segunda-feira, 1 de junho de 2020

João Neto Felix Mendes. Pandemia de Absurdos. Memória da pandemia nas Alagoas



Pandemia de Absurdos


João Neto Felix Mendes



Bancário aposentado, autor de contos e crônicas, publicados coletivamente nos livros “À Sombra do Umbuzeiro”, “À Sombra do Juazeiro” e a “À Sombra da Quixabeira” cujo cenário principal é Santana do Ipanema e sua gente. Membro da Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes. Editor do blog apensocomgrifo.com

            Vivemos tempos estranhos. Surrealismo que surpreende até o mais cético dos homens. Coisas inimagináveis. Até as cartomantes, visionários e videntes foram pegos desprevenidos.  Nem Nostradamus (1503-1566) buscou em suas visões tamanha tragédia no porvir.
Quem predisse palpite da atual realidade foi o cantor baiano Raul Seixas (1945-1989), o maluco beleza como se autodenominou. Sua canção “O dia em que a terra parou” (1977) faz um relato de um sonho, profetizando o mundo em caos parecido com esse que estamos vivendo.
            O certo mesmo é que o perigo está à espreita.             Paira sobre nós o manto invisível de medo. Vivemos em permanente desconfiança. O cenário provocado pelo novo coronavírus (covid-19) é nocaute às regras e convenções. Impiedoso, o mal avança e se alastra rapidamente em todas as regiões do país; grandes e pequenas cidades. A ciência ainda estuda sua origem e tratamento. Países envidam esforços para a descoberta de uma vacina. Milhares de pessoas já morreram no País.
 Reconhecemos que é um teste brutal aos governos e sistemas econômicos, visto que não há um protocolo único a ser seguido. E é exatamente por isso que o inimigo invisível se sobressai. Para vencer o desafio hercúleo é preciso concertar, pensar, articular, mediar, ouvir e implementar. Atitudes de líderes eficazes. Infelizmente, em falta atualmente!
Os governos expuseram em abundância foi sarrabulhada, desunião e falta de planejamento para gerenciar as crises de saúde pública, econômica, política e social. Estamos sozinhos a esmo. Cada um por si e salve-se quem puder.
E tudo foi parando.  Gestores, na ausência de plano federativo de gestão da crise, cada um foi tomando medidas que no seu entendimento mais serviam. Enquanto isso, superlotação e falta de estrutura nos hospitais e aumento de mortes em todas as regiões.
Nunca a ciência foi tão desprezada e subjugada. Governos acham-se no direito de questionar e ignorar pesquisas científicas e impor seus achismos à população e isso tem efeitos desastrosos. O isolamento social se apresentou como única forma eficiente para redução do contágio. Em consequência, economias estão sendo destroçadas. O desemprego e a fome avançam tal qual a força de tsunami social e de saúde pública exigindo dos governos ações que amenizem tanto sofrimento e agonia.
  Já estamos há mais 60 dias em quarentena e não vislumbramos amenidades. Indústrias fechadas, comércios, escolas e muitas pessoas nas ruas, indiferentes aos alertas das autoridades. Muitos esnobam. Pessoas reclusas foram obrigadas a intensificar convívio familiar e se espantam com a realidade do encontro consigo mesmo. Em risco, a sanidade mental anda capenga no limiar da loucura. Muitos seguem indiferentes como se nada estivesse acontecendo. Outros, simplesmente fingem desprezar tudo o que estamos vivenciando como se fosse um filme de ficção científica.  
As redes sociais se transformaram no palco geral de asneiras proclamadas aos quatro ventos. Muitos brasileiros agora são autoridades virtuais a serviço de coisa nenhuma, aliás, da balbúrdia. A falta de consciência ou boa vontade para analisar a veracidade das informações vem produzindo milhares de agentes disseminadores de notícias falsas em volumes desmedidos, embaralhando ainda mais o pandemônio.
Diariamente testemunhamos estímulo ao ódio e a polarização política, enquanto milhares de pessoas morrem sem direito sequer a velório e sepultamento digno. Vergonha nacional. Como será daqui para frente não sabemos. Somos um barco à deriva. Contudo, a pandemia e o isolamento social estão produzindo inúmeras mudanças no comportamento humano que não vê alternativa, senão ressignificar valores. A resiliência tomou a dianteira de palavra de ordem. Novos paradigmas despontam. E, como diz um velho amigo, assim caminha a humanidade.