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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Adriana Vilela Toledo. Pandemia: nuances do coronavírus. Memória da Pandemia nas Alagoas


Pandemia: nuances do coronavírus 

Adriana Vilela Toledo

Pedagoga, especialista em Administração Pública e Pedagogia Empresarial Presidente Municipal do PSDB Mulher de Maceió

Chegamos à infeliz marca de mais de 31 mil mortes no Brasil. São mais de 31 mil famílias que perdem seus entes, que sofrem, que derramam lágrimas em consequência do coronavírus. Uma pandemia implacável e ainda pouco conhecida, mesmo após seis meses do seu aparecimento.

Em janeiro de 2020, as autoridades chinesas confirmaram que haviam identificado um novo tipo de coronavírus, responsável por causar a doença COVID-19, tendo como foco a cidade de Wuhan, província de Hubei, na China. Uma perplexidade para a população do mundo inteiro, ao mesmo tempo, misturado a uma incredulidade da força e letalidade do vírus. 

A Organização Mundial da Saúde ainda tentava entender mais sobre o novo coronavírus, como ele afetava os doentes, seu tratamento e o que os países poderiam fazer para combatê-lo. A falta de informação e de dados que pudessem ajudar a nesse entendimento e no que estava acontecendo, deixou a todos em estado de alerta. Quais medidas tomar, o que fazer para prevenir em cidades, estados e países? 

E fomos assistindo pelo noticiário e redes sociais o vírus rompendo as fronteiras da Ásia e chegando a Europa e fazendo da Itália seu primeiro epicentro. Enquanto a preocupação tomava conta da maioria dos governantes e o medo de ser infectado crescia entre as pessoas, no Brasil houve uma certa resistência da Presidência da República em admitir a gravidade da situação.

 Assim, diante da rapidez com a qual a vírus se espalhou pelos cinco continentes e número crescente de casos confirmados, entramos no período de isolamento social e com ele todas as incertezas, angústias, ansiedade vieram juntos. Já não era mais uma doença do outro lado do mundo, estava no Brasil, estava ao nosso lado. Assistimos às entrevistas do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, explicando o comportamento do vírus nos brasileiros, ouvimos casos de conhecidos, amigos, até que as histórias chegaram dentro do nosso ambiente familiar.

O quadro ainda é desolador, com número de óbitos batendo recordes diários, ocupação de leitos chegando a sua capacidade máxima, o drama de conseguir respiradores para atendimento no Sistema Único de Saúde. Existe também uma demanda por maior número de médicos e enfermeiros, que têm enfrentado essa crise total dedicação e profissionalismo, pondo suas próprias vidas em risco para salvar outras. 

Além da crise na saúde, estamos vivendo outras consequências do isolamento social, atingindo em cheio a economia. O vírus, ao contrário do que se afirmou, não afeta a todos igualmente. As famílias mais vulneráveis, que moram nas periferias, não têm acesso a água potável, não possuem saneamento básico nas suas casas e precisam sair de suas casas para buscar o sustento ou passam fome, essas estão em um cenário muito pior. São pessoas que têm optar por arriscar se contaminar pelo vírus ou colocar comida na mesa. E quem pode amenizar essa situação, no caso governo federal, prefere passar os dias pensando em qual polêmica entrar do que acelerar pagamento do auxílio emergencial, fazer repasse de recursos aos Estados e municípios, melhorar a qualidade e eficiência da saúde pública. 

Como se não bastasse a longa e exaustiva batalha contra a Covid-19, ainda temos, do outro lado, que lutar contra o obscurantismo e desinformação, inflados por uma ideologia conservadora e negacionista, que escolhe a desobediência em meio a pandemia. Grupos que se aglomeram, fazem festas em suas casas e desde o início se juntam em atos autoritários e antidemocráticos nas ruas. Isso não serve mais no século em que estamos.

O que vai vencer o vírus, o que nos dará respostas e soluções será a ciência, a tecnologia, com investimentos no trabalho realizado na saúde. Os números de todos os países mostram que as diretrizes do OMS, de isolamento, de tratamento, de cuidados de prevenção, ajudam a conter o avanço do corona, e para isso os governos devem fornecer o necessário para quem não tem condições de ficar em sua casa. A grande maioria já está lutando junta, mas precisamos que todos façam parte desse combate.


Projeto Memória da Pandemia nas Alagoas

Coordenação
Luiz Sávio de Almeida e José Carlos Silva de Lima
O blog pode concordar ou não, em parte e no todo, com a matéria publicada
Nosso objetivo é deixar um painel diversificado sobre a pandemia nas Alagoas

Ábia Marpin. A rede afroalagoana: as luzes para uma face no escuro Parte 1: A invenção de Palmares





Dois dedos de prosa
 Texto de 2015

Ábia Marpin faz uma bela reflexão sobre as discussões e ações recentes com relação aos Palmares, dando-nos uma adaptação de dissertação que apresentou como parte da obtenção do grau de mestre em sociologia pela Universidade Federal de Alagoas.
Ela retorna à questão dos Palmares, demonstrando o quanto se tem de discutir não somente com relação à história, mas especialmente pelo seu significado atualizado.
Os seus artigos serão publicados em três números de Campus e, assim, esperamos estar cumprindo o nosso objetivo que é o de divulgar reflexões sobre Alagoas.
Agradecemos mesmo à Ábia, especialmente por sabermos do esforço que é realizar um doutorado sério.
Vamos à leitura!
Sávio

 Este texto foi publicado em Campus/O Dia e julho de 2015

Ábia Marpin (referência em 2015)

Hoje pesquisadora, doutoranda do IESP/UERJ, mestre em Sociologia e jornalista pela Ufal, pesquisa as relações raciais em Alagoas, em especial no potencial político das expressividades negras em Alagoas; também atuou em assessoria de comunicação e produção cultural, sendo uma das fundadoras do grupo percussivo Coletivo AfroCaeté e uma das idealizadoras do projeto Batuquerê, que une música e cultura popular para a formação cidadã de crianças e jovens.

A rede afroalagoana: as luzes para uma face no escuro
Parte 1: A invenção de Palmares
           
O texto que segue é parte de uma pesquisa defendida em minha dissertação de mestrado, no último fevereiro no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Alagoas (PPGS/UFAL). A dissertação, intitulada Luzes para uma face no escuro: a emergência de uma rede de valorização da expressividade afroalagoana, trata de um processo recente de abertura de espaços públicos legítimos para a uma série de expressões – mormente mas não só culturais – integrantes do universo simbólico do negro em Alagoas.
Marcada por uma série de massacres com as populações não-brancas, a história de Alagoas é uma das vias para se compreender a censura tácita e cruel, quando não a desqualificação, com qualquer elemento negro no cotidiano alagoano. Frente a este passado, apoiada por uma organização política dos movimentos negros, ganha vulto a interação entre diversos grupos e agentes que teceu uma rede que tem dado sustentação para a questão negra local. Assim, mesmo que de forma proporcionalmente tímida, tiramos do escuro de histórias mal contadas a contribuição e o sofrimento do povo negro alagoano.
Esta rede, a rede afroalagoana, intensifica suas conexões notadamente a partir dos anos 2000, mas tem raízes em uma trajetória de luta anterior, aqui invocada a partir do processo de tombamento da Serra da Barriga, no início da década de 1980. Esta trajetória da ressignificação e dos novos usos socais da memória dos elementos do universo simbólico do negro em Alagoas, estão divididos em três fases, aqui referenciadas como três momentos de invenção de tradições (HOBSBAWM, 1997), respectivamente: A invenção de Palmares, A invenção de Zumbi e A invenção do Quebra de 1912. Tais momentos são interpretados como marcos e argumentos mobilizadores para os eventos e agentes da rede afroalagoana.
Não só, mas principalmente, a partir do manejo do valor simbólico da memória destes três elementos histórico de Alagoas, é que emergiu o que aqui se diz rede de valorização da expressividade afroalagoana.  Pois, a invenção ou reinvenção é parte dos usos que se faz do passado e da memória – e de suas narrativas –, que são objeto de lutas e disputas semânticas, conceituais, políticas e culturais.

Com o termo a invenção de Palmares, faz se referência ao momento histórico entre a década de 1980 e meados da década de 1990, onde se mobilizou um conjunto ações para a ressignificação do território onde hoje se localiza o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, e onde, segundo evidências, se localizou o maior quilombo da América portuguesa.
Segundo alguns historiadores, como é o caso de Dirceu Lindoso, Palmares ainda é um fato mal compreendido pelo pensamento social brasileiro, pois, mais que agrupamentos sociais alternativos ao regime escravista das plantations, significou uma organização social pluri étnica (“porque a escravidão brasileira foi formada de uma pluralidade de etnias negro-africanas”), e pluri genética (“com a contribuição de outras etnias não-negro-africanas, como as de brancos pobres e mestiços e de índios”) (LINDOSO, 2007: 28), com vistas a criar uma nação, a nação quilombola: “O que se pensou ali não foi só em fugir, mas em criar. E criar o que? A permanência do estado de liberdade com autonomia, como depois os escravos do Haiti fizeram. [...] Pois o que se tentou no Quilombo dos Palmares foi mais que criar um estado de alforria por conta própria, foi criar um estado de nação”. (LINDOSO, 2007: 18-9)
Esta confusão, fruto – como destaca o autor – de preconceitos historiográficos, deu margens para que houvesse uma tentativa de ressignificar o fato histórico, e nesta ressignificação, ocorre o que aqui identifica-se como invenção de tradições.
Tal tentativa de ressignificação, se formalizou no 1º Encontro Nacional do Parque Histórico do Quilombo de Zumbi dos Palmares, que ocorreu em Maceió, no Auditório Guedes de Miranda, no dia 26 de agosto de 1980. O evento foi o resultado de esforços coordenados entre o Projeto Rondon, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Empresa Alagoana de Turismo (EMATUR), a Coordenadoria de Extensão Cultural da UFAL e a Prefeitura de União dos Palmares. Houve ainda a participação de representantes de outras universidades do país, de militantes e entidades culturais ligados ao movimento social negro nacional e daqueles que viriam a ser os primeiros representantes do movimento social negro – oficial e na acepção republicana do termo – em Alagoas.
Após o Encontro, o projeto da ressignificação do espaço da Serra da Barriga, inicialmente chamado Projeto Zumbi, aglutinou outros interessados, como a sociedade civil negra organizada, a UFAL, a Prefeitura de Maceió, o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) e o governo do Estado de Alagoas.
A solicitação do tombamento foi assinada por figuras públicas de todo Brasil, entre professores, líderes comunitários, instituições religiosas e instituições de ensino superior. A articulação do movimento negro contou com a atuação de representantes em cargos públicos como Olympio Serra, pesquisador na Fundação Nacional Pró-Memória, Carlos Moura, primeiro titular da Assessoria de Assuntos da Cultura Afro-Brasileira, do então recém-criado Ministério da Cultura (MinC), e Abdias Nascimento, criador do Teatro Experimental do Negro (TEN) e então Deputado Federal.
A proposta de tombamento chegou ao Conselho consultivo do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), no ano de 1982, como um dos primeiros pedidos de tombamento de bens representativos da cultura negra brasileira, aprovado em 1985. E se institucionaliza com a publicação do Decreto nº 95.855, de 21 de Março de 1988, que declara a Serra da Barriga como Monumento Nacional. Sob a prerrogativa de sua gestão, foi criada ainda a Fundação Cultural Palmares em agosto de 1988, vinculada ao MinC.
Além do que, este movimento de ressignificação da memória do Quilombo dos Palmares não se restringiu ao território da Serra da Barriga, tendo se espalhado por discussões em todo território nacional e, ainda em 1990, resultou na criação do Memorial Zumbi dos Palmares, em Volta Redonda (RJ).
O Parque Memorial Quilombo dos Palmares foi implantado em 2007, no alto da Serra da Barriga e pretende recriar o ambiente do mais duradouro e resistente quilombo das Américas, sendo o primeiro e único parque temático sobre a cultura negra do País.
Este processo de ressignificação territorial encontrou viabilidade na mudança de paradigma na política pública nacional tanto para a compreensão da identidade nacional, como das estratégias de preservação da memória por meio dos patrimônios materiais e – a partir de então também – imateriais da sociedade brasileira. Além desta mudança no paradigma da identidade nacional, a produção de relatórios por pesquisadores e intelectuais que atestassem a legitimidade da intervenção estatal subsidiou tais demandas, como ratifica as investigações de Rosa Lucia Lima da Silva Correia (2014).
A partir do relato de Zezito Araújo é possível identificar como o ideal de ressignificar o território da Serra da Barriga não estava uniformizado, todavia, na medida que seu argumento mobilizava mais agentes, mais ele ganhava em ambiência, penetração e legitimidade:
E eu fiquei recuado lá no final do auditório. [...] E o Abdias Nascimento fez a seguinte indagação: "Professor João Azevedo [então reitor da UFAL], como é que você faz um evento desse aqui em Alagoas, e não convida os professores negros da universidade? Não tem professor negro nessa universidade não?". Eu nunca esqueci dessa fala. Claro, ele não falou isso de forma crítica, mas em tom de brincadeira. E o professor João Azevedo percebeu que eu estava lá atrás e disse: "Tem sim, olhe o professor Zezito ali. Foi contratado agora no começo do ano. Zezito, venha pra cá pra mesa". Veja, eu não tinha a mínima experiência, nenhuma relação com a temática, com Zumbi, eu não sabia do que se tratava. Mas eu, evidentemente, tava lá e fui, compus aquela mesa.
Várias vistorias e marcações foram feitas especialmente pela UFAL e pelo Instituto de Terras de Alagoas (ITERAL). Em relação à UFAL, estas ações se concentraram sob os auspícios da criação do Centro de Estudos Afro-Brasileiros (CEAB), instalado na casa do poeta palmarino Jorge de Lima. Este trabalho resultou num relatório publicado em 1985, com o título Serra da Barriga: exposição de motivos para o tombamento[1].
Zezito Araújo foi um dos coordenadores do processo de demanda e efetivação do tombamento da Serra da Barriga em Alagoas e dirigiu o CEAB – transformado em Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, o NEAB – entre 1983 a 1991, após dois anos de gestão de Décio Freitas.
Além disso, e talvez principalmente, este estímulo externo a negros alagoanos para considerar e participar do processo da inclusão do sujeito negro na história nacional, deu bases para a criação do interesse e a fundação do movimento social negro no estado.
Houve um tenso processo para instituição do Memorial Zumbi, com múltiplos interesses envolvidos neste processo. Além de tensões institucionais sobre o potencial do tombamento da Serra da Barriga, seja como possibilidade de incremento no turismo étnico para Alagoas, seja como possibilidade de empoderamento do espaço pelo movimento social negro, ou ainda como possibilidade de aprofundamento do vínculo da cultura negra com a identidade nacional, há ainda as tensões com os moradores da Serra. As pesquisas de Rosa Lucia Lima da Silva Correia sobre a relação dos atuais moradores da Serra da Barriga com o processo de tombamento do local, apontam para estas tensões. Segundo ela, “A população da Serra da Barriga não é remanescente do antigo Quilombo dos Palmares e suas necessidades não se identificam com as prioridades do projeto governamental e nem com o ideal do movimento negro para a área.” (CORREIA, 2007: 94).
A conclusão a que sua pesquisa chega, avalia tais tensões enquanto fruto de uma tentativa de recriar o significado social de um território sob o qual estão em fluxo interesses concorrentes. A ialorixá Mãe Neide Oyá d'Oxum destaca tensões também sociopolíticas em União dos Palmares: “a gente precisa dar a União a cara de uma cidade remanescente, de uma cidade de resistência, de uma cidade afro-brasileira. Que não parece, parece uma cidade de coronéis mesmo. [...] Precisa ser o ano inteiro, não só na semana do 20 de novembro”.
A polifonia alcança inclusive os intelectuais partidários da ressignificação da história negra no Brasil. O historiador alagoano, Sávio de Almeida, mesmo que concorde com o tombamento da Serra, é crítico tenaz do apelo comercial do tratamento turístico dado ao espaço, que na construção do parque sobre a área original tratou de forma imprudente os indícios que legitimariam sua continuidade com a ocupação da Serra da Barriga pelo Quilombo dos Palmares.
Com estas observações, avançamos de uma interpretação imediata do gesto de (re)apropriação da Serra da Barriga pelo movimento social negro como um projeto político de ressignificação de um espaço com vistas a saldar uma dívida com o vulto histórico da Guerra dos Palmares e com a reinterpretação do fato e de seus heróis, para um movimento analítico que leva em consideração a concorrência de vários interesses, uma característica da invenção de tradições. Ao cristalizar o significado do território e de seu espaço social, a Serra da Barriga se transforma em uma tradição inventada, um instrumento para consolidar um novo projeto de identidade nacional.
A partir desta mobilização que se estrutura a partir do 1º Encontro Nacional do Parque Histórico do Quilombo de Zumbi dos Palmares, a memória do quilombo e da resistência e do massacre dos Palmares passa a ser incorporado como elemento-chave da mobilização do movimento negro em todo país, mas especialmente na organização das ações da militância e valorização da expressividade negra em Alagoas.
Este momento também inaugurou visitas sistemáticas de militantes e ativistas negros à Serra, com a utilização do espaço com atividades culturais alusivas à expressividade negra, ou ao que se entendia como tal.  Segundo Zezito Araújo, a época integrante do Memorial Zumbi e um dos coordenadores das programações artísticas das visitas à Serra, a “ausência de atividade cultural negra em Alagoas” abriu espaço para o folclore alagoano – em muitos momentos um refúgio para a expressividade da cultura negra –, e para a produção cultural da Bahia, onde o valor negro já possuía legitimidade.
No entanto, tempos depois, o próprio Zezito faz uma ressalva quanto a esta ausência, e a analisa hoje enquanto um sinal da falta de vínculo do movimento social negro com estas  expressividades:
Nós não tínhamos vínculo com o movimento cultural, mas isso não quer dizer que ele não existia. Nós tínhamos um grande pintor – ele não participava do movimento mas ele tinha uma produção cultural efetiva – que era o Mestre Zumba, um dos maiores pintores negros do estado de Alagoas. Nós tínhamos o trabalho do  pessoal dos terreiros. Nós tínhamos até dentro do movimento pessoas do candomblé, mas a gente não conseguia fazer um link com isso – coisa que posteriormente nós conseguimos fazer. Quem era um elo direto que nós tínhamos com o cultural? Porque inclusive esse elo direto que nós tínhamos nos deu uma visibilidade e que hoje desapareceu. Foram as escolas de samba.
Articulando a legitimidade que o valor do Quilombo dos Palmares alcança com a invenção de uma tradição nacional a partir dele, Edson Bezerra, em seu blog Negros, canais, lagoas e outras imagens periféricas, traça um paralelo entre as comunidades culturais dos bairros periféricos e a quilombagem. Sua análise, aponta, não por coincidência, para o Quilombo dos Palmares enquanto tradição inventada (BEZERRA, 2010). Trazendo, a reboque, mais indícios da fusão dos caracteres da expressividade afroalagoana no folclore e na cultura popular local.
Os primeiros grupos a ocupar a serra eram compostos de um lado por militantes, e de outro por grupos culturais, sendo a maioria de capoeiristas locais. A capoeira é uma expressão da afroalagoanidade basilar para a rede afroalagoana. Mesmo que hoje seu status de esporte a desvincule parcialmente dos centros de culto de religiosidades de matriz africana, ela é uma das responsáveis para a inclusão da cultura na prática dos terreiros.
O processo de ocupação contemporânea da Serra da Barriga, em especial das tensões com sua apropriação como um marco para a história nacional, faz com que outros estados onde a cultura negra tem mais legitimidade e poder simbólico disputem a condução das atividades, muitas vezes ignorando a atuação dos movimentos sociais e culturais negros de Alagoas. O que fica claro na fala de Mãe Neide Oyá d'Oxum:
A exemplo do 20 de novembro do ano passado, há quanto tempo… você nasceu que ano? 84? Pois é. Há quanto tempo a gente sobe aquela Serra da Barriga? [Desde] Quando só tinha a casa de alguns moradores. Quando num tinha nem uma barraquinha pra você dizer assim “você tem um lugar pra você descansar o sol da sua cabeça”. Porque parecia que a Serra não era nossa! Que nós não éramos os anfitriões da casa.
Com a emergência da rede afroalagoana, os agentes locais obtiveram subsídios para reclamar sua participação mais ativa na ocupação da Serra da Barriga durante as festividades do Dia da Consciência Negra. Estes agentes, por meio de articulações em conjunto, disputam politicamente um novo modelo de atuação e o empoderamento do território e de seu novo significado social. É nesse sentido que foi realizada, em 30 de maio de 2014, uma reunião com a representação regional de Alagoas da Fundação Cultural Palmares, entidade gestora das atividades na Serra da Barriga, e o deputado federal por Alagoas, Paulo Fernando dos Santos, o Paulão, convocada por militantes da Articulação pela Cultura Popular e Afro Alagoana e, aqui, agentes da rede afroalagoana.
Um dos membros da Articulação, Rogério Dyas, diz: “Ela veio construindo uma agenda que identifica a cidade de Maceió com a cultura negra. Que identificação é essa? Dentre várias tentativas nossas, duas ações se concretizaram com muita força, que foi o Agosto Popular e a Festa das Águas. […] Pra gente é fundamental que a gente marque a cidade com esse símbolo estético da cultura negra.”
Segundo outro representante, Christiano Barros Marinho, “Um dos pontos de pauta para essa reunião seria a relação dos grupos culturais com a Fundação Palmares. A gente precisa fortalecer a Fundação Palmares local, para que os grupos locais tenham força, e os grupos locais precisam ter acesso à presidência da Fundação Cultural Palmares nacional, principalmente no que diz respeito as festividades do dia 20 de novembro. [...] Entre os campos de atuação da Palmares está a preservação e o cuidado a grupos culturais, e é razoável que se tenha relações mais próximas com grupos culturais alagoanos.”
Esta necessidade de afirmar o vínculo original é algo que nos aponta para a emergência da rede afroalagoana, pois a afroalagoanidade passa a ser um valor caro, assim como a memória dos elementos históricos que o ratificam. Essa memória, como destaca Pierre Nora (1993), tende a se fixar nos locais que a representa, tonando-se pontos de acesso a memórias esfaceladas.
Enquanto uma primeira fase para a emergência da rede afroalagoana, o processo de invenção de Palmares diz de um grupo de atores e fatos históricos, sem os quais não seria possível a atual valorização da expressividade negra em Alagoas.
Notadamente marcada por traços mais reflexivos e políticos da expressividade negra, e  a lacuna de que fala Zezito Araújo do traço artístico e cultural desta expressividade seja pela ausência, seja pela pouca visibilidade e/ou formalização dos grupos que haviam, vai ter uma resposta no próximo momento, quando esta lacuna gera uma demanda, e incita a criação de vários grupos declaradamente afro em Alagoas.

Referências

ALMEIDA, Luiz Sávio de. Uma visão da Serra da Barriga em Palmares, Alagoas. Maceió, 25 de julho de 2014. Disponível em <http://luizsaviodealmeida.blogspot.com.br/2014/07/luiz-savio-de-almeida-uma-visao-da.html>. Acesso em novembro de 2014.
BEZERRA, Edson. As comunidades culturais dos bairros periféricos enquanto Quilombos: refletindo no contexto urbano sobre o texto de Dirceu, A Importância do Mundo Quilombola, ou, de como se pode criar (ou já está em andamento) um Quilombismo Urbano. Maceió, 5 de março de 2010. Disponível em <http://outrasimagensperifericas.blogspot.com.br/2013/03/as-comunidades-culturais-dos-bairros.html>. Acesso em outubro de 2014.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CORREIA, Rosa Lucia Lima da Silva. Mito e territorialidade: o monumento nacional e a comunidade rural da Serra da Barriga. Democracia Viva, Rio de Janeiro: Ibase, n. 34, p.88-95, mar. 2007. Disponível em: <http://www.ibase.br/userimages/DV34_espaco_aberto.pdf>. Acesso em novembro de 2014.
________. Territorialidades, patrimônio e conservação na Serra da Barriga, sede do antigo Quilombo dos Palmares. In: IV Reunião Equatorial de Antropologia e XIII Reunião de Antropólogos do Norte e Nordeste, 4., 2013, Fortaleza. Anais. [S. L.]: REA/ABANNE, 2014. Disponível em: <http://www.reaabanne2013.com.br/anaisadmin/uploads/trabalhos/13_trabalho_ 000947_1373837475.pdf>. Acesso em novembro de 2014.
HOBSBAWM, Eric. Introdução: a invenção das tradições. In: HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (Org.). A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997. p. 9-23.
LIMA, Ábia. Luzes para uma face no escuro: a emergência de uma rede de valorização  da expressividade afroalagoana. 23 de fev 2015. 164. Tese (Doutorado) - Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas. Maceió, 2015.
LINDOSO, Dirceu. O poder quilombola: a comunidade mocambeira e a organização social quilombola. Maceió: Edufal, 2007.
NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto História. São Paulo, nº 10, p. 7-28, dez. 1993.



[1]     Serra da Barriga: Exposição de Motivos Para o Tombamento. Relatório Preliminar. Maceió: SECOM/SERGASA, 1985.

terça-feira, 2 de junho de 2020

OCHO2. Um convite para Alagoas nos tempos do Coronavirus. Memória da Pandemia nas Alagoas



clique para ver e ouvir o convite


Eliane Cavalcanti. O meu caminhar nos anos setenta. Memória das artes em Alagoas



UMA BAILARINA E SEU TEMPO
Quem é quem
Eliana Cavalcanti

Este material foi publicado em Campus/O Dia em 18/06/2015 

Bailarina, professora de ballet, coreógrafa e Mestra em Literatura (UFAL).
Estudou balé em Recife- 1958 a 1973. Fundadora do Ballet Eliana Cavalcanti (1973), 1ª escola de balé de Alagoas. Diretora do Ballet Íris de Alagoas (1981- 2002). Diretora da Escola de Dança do Centro de Belas Artes de Maceió. (1987).  Diretora da Fundação Teatro Deodoro (1988).
Sócia efetiva da  Academia Alagoana de Letras e Academia Alagoana de Cultura.  Sócia Honorária da Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes. Diversos prêmios e distinções.

Imagens do Íris.              

50 anos de plié- Memórias de uma alabucana.
 Gota d’água- o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra. 
Ballet Eliana Cavalcanti- 40 anos de uma bela história.  
Participou, com três contos, do livro Para além da leitura, organizado por Arriete Vilela.


 Dois dedos de prosa
Eliana Cavalcanti vem marcando a vida cultural de Alagoas, mormente no que se refere ao ballet, atividade que é difícil pensar, em Maceió, sem os seus passos,  suas marcas, seu devotamento.  Além do mais, como se pode ver em seu texto, é excelente memorialista, o que já havia ensaiado em livro.  
Todas as qualidades estão juntas  neste trabalho,  que é um depoimento sobre os anos setenta, escrito especialmente para Campus. O jornal agradece e compartilha o texto com os amigos.
Um abraço grande Eliana
Luiz Sávio de Almeida


Medalha Jorge de Lima (Governo de Alagoas-1995).  Prêmio Concorrência FIAT/1990 com espetáculo “Certas Emoções”. 2º lugar em coreografia ( II Festival de Dança do Mercosul /  RS-1995). Diploma de Benemérita das Artes (Secretaria da Cultura- 2001).  Comenda Mário Guimarães (Câmara dos Vereadores de Maceió-2002).  Diploma de Construtores da Dança em Pernambuco (Conselho Brasileiro de Dança/ Recife-2004). Membro da Ordem do Mérito dos Palmares (Governo de Alagoas – 2008).  Comenda Senador Arnon de Mello (Instituto Arnon de Mello - em 2008).  Comenda Nise Magalhães da Silveira (Governo de Alagoas -2014).




O meu caminhar nos anos setenta
Eliane Cavalcanti

    Não devo dizer que me arrependi de ter feito a escolha de morar em Maceió, pois o fato é que o cenário artístico da cidade, no início da década de 70, era promissor. Muitos planos foram elaborados em função de uma vontade férrea e uma crença de que as coisas dariam certo. Eu tinha três nítidos sonhos: constituir uma família, ter uma escola de balé muito séria e dirigir uma companhia de dança.
 Os dois primeiros foram realizados, mas, o terceiro... Hoje, tenho plena consciência de que realizei um bom trabalho, venho colhendo muitos frutos, mas, com relação ao meu terceiro sonho, foi uma decepção atrás da outra. Quantos projetos debaixo do braço, correndo atrás de empresas, instituições, pessoas físicas etc.! O Ballet Íris de Alagoas (grupo formado pelos melhores alunos do Ballet Eliana Cavalcanti) foi criado em 1981 e extinto em 2002. O grupo, ou companhia, como é mais comum se chamar nos dias de hoje, produziu trabalhos que honraram a nossa cultura, dançando inúmeras vezes, não só dentro de Alagoas, mas, principalmente, fora dos nossos limites, quando desempenhou um papel de destaque no cenário nacional.
Nossa meta era transformá-lo em uma companhia profissional de grande projeção. Passados seis anos de sua extinção (por desânimo pessoal e forças esgarçadas), eis que surge uma luz no fundo do túnel, com a possível criação de um corpo de baile do Teatro Deodoro. O Complexo Cultural Teatro Deodoro, idealizado pelo presidente da DITEAL (Diretoria dos Teatros de Alagoas), Juarez Gomes de Barros, inaugurado em 2014, foi planejado para abrigar, entre outras coisas, uma orquestra e um corpo de baile. Passei seis anos (de 2008 a 2014) sonhando e prestando consultoria à DITEAL sem nada cobrar, alimentada pela possibilidade de um desenvolvimento e maior visibilidade da dança em nosso estado.
 O Complexo foi inaugurado no apagar das luzes do governo de Teotônio Vilela Filho. Uns meses antes, durante uma solenidade na qual recebi a Comenda Nise da Silveira (penso que foi prêmio de consolação), questionei ao governador, com veemência, sobre a demora em inaugurar o Complexo que, àquela altura, fim de mandato, se arrastava com lerdeza como o bicho preguiça. Disse eu: “O senhor vai colocar a placa com seu nome no dia da inauguração, mas o espaço estará sem alma, pois bailarinos e músicos não serão contratados a tempo”. As fotos daquele dia me retratam como uma bruxa atacando a um cordeirinho indefeso.
Comentários de pessoas de dentro do novo governo me dizem que não há verba para tal investimento cultural e que o corpo de baile e orquestra não acontecerão. Essa minha luta de sempre me faz hoje, vésperas de completar 65 anos, uma pessoa desalentada com relação à cultura da minha terra. Falta dinheiro? Sim, é verdade. Mas, efetivamente, falta vontade política, respeito aos nossos artistas. E essa história, como dizemos em terras olindenses, “é mais velha que a Sé de Olinda”.
    
Até 1970, o meu sonho número um era continuar dançando, e depois, montar uma escola de balé em Olinda. De vez em quando, encontro uma senhora daquela cidade querida, mais ou menos da minha idade, que, assim como eu, aqui reside há muitos anos, e sempre que me encontra, repete a mesma coisa: “Olinda chorou a sua ausência. As pessoas comentavam, pesarosas, o fato de você nos deixar; trocar Olinda por Maceió”.
Exageros à parte, realmente todo o trabalho que aqui desenvolvi estava traçado para a velha “Marim dos Caetés”. Mas o destino me pregou uma peça ao me fazer namorar, noivar e casar com um alagoano. Eu não ignorava que as pessoas aqui em Maceió, em termos de balé, pouco sabiam. Três exemplos podem ser aqui contados: 1º− Ainda solteira e adolescente, vim com a minha escola de balé dançar em Maceió, e o pessoal técnico do Teatro Deodoro, inocentemente, encerou o palco para nos receber. Tomamos um susto.
Foi preciso raspar o palco para que pudéssemos dançar. 2º− Também, por essa época (eu ainda não ensinava balé), recebi um convite para dar aulas, no terraço de uma casa na Avenida Tomás Espíndola, para uma moça que era apaixonada por balé. Eu estava de férias, hospedada no Farol, na casa de minha avó Elisa, e minha tia Jandira me falou de uma sobrinha da atriz e escritora Anilda Leão, que fazia balé no Conservatório de Música, dirigida pela inesquecível maestrina Venúsia de Barros Melo, recentemente falecida.
À medida que fui lhe passando os exercícios, seus olhos brilhavam. Ao final do curso relâmpago, creio que umas três aulas, ela me pediu que, por favor, viesse morar em Maceió e ensinar balé por aqui. Imagino que eu devia ter uns 14 anos, pois aos 15 comecei a ensinar no Recife, na escola da minha professora. 3º− A sociedade alagoana via o balé como lazer, algo de fácil aprendizado, ou seja, uma arte pouco exigente. No dia do meu primeiro ensaio geral, aquele que antecede à estreia, com figurinos, cenários etc., as famílias das alunas compareceram em massa (pais, irmãos, empregadas, avós, papagaio e periquito).
Fizeram uma festa no Deodoro. Tagarelavam eufóricos, e crianças corriam entre as poltronas, ou mais em cima, nas frisas, camarotes e torrinha, sem que os pais se abalassem. Acostumada com a clássica e espartana disciplina do balé, dei um grito que deve ter abalado as estruturas do teatro. Deu-se um silêncio mortal, pois todos se calaram. Percebia ali que teria de educar aquelas pessoas presentes para a importância da arte e o respeito pelos artistas. E que o balé, no nosso caso específico, era uma arte dificílima e extremamente exigente. Poucas pessoas tinham essa noção. Exceção, diríamos, para aquelas mais cultas, por estarem permanentemente viajando e assistindo a grandes espetáculos fora de Alagoas.
Temos de considerar a pouca idade do balé no país. Lembremos que a fundação da primeira escola oficial de balé do Brasil, vinculada ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, só aconteceu em 1927, quando de lá sairiam, alguns anos depois, bailarinos formados por aquela escola que se dispersaram pelo Brasil; entre eles, a minha professora de balé, que passaria a residir e lecionar balé em Recife, em 1957.
    Em agosto de 1973, eu pertencia ao Grupo de Ballet do Recife, dirigido por Flavia Barros. E foi assim que, às vésperas do meu casamento, dancei no Nosso Teatro (minha despedida de solteira como bailarina no Recife), teatro que, mais tarde, viria a se chamar Valdemar de Oliveira. Eu era 1ª bailarina do grupo e, portanto, assumia os papéis mais difíceis e importantes. Ensaiava muito, dava aulas aqui em Maceió desde o ano anterior (Colégio Santíssimo Sacramento), e em Recife (Curso de Danças Clássicas Flavia Barros), e preparava o casório.
Minha mãe chegou como convidada, pois todos os detalhes tinham de ser resolvidos por aqui mesmo, como: igreja, bufê, ornamentação etc. Só o meu vestido de noiva foi desenhado e confeccionado no Recife. Tive seis damas de honra, e a igreja foi decorada pela floricultura da senhora Ilma Vilela com cravos nas cores branca e rosa. Por uma decisão nossa (minha e do Carlinhos) casaríamos em Maceió, pois era aqui que havíamos escolhido para morar e, além do mais, a maioria da nossa família aqui residia. De Recife veio um ônibus, locado especialmente para a ocasião, trazendo uma turma incrível: amigos de Olinda e Recife, padrinhos do casamento e a minha diretora e professora de balé, Flavia Barros. Aqui estava selado o meu destino.
    No enxoval para a lua de mel estavam incluídos: vestidos “tubinho’, calças “bocas de sino”, cintos largos, batinhas, blusas “cacharrel’ e sandálias “plataforma”. Escolhemos Garanhuns: Monte Sinai e Tavares Correia, dois dias em cada um desses hotéis. Meu pai escreveu em seu diário: “Tive lágrimas nos olhos algum tempo, recordando os tempos de Eli, dançando. Tudo passa depressa!”.
    Transcrevo aqui um trecho do livro 50 anos de plié − memórias de uma alabucana, de minha autoria e lançado em 2008:
    “O Jornal de Serviços (Maceió − março de 1973) publicou uma entrevista feita pela colunista Lilian Rose, ocupando meia página, com uma foto minha: ‘Eliana veio transmitir a arte da dança’. Uma outra matéria de página inteira do Jornal de Alagoas, datada de 29 de julho de 1973, com texto de Cavalcanti Barros, comprova que nós já havíamos saído do Colégio Santíssimo Sacramento e alugado um espaço maior, situado na rua Senador Mendonça, nº 211, 1º andar, Centro de Maceió. A reportagem, com quatro fotos, mostra um número crescente de alunas. Considero, portanto, a criação do Ballet Eliana Cavalcanti, meados de 1973. Contávamos com o apoio de uma pianista acompanhando as aulas. A última que ficou conosco mais tempo foi D. Zezé de Almeida, uma artista que havia tocado durante as apresentações de cinema mudo e que também tocava à noite nos restaurantes dos melhores hotéis de Maceió. D. Zezé ficou conosco até quando construímos a nossa sede definitiva e ela alegou estar muito cansada para ter de subir para o bairro do Farol. O fato de a D. Zezé tocar nas noites a fazia cochilar ao piano. Enquanto os alunos se esforçavam num adágio, ela dava um cochilo e retornava numa mazurca, ou eles estavam saltando com um ritmo 2x4 e ela passava a tocar uma valsa brilhante. A moçada ria contidamente para que ela não percebesse, pois respeitavam o seu cansaço”.
   Para não sucumbir à falta de apelos instigadores ao meu desenvolvimento profissional, passei a viajar muito para o eixo Rio/São Paulo à cata de mais conhecimentos, ideias e amizades com pessoas que falassem a mesma língua que eu, ou seja, a língua dos baletômanos. Carlinhos costumava frequentar o Estádio Rei Pelé (Trapichão) aos domingos e, quando retornava, me trazia os jornais Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Eu esperava por esses jornais ansiosamente, para saber o que estava acontecendo em termos de arte no Rio e em São Paulo. Dependendo do que estava em cartaz, já comprávamos nossas passagens e saíamos de Maceió com os ingressos garantidos.
    A criação do videocassete, que começaria a ser comercializado em 1972, dando inicio à distribuição em massa de filmes e documentários, também ajudou, sem dúvida, o meu caminhar. Lembro que em 1974 ou 75, ganhei do marido, a obra O Lago dos Cisnes, em VHS. Daí em diante, não parei mais, comprando outros vídeos. As músicas para as minhas coreografias, quando não encontrava na Eletrodiscos, no centro de Maceió, pedia socorro ao Dr. Raimundo Campos ou ao Dr. Ismar Gatto, ambos médicos e possuidores de rico acervo de músicas de alta qualidade.
   
No início da década de 1970, tivemos muitos avanços tecnológicos e acontecimentos marcantes, e o Brasil vivia a fase do “Milagre Econômico”. Uma ilusão, sem dúvida, mas não havia tanta roubalheira, falcatruas ou esquemas de corrupção. As drogas, causadoras de grande parte da violência dos nossos dias, já começavam a se instalar, mas não com o avassalador poder destrutivo de hoje. O setor artístico, a despeito da uma censura acirrada, oferecia um produto diversificado e enriquecedor. Dos músicos que faziam sucesso, podemos citar, entre tantos: Gilberto Gil, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Elis Regina, João Gilberto, Gal Costa, Tom Jobim, Rita Lee, Clara Nunes, Jair Rodrigues, Raul Seixas, Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Este último, o meu preferido (sabia e sei, até hoje, as letras de suas composições de cor).
Em 1977, eu estava no Rio de Janeiro, quando tive a oportunidade de assistir à peça Gota d’água, escrita por ele em parceria com o dramaturgo Paulo Pontes, à época casado com Bibi Ferreira. Bibi encarnava, magistralmente, a personagem Joana, a Medeia brasileira. A obra tem uma intertextualidade explícita com a tragédia grega Medeia, escrita por Eurípedes em 431 a.C. e é considerada por Aristóteles “a tragédia das tragédias”. Fiquei encantada com a peça, mas não percebi a profundidade das entrelinhas do texto. O que me marcou foi, tão somente, a beleza artística do musical: interpretação, direção, cenários, iluminação etc. Os dois autores, jovens conectados com os problemas nacionais, revitalizaram Medeia, transformando-a na tragédia da história brasileira.
A obra Gota d’água nos convida a uma discussão que inclui a política habitacional do governo (BNH), o autoritarismo e conflitos gerados pela disparidade do poder econômico. Daí que, mais de trinta anos depois, escolhi  Gota d’água como objeto de estudo do meu Mestrado pela UFAL. E só então, a partir da leitura minuciosa da peça e com o olhar mais experiente, atrelado ao trabalho de pesquisa, pude acrescentar àquela visão ingênua de outrora um conhecimento bem mais aprofundado sobre o texto. O resultado foi o livro, lançado em 2011, e intitulado: Gota d’água − o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra.
   Vivíamos já há alguns anos a Ditadura Militar, o que não influía significativamente no meu modo de vida, a não ser as notícias, vez por outra, de um conhecido que fora torturado ou exilado, o que nos causava indignação e revolta, sem dúvida. Mas, para mim, minha família e amigos, a vida era muito boa. Sempre ouvia os conselhos da minha mãe: “Cuidado com o que fala, pois as paredes têm ouvidos”.
   As nossas famílias muito grandes e já misturadas (um irmão do Carlinhos é meu tio) me preenchiam, pois não havia um fim de semana sem uma comemoração. O churrasco na nossa casa era quase que semanal. Tudo era motivo de festa. Comprava o telefone... festa. A mesinha do telefone... festa. A despensa vivia lotada. Uma fartura. Quando casamos já compramos uma casa própria, e sem nenhuma interferência da família. Os recém-casados podiam se dar a esse luxo, sem ser ricos. Portanto, vivíamos um sonho: fartura, planos e perspectiva. E hoje?
   
Dizem que nos períodos difíceis é que a produção artística e literária ganha proporções extraordinárias. O fato é que na música popular, no cinema e no teatro tivemos um ganho bastante expressivo, apesar de a censura se manifestar com suas garras castradoras. Com relação à dança nacional temos a fundação do Ballet Stagium de São Paulo, em 1971, como um marco, pois surgiu exatamente nesse período crítico, quando artistas engajados tentavam bradar aos quatro cantos do mundo a situação do país, e eram punidos severamente.
 O “Stagium” veio com uma proposta inovadora e estimulou a criação de novos trabalhos e de novos grupos pelo Brasil afora. Só para citar dois grandes grupos que também viriam enriquecer a cena artística brasileira: em 1975, o “Grupo Corpo”, de Belo Horizonte e em 1977, o “Cisne Negro Companhia de Dança”, de São Paulo.
    Aqui em Maceió, um marco a ser lembrado e louvado é a criação da Fundação Teatro Deodoro, em 1978, pelo saudoso teatrólogo Bráulio Leite Junior. Tivemos uma efervescência cultural significativa, pois, a partir daí, frutos foram surgindo, como, por exemplo: a Orquestra Filarmônica (já extinta), o MISA (Museu da Imagem e do Som de Alagoas) e o Centro de Belas-Artes, bem instalado, em parte das dependências do Seminário de Maceió, e hoje numa situação desvantajosa em relação ao primeiro endereço. E outros feitos proliferaram sob a tutela da Fundação Teatro Deodoro. Também, trabalhos individuais se fizeram notar; não citarei nomes para não incorrer no erro de esquecer algum artista que tenha desenvolvido, nos anos setenta, um trabalho relevante para a nossa sociedade e para o nosso estado.
    A década de setenta me trouxe alegrias e me fez tomar decisões importantes. Seguem aqui, elencadas: 1− Minha mudança para Maceió, na verdade, um retorno, pois saí daqui aos dois anos de idade; 2− Meu casamento; 3− A fundação do Ballet Eliana Cavalcanti, primeira escola de balé de Alagoas; 4− Os convites para pertencer a duas companhias profissionais: o Ballet Stagium, de São Paulo (1972) e a Associação de Ballet do Rio de Janeiro (1974); 5− A compra de um terreno, através da Leão Empreendimentos, no Jardim Alagoas, em 1979, onde seria construída a sede da nossa escola; 6− Seria mãe pela primeira vez.
    Todas as decisões tomadas foram muito bem analisadas, mas não acredito no total livre-arbítrio. Podemos ousar, mas pedras ou pedregulhos rolam no caminho brusca e inesperadamente, e nem sempre está ao nosso alcance desviá-las. Nesse momento é que entra a nossa condição de ser humano frágil e limitado diante dos mistérios da vida. Portanto, tenho plena convicção de que tudo estava mais ou menos traçado.
    Em 1975, eu já não pertencia mais ao Grupo de Ballet do Recife, pois o número crescente de alunos não me dava tréguas, exigindo uma dedicação de cerca de 18 horas diárias, incluindo, nesse bojo, algumas horas extras aos sábados, domingos e feriados, com ensaios, redação de circulares para os pais, ofícios, projetos, pesquisa de músicas, criação de figurinos etc. Maceió seria o meu chão, a minha realidade. Aqui nasceram nossos três filhos, e hoje já temos três netos.
    Resumindo: considero-me uma obreira em prol da arte da dança, consciente do meu papel nesta vida, e triste com o cenário que se impõe no mundo. Estamos vivendo uma era cruel, carregada de egoísmo, violência, descompromisso e deslealdade. Torço para que seja um momento de transição para um mundo melhor, que, pela minha idade, não deverei alcançar. O combate vale a pena quando se tem um propósito, ainda que baseado na fé absoluta de que Deus está no comando. O meu combate sempre esteve muito claro: em prol da arte, em prol da dança. Através da arte, de uma maneira geral, podemos dignificar mais o mundo, dar mais cidadania às pessoas. Por que os políticos, em sua maioria, não têm sensibilidade para a arte, para a cultura? A resposta... sabemos.
    Enfim, estarei na luta até as pernas aguentarem e enquanto a cabeça e o coração disserem sim!





segunda-feira, 1 de junho de 2020

João Neto Felix Mendes. Pandemia de Absurdos. Memória da pandemia nas Alagoas



Pandemia de Absurdos


João Neto Felix Mendes



Bancário aposentado, autor de contos e crônicas, publicados coletivamente nos livros “À Sombra do Umbuzeiro”, “À Sombra do Juazeiro” e a “À Sombra da Quixabeira” cujo cenário principal é Santana do Ipanema e sua gente. Membro da Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes. Editor do blog apensocomgrifo.com

            Vivemos tempos estranhos. Surrealismo que surpreende até o mais cético dos homens. Coisas inimagináveis. Até as cartomantes, visionários e videntes foram pegos desprevenidos.  Nem Nostradamus (1503-1566) buscou em suas visões tamanha tragédia no porvir.
Quem predisse palpite da atual realidade foi o cantor baiano Raul Seixas (1945-1989), o maluco beleza como se autodenominou. Sua canção “O dia em que a terra parou” (1977) faz um relato de um sonho, profetizando o mundo em caos parecido com esse que estamos vivendo.
            O certo mesmo é que o perigo está à espreita.             Paira sobre nós o manto invisível de medo. Vivemos em permanente desconfiança. O cenário provocado pelo novo coronavírus (covid-19) é nocaute às regras e convenções. Impiedoso, o mal avança e se alastra rapidamente em todas as regiões do país; grandes e pequenas cidades. A ciência ainda estuda sua origem e tratamento. Países envidam esforços para a descoberta de uma vacina. Milhares de pessoas já morreram no País.
 Reconhecemos que é um teste brutal aos governos e sistemas econômicos, visto que não há um protocolo único a ser seguido. E é exatamente por isso que o inimigo invisível se sobressai. Para vencer o desafio hercúleo é preciso concertar, pensar, articular, mediar, ouvir e implementar. Atitudes de líderes eficazes. Infelizmente, em falta atualmente!
Os governos expuseram em abundância foi sarrabulhada, desunião e falta de planejamento para gerenciar as crises de saúde pública, econômica, política e social. Estamos sozinhos a esmo. Cada um por si e salve-se quem puder.
E tudo foi parando.  Gestores, na ausência de plano federativo de gestão da crise, cada um foi tomando medidas que no seu entendimento mais serviam. Enquanto isso, superlotação e falta de estrutura nos hospitais e aumento de mortes em todas as regiões.
Nunca a ciência foi tão desprezada e subjugada. Governos acham-se no direito de questionar e ignorar pesquisas científicas e impor seus achismos à população e isso tem efeitos desastrosos. O isolamento social se apresentou como única forma eficiente para redução do contágio. Em consequência, economias estão sendo destroçadas. O desemprego e a fome avançam tal qual a força de tsunami social e de saúde pública exigindo dos governos ações que amenizem tanto sofrimento e agonia.
  Já estamos há mais 60 dias em quarentena e não vislumbramos amenidades. Indústrias fechadas, comércios, escolas e muitas pessoas nas ruas, indiferentes aos alertas das autoridades. Muitos esnobam. Pessoas reclusas foram obrigadas a intensificar convívio familiar e se espantam com a realidade do encontro consigo mesmo. Em risco, a sanidade mental anda capenga no limiar da loucura. Muitos seguem indiferentes como se nada estivesse acontecendo. Outros, simplesmente fingem desprezar tudo o que estamos vivenciando como se fosse um filme de ficção científica.  
As redes sociais se transformaram no palco geral de asneiras proclamadas aos quatro ventos. Muitos brasileiros agora são autoridades virtuais a serviço de coisa nenhuma, aliás, da balbúrdia. A falta de consciência ou boa vontade para analisar a veracidade das informações vem produzindo milhares de agentes disseminadores de notícias falsas em volumes desmedidos, embaralhando ainda mais o pandemônio.
Diariamente testemunhamos estímulo ao ódio e a polarização política, enquanto milhares de pessoas morrem sem direito sequer a velório e sepultamento digno. Vergonha nacional. Como será daqui para frente não sabemos. Somos um barco à deriva. Contudo, a pandemia e o isolamento social estão produzindo inúmeras mudanças no comportamento humano que não vê alternativa, senão ressignificar valores. A resiliência tomou a dianteira de palavra de ordem. Novos paradigmas despontam. E, como diz um velho amigo, assim caminha a humanidade.

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