domingo, 17 de maio de 2020

Gessyca Geyza. Uma faca de dois gumes. Memória da Pandemia nas Alagoas



Uma faca de dois gumes

Gessyca Geyza

 Atriz e diretora do Coletivo de Teatro Heteaçã. Maceió-AL.

De braços dados com um só tempo. Agora, agora, agora. Me pergunto como seria viver tão perto do agora,  caso de mim não tivesse sido arrancada a capacidade de viver plenamente o presente?  Passeio diariamente pelas inúmeras possibilidades do que ainda não vivi. Revisito imagens velhas como se fosse possível reverter algo e assisto ao jornal que por mais que pareça sempre um replay, não é. Há sempre um terrível detalhe que o distingue de um dia para o outro, um detalhe numérico e assustadoramente crescente que contabiliza as vítimas do Covid-19. Uma montanha russa de sensações é a aventura do momento. Os números são companheiros diários e eu que aprendi com o teatro,  o valor que as histórias possuem, não tenho habilidade alguma para esvaziar as existências que estão por traz desses números. Definitivamente, isso não é fácil. Que momento é esse? Não apenas para nós artistas que, como diz o poeta Eduardo Galeano, temos a glândula da consciência e sentimos tão profundamente as dores do mundo. Mas, para toda a humanidade. Que momento é esse?
Faca de dois gumes. De um lado corta fora o abraço, deixa a saudade afiada e mata por falta de ar ou de afeto. Do outro lado, causa fissura nas distrações fúteis, no consumo desenfreado, nos ruídos estridentes e constantes que diminuem a nossa capacidade de escuta, nos quilos de compromissos que metemos goela abaixo abastecendo as nossas dispensas de ansiedade, medo e disputa. Que freio! As certezas escorreram entre os dedos. Convocada a parar, vou adubando a esperança de que possamos despertar e que boas transformações possam vir. Mesmo sendo a fé uma criança ferida diante de tantos golpes contra liberdade, a arte e a vida. Sempre, sempre, sempre!
Penso tanto no lado da faca que anda causando fissuras em coisas que já não nos servem mais. Quem dera fossem amputadas de vez para que algo novo, verdadeiramente novo, tivesse a chance de brotar. Enquanto isso, observo a destreza que esse lado da faca tem em fatiar tudo. Picotar, partir, rasgar. Cada fatia revela o quanto o sistema em que vivemos está podre por dentro e muitos de nós humanos também.
Desaceleramos. Me sinto um relógio desgovernado que amanhece com a lua e adormece com o sol. Um relógio que faz as horas, dias, semanas e meses perderem o sentido. Convocada a conviver mais comigo, a me ver por dentro, espelhos já não surtem mais tanto efeito. As percepções se ampliam a cada dia, o corpo-rei e a mente rainha, enfim, se sentam em seus devidos tronos e isso pode ser tão leve quanto pesado. Não ter como fugir de si mesma, é o que está dado. Enquanto eu olho a rua pelas grades das janelas, plantas crescem, em vários lugares do mundo as águas ficam mais límpidas, a poluição diminui e os animais fazem as suas revoluções pelas cidades.
É agridoce! Saboreio o ácido e o mel desse tempo e, confesso, ando com grandes confusões no paladar! Por isso, as vezes choro e rio ao mesmo tempo. Que a arte, com toda a sua simplicidade, continue sendo o nosso acalanto, o nosso respiro.

“Deixem o ator em paz. O ator não oferece perigo, o ator é um sonhador.”

Projeto Memória da Pandemia nas Alagoas
Coordenação
Luiz Sávio de Almeida e José Carlos Silva de Lima
O blog pode concordar ou não, em parte e no todo, com a matéria publicada
Nosso objetivo é deixar um painel diversificado sobre a pandemia nas Alagoas
Esta série é coordenada por Joelle Malta