológicas foram utilizadas contra populações indígenas em períodos recentes da história do Brasil.

O Coronavírus nas aldeias e o descortinar de velhas questões

Desde que os primeiros casos da pandemia de Coronavírus (COVID-19) foram registrados no Brasil, a maior parte das autoridades políticas, através dos parâmetros estabelecidos pelas autoridades medicas e sanitárias, passaram a defender o afastamento social como principal medida preventiva para contingenciar a propagação do vírus. Diversos setores da sociedade civil voltaram seus olhares com preocupação em relação aos povos e comunidades indígenas, de modo a questionar quais medidas poderiam ser tomadas para evitar que a pandemia chegasse a esses territórios.
Como resposta a essa problemática a FUNAI editou a portaria N.º 419 de 17 de março de 2020 que estabelece as medidas de prevenção para se evitar a propagação da pandemia, entre outras questões a portaria proíbe a entrada de não-índios nas Terras Indígenas. Mas não é suficiente estabelecer a proibição legal, se faz necessário garantir os mecanismos de fiscalização para garantir a efetividade dessa medida. É bem verdade que há anos a FUNAI não consegue realizar a proteção das Terras Indígenas devido um agravado estágio de sucateamento do órgão.
No dia 7 de abril de 2020 foi registrado o primeiro caso de Coronavírus entre os Yanomami, tendo um adolescente de 15 anos testado positivo para a COVID-19, sendo a contaminação ocasionada justamente pela inoperância do Estado Brasileiro em realizar a proteção dos territórios indígenas. Segundo o site Survival Brasil, em matéria veiculada em julho de 2019, ao longo dos anos cerca de 10 mil garimpeiros já haviam invadido o território Yanomami, levando doenças e espalhando mercúrio pelos rios.
Mesmo no contexto de pandemia essas invasões não pararam, menos de dois meses após o aparecimento do primeiro caso, o povo Yanomami tem 44 infectados e dois óbitos em decorrência do Coronavírus.
Esse contexto de dificuldade em se efetivar a proteção territorial é recorrente em diversas terras indígenas em todas as regiões do país. Em Alagoas, a pandemia adentrou aos territórios dos povos Kariri-Xokó, Xukuru-Kariri, Karapotó-Plak-ô e Jeripankó, entre esses povos uma das maiores problemáticas é a dificuldade de se garantir a proteção territorial, fator que impossibilita o isolamento voluntario dos grupos no contexto de pandemia.
Na Terra Indígena Xukuru-Kariri localizada em Palmeira dos Índios no agreste alagoano, de onde escrevo esse pequeno texto, existem dois casos confirmados de indígenas contaminados com COVID-19. Esse caso muito provavelmente é subnotificado, pois a SESAI não conta com testes suficientes para realizar uma testagem em massa, procedimento necessário para se ter uma visão detalhada de como a contaminação avança entre os povos.
Outro fator que faz com que os números da SESAI sejam subnotificados é que entram nesses dados oficiais somente indígenas que estão residindo nas terras indígenas, não levando em consideração para as estatísticas os indígenas em contexto urbano, a grande problemática existente nessa orientação do estado brasileiro é que, segundo dados do censo de 2010 do IBGE, aproximadamente um terço da população indígena está em contexto urbano.

Referências

BARROS, Ciro. Operando com 10% do orçamento, Funai abandona postos e coordenações em áreas indígenas. IN: Agência Pública. Disponível em: https://apublica.org/2019/03/operando-com-10-do-orcamento-funai-abandona-postos-e-coordenacoes-em-areas-indigenas/.
CHAMBOULEYRON, Rafael et al. ‘Formidável contágio’: epidemias, trabalho e recrutamento na Amazônia colonial (1660-1750). História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.4, out-dez. 2011, p.987-1004.
FUNAI. Portaria Nº 419/PRES, de 17 de março de 2020. Boletim de Serviço da FUNAI. Brasília, 2020.
PALMEIRA DOS ÍNDIOS. Boletim Epidemiológico de 30 de maio de 2020. Palmeira dos Índios, 2020.
SESAI/MS. Boletim Epidemiológico do polo base Xukuru-Kariri de 03 de junho de 2020. Palmeira dos Índios, 2020.
SESAI/MS. Boletim Epidemiológico de 29 de maio de 2020. Brasília, 2020.
SESAI/MS. Boletim Epidemiológico COVID-19 DSEI AL/SE de 02 de junho de 2020. Maceió, 2020.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
SURVIVAL BRASIL. Milhares de garimpeiros invadem o território Yanomami. Disponível em: https://www.survivalbrasil.org/ultimas-noticias/12162.

Os depoimentos indígenas estão sendo coordenados pelo Professor Dr. Amaro Hélio Leite.

Jeamerson dos Santos. DENTRO DO “NOVO COTIDIANO” EU ME LEVANTO! [Memória da pandemia nas Alagoas]



DENTRO DO  “NOVO COTIDIANO” EU ME LEVANTO!
Jeamerson dos Santos


Mestre em Culturas Populares  –PPGCULT-UFS, Especialista em Arte, Educação e Sociedade, Graduado em Ciências  Sociais com ênfase em Antropologia Cultural,  Cenógrafo. 

É com poema  “Ainda assim eu me levanto, de Maya Angelo[2] que inicio meu relato sobre o novo cotidiano, esse isolamento social. O poema manifesto de 1978 representa muito bem meus anseios nessa pandemia, com a mesma força e necessidade do momento que foi escrito na luta por direitos civis, uma luta contra o racismo! Ele tem a força de nos provocar reflexão e reafirma que apesar da pandemia ainda sim vou continuar de pé:

Ainda assim eu me levanto
Você pode me riscar da História
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.
Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.
Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.
Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh’alma enfraquecida pela solidão?
Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.
Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.
Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?
Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.
Falar de um novo cotidiano sobre a pressão de uma pandemia, a qual para os negros e negras torna-se ainda mais letal, apesar das perspectivais mais humanistas possíveis de aproveitar para pensar novas formas de lidar com o Mundo; imaginar novas formas de percebermo-nos mais coletivos mesmos distantes, quem dera que todos pudéssemos compartilhar dos mesmos desejos! Mas a realidade mostra-nos que tal ideia só contempla a elite branca, que vive sua concepção de democracia racial da varanda de seu apartamento, da segurança de sua casa com seus familiares e amigos. 

Meu cotidiano na pandemia é manter-me em pé! Para me prevenir da Covid19, para denunciar o racismo e todas as facetas neonazistas, revelando a crise do sistema público de saúde como ação de uma política genocida! A pandemia se transforma em uma grande lupa! Revelando tudo aquilo que denunciávamos: o racismo! Presente na função da atual presidência da Fundação Palmares que busca riscar da Historia Zumbi! É o racismo que cega e silencia diante das mortes de negros pela Covid19 e pelas balas “perdidas”. O racismo continua no “novo normal”. Não foi a Covid19 que impediu  George Floyd de respirar! Não foi a Covid19 que matou João Pedro!

É de uma perspectiva racial, que busco ocupar parte do meu tempo atuando nesse enfrentamento da pandemia, e principalmente da política genocida. É dentro do campo digital, nas redes sociais; contrapondo ao “ideário” que estamos todos no mesmo barco, que venho promovendo ou participando de Lives com a temática afro centrada. É muito  notório que as disputas  de narrativas nas  redes  sociais  parte da compreensão  do  indivíduo que a protagoniza,  por tanto  são assuntos, problemas, conflitos que nos atravessam! Mas devemos também agir na ocupação desse espaço de forma ativa, crítica e solidária, compartilhando as discussões (Lives)para que seja um espaço de verberação onde possamos respirar pela Vida ! Pela Liberdade de Viver! De socializar  saberes, afetos e carinhos para aqueles que além de enfrentar o racismo tem que se proteger da Covid19, ou seja devemos pensar nos nossos irmãos e irmãs negras!   

 Nesses dias após receber o convite para escrever sobre meu cotidiano na pandemia, vi um vídeo de uma mulher branca reclamando dos barulhos de bomba e gritos que vinham da rua. Era uma manifestação antifascista atacada pela polícia. O que a incomodava não eram as agressões, balas e gritos. O que a incomodava era que tudo isso atrapalhava a gravação de sua Live(!), e para simbolizar o silenciamento da realidade ela grava o conflito da janela de seu apartamento e põe filtro com borboletas!
 Só uma elite branca pensaria em borboletas para “acalmar” o enfrentamento do  neonazismo! Seu cotidiano favorece seus pensamentos. Não precisam sair de casa para o trabalho! Não ficam preocupados com os filhos, se estão bem ou se estão vivos! O meu novo cotidiano é interagir nas redes sociais com as mesmas preocupações e provocações de sempre!

 A pandemia só revelou o que sabemos! A condição do negro e o racismo estrutural  mostra que até a  “educação ” é utilizada  como estratégia do racismo. Vejamos  como houve toda tentativa de manter o calendário do ENEM, onde todos sabemos que é o futuro da juventude negra e pobre que é alvo! É de conhecimento do Governo o índice de acesso à internet da população negra e pobre, mas até as ultimas chances o governo tentou manter o calendário das provas.

Pensar como podemos nos preparar mais para esse campo de batalha “virtual ” torna-se imperativo para, principalmente, quem tem as condições de ESTAR nesse campo, produzindo Lives. Discussões são muito importantes para que os artistas negros e não negros e antirracistas possam entender o tamanho da responsabilidade que temos. Devemos ocupar as redes sociais com a mesma força e garra que ocupamos as ruas.

 Ao compartilhar um “simples” post com #suspendeENEM ou quando produzimos uma Live falando de nossas lutas, memórias , história, mas particularmente, falar de nosso cotidiano e do cotidiano de nossos irmãos, que estão nessa Guerra sem  “arma digital”,  enfrentando e até dormindo em filas para receber o auxílio emergencial, onde inicialmente a política genocida desejava o valor de 200 reais e diante da mobilização dentro do campo digital Parlamentares propuseram o valor de 600 reais, parlamentares  em sua maioria de Esquerda!  Agora imaginem  se fosse todos  negros!  Iriam entender  que o salário mínimo não dar para uma família VIVER em condições  dignas!  Imagine SOBREVIVER diante de uma pandemia!

As redes sociais levam para o campo digital a condição do sistema racista da desigualdade. Nem todos os negros têm acesso  a esse novo “cotidiano digital”. Entender isso me faz pensar em várias problemáticas que ainda temos, como, por exemplo, representações políticas suficientes que entendam a necessidade de SALVAR VIDAS PRETAS! É dentro desse campo virtual, do novo cotidiano que eu me levanto! Contra política genocida eu me  levanto ! Contra  o racismo eu me levanto ! Contra o fascismo eu me levanto! Pelas vidas negras eu me levanto!   



[2] Militante  do movimento por direitos civis norte-americano, Escritora, Poetisa e Artista.

A. Sérgio Barroso.No tempo da morte. [Memória da pandemia nas Alagoas]


No tempo da morte
A. Sérgio Barroso

Médico, doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Campinas
(Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB e diretor da Fundação Maurício
Grabois (FMG)

“O Cólera vai chegar em Alagoas somente em novembro de 1855. (...) não se teria
a construção do novo cemitério na velocidade necessária e [o vice-presidente da
Província] determina, então, a construção de um provisório. (...) É como se a morte
estivesse rondando para assumir o tempo e comandar a vida” (Alagoas, nos
tempos do cólera, L. Sávio de Almeida, 1996) [1]

As imensas interrogações que assomam hoje se remetem ao quadro dramático
aberto com a nova pandemia, num misto de perplexidade não só quanto as
dimensões do fenômeno em si; mais ainda quanto ao que nos reserva o day
after dessa inaudita combinação das múltiplas causas envoltas na tormenta.
Como se não as tivesse havido antes, ainda que prospecções futurísticas sobre
grandes tragédias sejam rotineiramente abertas ao fazer humano.

É do historiador britânico Eric Hobsbawm [2] a ideia de que toda a previsão
sobre o mundo real se assenta, em grande medida, em algum tipo de
inferência sobre o futuro a partir daquilo que aconteceu no passado, ou seja, a
partir da história concreta. E – definitivamente - não para os axiomas
silogísticos de Aristóteles, para quem um escravo era um escravo por ter alma
de escravo, e por isso mesmo não possuiria a parte dela elaborativa da ciência
e da filosofia – ou do sentido e da finalidade das coisas. [3]

História e epidemias

Conclui Jared Diamond, em seu deveras elogiado “Armas, germes e aço. Os
destinos das sociedades humanas” [4] que são similares as dificuldades
encontradas por climatologistas, biólogos da evolução, astrônomos geólogos e
paleontólogos, daquelas dos historiadores, para captarem as “relações de
causa e efeito” verificadas (ou não) nas sociedades humanas. Em suas vastas
pesquisas, as razões histórico-naturais mais profundas da condição humana e
das determinações sócio-antropológicas.

A exemplo, no capítulo 3 apresentam-se os sucessivos confrontos entre os
povos de diferentes continentes, identificando os elos estruturais que
levaram as conquistas europeias de sociedades nativas americanas. Entre os
fatores causais (e casuais) encontraram-se germes de origem espanhola,
cavalos, cultura, organização política e tecnologia, notadamente navios e
armas. Diamond vasculha uma sequência onde as epidemias são
indissociáveis de transformações históricas originárias, digamos. Ou
determinações categoriais.

Noutra angular, animais domesticados [5] transmitiram germes aos humanos,
simultaneamente produzindo vacinas naturais contra o contágio neles. E
disseminaram, perseguindo novos territórios, carregando seus germes, como
aconteceu com Cortés, em 1519, em que nada sabia então levar a varíola para
os astecas. De modo semelhante o mesmo ocorre com Pizarro, em 1531,
levando-a aos Incas e, então, contribuindo para dizimá-los. (Diamond, idem,
pp.75-78).

Geografia, botânica, a zoologia, a arqueologia e epidemiologia, levam Diamond
a ver a diversidade humana como resultado de processo histórico,
argumentando que a história seguiu rumos diferentes para os diferentes povos,
especialmente devido às diferenças entre ambientes e não às diferenças
biológicas. Ele conclui que a dominação de determinada população sobre outra
tem fundamentos militares (armas), tecnológicos (aço) ou nas doenças
epidêmicas (germes), que dizimaram sociedades de caçadores e coletores,
assegurando conquistas.

A propagação do sofrimento

Conta o turco  Orhan Pamuk, [6] que “Um Diário do Ano da Peste”, de Daniel
Defoe, seria a mais esclarecedora obra literária já escrita sobre contágio e
comportamento humano. Reproduz Pamuk: em 1664, as autoridades locais em
alguns bairros de Londres camuflaram o número de mortes para reduzir o
tamanho da praga, trocando-as por outras doenças, assim inventadas como
causa da morte. Além, o romance de Defoe desvela haver por trás de imensa
“existe também uma raiva contra o destino”, contra uma divindade testemunha
“e [que] talvez até tolere toda essa morte e sofrimento humano”.

Noutro romance, “I Promessi Sposi” (“Os noivos”, 1827), Alessandro Manzoni -
“talvez”, continua o escritor turco, o romance mais realista escrito sobre um
surto de peste – denuncia que esta se espalhara rapidamente porque as
insuficientes restrições ao alastramento da epidemia e a aplicação frouxa das
medidas não convenceram os cidadãos de Milão, a partir de seu governador. A
população se revoltara contra a comemoração de um aniversário dum príncipe,
apesar das evidências da ameaça da praga. Manzoni declarara apoio ao povo.
No universo das comunidades mulçumanos – relata Pamuk -, só partir da
década de 1850, quando viagens de barco a vapor ficaram mais baratas, os
peregrinos indo às terras santas de Meca e Medina “tornaram-se os mais
prolíficos transportadores e propagadores de doenças infecciosas do mundo”. [7]

“Vá p’ra casa da peste! ” – E a ilusão de Pamuk

Em 1855, casualidade ou não, Alagoas, no Nordeste brasileiro recebera uma
epidemia do Cólera, via por Sergipe, mas saído da Bahia. A Junta de Higiene
Pública da Bahia, já experimentada no combate enviou à Província quais as
providências a serem tomadas, no começo do dezembro do ano aludido. Todo
o estado então contava com 22 médicos, 14 acadêmicos, 3 cirurgiões e 4
farmacêuticos.

Naquele ano, o Presidente da Província Antônio Coelho de Sá e Albuquerque
lamentava à Corte:

“Não tenho ainda médicos para enviar a muitas localidades, não tenho
padres(...), não tenho medicamentos em quantidade que possam
satisfazer... (Apud: Almeida, idem p.29).

O fatídico é que entre 1855 e 1862 a Cólera matou milhares de alagoanos,
numa população de pouco mais de duzentas mil pessoas. E a presença dos
surtos epidêmicos não altera o drama sócio-político perscrutado por Almeida,
bem depois, na década de 1990. [8] Epidemias marcadas pelos registros
culturais definitivos encontrados na sociabilidade regional: a dor da morte, o
sofrimento, o horror.

A tradição nos diz que todas as epidemias e todas as suas dores estão
no prosaico xingamento, no ato trivial das pragas e das maldições nos
pequenos discursos em que se manda a vida para a maldição: ‘Vá p'rá
casa da peste!’ E que identificamos a casa da peste como o lugar do
horror social e este é um endereço alagoanamente conhecido". (Almeida,
idem, p. 79).

Assim, nessa aparentemente interminável jornada de atemporalidade da morte,
o literata turco Orhan Pamuk, cujo descortino, vendo hoje seu país, crê num
mundo melhor a surgir após esta pandemia; e, encerrando seu artigo: portanto,
todos “devemos abraçar e nutrir os sentimentos de humildade e solidariedade
gerados pelo momento atual”.

Pamuk, também um crítico das tragédias desse capitalismo contemporâneo,
abatido, transpira aqui ilusionismo. Na Turquia, no Brasil e em qualquer que
seja outro lugar da periferia subdesenvolvida fervilharão desgraças, fome e
mais desigualdades após a destruição pandêmica por sobre nova crise
sistêmica. Ou basta Pamuk mirar o que ocorre – e ocorrerá - nos EUA!
Mais certeira é a metáfora de Almeida, ao grafar no ‘oferecimento’ e abertura
de seu livro: “(...) somos uma sociedade que sabe onde é a casa da peste, o
grande lugar dos horrores cívicos” (p. 29). Ou bem porque “A doença de um
indivíduo rico nunca poderá ser considerada idêntica como a de um pobre” (p.
85).

Ora, não há como desencarcerar os “horrores cívicos” de sociedades da
história dum tempo de morte. E esquecer que essa história pode se repetir:
uma vez como tragédia, outra como farsa (Marx).

NOTAS
[1] Ver: “Alagoas nos tempos de cólera”, Luiz Sávio de Almeida, Maceió, CBA,
2018, pp, 32-3, 2ª edição. Estudo percuciente e meticuloso de história,
socióloga e antropologia, as 395 notas albergam pesquisas de inúmeras fontes
primárias e regionais, além de bibliografia clássica (Marx, Ladurie, Le Goff,
Heller). O elogioso Prefácio (1ª edição) é de Manuel Correa de Andrade.

[2] Ver: “A história e a previsão do futuro”, E. Hobsbawm, em: “Sobre História”,
São Paulo, Companhia das Bolso, 2014, pp. 62-66.
[3] Ver: “Aristóteles”, São Paulo, Nova Cutural, 199, p. 17-20.
[4] Rio de Janeiro, Record, 2010, 12ª edição; Prêmio Pulitzer.
[5] Sabe-se que atual pandemia do Coronavírus 19 teve origem na cidade de
Wuhan, na China cujo governo, até agora, não refuta a possibilidade da
transmissão da virose através de animais selvagens (morcegos etc.).
Comunicado do Ministério da Agricultura da China, em maio de 2020: “No que
diz respeito aos cães, tanto o progresso da civilização humana como a
preocupação pública, além do amor pela proteção dos animais, eles passaram
a ser tratados de forma especial para se tornarem animais companheiros. Além
disso, internacionalmente não são considerados animais para consumo, e não
serão regulamentados como animais para consumo na China. Aqui:
https://extra.globo.com/noticias/mundo/governo-chines-proibe-consumo-de-
caes-gatos-em-todo-pais-24362374.html
[6] Artigo publicado no “The New York Times”; aqui:
https://www.nytimes.com/2020/04/23/opinion/sunday/coronavirus-orhan-
pamuk.html?auth=login-google1tap&login=google1tap (“O que os grandes
romances pandêmicos nos ensinam”). Pamuk foi prêmio Nobel de Literatura
(2006), após “O castelo branco”, “Meu nome é vermelho”, “O Livro negro” etc.,
esses traduzidos no Brasil pela Companhia das Letras.
[7] Pamuk lembra ainda o registro do quando da propagação da praga em
Atenas, Tucídides começou por notar que o surto tinha começado muito longe,
na Etiópia e no Egito.
[8] Ver aqui o registro no jornal Folha de S. Paulo (“Exército ajudará a conter a
cólera em Alagoas”):
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/4/03/cotidiano/51.html#:~:text=Uma%20
pessoa%20morreu%20contaminada%20com,casos%20da%20doen%C3%A7a
%20mo%20Estado.

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