quinta-feira, 21 de maio de 2020

Goretti Brandão. Tão logo chegaram as primeiras notícias,. Memória da pandemia nas Alagoas



Tão logo chegaram as primeiras notícias

Goretti Brandão
Jornalista

Tão logo chegaram as primeiras notícias sobre um novo vírus vindo da China, chegaram também chuvas torrenciais que causaram inundações e destroços em Santana do Ipanema, no sertão de Alagoas. Houve aglomerações e tristezas, casas destruídas, muitas lágrimas e desgraça coletiva. Primeiro, as águas do riacho Camoxinga vieram quase de surpresa e inundaram as áreas mais baixas da cidade. Depois, o rio Ipanema transbordou, belo e perigoso. Após dias de intensas chuvas, as águas que desfilavam impetuosas, destruindo tudo por onde passavam cresceram muito, e sua voz, que pode ser ouvida nos arredores, chegou a mim numa manhã cedinho. Parecia-me escutar um turbilhão de admoestações e lamentos do rio, que se misturaram com a dor e os lamentos do coração da gente destroçada por ele.


Nesses dias de fevereiro do ano de 2020, quase ninguém em Santana, atinou à importância do perigo do coronavírus, com iminente e já anunciada vinda em nossa direção. As pessoas se amontoavam curiosas, para verem os estragos causados pela fúria das águas do Ipanema, envolvidas no imediatismo da tragédia, que se abateu sobre os moradores já menos favorecidos da cidade. Ainda tão recente, mas já com gosto de página virada, esses acontecimentos deram lugar, às notícias diárias. Estaríamos sobre a égide de outros medos sem prazo para irem embora. O que escrevo e registro são impressões à luz de sentimentos pessoais, acerca de informações que chegam, através das redes sociais, dos grupos de amigos e das mídias oficiais.

O covid-19 confirma o que sempre pensei, a minha pequenez diante do que acontece e que assola a minha realidade, e de como algo invisível, coloca a todos e a todas as instâncias da vida humana expostas e de cabeça para baixo. De uma hora para outra, o olhar para fora de casa pelas janelas, devolve-me um olhar interno e assustador, obrigando-me à revelação para o que me cerca, e cada coisa, cada espaço, cada parede, privilegia uma visão que atravessa o objeto e busca o seu sentido. Neste contexto tudo fala, e estas falas em sua maioria são interrogações. São como que espelhos que refletem não apenas gostos estéticos, mas, sinalizam para que são, também, extensões de minha própria existência.

A realidade atual é desconcertante, sim. Porque é difícil entender que tantos estejam, ainda, andando nas ruas, que continuem vivendo como se o covid-19 não estivesse circulando entre nós, e como se não vivêssemos uma pandemia. Difícil demais, se assistimos horrorizados à politização da doença e ouvimos, diariamente, a autoridade máxima do país, em campanha para o fim da quarentena coletiva, minimizando a morte e ridicularizando ações que têm como objetivo salvar vidas, enquanto milhares tombam, vítimas fatais do vírus. O coronavírus é o mito do nosso tempo. Como mito, ele tem sua função coletiva no processo evolutivo da consciência humana. Revestido com o caráter destrutivo, há sim, a meu ver, o propósito de nos mexer profundamente, por fora e por dentro.  Infelizmente, a mensagem é diluída na falta de autoconsciência de muitos.


Refiro-me às grandes questões morais e éticas que ressaltam e se impõem neste momento como uma exigência no despertar para a verdade de que somos um só, conectados, dependendo uns dos outros na salvaguarda da vida. E para tal questão, entra impreterível, a atuação desta consciência vigilante, que se manifesta como empatia, generosidade, compromisso e responsabilidade de cada um. Estamos todos no mesmo barco.

Se me perguntam, escolho sempre contemplar a importância, a preservação e a dignidade da vida, em primeiro lugar. De todos e sem exceção. Estamos sendo convocados para reaprendermos a enxergarmos a nós mesmos, nossas relações, os outros, nossas fragilidades, de uma maneira mais humana e a partir de outros paradigmas. É nossa chance apresentada no silêncio de nossos quartos, na solidão de nossa casa, no afastamento de quem amamos, pedindo insistentemente que digamos, enfim, quem somos. É nossa alma querendo ajustes, para resignificarmos o mundo e darmos sentido à nossa existência.