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terça-feira, 2 de junho de 2020

Eliane Cavalcanti. O meu caminhar nos anos setenta. Memória das artes em Alagoas



UMA BAILARINA E SEU TEMPO
Quem é quem
Eliana Cavalcanti

Este material foi publicado em Campus/O Dia em 18/06/2015 

Bailarina, professora de ballet, coreógrafa e Mestra em Literatura (UFAL).
Estudou balé em Recife- 1958 a 1973. Fundadora do Ballet Eliana Cavalcanti (1973), 1ª escola de balé de Alagoas. Diretora do Ballet Íris de Alagoas (1981- 2002). Diretora da Escola de Dança do Centro de Belas Artes de Maceió. (1987).  Diretora da Fundação Teatro Deodoro (1988).
Sócia efetiva da  Academia Alagoana de Letras e Academia Alagoana de Cultura.  Sócia Honorária da Academia Palmeirense de Letras, Ciências e Artes. Diversos prêmios e distinções.

Imagens do Íris.              

50 anos de plié- Memórias de uma alabucana.
 Gota d’água- o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra. 
Ballet Eliana Cavalcanti- 40 anos de uma bela história.  
Participou, com três contos, do livro Para além da leitura, organizado por Arriete Vilela.


 Dois dedos de prosa
Eliana Cavalcanti vem marcando a vida cultural de Alagoas, mormente no que se refere ao ballet, atividade que é difícil pensar, em Maceió, sem os seus passos,  suas marcas, seu devotamento.  Além do mais, como se pode ver em seu texto, é excelente memorialista, o que já havia ensaiado em livro.  
Todas as qualidades estão juntas  neste trabalho,  que é um depoimento sobre os anos setenta, escrito especialmente para Campus. O jornal agradece e compartilha o texto com os amigos.
Um abraço grande Eliana
Luiz Sávio de Almeida


Medalha Jorge de Lima (Governo de Alagoas-1995).  Prêmio Concorrência FIAT/1990 com espetáculo “Certas Emoções”. 2º lugar em coreografia ( II Festival de Dança do Mercosul /  RS-1995). Diploma de Benemérita das Artes (Secretaria da Cultura- 2001).  Comenda Mário Guimarães (Câmara dos Vereadores de Maceió-2002).  Diploma de Construtores da Dança em Pernambuco (Conselho Brasileiro de Dança/ Recife-2004). Membro da Ordem do Mérito dos Palmares (Governo de Alagoas – 2008).  Comenda Senador Arnon de Mello (Instituto Arnon de Mello - em 2008).  Comenda Nise Magalhães da Silveira (Governo de Alagoas -2014).




O meu caminhar nos anos setenta
Eliane Cavalcanti

    Não devo dizer que me arrependi de ter feito a escolha de morar em Maceió, pois o fato é que o cenário artístico da cidade, no início da década de 70, era promissor. Muitos planos foram elaborados em função de uma vontade férrea e uma crença de que as coisas dariam certo. Eu tinha três nítidos sonhos: constituir uma família, ter uma escola de balé muito séria e dirigir uma companhia de dança.
 Os dois primeiros foram realizados, mas, o terceiro... Hoje, tenho plena consciência de que realizei um bom trabalho, venho colhendo muitos frutos, mas, com relação ao meu terceiro sonho, foi uma decepção atrás da outra. Quantos projetos debaixo do braço, correndo atrás de empresas, instituições, pessoas físicas etc.! O Ballet Íris de Alagoas (grupo formado pelos melhores alunos do Ballet Eliana Cavalcanti) foi criado em 1981 e extinto em 2002. O grupo, ou companhia, como é mais comum se chamar nos dias de hoje, produziu trabalhos que honraram a nossa cultura, dançando inúmeras vezes, não só dentro de Alagoas, mas, principalmente, fora dos nossos limites, quando desempenhou um papel de destaque no cenário nacional.
Nossa meta era transformá-lo em uma companhia profissional de grande projeção. Passados seis anos de sua extinção (por desânimo pessoal e forças esgarçadas), eis que surge uma luz no fundo do túnel, com a possível criação de um corpo de baile do Teatro Deodoro. O Complexo Cultural Teatro Deodoro, idealizado pelo presidente da DITEAL (Diretoria dos Teatros de Alagoas), Juarez Gomes de Barros, inaugurado em 2014, foi planejado para abrigar, entre outras coisas, uma orquestra e um corpo de baile. Passei seis anos (de 2008 a 2014) sonhando e prestando consultoria à DITEAL sem nada cobrar, alimentada pela possibilidade de um desenvolvimento e maior visibilidade da dança em nosso estado.
 O Complexo foi inaugurado no apagar das luzes do governo de Teotônio Vilela Filho. Uns meses antes, durante uma solenidade na qual recebi a Comenda Nise da Silveira (penso que foi prêmio de consolação), questionei ao governador, com veemência, sobre a demora em inaugurar o Complexo que, àquela altura, fim de mandato, se arrastava com lerdeza como o bicho preguiça. Disse eu: “O senhor vai colocar a placa com seu nome no dia da inauguração, mas o espaço estará sem alma, pois bailarinos e músicos não serão contratados a tempo”. As fotos daquele dia me retratam como uma bruxa atacando a um cordeirinho indefeso.
Comentários de pessoas de dentro do novo governo me dizem que não há verba para tal investimento cultural e que o corpo de baile e orquestra não acontecerão. Essa minha luta de sempre me faz hoje, vésperas de completar 65 anos, uma pessoa desalentada com relação à cultura da minha terra. Falta dinheiro? Sim, é verdade. Mas, efetivamente, falta vontade política, respeito aos nossos artistas. E essa história, como dizemos em terras olindenses, “é mais velha que a Sé de Olinda”.
    
Até 1970, o meu sonho número um era continuar dançando, e depois, montar uma escola de balé em Olinda. De vez em quando, encontro uma senhora daquela cidade querida, mais ou menos da minha idade, que, assim como eu, aqui reside há muitos anos, e sempre que me encontra, repete a mesma coisa: “Olinda chorou a sua ausência. As pessoas comentavam, pesarosas, o fato de você nos deixar; trocar Olinda por Maceió”.
Exageros à parte, realmente todo o trabalho que aqui desenvolvi estava traçado para a velha “Marim dos Caetés”. Mas o destino me pregou uma peça ao me fazer namorar, noivar e casar com um alagoano. Eu não ignorava que as pessoas aqui em Maceió, em termos de balé, pouco sabiam. Três exemplos podem ser aqui contados: 1º− Ainda solteira e adolescente, vim com a minha escola de balé dançar em Maceió, e o pessoal técnico do Teatro Deodoro, inocentemente, encerou o palco para nos receber. Tomamos um susto.
Foi preciso raspar o palco para que pudéssemos dançar. 2º− Também, por essa época (eu ainda não ensinava balé), recebi um convite para dar aulas, no terraço de uma casa na Avenida Tomás Espíndola, para uma moça que era apaixonada por balé. Eu estava de férias, hospedada no Farol, na casa de minha avó Elisa, e minha tia Jandira me falou de uma sobrinha da atriz e escritora Anilda Leão, que fazia balé no Conservatório de Música, dirigida pela inesquecível maestrina Venúsia de Barros Melo, recentemente falecida.
À medida que fui lhe passando os exercícios, seus olhos brilhavam. Ao final do curso relâmpago, creio que umas três aulas, ela me pediu que, por favor, viesse morar em Maceió e ensinar balé por aqui. Imagino que eu devia ter uns 14 anos, pois aos 15 comecei a ensinar no Recife, na escola da minha professora. 3º− A sociedade alagoana via o balé como lazer, algo de fácil aprendizado, ou seja, uma arte pouco exigente. No dia do meu primeiro ensaio geral, aquele que antecede à estreia, com figurinos, cenários etc., as famílias das alunas compareceram em massa (pais, irmãos, empregadas, avós, papagaio e periquito).
Fizeram uma festa no Deodoro. Tagarelavam eufóricos, e crianças corriam entre as poltronas, ou mais em cima, nas frisas, camarotes e torrinha, sem que os pais se abalassem. Acostumada com a clássica e espartana disciplina do balé, dei um grito que deve ter abalado as estruturas do teatro. Deu-se um silêncio mortal, pois todos se calaram. Percebia ali que teria de educar aquelas pessoas presentes para a importância da arte e o respeito pelos artistas. E que o balé, no nosso caso específico, era uma arte dificílima e extremamente exigente. Poucas pessoas tinham essa noção. Exceção, diríamos, para aquelas mais cultas, por estarem permanentemente viajando e assistindo a grandes espetáculos fora de Alagoas.
Temos de considerar a pouca idade do balé no país. Lembremos que a fundação da primeira escola oficial de balé do Brasil, vinculada ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, só aconteceu em 1927, quando de lá sairiam, alguns anos depois, bailarinos formados por aquela escola que se dispersaram pelo Brasil; entre eles, a minha professora de balé, que passaria a residir e lecionar balé em Recife, em 1957.
    Em agosto de 1973, eu pertencia ao Grupo de Ballet do Recife, dirigido por Flavia Barros. E foi assim que, às vésperas do meu casamento, dancei no Nosso Teatro (minha despedida de solteira como bailarina no Recife), teatro que, mais tarde, viria a se chamar Valdemar de Oliveira. Eu era 1ª bailarina do grupo e, portanto, assumia os papéis mais difíceis e importantes. Ensaiava muito, dava aulas aqui em Maceió desde o ano anterior (Colégio Santíssimo Sacramento), e em Recife (Curso de Danças Clássicas Flavia Barros), e preparava o casório.
Minha mãe chegou como convidada, pois todos os detalhes tinham de ser resolvidos por aqui mesmo, como: igreja, bufê, ornamentação etc. Só o meu vestido de noiva foi desenhado e confeccionado no Recife. Tive seis damas de honra, e a igreja foi decorada pela floricultura da senhora Ilma Vilela com cravos nas cores branca e rosa. Por uma decisão nossa (minha e do Carlinhos) casaríamos em Maceió, pois era aqui que havíamos escolhido para morar e, além do mais, a maioria da nossa família aqui residia. De Recife veio um ônibus, locado especialmente para a ocasião, trazendo uma turma incrível: amigos de Olinda e Recife, padrinhos do casamento e a minha diretora e professora de balé, Flavia Barros. Aqui estava selado o meu destino.
    No enxoval para a lua de mel estavam incluídos: vestidos “tubinho’, calças “bocas de sino”, cintos largos, batinhas, blusas “cacharrel’ e sandálias “plataforma”. Escolhemos Garanhuns: Monte Sinai e Tavares Correia, dois dias em cada um desses hotéis. Meu pai escreveu em seu diário: “Tive lágrimas nos olhos algum tempo, recordando os tempos de Eli, dançando. Tudo passa depressa!”.
    Transcrevo aqui um trecho do livro 50 anos de plié − memórias de uma alabucana, de minha autoria e lançado em 2008:
    “O Jornal de Serviços (Maceió − março de 1973) publicou uma entrevista feita pela colunista Lilian Rose, ocupando meia página, com uma foto minha: ‘Eliana veio transmitir a arte da dança’. Uma outra matéria de página inteira do Jornal de Alagoas, datada de 29 de julho de 1973, com texto de Cavalcanti Barros, comprova que nós já havíamos saído do Colégio Santíssimo Sacramento e alugado um espaço maior, situado na rua Senador Mendonça, nº 211, 1º andar, Centro de Maceió. A reportagem, com quatro fotos, mostra um número crescente de alunas. Considero, portanto, a criação do Ballet Eliana Cavalcanti, meados de 1973. Contávamos com o apoio de uma pianista acompanhando as aulas. A última que ficou conosco mais tempo foi D. Zezé de Almeida, uma artista que havia tocado durante as apresentações de cinema mudo e que também tocava à noite nos restaurantes dos melhores hotéis de Maceió. D. Zezé ficou conosco até quando construímos a nossa sede definitiva e ela alegou estar muito cansada para ter de subir para o bairro do Farol. O fato de a D. Zezé tocar nas noites a fazia cochilar ao piano. Enquanto os alunos se esforçavam num adágio, ela dava um cochilo e retornava numa mazurca, ou eles estavam saltando com um ritmo 2x4 e ela passava a tocar uma valsa brilhante. A moçada ria contidamente para que ela não percebesse, pois respeitavam o seu cansaço”.
   Para não sucumbir à falta de apelos instigadores ao meu desenvolvimento profissional, passei a viajar muito para o eixo Rio/São Paulo à cata de mais conhecimentos, ideias e amizades com pessoas que falassem a mesma língua que eu, ou seja, a língua dos baletômanos. Carlinhos costumava frequentar o Estádio Rei Pelé (Trapichão) aos domingos e, quando retornava, me trazia os jornais Folha de São Paulo e Jornal do Brasil. Eu esperava por esses jornais ansiosamente, para saber o que estava acontecendo em termos de arte no Rio e em São Paulo. Dependendo do que estava em cartaz, já comprávamos nossas passagens e saíamos de Maceió com os ingressos garantidos.
    A criação do videocassete, que começaria a ser comercializado em 1972, dando inicio à distribuição em massa de filmes e documentários, também ajudou, sem dúvida, o meu caminhar. Lembro que em 1974 ou 75, ganhei do marido, a obra O Lago dos Cisnes, em VHS. Daí em diante, não parei mais, comprando outros vídeos. As músicas para as minhas coreografias, quando não encontrava na Eletrodiscos, no centro de Maceió, pedia socorro ao Dr. Raimundo Campos ou ao Dr. Ismar Gatto, ambos médicos e possuidores de rico acervo de músicas de alta qualidade.
   
No início da década de 1970, tivemos muitos avanços tecnológicos e acontecimentos marcantes, e o Brasil vivia a fase do “Milagre Econômico”. Uma ilusão, sem dúvida, mas não havia tanta roubalheira, falcatruas ou esquemas de corrupção. As drogas, causadoras de grande parte da violência dos nossos dias, já começavam a se instalar, mas não com o avassalador poder destrutivo de hoje. O setor artístico, a despeito da uma censura acirrada, oferecia um produto diversificado e enriquecedor. Dos músicos que faziam sucesso, podemos citar, entre tantos: Gilberto Gil, Roberto Carlos, Caetano Veloso, Elis Regina, João Gilberto, Gal Costa, Tom Jobim, Rita Lee, Clara Nunes, Jair Rodrigues, Raul Seixas, Vinicius de Moraes e Chico Buarque. Este último, o meu preferido (sabia e sei, até hoje, as letras de suas composições de cor).
Em 1977, eu estava no Rio de Janeiro, quando tive a oportunidade de assistir à peça Gota d’água, escrita por ele em parceria com o dramaturgo Paulo Pontes, à época casado com Bibi Ferreira. Bibi encarnava, magistralmente, a personagem Joana, a Medeia brasileira. A obra tem uma intertextualidade explícita com a tragédia grega Medeia, escrita por Eurípedes em 431 a.C. e é considerada por Aristóteles “a tragédia das tragédias”. Fiquei encantada com a peça, mas não percebi a profundidade das entrelinhas do texto. O que me marcou foi, tão somente, a beleza artística do musical: interpretação, direção, cenários, iluminação etc. Os dois autores, jovens conectados com os problemas nacionais, revitalizaram Medeia, transformando-a na tragédia da história brasileira.
A obra Gota d’água nos convida a uma discussão que inclui a política habitacional do governo (BNH), o autoritarismo e conflitos gerados pela disparidade do poder econômico. Daí que, mais de trinta anos depois, escolhi  Gota d’água como objeto de estudo do meu Mestrado pela UFAL. E só então, a partir da leitura minuciosa da peça e com o olhar mais experiente, atrelado ao trabalho de pesquisa, pude acrescentar àquela visão ingênua de outrora um conhecimento bem mais aprofundado sobre o texto. O resultado foi o livro, lançado em 2011, e intitulado: Gota d’água − o abuso do poder e a eloquência múltipla da palavra.
   Vivíamos já há alguns anos a Ditadura Militar, o que não influía significativamente no meu modo de vida, a não ser as notícias, vez por outra, de um conhecido que fora torturado ou exilado, o que nos causava indignação e revolta, sem dúvida. Mas, para mim, minha família e amigos, a vida era muito boa. Sempre ouvia os conselhos da minha mãe: “Cuidado com o que fala, pois as paredes têm ouvidos”.
   As nossas famílias muito grandes e já misturadas (um irmão do Carlinhos é meu tio) me preenchiam, pois não havia um fim de semana sem uma comemoração. O churrasco na nossa casa era quase que semanal. Tudo era motivo de festa. Comprava o telefone... festa. A mesinha do telefone... festa. A despensa vivia lotada. Uma fartura. Quando casamos já compramos uma casa própria, e sem nenhuma interferência da família. Os recém-casados podiam se dar a esse luxo, sem ser ricos. Portanto, vivíamos um sonho: fartura, planos e perspectiva. E hoje?
   
Dizem que nos períodos difíceis é que a produção artística e literária ganha proporções extraordinárias. O fato é que na música popular, no cinema e no teatro tivemos um ganho bastante expressivo, apesar de a censura se manifestar com suas garras castradoras. Com relação à dança nacional temos a fundação do Ballet Stagium de São Paulo, em 1971, como um marco, pois surgiu exatamente nesse período crítico, quando artistas engajados tentavam bradar aos quatro cantos do mundo a situação do país, e eram punidos severamente.
 O “Stagium” veio com uma proposta inovadora e estimulou a criação de novos trabalhos e de novos grupos pelo Brasil afora. Só para citar dois grandes grupos que também viriam enriquecer a cena artística brasileira: em 1975, o “Grupo Corpo”, de Belo Horizonte e em 1977, o “Cisne Negro Companhia de Dança”, de São Paulo.
    Aqui em Maceió, um marco a ser lembrado e louvado é a criação da Fundação Teatro Deodoro, em 1978, pelo saudoso teatrólogo Bráulio Leite Junior. Tivemos uma efervescência cultural significativa, pois, a partir daí, frutos foram surgindo, como, por exemplo: a Orquestra Filarmônica (já extinta), o MISA (Museu da Imagem e do Som de Alagoas) e o Centro de Belas-Artes, bem instalado, em parte das dependências do Seminário de Maceió, e hoje numa situação desvantajosa em relação ao primeiro endereço. E outros feitos proliferaram sob a tutela da Fundação Teatro Deodoro. Também, trabalhos individuais se fizeram notar; não citarei nomes para não incorrer no erro de esquecer algum artista que tenha desenvolvido, nos anos setenta, um trabalho relevante para a nossa sociedade e para o nosso estado.
    A década de setenta me trouxe alegrias e me fez tomar decisões importantes. Seguem aqui, elencadas: 1− Minha mudança para Maceió, na verdade, um retorno, pois saí daqui aos dois anos de idade; 2− Meu casamento; 3− A fundação do Ballet Eliana Cavalcanti, primeira escola de balé de Alagoas; 4− Os convites para pertencer a duas companhias profissionais: o Ballet Stagium, de São Paulo (1972) e a Associação de Ballet do Rio de Janeiro (1974); 5− A compra de um terreno, através da Leão Empreendimentos, no Jardim Alagoas, em 1979, onde seria construída a sede da nossa escola; 6− Seria mãe pela primeira vez.
    Todas as decisões tomadas foram muito bem analisadas, mas não acredito no total livre-arbítrio. Podemos ousar, mas pedras ou pedregulhos rolam no caminho brusca e inesperadamente, e nem sempre está ao nosso alcance desviá-las. Nesse momento é que entra a nossa condição de ser humano frágil e limitado diante dos mistérios da vida. Portanto, tenho plena convicção de que tudo estava mais ou menos traçado.
    Em 1975, eu já não pertencia mais ao Grupo de Ballet do Recife, pois o número crescente de alunos não me dava tréguas, exigindo uma dedicação de cerca de 18 horas diárias, incluindo, nesse bojo, algumas horas extras aos sábados, domingos e feriados, com ensaios, redação de circulares para os pais, ofícios, projetos, pesquisa de músicas, criação de figurinos etc. Maceió seria o meu chão, a minha realidade. Aqui nasceram nossos três filhos, e hoje já temos três netos.
    Resumindo: considero-me uma obreira em prol da arte da dança, consciente do meu papel nesta vida, e triste com o cenário que se impõe no mundo. Estamos vivendo uma era cruel, carregada de egoísmo, violência, descompromisso e deslealdade. Torço para que seja um momento de transição para um mundo melhor, que, pela minha idade, não deverei alcançar. O combate vale a pena quando se tem um propósito, ainda que baseado na fé absoluta de que Deus está no comando. O meu combate sempre esteve muito claro: em prol da arte, em prol da dança. Através da arte, de uma maneira geral, podemos dignificar mais o mundo, dar mais cidadania às pessoas. Por que os políticos, em sua maioria, não têm sensibilidade para a arte, para a cultura? A resposta... sabemos.
    Enfim, estarei na luta até as pernas aguentarem e enquanto a cabeça e o coração disserem sim!





segunda-feira, 1 de junho de 2020

João Neto Felix Mendes. Pandemia de Absurdos. Memória da pandemia nas Alagoas



Pandemia de Absurdos


João Neto Felix Mendes



Bancário aposentado, autor de contos e crônicas, publicados coletivamente nos livros “À Sombra do Umbuzeiro”, “À Sombra do Juazeiro” e a “À Sombra da Quixabeira” cujo cenário principal é Santana do Ipanema e sua gente. Membro da Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes. Editor do blog apensocomgrifo.com

            Vivemos tempos estranhos. Surrealismo que surpreende até o mais cético dos homens. Coisas inimagináveis. Até as cartomantes, visionários e videntes foram pegos desprevenidos.  Nem Nostradamus (1503-1566) buscou em suas visões tamanha tragédia no porvir.
Quem predisse palpite da atual realidade foi o cantor baiano Raul Seixas (1945-1989), o maluco beleza como se autodenominou. Sua canção “O dia em que a terra parou” (1977) faz um relato de um sonho, profetizando o mundo em caos parecido com esse que estamos vivendo.
            O certo mesmo é que o perigo está à espreita.             Paira sobre nós o manto invisível de medo. Vivemos em permanente desconfiança. O cenário provocado pelo novo coronavírus (covid-19) é nocaute às regras e convenções. Impiedoso, o mal avança e se alastra rapidamente em todas as regiões do país; grandes e pequenas cidades. A ciência ainda estuda sua origem e tratamento. Países envidam esforços para a descoberta de uma vacina. Milhares de pessoas já morreram no País.
 Reconhecemos que é um teste brutal aos governos e sistemas econômicos, visto que não há um protocolo único a ser seguido. E é exatamente por isso que o inimigo invisível se sobressai. Para vencer o desafio hercúleo é preciso concertar, pensar, articular, mediar, ouvir e implementar. Atitudes de líderes eficazes. Infelizmente, em falta atualmente!
Os governos expuseram em abundância foi sarrabulhada, desunião e falta de planejamento para gerenciar as crises de saúde pública, econômica, política e social. Estamos sozinhos a esmo. Cada um por si e salve-se quem puder.
E tudo foi parando.  Gestores, na ausência de plano federativo de gestão da crise, cada um foi tomando medidas que no seu entendimento mais serviam. Enquanto isso, superlotação e falta de estrutura nos hospitais e aumento de mortes em todas as regiões.
Nunca a ciência foi tão desprezada e subjugada. Governos acham-se no direito de questionar e ignorar pesquisas científicas e impor seus achismos à população e isso tem efeitos desastrosos. O isolamento social se apresentou como única forma eficiente para redução do contágio. Em consequência, economias estão sendo destroçadas. O desemprego e a fome avançam tal qual a força de tsunami social e de saúde pública exigindo dos governos ações que amenizem tanto sofrimento e agonia.
  Já estamos há mais 60 dias em quarentena e não vislumbramos amenidades. Indústrias fechadas, comércios, escolas e muitas pessoas nas ruas, indiferentes aos alertas das autoridades. Muitos esnobam. Pessoas reclusas foram obrigadas a intensificar convívio familiar e se espantam com a realidade do encontro consigo mesmo. Em risco, a sanidade mental anda capenga no limiar da loucura. Muitos seguem indiferentes como se nada estivesse acontecendo. Outros, simplesmente fingem desprezar tudo o que estamos vivenciando como se fosse um filme de ficção científica.  
As redes sociais se transformaram no palco geral de asneiras proclamadas aos quatro ventos. Muitos brasileiros agora são autoridades virtuais a serviço de coisa nenhuma, aliás, da balbúrdia. A falta de consciência ou boa vontade para analisar a veracidade das informações vem produzindo milhares de agentes disseminadores de notícias falsas em volumes desmedidos, embaralhando ainda mais o pandemônio.
Diariamente testemunhamos estímulo ao ódio e a polarização política, enquanto milhares de pessoas morrem sem direito sequer a velório e sepultamento digno. Vergonha nacional. Como será daqui para frente não sabemos. Somos um barco à deriva. Contudo, a pandemia e o isolamento social estão produzindo inúmeras mudanças no comportamento humano que não vê alternativa, senão ressignificar valores. A resiliência tomou a dianteira de palavra de ordem. Novos paradigmas despontam. E, como diz um velho amigo, assim caminha a humanidade.

domingo, 31 de maio de 2020

RECURSOS FEDERAIS PARA ALAGOAS. ENTREVISTA DE CÍCERO PÉRICLES. Memória da pandemia nas Alagoas

EM MEIO À PANDEMIA, UNIÃO JÁ INJETOU R$ 1,7 BILHÃO EM ALAGOAS

A receita que movimenta o consumo vêm de ajuda de benefícios sociais como o Bolsa Família

Sérgio Lima. O BRASIL NA GUERRA: RELATOS DE EX-COMBATENTES ALAGOANOS SOBRE SUAS EXPERIÊNCIAS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL





O BRASIL NA GUERRA: RELATOS DE EX-COMBATENTES ALAGOANOS SOBRE SUAS EXPERIÊNCIAS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Sérgio Lima


Professor Sérgio Lima da rede municipal de Maceió e Mestre em História pela Universidade Federal de Alagoas

O professor Sérgio de Lima terminou de defender sua dissertação de Mestrado na Universidade Federal de Alagoas, orientado pela professora  doutora  Ana Paula Palamartchuk a quem devo desculpas por não ter mencionado seu nome como orientadora do Gustavo em sua dissertação sobre o integralismo. Costumeiramente, quando recebo material derivado de orientação, coloco o nome do orientador. Apesar de ter sido por mero e raro esquecimento, acho que devo apresentar minhas desculpas.
Sérgio havia preparado esta matéria para Campus, antes de sua defesa. E decidimos priorizar a fala dos Pracinhas, desdobrando o texto em duas partes e, na primeira, colocando dois comentários introdutórios: um dele e outro meu.
Trata-se de um jovem talento que deve buscar seu doutorado.
Vamos ler.
Luiz Sávio de Almeida

Este material foi publicado em Campus/O Dia no ano de 2015

 

Alagoas, a guerra e seus pracinhas

Luiz Sávio  de Almeida

           Por conta da Segunda Guerra Mundial, o Brasil sofreu algumas modelações especiais, principalmente na área política interna, com a queda da ditadura do Estado Novo e a eleição de um general para a Presidência da República. Era mais um militar a assumir o comando do País,  como fora o próprio Getúlio Vargas que vai terminar a vida em 1954. A guerra foi travada longe do Brasil, na Itália de onde vieram nomes que chegam a fazer parte do território nacional como o Monte Castelo no exemplo das batalhas, como Pistoia que seria avançado cemitério brasileiro e absolutamente trágico naquela uniformidade de cruzes.
Claro que se pode discutir a participação do Brasil na guerra, desde a sua entrada à sua estada. Não há campo que possa e deva ficar isento de um debate e de uma discussão e, como tal, a guerra está aí, também, para isto. No entanto, para mim, há algo que deve ficar resguardado no mais absoluto respeito: o sangue derramado, expressão aparentemente piegas, mas é assim, desta forma, que se expressa gratidão.
 Se foi certo ou errada a participação do Brasil na guerra é uma coisa e o sangue derramado é outra. Certa ou errada, a guerra exigiu um sacrifício nacional e muitos foram feridos, mutilados e mortos e isto exige um respeito eterno.  E não estou falando em heroísmo e sim em pessoas, em uma infinidade de Josés, Pedros, Raimundos. São eles que de repente são chamados, retirados das famílias, assardinhados em navios e plantados em um solo que muitos nem sabiam que existia; foram eles que ficaram por aqui,  mas estavam lá, observando a costa, olhando os céus...
Respeito, mas respeito mesmo e baixo a cabeça com toda a humildade de cidadão brasileiro, para os que foram envolvidos na guerra da qual  muitos sequer sabiam do motivo quando foram chamados a largarem seus lugares. Esta sensação de humildade cívica nasceu certa feita, quando fui ver uma exposição por eles preparada. O Floriano Ivo Júnior me pediu para passar e fui em horário no qual eu poderia ficar o mais confortavelmente sozinho. E de repente fui me lembrando de meu pai que tinha um retrato de um filho do Heitor (seu primo) e quando pegava nele me dizia: este foi para a guerra. E de repente foi ficando claro que eu poderia retirar toda aquela aura heroica que se desejava passar e chegar no profundo das famílias, dos vizinhos, das Rosinhas que ficaram lá em Propriá.
Eu acho que comecei a lidar com a poética da morte e talvez por isto, aquela expressão Ex-Combatente passou e me incomodar, talvez pelo Ex que indicava um inexorável passado, talvez pelo Combatente, pois era pouco.  E algo meio confuso passou a fazer parte daquele lusco-fusco da razão: eu não poderia negar o combate, mas teria que descombatizar aqueles homens e vê-los em circunstância tal que fosse do mais absolutamente geral da guerra, ao mais infinitamente pequeno de um travesseiro onde lágrimas de dor molhavam o sono que não chegava. Eu preferi me agarrar às lágrimas ocultas.
Sempre digo em aula: procure ver o que está escondido e trabalhe este elemento e não o que se encontra evidente. Quando buscava tema para o doutorado, lembrei-me das prisões de 1935 e das mulheres que foram ao cárcere.  Cheguei a esboçar alguma como a mulher em 1835, mas não a presa e sim aquela que foi deixada com a família a ter de manter e sustentar seus filhos sob a pecha de casa de comunista. Deu vontade de tomar o chamado Pracinha, e de tentar estudar o drama das famílias vivendo o provisório da vida. Feliz ou infelizmente, fui me distanciando disto e terminei estudando a primeira metade do século XIX.
Ali estavam dois pontos para trabalhar: o que o Pracinha disse da guerra e o que viveu a família do Pracinha. De certa forma, lembrei Thompson da history from bellow com seu estudo sobre a guerra napoleônica.  No meio da documentação sobre a guerra, ele encontrou um maço de cartas de um soldado para a família e logo viu que além dos generais, os soldados também falam.  Este incidente,  termina por gerar um dos mais férteis ramos do marxismo crítico inglês, muito mais rico, a meu ver, do que Hobsbawn e Mills.
Os Pracinhas estão sumindo. Quem tinha 20 anos de idade em 1945, hoje estaria em torno de 90 anos. As vozes irão se desligando e a guerra é uma imensa polifonia. Eles estão escritos oficialmente em concreto de monumento; eu desejo o Pracinha do pequeno quadro na parede, da condecoração sumida em uma petisqueira,  o Pracinha de uma lágrima de recordação. Na verdade, seria uma história do Pracinha e não da guerra, uma história do filho do Heitor, primo de meu pai, apanhado pelo redemoinho do mundo.
O trabalho do Professor Sérgio Lima, agora publicado por Campus, deriva de uma pesquisa por ele realizada, quando de seu mestrado em história sob a orientação da Professora Dra. Ana Paula Palamartchuk. Podemos ouvir os Pracinhas e quem sabe alguns já morreram. É o primeiro trabalho acadêmico que conheço, sobre a guerra e Alagoas. Seria imensamente interessante, caso alguém escrevesse sobre a guerra em Alagoas; o que foram e como foram os anos da guerra especialmente nesta Maceió que parece recebeu muitos soldados filipinos.
Talvez este fosse um caminho para o doutorado do próprio Professor Sérgio Lima.  É também um tema urgente: quem tem notícias da guerra já vai desaparecendo; do ponto de vista militar, quem sabe exista documentação no 20º BC, quem sabe nos arquivos da Capitania dos Portos, mas, sobretudo, deveria ser uma história de como a cidade guardou a memória da guerra. O que seria isto? Para o Partido Comunista em Maceió, por exemplo, foi muito importante pela possibilidade de voltar à rua em face da União Soviética ser  do grupo contra o Eixo.
Há muita coisa a ser vista e somente os talentos novos vão dando a sensação de que tudo avança. Parabéns ao Sérgio, que é um amigo e marche para seu doutorado


O BRASIL NA GUERRA: RELATOS DE EX-COMBATENTES ALAGOANOS SOBRE SUAS EXPERIÊNCIAS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL[i].

Sérgio Lima

Há mais de setenta anos o Brasil mandava para o Teatro de Operações italiano um contingente militar superior ao número de 25 mil jovens brasileiros, tendo como um dos seus objetivos fazer parte das forças aliadas no combate ao nazifascismo naquele território, além de tentar consolidar a sua participação direta na guerra[ii]. Outros nacionais foram convocados, advindos de vários estados da federação, que também tiveram a sua cota de participação registrada em documentos oficiais, periódicos e em pesquisas posteriores, sendo designados para atuarem na defesa do litoral do país, contribuindo assim para a proteção da costa brasileira entre os anos de 1942 a 1945.
A FEB operou na Itália durante aproximadamente sete meses e dezenove dias. Nesse período, que se iniciou em 16 de setembro de 1944 até 02 de maio de 1945[iii], a FEB perdeu cerca de 440 homens, entre soldados e oficiais. Teve perto de três mil internados nos hospitais da retaguarda, mas, conseguiu capturar 20.573 prisioneiros[iv].
Tudo isso são números, que transmitidos de forma fria e desavisada não possibilita àqueles que os examinam uma melhor compreensão do quadro de horror que serviu de base para a exteriorização dessa lógica matemática, tão apartada dos sentidos e que representou por muito tempo a única base de sustentação das obras tidas como historiográficas sobre o período em que alguns brasileiros estiveram envolvidos na guerra.
Dessa forma, logo após o fim do conflito grande parte da história da participação de brasileiros na Segunda Guerra Mundial, de início, foi sendo reproduzida apenas pelo segmento militar. A falta de uma bibliografia que não se baseasse somente na lógica fria dos números da guerra foi aos poucos se fazendo presente através de depoimentos de ex-combatentes que dela participaram[v].
As experiências vividas pelos convocados, as suas falas e as ressignificações dadas sobre aqueles momentos difíceis que os seus depoimentos possibilitaram, tornaram possíveis entender mais detalhadamente o que foi a Segunda Guerra Mundial, não apenas do ponto de vista dos governos ou dos generais, mas pelo olhar dos homens e mulheres simples que lutaram pelo seu país e pouco ou quase nada receberam em troca.
Alagoas foi um dos estados que teve alguns homens e mulheres convocados para a guerra. No total, 148 alagoanos fizeram parte da FEB[vi], alguns da FAB[vii] e da Marinha brasileira e outros tantos foram convocados para defenderem o litoral brasileiro. Mesmo assim, poucos trabalhos foram feitos sobre a participação desses alagoanos. Apenas pequenas reportagens e citações bem resumidas podem ser encontradas sobre as experiências desses brasileiros quando do conflito mundial[viii].
Acreditamos que essa lacuna, ou essa falta de memória[ix], tenha sido causada, entre outros motivos, pelo fato de a maioria dos trabalhos produzidos sobre o tema se limitar apenas à bibliografia oficial, esquecendo-se da importância que se deveria ter dado, também, a outras fontes possíveis de serem utilizadas. Não há a intenção aqui de hierarquizar os meios de prova na construção de um estudo sobre esse tema. Se a importância das entrevistas ganha um destaque especial será pelo fato de não se poder desqualificá-las diante do que representam em relação ao entendimento da participação de ex-combatentes alagoanos durante a Segunda Guerra.
Conseguimos entrevistar alguns alagoanos que dela participaram diretamente. São eles: Os senhores Ulisses Firmino de Oliveira, Joaquim Balbino dos Santos e Aurino Ribeiro da Silva. Todos tiveram a espontaneidade de relatar, depois de quase 70 anos das suas convocações, as suas impressões da guerra e tentaram estabelecer um nexo de relação entre a sua vida durante e depois de terem sido convocados para defenderem o Brasil.
A média de idade dessas pessoas entrevistadas, à época da guerra, estava em torno de vinte e poucos anos[x]. Era a média de idade dos brasileiros convocados durante os últimos anos do conflito. Eram solteiros, não tinham filhos e detinham pouca instrução escolar. Vinham de famílias com uma renda econômica baixa e trabalhavam no setor urbano, como empregado, comerciante ou servidor do estado, na condução de bondes.
Atualmente, encontram-se instalados em suas casas com seus familiares sendo aposentados como ex-combatentes, recebendo uma quantia irrisória que mal dá para custear as suas necessidades básicas. Ajudam os familiares naquilo que podem e recebem dos mesmos certa consideração por terem os ajudado muito mais quando ainda detinham forças para trabalhar.
São velhos homens, que com a sua velhice conseguem ainda se situar no espaço deturpadamente estabelecido para os mais jovens que eles[xi]. Por conta do descaso de alguns e da falta de sensibilidade de outros para com o passado e com a memória, fazem com que estes velhos combatentes continuem lutando para manter vivo aquilo que acreditam ser importante e que moldaram os longos anos de suas vidas, ou seja, a pura e simples vontade de seguir vivendo e continuando a contar as suas experiências de vida, na qual se inclui os seus momentos como jovens convocados para a guerra. Assim sendo, passemos à palavra a esses ex-combatentes alagoanos, verdadeiros homens de guerra.

 AURINO RIBEIRO DA SILVA[xii].


Eu me chamo Aurino Ribeiro da Silva, sou do município de Pilar e nasci no dia 16 de outubro de 1920. Minha mãe era doméstica e o meu pai pescador. Sempre trabalharam para sustentar a família. Só estudei até as primeiras séries e completei apenas o primário. Trabalhava como comerciante, vendendo camarão, siri na feira. Sou um ex-combatente alagoano que participou na defesa do litoral brasileiro durante a Segunda Guerra mundial.
Quando fui convocado para guerra tinha, mais ou menos, 22 anos. A minha participação, ou o meu trajeto como convocado pode ser resumido da seguinte forma: Eu fui sorteado e convocado, partindo logo em seguida para o 20º BC. Deste, um trem levou a gente para Recife. Chegando lá já tinha um caminhão esperando para nos levar à outra cidade, no caso, Olinda. De Olinda eu fui para Piedade, sendo levado, junto com outros rapazes, para Fernando de Noronha, no navio Itupiara, passando três dias e três noites, navegando dentro do oceano, vendo gente vomitando aquela água azul, pois não tinha mais o que vomitar dentro do corpo. Chegando em Fernando de Noronha, acabei servindo por quatorze meses. Depois desse tempo, passando uma vida medonha, só tinha lá... rato, só tinha rato branco, cobra não existia, voltei para Olinda. De Olinda eu fui engajado, depois fui reengajado.  Quando terminou o reengajamento aí eu pude ser enviado para casa.
Quando estive em Fernando de Noronha tive contato com vários tipos de armamentos e equipamentos de guerra. Um deles foi o telêmetro[xiii], que servia, entre coisas, para avistar os civis ou o inimigo. Tinham também os canhões 152,4 mm, que era preciso duas pessoas na padiola para botar na câmara, para depois disparar. Quando ele dava os estampidos muita gente “pocava” os ouvidos e se estivesse com a boca aberta mordia a língua. No morro, às vezes, desabava muitas pedras por conta do estampido do canhão.
Quando fui convocado, depois da guerra ter estourado, eu não tinha nenhuma ideia do que estava acontecendo no mundo. As notícias que eram publicadas nos jornais, na rádio ou até mesmo entre os meus amigos à época, tinha pouco conhecimento e pouco me interessava. Eu tinha medo, mas não tinha jeito.
Quando estive em Fernando de Noronha, local aonde fiz meu curso de combate, aconteceu um fato interessante. Tinha um tenente que obrigava a gente a ir a olhar para um canto e para outro e em uma das vezes apareceu um submarino. Quando o submarino apareceu nos preparamos para fazer fogo. Aí, ele falou que tínhamos que comunicar primeiro para o Rio, quando vier ordem do Rio, então nós poderíamos sentar fogo no submarino. Aconteceu o seguinte: o submarino emergiu foi embora e aí ninguém fez nada. Este submarino era alemão.
Tive contato com poucas pessoas lá em Fernando de Noronha. Não me lembro mais dos seus nomes e nem do lugar de onde vieram. Lembro apenas de um advogado que passou batido nas provas que nós fizemos quando lá chegamos. O curso foi muito interessante. Passei onze meses naquela região. Sei que não podia ser mandado para Itália, mas alguns acabaram indo. O meu dever era proteger o litoral de possíveis ataques alemães. Sempre houve essa conversa de que os alemães poderiam atacar o Brasil. Mas aí a gente estava na atividade. Sempre olhando, por que se aparecesse dentro do oceano algum submarino inimigo a gente atirava, claro que com o aval do comando superior. Só podíamos matar se houvesse a ordem do Rio. No momento em que avistamos o submarino bateu uma cisma na gente pelo fato de não sabermos o que vem de lá, né? Por isso que é bom às vezes esquecer esses acontecimentos.
Passado tantos anos, eu me vejo hoje como um Ex-combatente, sócio da Associação de Ex-combatentes do Brasil, seção Alagoas, aposentado e tendo que me apresentar de seis a seis meses na 20ª CSM.
Guardo da guerra mais tristezas do que alegrias. Eu sou ex-combatente e recebo como ex-combatente, depois de muita luta. Na minha carteira, sou Cabo. Não quis continuar no Exército por um simples fato: quando acabou a guerra ninguém queria saber mais de nada, queria era ir para casa. Se eu não tivesse sido obrigado a me apresentar e a participar como soldado brasileiro, eu é que não ia me arriscar numa coisa daquela. Seria bom que não existissem mais guerras. Quem quer saber de guerra, rapaz?

 [i] Este artigo foi produzido pelo professor da rede municipal de ensino de Maceió Sérgio Lima, mestrando do curso de História da UFAL e orientando da professora doutora Ana Paula Palamartchuk.
[ii] MOURA, Gerson. Relações Exteriores do Brasil: 1939-1945: Mudanças na natureza das relações Brasil-Estados Unidos Durante e após a Segunda Guerra Mundial / Gerson Moura; apresentação de Letícia Pinheiro; prefácio à nova edição de Leslie Bethell.─ Brasília: FUNAG, 2012.
[iii] SILVEIRA, Joel e, THASSILO, Mitke. A Luta dos Pracinhas: A FEB 50 anos depois, uma visão crítica. Rio de Janeiro: Record, 1987.
[iv] Roteiro da FEB, disponibilizado pela Associação dos Ex-combatentes do Brasil, secção de Alagoas, baseado em dados disponibilizados pelo Exército brasileiro.
[v]Ver: FERRAZ, Francisco C. A. A guerra que não acabou: A reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina (EDUEL), 2012.
[vi] MORAES, J. B. Mascarenhas. A FEB Pelo Seu Comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005.
[vii] BUYERS, John W. A História do 1º Grupo de Caça, 1943-1945. Maceió: Editora do Autor, 2001.

[viii] Jornais como A Notícia, O Semeador e o Jornal de Alagoas, além de algumas reportagens encontradas no acervo da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção de Alagoas (AECB-AL).
[ix] Sobre as memórias subterrâneas ver: POLLAK, M. Memória, Esquecimento e Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n. 3, 1989, p. 3-15.
[x] Requisitos para ser convocado: Ser brasileiro nato, ter mais de 21 anos e menos de 26 anos de idade, ter boa conduta comprovada com atestado da competente autoridade policial ou por oficial das Forças Armadas Nacionais, ser solteiro ou viúvo sem filhos e ter no mínimo instrução primária completa (fonte: Jornal de Alagoas: 27/06/43 (IHGAL)).
[xi] Sobre a memória dos velhos, ler: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças dos Velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
[xii] O ex-combatente alagoano Aurino, morador do bairro do Vergel do Lago, localizado em Maceió, foi outro dos pracinhas que conseguimos entrevistar. Foi convocado para a defesa do litoral brasileiro, mas especificadamente em Fernando de Noronha. Aurino, homem de poucas palavras, demonstra uma boa saúde e relata as suas experiências de guerra, sendo um dos colaboradores deste trabalho. Sua entrevista aconteceu em 12/04/2014. 
[xiii] É um dispositivo de precisão destinado à medição de distâncias em tempo real

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