segunda-feira, 4 de maio de 2020



AS NECROTEOLOGIAS DO CORONAVÍRUS
Paulo Nascimento
Bacharel em Teologia (Seminário Teológico Batista do Nordeste).  Doutorando em Linguística (Universidade Federal de Alagoas)
Sim, é isso mesmo que o título desse pequeno texto enuncia: a iminência da presente pandemia da Covid-19 faz brotar insidiosamente alguns tipos de Teologias, isto é, de discursividades que partem da fé e que produzem fé, além de mobilizar indivíduos e grupos de diferentes formas. Não importa que essas Teologias não se intitulem assim. Continuam sendo isto: Necroteologias do Coronavírus.
Acho que dentre todas elas, aquela que produz os piores efeitos é a que está a serviço do Deus Capital e à serviço da adoração ao mercado financeiro. Não é de hoje a percepção de que o Capitalismo é uma Religião. Isso já havia sido proposto por Walter Benjamim (1892-1940) algumas décadas atrás.
Também não é de agora a denúncia das maldades dessa Religião. No auge da Teologia da Libertação pessoas como Jon Sobrino, Elsa Tamez e Jung Mo Sung, entre muitas outras, já nos chamavam a atenção para as consequências genocidas do culto cego ao deus Mercado.
Foi com a pastora mexicana Elsa Tamez, por exemplo, que eu me dei conta de que, à exemplo dos antigos deuses astecas que exigiam sacrifícios humanos, o Capital assim também o exigia como uma condição de sua própria sobrevivência. A pandemia que agora enfrentamos ocasiona, portanto, a vociferação dos teólogos do deus Mercado, para quem o sacrifício de vidas humanas é uma parte natural, necessária e imperativa de sua narrativa cósmica.
De consequência menos tanatológica, mas nem por isso menos grave e preocupante, está aquela Teologia que hora cheira a mofo medieval, hora cheira a manicômio. Aquela mesma que ajudou a colocar no poder o projeto político que governa o Brasil no momento. Quero me corrigir: essa Teologia tem sim consequências tanatológicas graves, ainda que a médio prazo.
Elas cultivam o desprezo pela Ciência, e mais do que isso, tentam fazer de suas alucinações religiosas, ações do próprio Estado brasileiro. Seu trunfo? Um chefe do Poder Executivo que entende muito bem como usar o fundamentalismo religioso para fins políticos.
Essa Necroteologia, já representada institucionalmente em alguns Ministérios em Brasília, é a mesma que agora teima em manter templos religiosos abertos e atuantes, e é a mesma que quer fazer do jejum religioso uma política pública. Triunfalismo arrogante, muitas milhas distantes da simplicidade, da leveza e da sobriedade daquele a quem supostamente dizem seguir.
Eu confesso que gostaria de ver brotar desse momento uma outra Teologia. Ela não precisaria ser exclusivamente cristã. Nem precisa se reconhecer nesse nome. Mas também admito que a memória histórica do Cristianismo teria muito o que lhe informar. Uma Teologia, por exemplo, que assumisse a comunidade de Atos 2 como imagem arquetípica. Mais ou menos como fizeram Frederick Engels e Rosa Luxemburgo, ao verem nas narrativas do Cristianismo primitivo os brotos de um novo mundo mais fraterno.
Sim, porque é correta e autêntica a ansiedade de quem teme o colapso econômico, ainda que seja um blefe desvincular isso da crise sanitária que teremos de enfrentar. A crise sanitário-econômica, no meu entender, oportuniza o surgimento dessa outra Teologia, na qual “ninguém solta a mão de ninguém” (simbolicamente !!!). Nesse caso, a imagem arquetípica da comunidade de Atos 2 fundaria uma Teologia da Vida!
Mas, Teologia da Vida em que sentido? Primeiro, na denúncia que essa Teologia faria ao nefasto casamento entre necropolítica e necroteologia em curso no Brasil, que naturaliza a morte de grupos humanos como necessária à manutenção do deus Mercado.
Segundo, pelo potencial de ação contido nessa nova Teologia da Vida: “e todos tinham tudo em comum...”, se dizia acerca da arquetípica comunidade cristã de Atos 2. Contudo, certamente não é a caridade pura e simples que nos salvará dos impactos econômicos de tudo isso. Mas não tenho dúvida de que a solidariedade deve ser parte fundamental do modo como temos que enfrentar tudo isso. E para tanto, uma outra Teologia da Vida necessitaria ser gestada o quanto antes.

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Luiz Sávio de Almeida e José Carlos Silva de Lima
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Pe. Náiron Alécio de Mendonça, CM. Os cristãos e a pandemia. Memória da pandemia nas Alagoas (XXXII)



Os cristãos e a pandemia
 Pe. Nárion Alécio de Mendonça, CM

            Os cristãos buscam a Deus certamente por suas promessas de algo sempre melhor do que o que vivemos, estamos passando ou que é imutável por nossas capacidades humanas. Superação da dor, tristeza, solidão, carência material, enfim qualquer situação fora do que contempla a dignidade humana, quando se coloca sob a amorosa providência divina. A doutrina cristã e a própria Bíblia nunca negaram a ação sobrenatural e poderosa posta a serviço do bem humano por parte de Deus e também sempre por sua iniciativa. O que acontece em muitos casos é a ignorância, em vários sentidos, dos mandamentos como resposta ao projeto de libertação que se busca com tanta ânsia.
            Desde o Gênese a ação poderosa do Criador vem acompanhada de instruções, ensinamentos e mandamentos sobre como, em sua liberdade, as pessoas deveriam conduzir suas vidas pela melhor via. Deus, gratuito e benevolente, não deixa de conceder o melhor de sua graça a todos, mas avisa que podemos desperdiçar esta graça em consequência de nossas atitudes contrárias ao que ensina. Não é somente uma lei positivada mas, de fato, uma orientação de vida equilibrada e feliz. Isso mostra que Deus nos deu consciência e responsabilidade sobre o que realizamos como indivíduos, como comunidade de fiéis e como seres humanos livres.
            Cristo, que se fez servo por amor ao Pai e pelos que ele ama, revelou por completo o amor do alto, que de nada será útil às pessoas se elas também não refletirem este amor: não sentimento, mas atitude consciente de desejar o bem de Deus e do próximo.
            Nesta pandemia, com certeza o poder infinito será nosso socorro, quando a ação e a capacidade humana mostram-se inferiores ao que estamos enfrentando, dado o sofrimento e as mortes testemunhadas. Porém, a ciência, nunca inimiga da fé e sim fruto da graça divina concedida aos homens e mulheres, e diante da qual a fé não pode se colocar prepotentemente, mas aceitar sua colaboração e especialidade, nos ensina como podemos preservar o máximo de vidas possível. Quem tem consciência e humildade, como discípulo de Cristo, deve sim continuar confiando na providência do alto, com orações e preces, mas também tem atitudes a tomar, tanto conforme as orientações científicas como por seu discipulado: suportar o isolamento social sem se deixar cair no egoísmo ou no medo; conscientizar outras pessoas com o desejo de preservar vidas; exigir das autoridades responsáveis a sua ação pelo bem da sociedade; lembrar-se daqueles que sempre foram abandonados e serão ainda mais por causa do desespero social; buscar, no Espírito Santo, a criatividade necessária para contornar os limites impostos.
       Nada muda naquilo que foi oferecido para formar a consciência e a fé dos que se fazem cristãos. As exigências, sim, sempre mudam, e aparecem com novos desafios para a fidelidade de quem deve, como o apóstolo Paulo, saber viver na abundância e na pobreza, no conforto e na tempestade. Que não seja necessário aos cristãos negar aquilo que lhes foi deixado, nem se encontre motivo para agir de forma contrária ao que é sua missão: ser, por Cristo, sal da terra e luz do mundo.

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Ir. Zelda Zorzo FSCJ. A força do Invisível. Memória da pandemia nas Alagoas (XXX)




A força do invisível
Ir. Jelda Zorzo FSCJ
Religiosa      
                                                                                                            Quando começaram os primeiros sinais de paralisação devido a um novo vírus que estava se alastrando, comecei a pensar na força de algo tão pequeno, invisível a olho nu. Comecei a desejar e pedir a Deus que, como humanidade, não desperdiçássemos este momento. Experimentando a impotência e a igualdade de todo ser humano ‒ o coronavírus não distingue classes sociais, raças, crença, orientação sexual, ideologia ou outras diferenças que nos dividem ‒, poderia ser uma ótima oportunidade para refletir de que vale a prepotência, o orgulho, a autossuficiência... Qual o sentido do egoísmo e da ganância, que levam a marginalizar a maioria dos humanos e a tornar inabitável a “casa comum”?
            A força invisível vai se expandindo, aumentando o medo, a dor, o número dos que partem e também a incapacidade da ciência e das instituições de saúde para cuidar do que realmente conta: a vida. Ao mesmo tempo, muitos são os anúncios e augúrios de que uma nova humanidade ressurgirá após a pandemia.
            A partir do que vamos ouvindo e vendo, parece ser verdadeira a sabedoria popular ao dizer que fortes sofrimentos revelam o que há de melhor ou de pior nas pessoas e em suas instituições.
            Louváveis os gestos de solidariedade e a coerência dos profissionais da saúde, arriscando a própria vida no cuidado dos pacientes e, até mesmo, no gesto heroico do padre italiano que, vendo a seu lado uma pessoa mais jovem a necessitar de respirador, cede a ele o seu e acaba morrendo. Dignos de reconhecimento e gratidão são todos os trabalhadores dos serviços considerados essenciais que não podem “ficar em casa”.  Motivo de alegria é perceber que também a Igreja Católica manifesta neste momento a dimensão da caridade que a caracteriza ao longo da história.
Inúmeros são os gestos de generosidade e criatividade, buscando minimizar e/ou enfrentar e encontrar saída às necessidades do ser humano. Sim, a força invisível do vírus está tornando visível a força do bem, muitas vezes escondida, mas real em tantas pessoas e instituições! A terra, o ar e as águas já dão sinais de quanto está sendo bom o parar dos humanos. E como tudo está interligado, creio, retornarão a nós os benefícios do que estamos vivendo.
Por outro lado, essa força invisível do vírus parece ser inexistente para muitos, ainda. As forças do poder, das ideologias e do mercado teimam em ser mais fortes. Também as necessidades do imediato, sem os auxílios necessários, são forças que não permitem parar. Outras pessoas parecem inconscientes da gravidade do que está acontecendo. Seja o que for, é também o que existe de pior a se manifestar quando a dor se torna forte. Ganância e ignorância têm em seu bojo alguma “ânsia”.
Independentemente da forma como reagimos, estamos “todos no mesmo barco”, disse o Papa Francisco, no sermão da praça vazia, interpretando a tempestade no lago, enfrentada por Jesus e seus discípulos assustados.
            Constatamos, diz Francisco que “estamos todos no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento.”
           Acolhendo a mensagem do Papa, acredito que o momento que estamos vivendo necessita ser visto na sua positividade, como um chamado a olhar os vários problemas do mundo e a necessidade de reorientar prioridades e modos de pensar e agir:
“Avançamos a toda a velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não (…) despertamos ante guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-Te: ‘Acorda, Senhor!’”

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José Carlos da Silva Lima. COVID 19: qual será a colheita?. Memória da pandemia nas Alagoas (XIX)




COVID 19: qual será a colheita?

José Carlos da Silva Lima

Mestre em história pela Universidade Federal de Alagoas, coordenador da Comissão Pastoral da Terra de Alagoas e membro do Grupo Terra


Muito se tem discutido, recentemente, acerca da quarentena. Algumas pessoas duvidam da necessidade de ficar em casa e distantes do convívio social. A realidade é que, de alguma forma, os planejamentos foram atingidos, impactando o cotidiano das famílias, das pessoas, dos bairros, das cidades. A agenda pessoal, social, familiar e de trabalho foi colocada, em parte, em stand-by. É como se tivéssemos coletivamente apertado a tecla pause.
O principal motivo dessa mudança radical é um “bichinho invisível e devastador”, que por onde passa deixa o registro da morte e um rastro de dor e sofrimento. As estatísticas, muitas vezes frias como a morte, ilustram esse triste quadro, como se pode observar nas informações disponíveis na página do Ministério da Saúde. Aqui, tomamos como referencial o dia 19 de abril, quando havia, no mundo, 2.331.099 pessoas contaminadas e 160.952 mortos; em solo brasileiro, 38.654 pessoas contaminadas e 2.462 óbitos, com uma taxa de letalidade de 6,4%. No universo alagoano, 159 pessoas estão oficialmente infectadas e 15 morreram.
 Apesar do altíssimo número de infectados e de mortos, da inexistência de um medicamento eficaz na contenção do vírus e da distância para se chegar a uma vacina, persiste na sociedade brasileira o dilema da quarentena. Temos, de um lado, o presidente da República, que nega a ciência e desmerece a força devastadora da Covid-19; do outro, um bloco de cientistas e países que orientam o uso da quarentena como um mecanismo capaz de desacelerar a contaminação, evitando o colapso nos hospitais públicos e privados. Ainda que o presidente tenha externando a sua posição do retorno à “vida normal”, 80% da população brasileira, conforme pesquisa do Datafolha, é favorável a punição para quem descumprir as regras da quarentena.
É evidente que essa maioria entende a quarentena como necessária e temporária. A quarentena não pode ser vista como uma muralha intransponível ou uma punição; pelo contrário, deve ser compreendida como uma ponte em construção. Essa travessia poderá ser demorada, cansativa, dolorida. Mas, sem dúvida, ao seu término, seremos seres melhores. Essa melhora já é perceptível, já estamos experimentando. É notório o aumento da prática da solidariedade, da partilha, do cuidado. A VIDA tem ganho outros contornos, outras cores, outros horizontes.    
A minha experiência de distanciamento social teve início logo após uma bela vivência com representações das comunidades camponesas da região da Mata e Litoral Norte de Alagoas, acompanhadas pela Pastoral da Terra. Essa atividade comunitária ocorreu nos dias 16 e 17 de março, no assentamento Flor do Bosque, em Messias. É importante informar que esta comunidade é resultado da insistência das famílias sem-terra que ocuparam aquele imóvel em novembro de 1998 e conquistaram 360 hectares após uma década de luta.
Naqueles dias falávamos de sementes. Sementes da paixão, da resistência, crioulas. Sementes camponesas, com memória e ancestralidade. Quando a imagem de uma semente chega à nossa mente, logo a relacionamos com terra, com água, com trabalho, germinação, cultivo, cuidado, colheita, com comida na mesa.
Havia entre os agricultores e agricultoras um clima de esperança em uma boa produção. Falavam, com a alegria, das sementes que tinham e das chuvas que caíam. O contentamento se explicava pelas chuvas e pela proximidade do dia de São José, dia 19 de março, dia de plantar, como reza a tradição camponesa. Nesse período o milho é o alimento que melhor caracteriza o plantio nas terras de Alagoas. Milho para comer assado, cozido, na forma de pamonha, de canjica, em tempos juninos. É assim que o saber popular camponês compreende esse tempo: planta em São José e come em São João.
Nesses dias, tenho conversado com camponeses e camponesas, recebido fotos e vídeos do campo. O entusiasmo continua. O roçado verde é sinônimo de esperança. Do litoral ao sertão, tudo leva a crer numa boa colheita. Na tentativa de estabelecer uma relação pessoal com esse universo camponês, tenho me perguntado: Como preparei a minha terra? Quais sementes selecionei? Como reservei a minha água? O que estou plantando? Qual e como será a minha colheita? São questionamentos e inquietações da minha quarentena.

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Geysson Santos. Entre a grota e a praia, a morte tá no ar. Memória da pandemia nas Alagoas (XXVIII)




Entre a grota e a praia, a morte tá no ar
Geysson Santos 


Entre a grota e a praia, a morte tá no ar
Entre prédio e barraco é embaçado evitar
O chão de terra e o asfalto seguindo a merma linguagem
Se viver é a meta, nois ignora as bobagem
Que tá sendo falada por quem detém o poder
Fascista comprovado, consegue nem debater
Conhecemos perrengue, desde o corte umbilical
Fortalecer a quebrada pra nóís é fundamental
Pq aqui é esquecido e é onde mora o risco
Então arrisco, invisto e me sujeito aos perigo
Fazendo os corres que o estado nos nega
Tá todo mundo sofrendo, mas nossa morte num agrega
Em terra de apatheid, escolhe quem tem leito
Mas se for pobre e preto, nem consideram sujeito
Inimigo invisível é calamidade total
Tamo pagando o preço por não ter hospital
Nem garantem comida, pra matar de fome
No atestado de óbito? Nem anota o nome
Preencher estatísticas sempre foi nossa vida
Por isso querem os negão, que é pra testar tuas vacina
Com campanha da morte em discurso oficial
Diz que vai morrer gente.. se for preto? Normal
Essas idéias não cola, desobedecer pra viver
Se é só gripezinha, então fora você.

Geysson Santos
Graduando em História, na Universidade Estadual de Alagoas, rapper e militante. Iniciou sua caminhada na música em 2011, em seguida, ao conhecer o Coletivo Cia Hip Hop, passou a ter engajamento em atividades numa perspectiva sociocultural, atuando principalmente no Village Campestre. Foi a partir dessa atuação, que aproximou-se de uma perspectiva política, provocando a Cia Hip Hop a refletir acerca da conjuntura politica local/nacional e propor respostas diretas. Nesse sentido, colaborou para a criação da Frente Alagoana de Hip Hop, em 2014, uma iniciativa que reuniu diversas lideranças periféricas, posses e coletivos de Hip Hop de todo Estado. Além disso, ministrou oficinas de “Rap, poesia e letramento” para crianças e jovens da comunidade Cidade Sorriso, no Benedito Bentes, instigando e contribuindo para a expansão do rap nas periferias da capital, além de construir alternativas educacionais dentro da periferia. Já transitou em diversas cidades e Estados para participação em seminários e palestras, apresentando reflexões políticas construídas em sua vivência durante sua trajetória. Construir uma narrativa negra, alagoana e periférica tem sido sua principal característica desde seu engajamento na militância, dessa forma, contribuir para a construção de uma nova sociedade.



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Viturino. Periferia contra o covid-19. Memória da pandemia nas Alagoas. (XXVIII)



Periferia contra o covid-19
Viturino

Enquanto o corpo chora com o covid-19
A Periferia é quem mais sofre
Porque, lá a maioria é preto e pobre

Pobre é o diabo
Mais ele está encarnado em pele de cordeiro
Que força o povo a trabalhar
Enquanto muitos,  se protegem no extrangeiro

É triste ver que alguns poucos resistem a imposição do inviduo
Fala que é só uma gripezinha
Que não vai dar em nada
Podem ir pra rua, ser a presa do inimigo

Inimigo esse, que alienou nossos iguais
Imagina!
É no meio da cultura, do esporte
Que apoiam quem defendeu que o povo
Deve ser tratado como animais

É na periferia, te falo
Que a informação demorou para chegar
Lá, as crianças brincam na rua
Com pés descalços
Sem medo de se contaminar

Contrariando a estatistica
De que alí se passa mal
Pelo contrario
É na periferia
Que se aprende a ser humilde
Que o convite pra viver é surreal

Vivemos as margens da sociedade
De um sistema falido
Que só quer alienar
Não é por medo
E sim por necessidade de ter um abrigo

Mas te falo em alto e bom som
É na periferia
Que tem homens  e mulheres  
lutando pela dignidade
Esses sim
São os herdeiros dos herois e heroínas
Os verdadeiros combatentes nessa calamidade.


Viturino
Bibliotecário, artista plástico, skatista, vocalista da banda LA POLI&CIA, começou sua tragetória na música aos 8 anos de idade, onde teve suas primeiras experiencias participando de roda break dance, em meio aos dancarinos e mc’s da época. Na adolescencia fundou a banda LA POLI&CIA, para transmitir através da musica seus anceios e questionamentos sobre a realidade em que vivia. Militante político e cultural, participa ativamente do combate as opressões. Defende que o povo organizado é capaz de mudar uma realidade. Na universidade construiu o projeto Som no Cantinho, que buscava incetivar a musica como forma de extensão universitaria. Participou tambem do projeto Cine Olho Vivo, uma proposta de exibiçao de curta-metragem para a comunidade universitária. Hoje, desenvolve atividades de incentivo a economia criativa, transformando materiais recicláveis em arte, e expondo em eventos culturais, e dando oficina de confecção artistica para jovens carentes e ociosos. Através da música, já circulou alguns municípios de Alagoas, levando um pouco de consciência para as pessoas. Disseminando a Informação é o nome da proposta a ser apresentado pela Banda LA POLI&CIA. Pretendendo retratar e levar o público a reviver e refletir sobre a questão política ideológica de seu país, assim como sobre as manifestações populares e culturais, fomentando uma discussão maior para os dias atuais, por meio da magia que a música proporciona, principalmente no contexto de expressar um pensamento crítico.

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Laís Queiroz. Em poucas semanas. Memória da pandemia nas Alagoas (XXVII)

Em poucas semanas

Laís Queiroz
atriz, arte-educadora, professora de teatro e bacharela em direito.

Em janeiro/2020, fiz uma viagem de férias pela Europa. Trinta dias conhecendo países onde o coronavírus já se instalava. Residi algumas semanas na Bélgica, país no qual meu irmão mora. E a covid-19? Eu não estava sabendo muito bem o que vinha acontecendo no mundo. O vírus ameaçava chegar de forma violenta na Bélgica. Cheguei ao Brasil no final de janeiro com alguns sintomas que me deixaram alerta. Os primeiros casos de covid-19 pelos lugares onde eu passei anteriormente já assustavam. Recebi um telefonema de meu irmão. A Bélgica havia decretado a quarentena. Meu irmão me pediu para ficar em casa. Resolvi conversar com meus alunos sobre nossos abraços e beijos. Foi o primeiro momento mais difícil. Tive que ensinar meus alunos a nos cumprimentarmos com os pés e cotovelos. Pensávamos que aquilo tudo não chegaria ao Brasil. Que ironia! Em poucas semanas nossas vidas mudaram. Para minha surpresa, no início de fevereiro, fui ao evento de lançamento do meu primeiro livro como coautora, na cidade de São Paulo, na 7ª MIT-SP. Antes mesmo de viajar, minha mãe já havia me entregue um conjunto de máscaras para usar durante a viagem. E quando retornei a Maceió? Em menos de 24 horas, alguns eventos da MIT-SP tinham sido cancelados e a programação havia sofrido alteração, pois já não podia existir aglomeração.
Em Alagoas, nossas atividades escolares foram suspensas no dia 18/03. Além de ficar mais ansiosa, tive bastante insônia, comecei a participar de reuniões pela plataforma zoom, tive algumas formações também, me reinventei quando se trata de “ensino a distância”, ou melhor, as chamadas aulas remotas. Que período difícil! Novos desafios e muita superação. Senti uma reponsabilidade grande por ser professora e precisar às pressas dar continuidade a educação básica perante a pandemia que anunciava a cada dia mais vítimas. O ensino e aprendizagem remota foi o segundo momento mais difícil dessa pandemia. Meu emocional abalado teve que ganhar forças e voz para fazer a escola acontecer, mesmo que à distância (coisa que sempre inquietei). Passei a questionar algumas vezes sobre meus direitos de imagem e voz. Quem irá pagar o prejuízo no futuro? (sem respostas). Me senti desprotegida pela primeira vez na minha profissão. O que me impulsionou a participar da live “Arte em ação: arte, educação e sociedade em tempos de pandemia”. Um dia, recebei um telefonema do meu irmão, que me ligou chorando dizendo que estava com falta de ar. Fiz um exercício de respiração diafragmática com ele. Aos poucos ele foi voltando. Ele percebeu que havia entrado em pânico. Eu chorei muito nesse dia. Eu também nunca pensei que fosse ver minha mãe chegar do trabalho sem poder me abraçar. Desenhei praticamente todos os dias, pintei bastante, pratiquei exercícios físicos, gravei alguns vídeos, leio sempre, escrevo poesia para passar meu tempo e brinco com meus gatos.
Observei como a natureza estava mais bela e os animais mais livres com todo esse distanciamento social. Reli mais uma vez a obra: “Só mais um esforço”, de Vladimir Safatle. Antes dessa fumaça de isolamento social... sim, eu vinha refletindo muito sobre a vida, família, amigos e filhos, logo eu, que sou tão livre. Agora, as fronteiras e limites são poucos, como uma tela do celular, computador ou qualquer outra tecnologia. Meu coração vem batendo mais forte. Essa distância do isolamento veio quebrar nossas paixões. A pandemia veio para reforçar alguns laços, cortar outros e apresentar soluções para essas quebras. Estou vivendo um primitivismo. Essa criação acelerada por meio do sofrimento junto com a pandemia tem um lado positivo. Se hoje a pandemia fosse interrompida com certeza não seremos os mesmos. Iremos descobrir tudo aos poucos. Nossa complexidade aumentará a partir do conhecimento de nós mesmos.
Entre oscilações políticas, altos e baixos na economia. Eu prefiro compreender que se o homem não preservar a mãe natureza, por que iria preservar a vida humana? Cada dia vejo uma renovação. Também vejo uma doença nova no ser humano. No final das contas, a pandemia veio para desacelerar o processo do desenvolvimento humano na nossa sociedade capitalista e individualista. Muitas famílias, neste momento, se encontram numa grande situação de vulnerabilidade social. Minha mãe me informou que não existe equipamento de segurança para todos os funcionários e pacientes na saúde pública. Este foi o terceiro dia mais difícil e o mais feliz também desse tempo de pandemia, pois decidi ajudá-la com máscaras e luvas. Nesse momento a solidariedade é fundamental ao ser humano.  Agora, no Brasil, são mais de seis mil mortos e ainda existem pessoas que não acreditam em covid-19, bem como um presidente que diz:” E daí?” É... teremos que nadar contra a correnteza. Iremos vencer, continuar lutando... ainda me permito, mesmo em casa, sentada em minha cadeira amarela, pensar em todas as transformações que mire a margem de nosso Brasil.

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