segunda-feira, 11 de maio de 2020

Lucas Menezes. Alagoas nos tempos do cólera. Memoria da pandemia nas Alagoas

Alagoas nos tempos do cólera

Lucas Menezes

Professor do IFAL/Arapiraca

Prezado Lucas
Sinceramente, agradeço sensibilizado o seu comentário pelo fato de você ter acertado em cheio tudo aquilo que penso e, especialmente, ter sentido o peso da tese da cidadania agônica. Estou escrevendo agora Alagoas nos tempos do Coronavirus: notas para uma sociologia histórica e, nisto retomo os argumentos centrais que você identificou certeiramente. Nele, sem dúvida, terei a honra de lhe mencionar pelo incentivo que recebi de sua parte, com este brilhante comentário.
Um abraço
Savio

Joaquim de Almeida mariano. Meu diário de meu avô. Memória da pandemia nas Alagoas.


                Meu diário de meu avô

                Joaquim de Almeida Mariano

                Ontem foi o Dia das Mães. Não fui ver a Rorró:  mandei um almoço de presente para ela. Tenho falado com o pessoal pelo telefone, mas não me solto muito. Sempre fui assim, quando meu pai e minha mãe viajam,  eu também fico na minha.  Sinto falta, pois sempre falo nos dois. Não moramos tão longe: dois ou três quarteirões, mas toda distância hoje é muito grande. Meu avô já está velhinho, com os seus 78 anos de idade e sabe que não ficará para semente. Ele sente muito esta distância. Para ele, dois meses são uns dois anos ou até mais do que isto. Vovô diz que a velhice acelera o tempo: um segundo virá uma hora.
                Ele não tem medo do Corona. Vovô chama de virus de merda. Também não tem medo de morrer, pois sabe que terá de acontecer.  Não gostaria de morrer sofrendo e adoraria  esticar as canelas comendo sapoti. Um dia ele teve um piripaque pelos lados do coração  e  a gente foi levar para o Pronto Socorro; vovô pegou laranja cravo e saiu chupando. Ele disse: pelo menos morro sentindo o cheiro da laranja cravo.  Ele acha que eu vou esquecer, que ficará apenas  uma vaga lembrança para mim. Então, ele tem a mania de deixar coisa com instrução da data para me dar. Ele tinha um relógio lindo que  adorava, botou numa caixa, lacrou e escreveu que era para me dar no meu aniversário de 15 anos.
                Desde que nasci, ele tem um diário para que eu saiba o que andou acontecendo. É uma letra horrosa; tem vez que nem mesmo ele entende. O diário chama-se O Livro do Joca. Abri, por acaso, no dia 12 de agosto de 2.019.  Está escrito:

Não dormi bem. Senti dor e amanheci com ela hoje: tá doendo muito; tomei um remédio. O que eu tenho? Não sei, mas procurarei um médico. Farei logo. Dói.

Nem brinquei com você hoje. Você chegou nos braços do Savinho .e com sua avó. Nem lhe dei a atenção que lhe dou todos os dias. Você puxou conversa, mas eu não consegui brincar. Apenas eu disse que vocês estava empacotado em um pijama branco. Você já fez cocô, mas já lhe limparam: é um escândalo.

Desde muito pequeno, que você tem muito carinho por mim. Eu sou maluco por você. Estou ouvindo os seus gritos.

Vou comer, tomar café.

Pena que você nem se lembra como sou. Somos ligados sim.

A dor passou um pouco. Vou urinar.

Agora você está chorando. Perguntei o que era. Devem estar mudando a sua roupa.

Você desceu do carrinho que é uma motoca.

A dor não passa. Merda!

Você não quer mais andar de carrinho lá embaixo. Quer ficar andando.

Você me acordou para sentar na cadeira com você.

Veio com seu pai para meu quarto e me pediu para ficar comigo na cadeira. De noite, veio se despedir.



                Pois tem mais coisa. A letra ninguém entende: é um Deus nos acuda. O que eu quero dizer é simples: como é difícil ficar longe.  Não há o que compense dois longos meses de distância ou dois anos, como diria o vovô Sávio, a quem chamo de Rorrô. Ele me ensina as músicas que aprendeu como o meu bisavo Vovô Manoel, filho do meu trisavo Manezinho, filho do meu tataravô que era o velho José Francisco de Almeida. Sabe-se lá com quem o Vovô Manoel aprendeu esta música que o Rorrô me ensina, canta e eu danço de me acabar:

Ei vi a cobra
Que mordeu minha novilha
 Eu via rodilha dela
Lá no pé de araçá!
Espingarda, ta tá tá!
Faca de ponta, tá tá tá!

Rorrô diz que é uma embolada mais velha do que uma bengala que ele tem.
Dois anos, dois anos...
O Corona come tempo!


Golbery Lessa. O isolamento social é uma reivindicação dos trabalhadores



O isolamento social é uma reivindicação dos trabalhadores

Golbery Lessa

Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, no Ministério da Economia

A estrutura social e a natureza humana não são suspensas no tempo trágico. As tragédias coletivas duradouras iniciam com comoção e descontinuidade. Mas, em algumas semanas, um novo cotidiano se impõe porque a sociedade precisa se reproduzir, algo impossível sem automatismos. O primeiro morto vai às manchetes, o milésimo se transforma em número, surge uma frieza em massa ao lado de ondas de solidariedade. Os dilemas da vida e do conhecimento não mudam e a aparência do dia a dia mantém, em essência, as mesmas possibilidades de alienação e libertação dos períodos normais. Mas a tragédia cria brechas, modifica algumas condições de entendimento do mundo.

Cada tragédia particular facilita a compreensão de aspectos distintos da vida. Não modifica totalmente os indivíduos e as instituições, mas sempre marca o imaginário de modo indelével, pois muda a maneira dos fatos aparecerem às pessoas. A pandemia da covid-19 destruiu a sensação de segurança sanitária existente no mundo contemporâneo em amplos segmentos populacionais. Essa sensação só não existia em grande parte da África, regiões da Ásia e nos segmentos mais pauperizados da classe trabalhadora de todos os continentes. A mudança abrupta na mentalidade, determinada pelo súbito entendimento da degradação das condições sanitárias, mais do que os decretos governamentais, é o que tem levado as multidões que não trabalham nos setores essenciais ao isolamento social.

No que se refere à aparência enganadora das relações sociais capitalistas, que corrobora o liberalismo em conjunturas ditas normais, pois passa a falsa ideia de que vivemos em um mundo justo de troca de mercadorias entre iguais, no qual a criação da riqueza é característica do capital e não dos assalariados, o isolamento em massa e a paralisia do setor de serviços causaram um rebaixamento momentâneo relevante da alienação da consciência dos trabalhadores, já que evidenciaram, até certo ponto, o fato de que não há produção de valor econômico ou consumo final, duas variáveis estruturantes, sem a atividade e a fruição dos indivíduos que laboram. A ideologia dominante ficou nua em público em poucas semanas.


Assim como ocorre durante uma hiperinflação, que quebra conjunturalmente a falsa ideia de que o trabalhador oferece oito horas de trabalho e recebe o equivalente em salário, a paralisia parcial da produção durante a pandemia também revela em alguma medida o fenômeno da mais-valia e evidencia que o sistema não se fundamenta na troca de mercadorias entre iguais, mas na apropriação de um valor excedente por um dos lados da equação econômica, e que a atuação empresarial é dispensável diante de uma possível auto-organização dos assalariados e autônomos. Um efeito análogo ao de uma greve geral planetária. E, como se sabe, as greves gerais prefiguram revoluções, mesmo que não sejam suficientes para um desenlace revolucionário, pois este pressupõe também decisões das vanguardas políticas.

Essa realidade está, de um lado, inquietando as corporações capitalistas e, de outro, as obrigando a aceitar a quarentena massiva como uma concessão aos trabalhadores, diante da alternativa potencial de desobediência civil ou rebelião aberta. O grande capital tem sido obrigado a aceitar perdas nos setores de serviços e comércio presencial, mas, na medida em que a maior parte da população legitima por razões de sobrevivência a atividade nos setores essenciais, tem conseguido garantir a continuidade do trabalho na indústria, na agropecuária, no comércio digital e nos meios de comunicação, ramo este no qual se encontram as poderosas empresas tecnológicas, inseridas na ponta da economia. A situação radicaliza a tendência de aumento do trabalho à distância presente anteriormente, o que tem facilitado a convivência do sistema econômico com o isolamento social.

Estabeleceu-se uma espécie de empate entre capital e trabalho, alienação e esclarecimento, mercado e Estado. Situação diferente da conjuntura anterior, na qual os trabalhadores estavam perdendo de goleada e o neoliberalismo triunfava impávido. A maioria dos governantes que tomaram as medidas adequadas de combate à covid – 19 viram sua popularidade aumentar, uma repetição de fenômeno frequente durante guerras e pandemias, pois são situações nas quais a sociedade fica mais dependente da coordenação estatal para se reproduzir. O caso brasileiro é prova adicional, pois a popularidade de Bolsonaro, o genocida, caiu significativamente.

A atitude resoluta de autopreservação da maioria dos trabalhadores, isto é, a verdadeira greve geral planetária que fazem se recusando a laborar sem as condições mínimas de segurança sanitária, e o fato de vários setores econômicos continuarem funcionando, dando sobrevida ao capital, sinalizam que a superação da pandemia coordenada por instâncias estatais fortalecidas será lenta e se desenrolará na maior parte dos países durante todo o ano de 2020, além de impactar nos próximos anos. As corporações capitalistas já conseguiram enormes benefícios dos governos e traçam planos para reafirmar o neoliberalismo na fase de transição e no pós-pandemia. Os sindicatos e movimento sociais de esquerda, por seu lado, têm procurado defender o direito à quarentena, apoiar os profissionais de saúde e a população mais empobrecida e transformar a momentânea conscientização anticapitalista espontânea em um momento mais avançado da consciência de classe.

Projeto Memória da Pandemia nas Alagoas

Coordenação
Luiz Sávio de Almeida e José Carlos Silva de Lima
O blog pode concordar ou não, em parte e no todo, com a matéria publicada
Nosso objetivo é deixar um painel diversificado sobre a pandemia nas Alagoas