terça-feira, 23 de junho de 2020

Elen Oliveira. Um dia de cada vez





Um dia de cada vez



Elen Oliveira

Quando a vida normal foi suspensa, no início de março de 2020, eu tinha uma homenagem a receber no dia 26, uma pré-estreia a assistir no dia 17 e uma reunião de trabalho marcada para o dia 18. Para um pouco mais adiante, eu agendara uma viagem para acompanhar minha filha a um show em São Paulo. Havia ainda férias programadas e um encontro com amigos para comer um hambúrguer vegano e atualizar a conversa, fora a rotina de trabalho, caminhadas diárias respirando a maresia Cruz das Almas/Ponta Verde/Cruz das Almas e inúmeros abraços, que eu adoro abraçar.

Chegando em casa, na noite da sexta-feira 13 de março,  depois de um dia em que já havíamos programado uma escala de trabalho metade presencial/metade teletrabalho, vi que a vida já havia mudado no curso de algumas horas.
Estava assistindo ao telejornal noturno, quando uma notificação do Whatsapp me chamou de volta ao trabalho. Toda a agenda estava automaticamente suspensa e naquela noite, as reuniões nos grupos se estenderam até a madrugada, intensificando-se no sábado e no domingo seguintes. Era preciso reorganizar a sistemática de trabalho.

Não havia precedentes para aquela situação, então passamos a viver um dia por vez e aprendendo, com cada demanda que se interpunha, a lidar com ela e a programar a resposta às próximas. A primeira semana, assim como o primeiro decreto normativo do meu trabalho e do cotidiano dos demais viventes de Maceió, foram destinados à aprendizagem e à adaptação. Suspenderam-se eventos e qualquer programação que ensejasse aglomeração, enquanto recebíamos, entre o medo e o pesar, as notícias da Ásia e da Europa enlutadas.

Na segunda semana foi oficializado o teletrabalho para as atividades adaptáveis ao modelo e estabeleceram-se normas para aquelas cuja presença física nos locais de trabalho fosse imprescindível. Regras de segurança e higiene, protocolos de atendimento e funcionamento de estabelecimentos comerciais, condutas sociais, tudo foi reformatado.

O chamado isolamento social redimensionou também a vida privada. As telenovelas deram espaço ao jornalismo em tempo integral, estabelecendo uma dinâmica diferente do tempo e da vida, agora restritos ao espaço doméstico.

Nos primeiros dias, considerei racional correr ao supermercado e à farmácia, como se estivesse me preparando para um longo inverno, em pleno verão maceioense. Nas prateleiras, a clara demonstração de desapreço ao bem-comum. Grande parte dos itens recomendados à prevenção do coronavírus, o agente da pandemia, havia desaparecido. Os que restaram estavam bem mais caros. Foi necessário o poder público estabelecer regras de controle e fiscalização de preços para conter abusos e a sanha dos acumuladores. Com a situação regulada, os estoques foram restabelecidos e os preços voltaram a patamares aceitáveis.

As teleaulas também afetaram o espaço doméstico. Além de local de trabalho e espaço de moradia, a casa também tornou-se sala de aula, dispositivo de telepresença para reuniões e cultos religiosos. Os encontros pessoais também foram acondicionados às telas do celular e do computador.   

Abraços partidos, saudade manifesta, incertezas. Pelo que se observa na parte do mundo onde o fechamento e a reabertura começaram, a vida normal não voltará a ser sem novas regras e protocolos de contenção e controle.

No novo mundo que agora se descortina, a proteção envolve distância, máscaras e rigorosos protocolos de higiene pessoal e convívio social. Os encontros se darão sem apertos de mão, sem abraços, sem beijinhos. 

Durante a pandemia, vi um ex-governador partir sem solenidade. Guilherme Palmeira, em cuja biografia cabiam o deputado, o governador, o senador, o prefeito e o ministro de Tribunal Superior, partiu sob silenciosos aplausos e moções manifestos pelas redes sociais. Vivêssemos tempos normais, muitos seriam os que cancelariam agendas para lhe prestar homenagens e presenciais condolências aos familiares enlutados, especialmente ao prefeito Rui Palmeira, seu filho e gestor nesse momento distópico que se abateu sobre o mundo e o Brasil em pleno ao eleitoral.

É de incertezas que vivemos. Até aqui, todos perdemos alguém para o novo coronavírus. Seja amigo, parente conhecido ou desconhecido, há muitos milhares de pessoas a prantear. Contam-se mortos, enquanto planejamos a vida e o futuro sem nem sequer intuirmos o que será.     

Do ponto de vista do meu trabalho, a vida em tela tem similaridades com o mundo real, do trabalho presencial . No entanto, os artifícios da procrastinação são muito mais intensos, assim como as atividades paralelas. Ao mesmo tempo em que participo de uma reunião por vídeo ou audioconferência, interajo com outros grupos de trabalho e a atenção pode ser desviada a um clic para uma das infinitas janelas dos hyperlinks que tanto informam quanto desinformam e nos instigam. Nesse aspecto, os limites temporais se diluem em jornadas inacabáveis. 

No hiperconectado universo da teleinformação, estruturas como horários de trabalho são fluidas e variáveis, assim como as pontas dos dedos, que chegam a arder nos dias mais dinâmicos em atividades profissionais, vida pessoal e hiperinformação. É cansativo o mundo em tela. Há dias que ele suplanta o espaço físico, por exíguo que ele nos pareça. Tenho esperança na resposta da ciência e rezo para que se abrandem os corações endurecidos. É entre incertezas e esperança que vivemos. Um dia por vez.